Pesquisa sobre os Evangélicos e a Política

 

Encontro com Pastor Silas Malafaia, Presidente do Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (CIMEB). Foto: Isac Nóbrega/PR

 

N° 6/2021

O mês de junho foi marcado por encontros entre políticos e pastores, visando apoios para as próximas eleições em 2022 e disputando as intenções de votos do público evangélico. Os fundamentalismos têm permeado as discussões das pautas de gênero e sexualidade, propondo até mesmo políticas públicas, como o Projeto de Lei (PL) 813/2019, conhecido como “PL Escolhi Esperar”, que está sendo debatido na Câmara de São Paulo. Confira mais notícias do mundo evangélico:

 

Fundamentalismo Religioso e Negacionismo

O fundamentalismo é um fenômeno político-religioso que vem se infiltrando em todas as áreas da sociedade. Com a pandemia do Coronavírus se escancarou a face do fundamentalismo que atinge a ciência: o negacionismo. Seja da pandemia, da vacina, do uso de máscaras, a palavra negacionismo resume muitos dos comportamentos daqueles que seguem esse tipo de visão unilateral das coisas: negar o outro, os fatos e a ciência. Teorias conspiratórias, interpretações de trechos bíblicos e adesão a discursos políticos negacionistas estão entre as causas no Brasil e nos Estados Unidos para a resistência à vacina de Covid-19. Visões teológicas, que ecoam as fake news estadunidenses de que a vacina é a marca da besta, fazendo referência ao livro de Apocalipse, tem sido uma dessas artimanhas para distanciar os evangélicos da vacina, entre outras.

Uma pesquisa realizada por Mariana Borges Martins da Silva (Universidade de Oxford) e Marina Pereira Novo (Universidade Estadual de Campinas – Unicamp) apontou “que moradores de cidades do interior do país e os evangélicos pentecostais foram mais propensos a acreditar na eficácia do “kit Covid” (36% contra 19% dos não pentecostais) e a apoiar prefeitos que o distribuíram.” Esse tipo de dado é importante para compreendermos as ações de setores fundamentalistas evangélicos nos territórios indígenas, e a propagação das desinformações acerca da vacina e do “kit Covid”. A líder indígena Milena Kokama disse em entrevista ao Uol:“Eles falam que a vacina não é coisa de Deus, que já vem contaminada da China e que Deus vai proteger quem não tomar.”

Ainda na temática da saúde, parte da fé evangélica sempre viu com suspeita as terapias com psicólogos e terapeutas. Saúde mental é um tabu para grande parte dos evangélicos, pois compram discursos de que “Jesus basta”, e encaram a busca por terapia para lidar com doenças como depressão, ansiedade e síndrome do pânico como uma fraqueza ou ausência de espiritualidade. O tema veio à tona esse mês por conta dos questionamentos que famosos evangélicos, como Ana Paula Valadão, vêm enfrentando após promover lives com a sua psicóloga. A pastora e teóloga Nancy Cardoso aponta: “O negacionismo científico cobre o aspecto do psicológico e dos afetos e isso está dentro das igrejas também. Elas podem adoecer as pessoas, mas as igrejas também podem ser espaços comunitários de saúde, escuta de aceitação”.

O negacionismo é uma marca do fundamentalismo, que insiste em negar a existência do outro, das outras interpretações bíblicas ou religiosas da fé. E a negação discursiva das outras religiosidades se transformam em atos de intolerância religiosa, como foi o caso de uma paróquia católica de Osasco (SP), vandalizada por um grupo de jovens que alegou ter feito isso “em nome de Jesus”. A intolerância religiosa é a marca de uma educação de fé exclusivista e violenta, e também afeta aqueles e aquelas que não possuem nenhum tipo de crença e credo, como os ateus e agnósticos, que também sofrem com preconceitos e se sentem coagidos à conversão. Em uma pesquisa feita pelo Instituto Rosa Luxemburgo e Fundação Perseu Abramo, em 2008, 42% dos brasileiros disseram sentir aversão aos ateus (17%, “ódio/repulsa”, e 25%, “antipatia”).

Além disso, a intolerância religiosa está arraigada no racismo estrutural, que insiste em demonizar as religiões de matriz africana, como candomblé e umbanda. No Rio de Janeiro, o relator da CPI da Alerj, o deputado Átila Nunes (MDB), apontou que: “a política de combate à intolerância religiosa deve buscar os líderes religiosos que estimulam esse tipo de comportamento intolerante”. E esse comportamento é encontrado em todos os lugares, até mesmo no esporte mais popular do Brasil, o futebol, no qual jogadores sofrem ataques nas redes sociais por declarar e agradecer as suas deidades e orixás para além de divindades do cristianismo.

 

Bolsonaro, os evangélicos e as eleições de 2022

Pesquisadores, como Ronaldo Almeida, referência na área de estudos pentecostais, têm apontado para o fenômeno de enfraquecimento de Bolsonaro (sem partido) com sua, nem tão fiel, base eleitoral. Para Almeida: “Bolsonaro vem perdendo em geral. E também perde no segmento evangélico”, mas faz uma ponderação importante: “mas acho que é onde ele perde menos. Minha impressão é que militares e evangélicos são os grupos que talvez ele perderia por último.” Ao que parece, alguns setores que antes defendiam e polarizaram hoje têm sido menos ávidos na defesa de Bolsonaro, como demonstra o levantamento realizado pelo Sistema Analítico Bites, que aponta que a maioria dos influenciadores digitais evangélicos não está usando as redes sociais para demonstrar apoio ao presidente Jair Bolsonaro ou para criticar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Andréa Dip, diretora da Agência Pública de Jornalismo Investigativo, comenta sobre a facilidade de Bolsonaro para mentir nos púlpitos das igrejas evangélicas. Cita, como exemplo, a passagem do presidente na igreja Church in Connection, em Anápolis, onde causou aglomeração sem máscara e disparou falas negacionistas “criticando o uso de urnas eletrônicas, o alto número de mortes por covid-19, afirmando incorretamente que as vacinas estão em fase experimental, citando documentos falsos e promovendo o uso de cloroquina (remédio sem eficácia comprovada contra a covid)”.

Esses encontros, muito provavelmente, serão frequentes nos próximos períodos, pois há um temor em perder tal segmento para outras candidaturas, principalmente com o ex-presidente Lula no páreo. Um levantamento do Instituto Datafolha demonstra que a intenção de voto dos evangélicos para Lula (PT) é de 35%, enquanto para Bolsonaro, é de 34%. O empate técnico também foi relatado pela pesquisa do Instituto Vox Populi.

A antropóloga Jacqueline Teixeira, doutora em antropologia social e pesquisadora do Núcleo de Antropologia Urbana da USP, aponta em entrevista ao El País que o antipetismo seguirá forte no Sul e no Sudeste. Sobretudo em lugares como o interior de São Paulo, pouco marcado por gestões progressistas se comparado, por exemplo, com a capital paulista. Nesses lugares, embora as pessoas estejam desistindo de Bolsonaro, não necessariamente estão pensando em Lula’, afirma.

Lula e Ciro Gomes (PDT) vêm investindo nas relações com os evangélicos. Recentemente, Lula se encontrou com Manoel Ferreira, bispo primaz de uma das mais poderosas ramificações da Assembleia de Deus, o Ministério Madureira, buscando reconstruir relações e pontes com os setores evangélicos. No mesmo barco, Ciro, em 21 de junho, postou um vídeo com a Bíblia em uma mão e a Constituição em outra afirmando que ambos não são “livros conflitantes”.

Obviamente, a ascensão de Lula na intenção de votos evangélicos deixa os beneficiários desse des-governo preocupados e desesperados, como o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que já vociferou ameaças para não permitir que o petista ganhe visibilidade entre os evangélicos: “Ele que venha, a artilharia vai ser pesada. Não vai ser coisinha fácil não. Vamos botar para arrebentar em cima e sem dó”, afirmou o pastor, um dos mais fiéis aliados do presidente Jair Bolsonaro. Além disso, o Malafaia ameaçou tirar o apoio a Eduardo Paes após o encontro do prefeito com Lula. O famoso pastor é tido como conselheiro do governo, com trânsito livre no gabinete presidencial, Malafaia é visto no Planalto como peça valiosa para fisgar o voto evangélico no pleito de 2022.”

Bolsonaro vem estreitando laços para manter a base religiosa sólida em 2022. Na “motociata”, realizada em São Paulo no dia 12 de junho de 2021, escolheu ninguém mais ninguém menos que o deputado Cezinha de Madureira (PSD-SP), o qual aparentemente considera um “bom chamador de voto”. Madureira preside a Frente Parlamentar Evangélica na Câmara dos Deputados. O ato em São Paulo ganhou o nome de ‘Acelera para Cristo’, sendo promovido nas redes sociais como uma versão evangélica das motociatas bolsonaristas. Quem batizou o evento com esse nome e se colocou como coordenador foi o comerciante evangélico Jackson Vilar, dono de uma loja de móveis no Capão Redondo, zona sul de São Paulo.” Vilar busca ganhar visibilidade para futuras candidaturas, visto que em 2018 tentou se eleger, sem sucesso, como deputado federal.

Um outro elemento estratégico para fidelizar ainda mais os votos evangélicos é a promessa de indicação de um ministro “terrivelmente evangélico” para o cargo no Supremo Tribunal Federal (STF), após a aposentadoria de Marco Aurélio Mello. Embora, com atraso, a promessa será cumprida. Em uma cerimônia comemorativa dos 110 anos da Assembleia de Deus no Brasil, em Belém (PA), Bolsonaro disse: “Fiz um compromisso com os evangélicos do País. Indicaremos um evangélico para que o Senado aceite seu nome e encaminhe para o STF um irmão nosso em Cristo”. A Anajure (Associação Nacional de Juristas Evangélicos) declarou apoio à indicação do advogado-geral da União André Mendonça à vaga que será aberta no STF.

A Record TV, emissora do bispo Edir Macedo, até então fiel escudeiro de Bolsonaro, tem televisionado críticas ao governo, e até está sendo alvo de ataques de internautas insatisfeitos com o posicionamento da emissora, principalmente ao divulgar os panelaços contra o presidente ocorridos no dia 2 de junho. Podemos pensar essa atitude como um contra-ataque às questões da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em Angola e a falta de atitude, segundo alguns evangélicos, do governo em interferir na expulsão de pastores brasileiros dos territórios angolanos. Genro de Edir Macedo, o bispo Renato Cardoso chegou a cobrar o presidente pelos acordos feitos diante “do povo cristão, católico, evangélico, que apoiou esse governo, faz parte da base do governo”. Bolsonaro, quando questionado por um senador que lhe pediu ajuda para resolver os problemas da igreja de Edir Macedo em Angola, assim respondeu: “O que você quer que eu faça? Que eu mande invadir Angola?” Bem, o afago a IURD não veio em forma de invasão a outro país, mas sim com a indicação do bispo Marcelo Crivella (Republicanos), ex-prefeito do Rio, para ser embaixador do Brasil na África do Sul. Para além desse aceno a favor da IURD, a igreja se aproveitou de uma brecha legal no governo Bolsonaro para estrear a TV Templo, um outro braço do império midiático gospel da organização, que conta com mais de 22 horas diárias de transmissões pela Rede Brasil. Ainda sobre mídias, o governo Bolsonaro, crítico à cobertura da imprensa acerca do andamento das ações genocidas em relação a pandemia, facilitou horas de programação na TV Brasil para um telejornal que apresenta apenas “notícias boas”. O nome do telejornal já está definido: “Bom de Ver”.

 

Teologia da Prosperidade

A alienação da realidade com o mascaramento das supostas vitórias ou superações é um recurso também da teologia da prosperidade, que visa, influenciada pelo neoliberalismo, a riqueza, o que é “bom de ver”. Enquanto isso, as igrejas que pregam tal teologia, cada vez mais, se envolvem com escândalos financeiros. Recentemente, Silas Malafaia se tornou sócio de um empresário, Francisley Valdevino da Silva, acusado de pirâmide com criptomoedas. Sua empresa é acusada por 20 investidores de praticar pirâmide financeira por meio de outra empresa, a Forcount.

 Outro escândalo que já vem sendo discutido é acerca dos processos da Igreja Mundial do Poder de Deus, que possui uma dívida de cerca de R$ 39 mil em aluguéis, e decidiu leiloar os bens e patrimônios pertencentes a igreja liderada pelo apóstolo Valdemiro Santiago. Houve também a quebra dos sigilos bancário e fiscal do fundador da igreja e também de Mateus Machado de Oliveira, ex-presidente da igreja, por conta de uma dívida, de aproximadamente R$ 248 mil, de um imóvel em Carapicuíba, na Grande São Paulo, no qual funcionava um templo da Mundial. O ex-deputado José Olímpio (DEM) é o fiador do prédio em Agudos (SP), que funciona uma das filiais, e cujo aluguel não é pago desde 2018, e foi condenado a pagar R $225 mil por dívida da Igreja Mundial.

A IURD também tem sofrido retaliações por conta das dívidas dos aluguéis dos imóveis que funcionam as igrejas. A Justiça de São Paulo bloqueou R$ 58.190,48 da Igreja Universal do Reino de Deus em razão de uma dívida no aluguel de um imóvel em Sorocaba. A saga acerca da atuação da IURD em Angola continua em investigação. A Procuradoria-Geral da República (PGR) de Angola e o Serviço de Investigação Criminal (SIC, a polícia federal angolana) dizem que há provas contundentes de crimes, como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e associação criminosa no país. “Os quatro investigados no caso são: Honorilton Gonçalves da Costa, ex-representante máximo da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola, Fernando Henriques Teixeira, ex-diretor da TV Record África, o bispo António Pedro Correia da Silva (então representante legal da Record e presidente do conselho da IURD em Angola) e o pastor Valdir de Sousa dos Santos.” Outra dor de cabeça para a IURD, que havia censurado um livro autobiográfico de um ex-pastor nos anos 1990, é o relançamento da obra. Mário Justino relata bastidores com ‘sexo, dinheiro e drogas’ misturados com ‘orações e salmos de Davi’.

Já se sabe que o mercado gospel tem crescido exponencialmente com o aumento de evangélicos no país, e isso também é um dado das redes sociais, onde cada vez mais pessoas buscam se tornarem “influenciadoras da fé”, mas a motivação nem sempre pode ser a causa do evangelho. E esse nicho tem encontrado nos pregadores mirins um campo fértil de atuação, como a matéria da Folha de S. Paulo trouxe esse mês.

 

Ministros evangélicos

Em 1996, a Política Nacional de Direitos Humanos (PNDH) foi estabelecida e se tornou política de Estado. Desde fevereiro de 2021, um grupo instituído pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, dirigido por Damares Alves, tem trabalhado a portas fechadas para a atualização do PNDH, sem a participação da sociedade. Para Yuri Costa, presidente do conselho, “o plano é bom, com ampla participação popular, e não foi ainda cumprido. Precisamos discutir o que foi cumprido para depois discutir atualização”. Essa revisão é perigosíssima para as minorias, que têm sido alvo de ataques e de desmontes das políticas públicas. Ainda sobre a pasta da pastora e ministra Damares, a Polícia Federal quer investigar a estrutura do ministério, que está sendo acusado de inflar atos antidemocráticos que atacaram o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. Um dos focos da investigação é a relação do youtuber Oswaldo Eustáquio, marido da ex-secretária Sandra Terena, com os atos. A PF também apura as conexões de Sara Giromini, conhecida como Sara Winter, que também já foi funcionária da pasta. Ambos já foram presos no âmbito do mesmo inquérito.

Outro ministro que tem atuado e mostrado suas garras protestantes históricas  é o pastor Milton Ribeiro, ministro da Educação, que neste mês se envolveu em polêmica relacionada à conferência da prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) nas questões relacionadas a gênero e sexualidade, no combate a uma suposta “ideologia de gênero”. Após inúmeras críticas da oposição, Milton afirmou que não irá conferir a prova, porém o MEC está criando uma comissão para a revisão ideológica da prova, algo refutado pela área técnica do Enem. O ministro nomeou o deputado estadual Tenente Coimbra (PSL-SP) e o pastor evangélico Roque do Nascimento Albuquerque para o conselho consultivo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a principal autarquia do MEC.

Há um tema de interesse comum entre as duas pastas citadas acima: homeschooling. A Carta Capital publicou recentemente um excelente artigo, escrito por Ana Flávia Gussen, que traz o questionamento acerca dessa pauta, que tem sido priorizada no governo Bolsonaro: “A quem interessa o homeschooling?”. Uma das bandeiras mais levantadas nessa pauta é a “doutrinação ideológica” e a difusão da “ideologia de gênero”, já mencionada, que as escolas fariam. Em tempos de uma educação pública cada vez mais sucateada pelos interesses neoliberais, falar em homeschooling parece uma distopia, entretanto, essa insistência tem sido fomentada também pela ANAJURE,  que tem como uma das fundadores a ministra Damares Alves.

 

Gênero e Diversidade Sexual

A bandeira antigênero é erguida nos ministérios e no governo atual, assim como em muitas igrejas poderosas aliadas à política atual. Em junho, é celebrado o “Mês do Orgulho LGBTQIA+”, e diversas empresas fizeram suas campanhas em prol da causa. Entretanto, para alguns setores cristãos, é mais nocivo a celebração da diversidade do que os altíssimos números de mortes da população LGBTQIA+ no Brasil, em especial das pessoas trans. Silas Malafaia fez campanhas de boicote contra uma famosa rede de hambúrgueres, entre outras ações de diferentes evangélicos, como Marco Feliciano (Republicanos-SP) , que disse para “deixar as crianças em paz”. Como contrapartida, o casal de pastoras Lanna e Rosania, da Igreja Cidade Refúgio, apontam que Se a igreja evangélica não mudar e aceitar os gays, sofrerá um êxodo de fiéis”

Está em discussão, na Câmara de São Paulo o Projeto de Lei “Escolhi Esperar”, PL 813/2019 . Escolhi Esperar” é o nome do movimento criado pelo pastor Nelson Neto Junior em 2011 que prega o sexo após o casamento. E vai na mesma linha da campanha lançada em 2019 pela Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), de Damares: a inclusão da abstinência nos debates sobre educação sexual nas escolas.Para Luana Alves, vereadora pelo PSOL: “O que nos preocupa é que essa proposta, a princípio positiva, é pretexto para a adoção do método da abstinência sexual como política pública, limitando a educação sexual sobre métodos contraceptivos, por exemplo, e proteção contra DSTs [doenças sexualmente transmissíveis]”.

Disputas e contranarrativas

A polêmica sobre a abertura das igrejas durante a pandemia do Coronavírus tomou conta de diversas discussões midiáticas, jurídicas e nos púlpitos – virtuais ou presenciais. Entretanto, algumas igrejas escolheram não voltar com cultos presenciais, apesar da liberação de alguns governos pelo Brasil. A resposta desses pastores e pastoras é simples, como disse o pastor batista João Purin Jr., “o Novo Testamento ensina que o templo do Espírito Santo somos nós, indivíduos, não depende de templo físico, de prédio.”

Por isso, é importante enfatizar as outras faces dos evangélicos, para além do senso comum, como aponta o pastor Zé Barbosa Jr: “Movimentos e coletivos evangélicos que são contra Bolsonaro e seus fascismo, além de defenderem causas sociais e humanitárias existem aos montes e são cada vez mais ativos e participativos na sociedade brasileira”. Evangélicos e evangélicas têm se organizado e marcado presença nas manifestações contra o governo Bolsonaro e as políticas genocidas que têm guiado o Brasil desde as últimas eleições. No protesto do dia 19, o pastor Henrique Vieira discursou durante o ato pelo impeachment do presidente na Avenida Presidente Vargas, na área central do Rio de Janeiro, e disse: “O Bolsonaro mataria Jesus hoje. Bolsonaro representa o ódio. Jesus, o amor. Bolsonaro representa a violência. Jesus, a paz. Bolsonaro representa o preconceito, a intolerância, o racismo e a LBGTfobia. Jesus representa o povo pobre e a diversidade. Bolsonaro representa a branquitude colonizadora. Jesus é negro, é a periferia, é da favela, é do povo, é dos pobres, é dos indígenas, é dos quilombolas, é das mulheres, é dos lgbts”.

Nilza Valéria, jornalista e fundadora da Frente Evangélica pelo Estado Direito, concedeu uma entrevista ao Universa, em que falou um pouco da sua trajetória de militância e fé, e apontou um dado que vem sendo testificado por inúmeras pesquisas, como a do Datafolha (2020):“Fé evangélica é das mulheres negras e pobres”, e ainda acrescenta, a “bancada (evangélica) não nos representa”. Embora algumas dessas mulheres possam encontrar os racismos e preconceitos dentro das igrejas, muitas delas têm se posicionado a partir da fé para combater  comentários racistas sobre o cabelo black power, símbolo de resistência. Ellen Telácio, socorrista de Duque de Caxias (RJ), disse: “O Jesus que eu conheço não despreza, ele não falaria mal do meu cabelo pra mim”.

A jovem evangélica Rachel Daniel também traz a experiência de um feminismo cristão da libertação, que vai além dos fundamentalismos e opressões contra as mulheres e a população LGBTQIA+: “Aprendi a ler a Bíblia na perspectiva feminina, pois somos ensinadas dessa forma na teologia feminista, mas para além disso, não me iludo de que é um livro dentro de um contexto histórico e social…” Nesse ímpeto, a teóloga e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Angelica Tostes, publicou um artigo na CartaCapital trazendo vozes evangélicas LGBTQIA+ para contar um pouco sobre a fé e as lutas dentro e fora das igrejas, e aponta que “até mesmo entre os evangélicos progressistas há resistências acerca do trabalho efetivo com igrejas nessa temática, sendo sempre adiada ou colocada em segundo plano.”