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Boletim Nuestra América

Intelectuais, artistas e movimentos em defesa da humanidade: uma trincheira necessária para o século XXI

A rede nasceu do abraço fundacional entre dois gigantes, Hugo Chávez e Fidel Castro, no calor da luta contra a agressão imperial. Desde então, constitui-se como um movimento de pensamento e ação, uma trincheira coletiva diante da pretensão hegemônica do imperialismo global.

Taller 4 Rojo (Colômbia), A luta é longa — vamos começar agora, 1973.

Saudações desde o Escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

O teórico marxista libanês Mahdi Amel assinalou que o intelectual “que não luta pela revolução em todo momento é um falso intelectual, e seu intelecto é enganoso e superficial”. Em tempos de ofensiva hiperimperialista e de avanço da direita neofascista, torna-se ainda mais urgente que a intelectualidade em Nuestra América mantenha viva sua convicção revolucionária. Há 22 anos, um grupo de intelectuais, artistas e militantes de movimentos sociais vem acompanhando os processos revolucionários e populares, defendendo a aspiração a uma sociedade de dignidade para todos e todas. Para conhecer sua história e compreender melhor esse espaço, pedimos a Ximena González Broquen, coordenadora internacional da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade (REDH), uma contribuição para este debate. Segue abaixo.

No tecido de poder que atravessa o Sul Global, a guerra cognitiva tornou-se uma trincheira decisiva. Diante dela, existem ferramentas de resistência que transcendem o conjuntural e se erguem como faróis de esperança e ação organizada. A Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade (REDH) é uma delas. Nasceu do abraço fundacional entre dois gigantes, Hugo Chávez e Fidel Castro, no calor da luta contra a agressão imperial e, desde então, constitui-se como um movimento de pensamento e ação, uma trincheira coletiva diante da pretensão hegemônica do imperialismo global.

Origem: um grito do Sul diante da barbárie

A origem da REDH é fruto de uma urgência histórica. No final de 2003, a comoção mundial provocada pelas guerras do Afeganistão e do Iraque atravessou como uma lâmina a consciência da América Latina. O grande pensador mexicano Pablo González Casanova, preocupado com a ofensiva imperial, convocou um encontro no México, reunindo figuras como Rigoberta Menchú, Evo Morales e Eduardo Galeano. A ideia germinou: era necessário articular uma frente global de intelectuais e artistas que colocasse sua capacidade de criar e pensar a serviço da defesa da humanidade.

Esse chamado culminou em dezembro de 2004, em Caracas, com o Primeiro Encontro Mundial de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade. A conferência inaugural foi realizada pelo prêmio Nobel José Saramago, e a convocatória foi um ato de afirmação anti-imperialista. Ali, mais de 300 pensadores e pensadoras de mais de 40 países se reuniram para construir, a partir da palavra e da ação, um cerco coletivo contra a dominação. Era a materialização de um sonho compartilhado, a certeza de que a inteligência crítica deveria abandonar as torres de marfim para se misturar ao sopro dos povos.

Sob o sol do Caribe, a voz de Chávez se fez verbo encarnado, traçando o rumo para sempre: “Esta é a ofensiva pela humanidade. Só nos enchendo de humanidade, fazendo carne e alma os valores verdadeiramente humanos, poderemos defender a humanidade e tecer futuros de libertação a partir da memória viva de nossos povos. Outro mundo é possível se nós o tornarmos possível, com o amor como valor supremo e com a convicção de que estamos no ataque pela humanidade, na ofensiva para defender esta bela humanidade.”

“A humanidade se trata de viver no dia a dia fazendo alma e carne com o humano, o verdadeiramente humano. Viver no humano, preencher o vazio com sentimentos e ações profundamente humanas. Os valores do ser humano e o valor sublime, o amor (…) caso contrário, não poderemos defender nenhuma humanidade. E menos ainda partir para a ofensiva por ela. Creio que este é um dos maiores desafios do mundo hoje: começando por nós mesmos, nos encher de humanidade, fazer carne, nervo, músculo, alma e corpo, a humanidade.” Essas palavras foram a certidão de nascimento de uma trincheira que ainda hoje segue de pé, sustentada pelo amor revolucionário como prática cotidiana.

Comemorando o 20º aniversário da teleSUR com o Grande Concerto de Gala “O Nascimento de um Novo Mundo”, uma noite dedicada à cultura, à unidade e à resistência latino-americanas. Venezuela, 2025. Foto: La Radio del Sur.

Importância histórica: para além das palavras

O legado da REDH é concreto. Uma de suas propostas mais ousadas, surgida naquele primeiro encontro, foi a do brasileiro Beto Almeida: criar uma emissora de televisão para o Sul. Essa ideia se materializou na TeleSur, que durante duas décadas tem sido uma trincheira informativa da nossa região, rompendo o cerco midiático imperial.

A REDH também criou o Prêmio Libertador ao Pensamento Crítico, um reconhecimento sem precedentes, único prêmio global que celebra a palavra que incomoda, que desafia as elites, que coloca o pensamento a serviço das lutas populares e contribui para o socialismo e a emancipação latino-americana. Em suas treze edições, homenageou Franz Hinkelammert, Enrique Dussel, István Mészáros, Marta Harnecker, Juan José Bautista e Atilio Borón, entre muitos outros, construindo um arquivo vivo da rebeldia intelectual do Sul.

A REDH teceu sua própria geografia: onze encontros mundiais em Caracas (Venezuela), reuniões na Itália, Bolívia e Bélgica, demonstrando que sua articulação não conhece fronteiras. Paralelamente, desenvolveu sete Fóruns Internacionais de Filosofia, onde a reflexão coletiva sobre capitalismo, socialismo, humanismo revolucionário, alienação, Estado e hegemonia tornou-se prática militante.

Violeta Parra (Chile). Sem título (inconcluso), 1966. Bordado / arpillera natural. 136 x 200 cm.

O REDH hoje: Na encruzilhada global

As múltiplas guerras do presente — expressões do imperialismo — se entrelaçam em um mesmo emaranhado. O genocídio na Palestina, o bloqueio criminoso a Cuba, a agressão contra o Irã, as agressões multifacetadas contra a Venezuela, o saque da África — com o Congo como ferida aberta —, a exploração incessante do Haiti e o avanço de expressões neofascistas na Argentina, Chile, El Salvador e outras nações que desmontam direitos e criminalizam protestos: tudo isso compõe a hidra imperial mostrando suas cabeças. Tudo brota de uma mesma matriz imperialista, colonial e patriarcal.

A guerra cognitiva não busca convencer com argumentos, mas perfurar a percepção da realidade por meio de narrativas, emoções e algoritmos. Fragmenta o tecido social para impor uma premissa brutal: há vidas que importam e vidas que não. Atua no cotidiano das redes e dos meios de comunicação, desenhada para capturar atenção e reforçar identidades isoladas.

Diante dessa ofensiva, a REDH assume a soberania epistêmica libertadora como bússola: a capacidade dos povos de se narrar, governar e se proteger coletivamente. A partir daí, trava diversas batalhas que são um mesmo pulsar. Desmontar a fragmentação mostrando a continuidade histórica de cada agressão é lutar por uma consciência libertadora. Disputar o poder de nomear — dizer “sequestro” onde impõem “detenção” — constitui um ato de autodeterminação do pensamento. Desativar as armadilhas da divisão implica que a memória viva, como reparação histórica, fortaleça o tecido comunitário. E cultivar a confiança como ato político, pois em um mundo onde a suspeita é arma de guerra, a confiança baseada na memória compartilhada de lutas e resistências torna-se revolucionária. Assim se constrói a soberania relacional: a unidade Sul-Sul como autodefesa coletiva se estabelece como horizonte de luta da REDH.

A REDH se organiza em uma estrutura horizontal que materializa o princípio do comum, essa trama de autogoverno e solidariedade que atravessa Nuestra América desde tempos ancestrais. Capítulos nacionais em mais de 30 países, da América Latina à África, Oceania e Península Ibérica, e uma base de 9 mil contatos expressam essa comunalização em movimento. Seus núcleos temáticos — o Movimento Poético Mundial, Canto de Todos, o coletivo feminista “Libertadoras”, REDH Comunicação, REDH-Artistas, juventudes em rede — são células vivas de uma mesma rede de resistência, a partir das quais se co-organizam fóruns, debates, seminários, concertos e espaços de formação.

Em sua atuação cotidiana, seu site funciona como uma ágora insurgente digital. Ali são publicadas semanalmente as colunas “Olhares desde a RED”, junto com artigos e ensaios críticos, resenhas, entrevistas, poesia militante, dossiês e comunicados de repúdio, tecendo a sororidade internacionalista como mais uma arma na ofensiva pela humanidade.

Cartaz da exposição “20 anos do Não à ALCA”, organizada pelo Instituto Tricontinental, ALBA Movimientos e UTOPIX, 2025.

Conclusão: A ofensiva pela humanidade

A REDH é uma estrutura viva, um movimento em permanente construção que sabe que a defesa da humanidade não é uma abstração. Ela se joga em cada território devastado, em cada povo sitiado, em cada resistência que se levanta contra o imperialismo. Por isso ergue o grito da ofensiva: não se trata apenas de resistir, mas de criar, pensar e organizar um novo mundo de construção coletiva.

Que a poesia tempere o aço da aurora. Que a memória viva teça futuros de libertação. Que a rede seja cada dia mais trama, mais abraço, mais certeza de que, desde o Sul, está sendo construída uma vitória compartilhada.

Saudações a todas e todos,

Ximena González Broquen