Relatório Obsal #13

Observatório da Conjuntura na América Latina e no Caribe

Baixe o relatório completo aqui: Subindo pela Cordilheira dos Andes

 

Durante os meses de maio e junho, as bases do continente e do mundo continuaram se movendo em meio à disputa global entre a primazia da vida sobre o capital. Dessa forma, a multiplicidade de eventos que relatamos neste Relatório n.13 nos permite mostrar os avanços e retrocessos que tiveram os processos emancipatórios e transformadores de alguns países de Nuestra América, no marco do segundo ano de pandemia que longe de cumprir o que anunciavam os programas motivacionais da televisão mostrou a desigualdade, a exploração e o egoísmo típicos do sistema capitalista.

No contexto global, durante esses meses, o crescimento dos casos de Covid-19 no mundo continuou, mas em particular na América Latina e Caribe. Com a segunda ou terceira ondas, dependendo do país, várias campanhas de vacinação se iniciaram, e com isso se desenvolveu um entramado político e ideológico que, como bom exemplo do sistema, transformou também um bem de humanidade em mercadoria. Exemplo disso é a decisão dos EUA de doar vacinas a alguns países da América Latina, com exceção de Cuba, Venezuela e Nicarágua. Porém, diante disso, a Ilha da Revolução continuou com o desenvolvimento e aprovação de suas vacinas, enviando os primeiros carregamentos a esses países excluídos por motivos políticos dos beneficiários do fundo Covax, e mesmo a Argentina iniciou a produção local da Sputnik V, em um acordo com o laboratório Gamaleya.

“Vamos sair melhores da pandemia”, disseram os coaches emocionais, mas um ano depois, podemos dizer que estavam errados. A primazia do lucro e da mercadoria sobre a vida não se dá apenas no mundo das vacinas e suas patentes, mas também no mundo do entretenimento, pois para o capitalismo “o show deve continuar”. Durante o mês de junho, foi realizada a Copa América, e algumas eliminatórias da Copa do Mundo 2022, em meio a repressões policiais fora dos estádios, e crises sanitárias como a do Brasil onde, apesar do caos político e epidemiológico com milhares de mortes diárias, Bolsonaro acolheu o pedido da Conmebol de sediar o evento, tirando o humano – a parte bela – do jogo.

Nesse marco, os povos do continente viram com entusiasmo nascer novamente, nos altos Andes peruanos, uma esperança que pode modificar radicalmente o cenário continental ao marcar um gol na longa tradição neoliberal dos países do Pacífico: Pedro Castillo obteve a maioria dos votos no Peru; mas o povo continua esperando, após quase um mês do resultado das eleições, que ele seja proclamado o próximo presidente, em decorrência das tentativas de golpe do fujimorismo e da direita local que ficaram muito nervosas após a vitória apertada do professor. Na Colômbia, diante da enorme mobilização nacional que passou dois meses nas ruas exigindo – e conseguindo – reformas estruturais, o governo de Iván Duque e do uribismo, não encontra como contra-argumentar e vencer a batalha senão por meio dos antidemocráticos mecanismos dessa estranha democracia que defendem, só sob medida, com repressão e a violação sistemática dos direitos humanos. Na Bolívia, os cavalheiros dessa mesma democracia foram evidenciados para o mundo pela investigação do The Intercept, na qual se comprovou a estratégia golpista planejada e elaborada a partir dos EUA, com a conivência e o apoio de países vizinhos que incluíram até o embarque de armas, como fez o ex-presidente Moreno, do Equador. Enquanto isso, a Venezuela se prepara para as eleições regionais em novembro, em meio a uma nova mesa de negociações entre o governo nacional, o governo dos EUA e a oposição realmente existente. Esta última merece destaque, especialmente para a figura de Juan Guaidó que continua, sem qualquer representação ou apoio em nível nacional, presidindo um país imaginário.

Descemos a Cordilheira dos Andes em direção ao Cone Sul e seus grandes protagonistas deste relatório n.13: o Chile, que depois de realizar as eleições constituintes convencionais para enterrar a Constituição de Pinochet, definiu que a próxima será redigida por 83 mulheres e 72 homens, com ampla representação de setores independentes, povos indígenas entre outros. O amplo debate sobre o modelo do país para deixar para trás a carga neoliberal continua e está apenas começando a corrida presidencial, que será definida entre novembro e dezembro deste ano.

Já o povo brasileiro devolve a beleza ao jogo, pelo menos na disputa nas ruas e na resistência ao genocídio perpetrado por Bolsonaro. Nesses meses houve inúmeras mobilizações contra as políticas governamentais, exigindo vacinas para todos, além do já estabelecido Fora Bolsonaro, entre outros inúmeros motivos que surgem diariamente para combater seu governo, como a denúncia de experimentação de imunidade de rebanho que tentou fazer com a população da Amazônia, ou com o desenvolvimento da própria Copa América enquanto milhares de brasileiros morrem, em decorrência da gestão governamental da Covid-19.

Antes de subir do sul, nesta edição nos aprofundamos também nos cenários do Paraguai e do Uruguai, onde diferentes mobilizações contra governos neoliberais organizam as agendas da classe trabalhadora, que convergem também na rejeição às políticas de fome e desigualdade, no meio de medidas sanitárias questionáveis; e a Argentina, onde está aberto o caminho para as eleições legislativas de setembro, no marco do avanço da taxa de vacinação e da chegada de mais remessas de vacinas ao país.

Na Mesoamérica, a crise migratória continua a ser a principal protagonista, e nesse sentido se encontra o lugar importante que esta região ocupa na geopolítica dos EUA para todo o continente. A vice-presidente Kamala Harris visitou o México e a Guatemala e homenageando o american way of acting do tapa com luva de pelica, ao mesmo tempo que divulga mudanças na política de imigração, financia ONGs privadas para “prevenir a migração de pessoas”; durante os meses de maio e junho houve mais de 180 mil prisões de migrantes realizadas pelas patrulhas de fronteira dos EUA.

Enquanto isso, no caso da Guatemala, as mobilizações continuam exigindo a liberdade dos presos políticos; em Honduras se preparam as eleições presidenciais 12 anos após o golpe de Estado – financiado pelos EUA – contra Manuel Zelaya; em El Salvador há preocupações crescentes sobre o golpe no judiciário pelo presidente Nayib Bukele. Outro pregador democrata com prática antidemocrática, que não é o mesmo, mas é igual, como seus vizinhos do Panamá e da Costa Rica, onde membros importantes das classes políticas dominantes, inclusive ex-presidentes como Martinelli e Varela devem ir a julgamento por denúncias de corrupção no famoso caso Odebrecht, outra conduta que não propriamente democrática e nem respeitadora das instituições.

No México houve eleições intermediárias com resultados favoráveis ​​ao projeto de governo de AMLO, mas que fazem soar alguns alarmes, especialmente levando em consideração o referendo revogatório de março de 2022 e as eleições presidenciais de 2024; e a Nicarágua, a caminho das eleições presidenciais de novembro, vive uma crise política em um contexto de forte polarização entre o cerco permanente dos EUA e a tentativa de intervencionismo e o endurecimento das políticas governamentais contra os adversários – muitos deles financiados pelos EUA – e a prisão de alguns deles. Diante disso, a OEA – depois de manter um silêncio ensurdecedor sobre a dramática situação humanitária na Colômbia e a evidente preparação de um golpe no Peru – convocou uma reunião do Conselho Permanente, onde aprovou uma resolução não vinculante sobre o país da América Central.

O Caribe, tendo Cuba como exemplo, continua a encher nossa região de esperança. Apesar do bloqueio permanente dos EUA e da rejeição mundial a ele (como demonstrado na última Assembleia Geral da ONU, onde 184 países votaram pelo fim dessas medidas), Cuba conseguiu a aprovação de duas de suas vacinas candidatas, Abdala e Soberana 02, como eficientes vacinas contra a Covid-19. É o único país da nossa região que poderá não só vacinar toda a sua população com uma vacina produzida pelos seus próprios cientistas – até o fechamento desta edição 20% da sua população já está vacinada – mas também enviar vacinas aos países esquecidos pela doação seletiva, como é o caso da Venezuela.

No Haiti, no âmbito de seu governo inconstitucional, Jovenel Moïse foi assassinado na madrugada de 7 de julho em sua residência. Isso ocorreu no marco do adiamento do referendo e de uma crise política com altos níveis de violência e insegurança. Em junho, dezenas de pessoas foram assassinadas, entre elas a ativista feminista Antoinette Duclaire e o jornalista Diego Charles. Outra alarmante situação humanitária sobre a qual a OEA silencia ruidosamente, bem como a crise energética em Porto Rico e a vergonhosa construção do muro entre a República Dominicana e o Haiti.

Todas essas bases continentais se movem à medida que os EUA buscam desenvolver e garantir sua geopolítica em nossa região em meio à urgência de recuperar a hegemonia perdida na disputa com a China e a Rússia, como se fosse um jogo de WAR, com métodos de desestabilização política por meio do financiamento da USAID em países como Nicarágua e México, e seu cerco permanente à Venezuela e Cuba. Nesse contexto, Joe Biden participou da Cúpula do G7, e fez sua viagem pela Europa na qual se encontrou com Vladimir Putin, a quem passou de chamar de assassino no início de seu governo a considerá-lo um interlocutor válido alguns meses depois.

Diante disso, a América Latina e o Caribe continuam buscando cenários de encontro e articulação. Dessa forma, durante o mês de junho, se desenvolveu a ação continental em defesa do meio ambiente contra o capitalismo predatório, o Congresso do Bicentenário dos povos do mundo em comemoração aos 200 anos da Batalha de Carabobo – que deu a independência à Venezuela e assegurou um golpe certeiro na campanha de libertação de Simón Bolívar em todo o continente – e na Cúpula de Chefes de Estado da ALBA-TCP com a participação pela primeira vez do Presidente da Bolívia, Luis Arce Catacora.

Por meio desse mapa de navegação, elaboramos este relatório n.13 do Obsal, entre os Escritórios de São Paulo e Buenos Aires do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Desta vez, com esperanças e ares de mudança, também com fortes advertências e preocupações, mas com a certeza enraizada do que dizia Salvador Allende durante o golpe de Estado perpetrado pela CIA contra ele em 1973: “A história é nossa, e a fazem os povos”. Quarenta e oito anos depois, vemos isso.

 

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