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Boletim Nuestra América

Os feminismos populares contra a guerra neocolonial na América Latina

Para quebrar uma nação, o imperialismo entende que é preciso quebrar a vontade de quem sustenta o tecido social. Na guerra híbrida, a mulher não é uma vítima passiva, mas um sujeito combatente que reorganiza a vontade em cada comuna e em cada território.

Paulina Veloso (Chile), Sin título, 2021. Disponível em capiremov.org.

Saudações do Escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Neste 8 de março, dia em que o mundo honra a mulher trabalhadora, rendemos homenagem às mulheres anti-imperialistas do nosso continente. Elas, com seus corpos-territórios, seu intelecto e seus exemplos, escrevem hoje as páginas mais dignas da história contemporânea de Nuestra América.

Atravessamos uma etapa marcada pela agressão de Donald Trump — uma intensificação da guerra híbrida — e por uma guerra neocolonial que se desdobra por meio da impunidade financeira e do extrativismo voraz. O avanço da extrema direita na região não é casual; busca impor um modelo de espoliação no qual o peso da dívida asfixie a soberania dos povos. Diante da resistência à invasão direta e da guerra silenciosa das Medidas Coercitivas Unilaterais (MCU) contra Cuba e Venezuela, o feminismo popular emerge não apenas enquanto protesto, mas como a espinha dorsal da sobrevivência e da dignidade.

Mulheres no Monumento às Heroínas da Resistência e da Independência. Caracas, 2025. (Prensa MinMujer).

  1. As 3 lições da agressão Trump e da guerra neocolonial na América Latina

A história recente da Nuestra América, marcada pela sombra da Doutrina Monroe e sua atualização sob o “Corolário Trump” — que persiste como lógica de Estado em Washington —, nos deixa três lições fundamentais sobre a natureza da guerra atual contra a soberania.

  1. O corpo da mulher como primeiro território de defesa

O ataque de 3 de janeiro contra a Venezuela não foi apenas uma incursão militar; foi uma afronta à dignidade de um povo que decidiu ser livre. Naquele dia, 12 mulheres entregaram suas vidas em combate. Nove delas eram soldadas, integrantes da Guarda de Honra Presidencial.

O imperialismo entende que, para quebrar uma nação, deve quebrar a vontade de quem sustenta o tecido social. Na guerra híbrida, a mulher não é uma vítima passiva, mas um sujeito combatente que reorganiza a vontade em cada comuna e em cada território.

Essa lição se firma com a semeadura de Berta Cáceres em Honduras. Há uma década, a elite extrativista acreditou que, ao assassinar Berta, apagaria a voz do povo Lenca. Não compreenderam que seu corpo, assim como o das milicianas (componente da Força Armada Nacional Bolivariana) e comuneras venezuelanas, representa a resistência contra as barragens e o capital transnacional.

A detenção de Cilia Flores é apresentada como mais uma tentativa de sequestrar esse símbolo de dignidade e resistência política. Detida nos Estados Unidos junto a seu companheiro e presidente venezuelano Nicolás Maduro, ela enfrenta acusações relacionadas ao narcotráfico (Contexto Tucumán). Advogada e figura central do chavismo, foi também defensora de militares envolvidos nas insurreições de 1992, incluindo o comandante Hugo Chávez.

Neste dia, as mulheres do mundo pedem sua libertação e retorno à Venezuela.

  1. A economia da resistência é feminina

Em Cuba, a “guerra silenciosa” das MCU assumiu a forma de um cerco energético sem precedentes. Ao impedir a chegada de combustível, Washington busca transformar a vida cotidiana em um inferno de escassez. No entanto, na ilha, a resistência tem rosto de mulher. São elas que, por meio da organização popular e dos vínculos comunitários, inventam soluções diárias para sustentar a vida diante do bloqueio.

Essa economia da resistência não busca o lucro, mas a reprodução da vida. Enquanto o sistema financeiro internacional utiliza a dívida para disciplinar as nações, as mulheres cubanas e venezuelanas contrapõem uma economia de cuidados coletivizados. Na Venezuela, 80% das lideranças das comunas e dos conselhos comunais são mulheres. Elas decidem, planejam e executam os projetos que mantêm de pé a estrutura social sob o bloqueio. A lição é clara: o socialismo em Nuestra América sobrevive porque as mulheres transformaram o âmbito do privado em um espaço de gestão política e de resistência econômica frente à agressão imperialista.

  1. A solidariedade e a paz como diplomacia dos povos

A recente ação do governo de Claudia Sheinbaum no México, ao enviar navios com 1.200 toneladas de ajuda a Cuba, rompe com a lógica da submissão financeira. A “sororidade” não é apenas um conceito interpessoal, mas uma categoria política internacional.

Vemos isso também na mobilização de organizações populares que, desafiando pressões externas, coordenam o envio de ajuda e o apoio mútuo entre nações sitiadas. No dia 21 de março, chegou o Convoy Nuestra América, organizado por diversos movimentos e organizações populares. Essa solidariedade popular é o que permite que Cuba resista e que a Venezuela aprofunde seu modelo comunal.

Quando o México desafia as pressões de Washington para apoiar a ilha e quando as mulheres se autoconvocam em brigadas feministas como a Brigada Internacionalista pela Paz Cilia Flores, pratica-se um feminismo que prioriza a vida das famílias e das comunidades acima dos ditames do capital transnacional. A solidariedade é a ternura — e a estratégia — dos povos.

Gabriela Barraza (Argentina), Viviremos y venceremos, 2021. Disponível em eltricontinenal.org.

  1. As 3 tarefas às quais os feminismos populares nos convocam

O diagnóstico não basta; a conjuntura exige um plano de ação que blinde os processos populares contra a reação patriarcal e extrativista.

  1. Institucionalizar a gestão comunal do poder popular

Na Venezuela, cerca de 80% das lideranças nos conselhos comunais são exercidas por mulheres. Elas são as porta-vozes de base, as que planejam projetos e executam o orçamento soberano. Diante do avanço da ultradireita, a resposta é mais poder popular. A tarefa urgente é fortalecer a Consulta Popular Nacional e o modelo de comunas. É aí que o feminismo popular realiza gestão e responde à ofensiva imperialista.

Devemos garantir que os recursos do território sejam geridos por quem os habita e defende, fechando caminho para a impunidade das milícias (no Brasil, grupos armados parapoliciais e paramilitares) e das estruturas ilegais de poder, como aquelas que tentaram silenciar Marielle Franco, no Brasil.

  1. Desmantelar a impunidade do extrativismo neocolonial

Não podemos avançar para o futuro sem fechar as feridas da impunidade. As histórias de Berta Cáceres em Honduras e de Marielle Franco no Brasil são faróis, mas também lembranças da ferocidade do capital.

Justiça para Berta: dez anos após seu assassinato, a tarefa é desmantelar o modelo extrativista que mata quem defende os bens comuns. A punição dos autores intelectuais do crime segue sendo uma dívida de toda a região frente às transnacionais.

Justiça para Marielle: a recente condenação dos irmãos Brazão no Brasil representa um avanço contra as milícias e o poder paraestatal. Em 2026, o Supremo Tribunal Federal condenou os mandantes do assassinato a mais de 76 anos de prisão, responsabilizando-os por organização criminosa e duplo homicídio (MPF). A tarefa agora é erradicar as estruturas de violência política que atingem os tecidos populares e tentam silenciar mulheres negras, periféricas e dissidentes que ocupam espaços de poder.

Berta e Marielle nos ensinaram que defender o território indígena, camponês e afro, assim como defender a vida nas cidades, é a mesma luta. Seus nomes são bandeiras que alimentam nossa resistência cotidiana contra o patriarcado, o colonialismo, o racismo e o capitalismo.

  1. Impulsionar a reforma agrária popular e a soberania alimentar

Como ensinam as companheiras camponesas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, uma tarefa urgente para o feminismo popular é a defesa da terra. A reforma agrária popular é o direito das mulheres de decidir sobre a produção e as sementes frente ao agronegócio extrativista.

Para as mulheres, a terra é o espaço de reprodução da cultura e da vida. Sem soberania alimentar, a soberania nacional está incompleta. Devemos fortalecer os laços entre as camponesas e as trabalhadoras urbanas para garantir que o alimento seja um direito, e não uma mercadoria subordinada à lógica da dívida.

  1. Mensagem de Berta Cáceres

Para as mulheres em Nuestra América, a luta é pela própria vida. Berta Cáceres, guardiã dos rios e da dignidade dos povos, nos deixou um mandato que sacode a consciência de todo o continente:

Despertemos, humanidade! Já não há tempo. Nossas consciências serão abaladas pelo fato de estarmos contemplando a autodestruição baseada no capitalismo, no racismo e no patriarcado. Em nossas cosmovisões, somos seres que surgem da terra, da água e do milho. Dos rios somos guardiãs ancestrais… Demos a vida, se necessário, pela defesa da humanidade e do planeta!

Esse grito de Berta é nossa bússola. Diante da agressão neocolonial, nossa resposta é a unidade, a defesa de nossa terra e a rebeldia inquebrantável.

Viva as mulheres que lutam! Viva Nuestra América livre e soberana! Venceremos!

Saudações a todos e todas,

Carmen Navas, Maisa Bascuas e Pilar Troya