A falsa Geração Z e o fascismo mexicano
No mês passado de novembro, o México passou por protestos por parte da oposição de direita, sob o disfarce de ‘Geração Z’, mas que promove táticas violentas e uma agenda de extrema direita contra o atual governo mexicano. Para compreender o contexto desses acontecimentos, convidamos ao bacharel em Relações Internacionais Rodrigo Guillot, militante do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) do México, esta contribuição ao debate.
David Alfaro Siqueiros (México), El nacimiento del fascismo [O nascimento do fascismo], 1936.
Saudações do escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
No mês passado, em novembro, o México passou por protestos organizados pela direita sob o disfarce de ‘Geração Z’, promovendo táticas violentas e uma agenda de extrema direita contra o atual governo mexicano. Para compreender o contexto desses acontecimentos, convidamos o bacharel em Relações Internacionais Rodrigo Guillot, militante do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) do México.
Em novembro de 2025, a direita mexicana convocou uma marcha em todas as capitais do México sob a bandeira do anime One Piece, que havia sido usada recentemente por manifestantes nepaleses – majoritariamente jovens – para protestar contra medidas restritivas daquele governo. A aposta em uma imagem estrangeira e descontextualizada da realidade mexicana parece bizarra, porque de fato o é. Trata-se de um sintoma da falta de causas concretas e de identidades próprias que os setores reacionários no México vêm experimentando desde a chegada da Quarta Transformação em 2018.
Durante o período de López Obrador (2018–2024), os mesmos atores políticos que saíram às ruas no último mês de novembro realizaram manifestações semelhantes, sobretudo contra o que eles entendiam enquanto a destruição das instituições liberais: um processo de devolução de capacidades estatais iniciado por Obrador, em oposição aos preceitos neoliberais que governaram o país durante os 30 anos que precederam o início de seu governo.
O caráter dos protestos contra o governo progressista de Cláudia Sheinbaum mudou da mesma forma que o cenário geopolítico. Em um mundo no qual as direitas têm apostado com êxito na via do fascismo, na política de identidades xenófobas e no apelo à sociedade de livre mercado levada ao extremo, a direita mexicana abandonou o discurso de defesa institucional e optou pelo da liberdade. O grande articulador dessa guinada é Ricardo Salinas Pliego, proprietário do Banco Azteca, da rede de Lojas Elektra (conhecida por oferecer créditos impagáveis aos setores de menor poder aquisitivo) e concessionário da TV Azteca, uma das duas redes de televisão mais poderosas do México.
Durante a reta final do mandato de Andrés Manuel e nos primeiros meses do governo de Claudia, o empresário endureceu sua postura de oposição ao governo mexicano devido a um litígio contra ele, que poderia obrigá-lo a pagar 3,5 bilhões de pesos mexicanos — pouco mais de 192 milhões de dólares — em impostos atrasados. Para se contrapor a esta ofensiva, Salinas ameaçou a se tornar candidato à presidente, ideia que agrada alguns setores dos partidos políticos da direita mexicana.
Durante o processo de convocação da marcha de novembro, porém, o México foi abalado pelo assassinato do prefeito de Uruapan, Michoacán, Carlos Manzo, conhecido por enfrentar o crime organizado em seu estado. Os organizadores da marcha de oposição se aproveitaram do episódio para colocar no centro da pauta a demanda por segurança dirigida ao governo mexicano, e incluíram em seus protestos a imagem do prefeito assassinado. A esposa de Carlos Manzo, Grecia Quiroz, que assumiu a prefeitura interina de Uruapan, viu-se obrigada a se desvincular publicamente da marcha.
Coletivo Subterráneos (México), Cucarachas fascistas [Baratas fascistas], 2025.
Como resultado, no dia 15 de novembro, em diferentes cidades do país, diversos agrupamentos e setores de oposição ao governo mexicano se reuniram para marchar e se concentrar nas praças públicas, sem que houvesse uma causa comum ou um discurso unificado, exceto o chamado à derrubada da presidenta Claudia Sheinbaum. No Zócalo da Cidade do México, a principal praça pública do país, pessoas encapuzadas e armadas com ferramentas metálicas e correntes agrediram fisicamente integrantes da polícia.
Em geral, a oposição tem se caracterizado pelo uso violento da linguagem, mas ao longo dos seis anos do governo de López Obrador, não havia ocorrido nenhum episódio de violência física durante as manifestações opositoras. Esse fato coincide com a guinada estratégica da direita mexicana e está sendo investigado pelo Congresso da Cidade do México, uma vez que há indícios de que dois prefeitos do Partido da Ação Nacional teriam financiado os agressores.
Sem dúvida, a oposição mexicana considerou as manifestações um sucesso. No dia seguinte já se convocava uma segunda marcha para 20 de novembro, na Cidade do México, cujo percurso coincidia com o caminho percorrido pelo desfile militar que ocorre justamente nessa data para celebrar o aniversário da Revolução Mexicana. A presidenta anunciou uma mudança na rota do desfile, a fim de evitar qualquer ato violento, mas o episódio evidencia a determinação da direita em provocar a violência.
Frida Khalo (México), El marxismo dará salud a los enfermos [O marxismo dará saúde aos doentes], ca. 1954.
A segunda convocação foi um fracasso. Além de não ter conseguido provocar um confronto entre civis e integrantes do Exército, reuniu apenas cerca de uma centena de pessoas. Porém, deixou claro as intenções dos grupos oposicionistas: forçar ao máximo as condições para provocar um enfrentamento violento com o Estado.
Em um contexto nacional em que os partidos Ação Nacional e Revolucionário Institucional apelam abertamente à intervenção dos Estados Unidos sob o pretexto do narcotráfico, e acusam o governo mexicano de ser autoritário e comunista, o recrudescimento da direita e sua guinada para posições fascistas e abertamente violentas só podem ser compreendidos como uma tática funcional à estratégia intervencionista dos Estados Unidos.
Saudações a todos e todas,
Rodrigo Guillot
Rodrigo Guillot é licenciado em Relações Internacionais, militante de Morena e assessor em comunicação política. |