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Boletim Nuestra América

Das construções territoriais às disputas globais: reflexões da X Conferência da CLACSO e da visita ao departamento do Cauca

Para o Tricontinental, não há forma de produzir conhecimento social sem um vínculo e uma responsabilidade real e concreta com os territórios, as comunidades e suas expressões organizativas.

Guache (Colômbia), La paz es nuestra, 2013.

Saudações do escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Estivemos presentes, como Instituto, na X Conferência da CLACSO, realizada de 9 a 12 de junho em Bogotá, Colômbia, que contou com mais de 28 mil participantes presenciais e milhares de participantes virtuais. Com o lema Horizontes e transformações para a igualdade: democracias, resistências, comunidades, direitos e paz, a agenda evidenciou uma pluralidade de eixos transversais que evidenciam as prioridades atuais das ciências sociais na região.

Uma delegação de pesquisadores e pesquisadoras do Escritório Nuestra América do Tricontinental teve a oportunidade, com base em nossas pesquisas, de trocar com diversos centros de pensamento e intelectuais de várias partes do mundo sobre as principais preocupações das ciências sociais neste momento crítico da conjuntura global — marcada pela ascensão da extrema direita em alguns países da região, o fortalecimento de alternativas ao modelo neoliberal em outros, ao mesmo tempo em que assistimos, ao vivo e em tempo real, o genocídio diário promovido pelos Estados Unidos e Israel contra o povo palestino.

Na perspectiva do Instituto Tricontinental, esta conferência representou um espaço estratégico para dar visibilidade às lutas dos povos do Sul Global frente ao avanço do imperialismo, ao saque extrativista e à ofensiva neoliberal. Nesse contexto, denunciou-se com firmeza o caráter imperialista da chamada “Guerra contra as Drogas”, uma política imposta pelo imperialismo estadunidense que tem servido de pretexto para militarizar territórios, criminalizar comunidades rurais e consolidar o despojo territorial, afetando profundamente a soberania alimentar e os processos de autonomia camponesa. Assim, a conferência se consolidou não apenas como um fórum acadêmico, mas também como uma plataforma política de articulação entre saberes, resistências e propostas emancipadoras que nascem das experiências vivas dos povos em luta.

Foi também um espaço essencial para aprofundar o debate sobre o avanço das extremas direitas na região, entendidas como expressões do capital em crise. Em diálogo com pesquisadores e pesquisadoras de diferentes países, analisou-se o processo de radicalização dessas direitas, que se expressa em nossa região na criminalização dos movimentos populares, na ofensiva contra direitos conquistados, na captura do Estado por interesses oligárquicos e no ressurgimento de projetos neocoloniais funcionais ao imperialismo.

Intervenção urbana em Ibagué (Colômbia), Las cuchas tienen razón, 2025. Parte de uma série de grafites com a mesma consigna que funcionam como ação coletiva na Colômbia e em outros países, em resposta à censura da original. Faz alusão ao fato de que as mães – las cuchas, como se diz popularmente na Colômbia – tinham razão nas denúncias sobre o desaparecimento de seus filhos.

A passagem pela Colômbia nos revelou formas vivas e concretas de resistência regional frente à ofensiva neoliberal, que busca canibalizar todos os tecidos produtivos, sociais e naturais para colocá-los a serviço da acumulação de capital. A Colômbia se apresenta hoje como uma zona de ruptura e contestação ao neoliberalismo. A ascensão de uma vigorosa mobilização social — com protagonismo da juventude, do campesinato, dos povos étnicos e afro-colombianos, do movimento feminista e das economias populares — abriu brechas na ordem dominante e possibilitou o surgimento de um projeto político com vocação de poder e capacidade real de disputa frente às direitas.

Nesse contexto, durante a X Conferência, debateram-se pontos para um modelo de desenvolvimento centrado na vida: uma transição energética justa e soberana, que priorize os direitos das comunidades sobre a lógica extrativista; uma reforma trabalhista que dignifique o trabalho e fortaleça o tecido social; e uma aposta orientada para infraestruturas voltadas às economias populares, que restituam dignidade e autonomia aos territórios. A Colômbia, em meio à sua complexidade, encarna hoje não apenas o conflito, mas também a esperança do que pode nascer quando os povos se levantam com horizonte próprio.

Diante de uma transição geopolítica global marcada pelo enfraquecimento da hegemonia ocidental, destacou-se também a urgência de aprofundar a integração latino-americana e caribenha como estratégia de soberania coletiva e condição para construir alternativas reais frente ao avanço do capital transnacional e da indústria da guerra.

Esses debates foram a introdução ideal para a visita que realizamos ao místico Sudoeste Colombiano dias depois, e que nos traz as principais reflexões sobre os deveres do nosso Instituto em sua versão nuestroamericana.

Para o Tricontinental, não há forma de produzir conhecimento social sem um vínculo e uma responsabilidade real e concreta com os territórios, as comunidades e suas expressões organizativas. Nossa referência está ancorada na provocação gramsciana do intelectual orgânico, que nos impulsiona, como dever político, não apenas a trabalhar junto, mas a fazer parte desses processos coletivos que lutam diariamente para transformar a desigualdade. Por isso, desde o primeiro momento em que desenhamos nossa visita à Colômbia, quisemos incluir alguns dias de trabalho na histórica, combativa e aguerrida região do Cauca, no sudoeste do país. Lá, fomos recebidos por companheiras e companheiros do Processo de Unidade Popular do Sudoeste Colombiano (PUPSOC), com a generosidade e o coração aberto que só aqueles que amam a vida e a defendem diariamente sabem carregar como bandeira.

Num verdadeiro caleidoscópio de cores, idades, gerações, tradições de luta, meios de trabalho, história e coragem, companheiros e companheiras camponesas, estudantes, educadores/as, defensores/as de direitos humanos e do direito à moradia foram os protagonistas daqueles intensos dias de trabalho e aprendizado. Eles e elas construíram processos organizativos em contextos em que apenas o desespero ou a resignação pareciam possíveis. Com enorme coragem, criatividade e amor profundo por seus territórios, impulsionaram a criação de bairros inteiros, onde centenas de pessoas que não tinham um teto hoje constroem experiências coletivas de moradia e vida comunitária, como o Ecobairro Sinai e a Ecoaldeia Estrela Vermelha. Também construíram experiências de organização camponesa que, em meio à guerra e ao abandono do Estado, defenderam o direito à existência e à autodeterminação em Zonas de Reserva Camponesa no departamento do Cauca, e criaram instrumentos coletivos de defesa do território e de resistência, como a Guarda Camponesa, que nos acompanhou em todas as visitas — especialmente no norte do departamento, onde fomos recebidos pelas crianças com uma homenagem aos companheiros e companheiras assassinados/as na luta e na defesa do território e dos direitos camponeses.

Débora Arango (Colômbia), La masacre del 9 de abril, 1948.

É verdade que o contexto regional apresenta um panorama desalentador pelo protagonismo — talvez excessivamente exagerado — de algumas figuras da extrema direita e sua política de ódio e crueldade. No entanto, na Colômbia, e especialmente no Cauca, aprendemos também que a esperança, a organização, os presentes e os futuros se constroem, se tecem, no meio das imensas montanhas, assim como em cada canto profundo desta imensa Nuestra América. Talvez em silêncio, sem muito alarde, sem muita imprensa. Aí também reside nosso dever: ressaltar as vozes dos que reconstroem sonhos, como diria o trovador.

Desde o Escritório Nuestra América, temos o desafio de continuar pensando nosso vasto continente a partir de uma perspectiva regional. Com sua dimensão, suas realidades diversas, mas sobretudo com a esperança intacta de que é um continente insubmisso, que continua lutando contra o modelo neoliberal, que disputa sentidos, que constrói cenários, que pensa o desenvolvimento da região a partir de um paradigma superador da exploração capitalista e da voracidade do imperialismo, e que faz da solidariedade sua maior premissa.

O Tricontinental é hoje um ator com experiência na tarefa de articular vozes do Sul Global; em nomear o inimigo com nome e sobrenome, em desafiar a resignação e propor, desde o pensamento crítico, caminhos para transformar a realidade e chegar à vitória. Nesse sentido, também é nossa tarefa tornar visíveis as experiências de luta e resistência que acontecem no cotidiano de nossa classe, dando nome e sobrenome àqueles que, em silêncio, recriam suas vidas de forma coletiva e revolucionária. Na reunião da CLACSO, ficou evidente a inquietação sobre o lugar do nosso continente na reconfiguração das dinâmicas e dos atores de poder em escala global — e sobre isso, temos muito a dizer. Como escreveu Emiliano López, um dos coordenadores de nossos escritórios no boletim anterior, estamos diante de um cenário aberto de oportunidades que esse mundo em transição nos permite, e desde Nuestra América temos o desafio de construir propostas de futuro e desenvolvimento para todo o continente.

Com as potencialidades que identificamos em Bogotá no intercâmbio com pesquisadores/as e intelectuais; com as esperanças que encontramos no Sudoeste, que permanecem ardendo no peito como aquele mar de fogueirinhas; com a força dos rios Cauca, Patía, Magdalena, Putumayo e Caquetá, que nascem no Maciço Colombiano e irrigam e enchem de vida toda a Colômbia, seguiremos fazendo pesquisa social junto a quem dá sentido à existência do nosso Instituto. E isso está apenas começando.

Um grande abraço,

Laura Capote, Maisa Bascuas e Delana Corazza

Guache (Colômbia), Paz con Pan, 2013.

ps /// Neste mês de julho, cheio de efemérides e aniversários importantes, queremos recomendar a leitura do Dossiê 61 sobre o legado do Comandante Chávez nos 71 anos de seu nascimento. Além disso, queremos compartilhar com vocês o lançamento do 5º número da Revista Estudos do Sul Global, que nesta edição debate a crise do capitalismo e os desafios enfrentados pela classe trabalhadora, e conta com uma entrevista com o economista argentino Claudio Katz. Por fim, não podemos deixar de lembrar a gesta revolucionária de cubanas e cubanos que inauguraram um novo mundo com o assalto ao Quartel Moncada em 26 de julho de 1953. Sobre isso, recomendamos a leitura do discurso “A história me absolverá”, de Fidel Castro, feito por ele próprio em sua defesa.