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Arte e CulturaBoletim de Arte

Não se pode engolir uma agulha, por menor que seja: o escultor da resistência de Okinawa

Boletim de Arte n. 26 (abril 2026)

O escultor Kinjo Minoru homenageia as vidas dos okinawanos levados ao suicídio coletivo pelo Exército Imperial Japonês na Caverna Chibichiri, em abril de 1945, durante a Guerra Mundial Antifascista.

Ouça o rapper de Okinawa Kakumakushaka, a cantora de jazz de Okinawa Takako Gibo e o rapper japonês Kinoko Beats cantando sobre guerra e paz, de Okinawa à Palestina, em japonês, inglês e uchinaguchi (idioma indígena da região de Luchuan).

Ikusa yu nu Nuwati
Miruku yu nu
Iyarichun Nakuna yuu kuninga
Nuchi du Takara
Depois que a guerra acabar
Quando chegar o mundo de Miruku (paz)
Não repita essa dorA vida é um tesouro
– Ryūka de Okinawa, um poema lírico tradicional, atribuído ao rei Shō Tai (尚泰), o último do Reino de Ryukyu.

No caminho arborizado que leva à Caverna de Chibichiri, no sul de Okinawa, pequenas estatuetas de pedra se erguem entre as raízes das figueiras-de-bengala. Na altura dos quadris e isoladas, com as cabeças ligeiramente inclinadas e as mãos postas em oração. O musgo e os líquens começaram a tomar conta delas, como se a floresta as estivesse absorvendo lentamente. Ao sair da caverna, percebi as figuras com mais clareza do que quando entrei. Pareciam estar ali como testemunhas silenciosas ou guardiãs, colocadas ali para recordar os mortos e alertar os vivos. Mas sobre o que elas nos alertam?

Esculturas de Kinjo Minoru na Caverna Chibichiri.

Em 2 de abril de 1945, um dia após o desembarque das forças estadunidenses em Okinawa, cerca de 140 civis — em sua maioria idosos, mulheres e crianças — se refugiaram nesta caverna. Mais de oitenta deles foram levados ao suicídio depois que o Exército Imperial Japonês lhes disse que os soldados estadunidenses que se aproximavam eram “demônios vermelhos” que violariam e torturariam qualquer pessoa que capturassem. Como súditos do Imperador Hirohito, a rendição não era uma opção — a morte era preferível à vergonha de serem capturados vivos. Numa caverna vizinha, no entanto, todos sobreviveram, pois duas pessoas que tinham morado no Havaí e conseguiam se comunicar com os soldados estadunidenses lá se esconderam. Foi a supressão da verdade e a divulgação de mentiras por parte do exército japonês que tiraram a vida das pessoas na Caverna de Chibichiri. Durante as três décadas seguintes, nenhum dos sobreviventes falou dessa tragédia, que assombra a comunidade até hoje.

Ao caminhar das cavernas até a vila vizinha de Yomitan, fui recebida por uma estátua imponente que se erguia acima da tranquila rua da vila — uma mulher com o braço direito estendido em direção ao céu e a cabeça erguida, como se resistisse à violência que se abatia sobre ela. Com o braço esquerdo, ela segura quatro crianças pequenas bem junto ao corpo. Aos seus pés, encontrei as mesmas figuras de pedra solitárias, erguidas entre o cascalho e as ervas daninhas como se formassem uma procissão. Eles nos conduziram por um caminho até um pátio, onde nos deparamos com grandes esculturas em relevo e um senhor de barba branca sentado em uma cadeira de jardim de plástico.

Somos ryukyuanos, nunca japoneses

Entrada da oficina de Kinjo Minoru.

Kinjo Minoru (金城実) tem 86 anos. Nascido em 1939 na pequena ilha de Hamahiga, Kinjo perdeu o pai em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial — ou a Guerra Mundial Antifascista —, antes mesmo de ter tido a oportunidade de conhecê-lo. Kinjo passou décadas construindo uma obra monumental de escultura que narra as histórias marcantes de Okinawa antes, durante e depois da Batalha de Okinawa de 1945, uma das campanhas mais sangrentas da Guerra do Pacífico. As obras são feitas de concreto, gesso e armação metálica — os mesmos materiais de construção usados diariamente em Henoko para construir mais uma base militar dos EUA. Kinjo as utiliza para recuperar aquilo que aquelas bases foram construídas para fazer as pessoas esquecerem. As superfícies de suas obras são ásperas, porosas e inacabadas, não porque falte refinamento ao artista, mas porque a história que suas obras carregam ainda é, ela própria, inacabada, crua e contestada.

Na galeria ao ar livre da oficina de Kinjo, você encontra painéis em relevo com cerca de um andar de altura. Figuras quase em tamanho real de civis, soldados, mães e crianças emergem da parede em alto-relevo, inclinando-se em sua direção como se quisessem contar sua história. São uma metáfora concreta do que Kinjo entende como a condição de seu povo: imersos numa história que não escolheram, lutando contra ela, mas ainda não libertos dela.

O próprio Kinjo nos conduz pelos quadros, apontando com sua bengala de madeira e narrando cada cena.

Kinjo Minoru com sua arte gravada na Caverna de Chibichiri.

“Por que uma mãe mataria a própria filha?” Kinjo pergunta, diante de um painel no qual os corpos de mulheres e crianças estão tão entrelaçados que é impossível distinguir quem está protegendo quem, e quem está matando quem. Ele continua: “Por que um irmão mataria o próprio irmão mais novo?” Você deveria fazer essa pergunta. “Por que isso aconteceu apenas aqui em Okinawa, e não no Japão continental?”.

A resposta dele vai direto à raiz colonial. Por mais de quinhentos anos, o Reino de Ryukyu governou essas ilhas como um Estado independente, com suas próprias línguas, culturas, religiões e relações diplomáticas — mantendo relações comerciais com o Leste e o Sudeste Asiático, além de laços tributários com a China e desenvolvendo uma civilização distinta da japonesa. Em 1879, o governo Meiji anexou o reino à força, depôs seu último rei, Shō Tai, e transformou as ilhas na Província de Okinawa, o território mais meridional, mais pobre e mais dispensável de um império em rápida industrialização. O que se seguiu foi uma repressão cultural sistemática destinada a apagar a identidade ryukyuan e formar súditos imperiais leais.

O governo Meiji nomeou um novo governador, Matsuda Michiyuki, e trouxe educadores do Japão continental para transformar as escolas de Okinawa em instrumentos de assimilação imperial. No entanto, o governo Meiji se recusou a criar universidades em Okinawa, apesar de assim ter feito em todos outros distritos. “Por quê?”, Kinjo pergunta. “Para nos controlar”. Os suicídios em massa em Chibichiri não foram exceções — foram o resultado lógico de um sistema educacional colonial que passou décadas ensinando os habitantes de Okinawa a morrer por um imperador que nunca os tratou como iguais. “Somos de Ryukyu”, diz-me Kinjo com ar desafiador. “Eu nunca serei japonês”.

Apesar dessa história angustiante, alguns políticos japoneses afirmam hoje que não houve coerção militar por trás dos suicídios em massa em Okinawa, enquanto outros negam as atrocidades cometidas pelo Japão durante a guerra, incluindo o Massacre de Nanjing, que ceifou a vida de 300 mil chineses em poucas semanas. As esculturas de Kinjo são uma lembrança e uma contestação concreta: uma história difícil e pesada que se recusa a ser suavizada.

Uma ilha que não pode ser engolida

Detalhe da obra de Kinjo Minoru.

Hoje, Okinawa representa apenas 0,6% da área territorial do Japão, mas abriga cerca de 70% de todas as instalações militares dos EUA no país. Ao ver o distrito com os próprios olhos, percebe-se rapidamente que não se trata de bases isoladas; trata-se de uma ocupação militar permanente da vida cotidiana. Cercas isolam o litoral, caças rasgam o ar e comunidades inteiras ficam cercadas por infraestruturas construídas para a guerra.

A mesma ilha, que serviu de campo de batalha em 1945, está sendo preparada para voltar a estar na linha de frente, com a China sendo retratada como o “demônio” de uma Nova Guerra Fria. Há novas implantações de mísseis, planos de evacuação estão sendo elaborados, exercícios militares conjuntos entre os EUA e o Japão estão em andamento e uma nova base militar estadunidense está sendo construída na vila de Henoko, em Okinawa. Tudo isso apesar de três décadas de oposição majoritária por parte dos habitantes de Okinawa, expressa por meio de referendos e protestos diários liderados pelos anciãos das comunidades afetadas e organizados em movimentos de base, incluindo o “No More Battle of Okinawa” [Basta de Batalha de Okinawa], que recebeu a visita do Instituto Tricontinental.

Apesar dos corajosos atos de resistência, Kinjo observa essa ocupação com a impaciência de quem já teve paciência demais. “Os habitantes de Okinawa são muito calados, muito gentis”, ele me disse durante nossa visita. “Eles deveriam ficar mais irritados”. “Se [os exércitos dos EUA e do Japão] querem usar Okinawa, deveriam nos tratar como seres humanos”. Mas ele não se desespera. “Enquanto eu estiver vivo, pode ser difícil, mas a próxima geração — tenho certeza de que eles vão se levantar e resistir”.

“Okinawa é pequena”, disse Kinjo. “Mas não dá para engolir uma agulha”.

Das cavernas de Okinawa aos bunkers de Chongqing

Obra de arte de Kinjo Minoru retratando o bombardeio de Chongqing.

Um painel na oficina de Kinjo merece atenção especial: foi criado em colaboração com artistas de Chongqing, na China, que viajaram até Okinawa para trabalhar ao lado dele. Durante a Guerra Mundial Antifascista, as forças armadas japonesas submeteram Chongqing a anos de bombardeios estratégicos, especialmente entre 1938 e 1943, matando milhares de pessoas e levando a população a se refugiar em cavernas e bunkers escavados nas encostas da cidade. Dois povos que estiveram em lados opostos da mesma guerra imperial, ambos abrigados em cavernas, criam arte juntos oito décadas depois.

A ressonância se intensifica quando Kinjo conta uma história notável que une as histórias de resistência de ambos os povos. Em outubro de 1962, no auge da Crise de Outubro de 1962 (conhecida no Ocidente como a Crise dos Mísseis de Cuba), as tripulações da Força Aérea dos EUA em Okinawa receberam ordens para lançar 32 mísseis de cruzeiro Mace B com ogivas nucleares contra alvos em toda a Ásia, incluindo Pequim, onde moro. Os oficiais de lançamento em terra questionaram a ordem e se recusaram a prosseguir. O fato de os artistas de Chongqing e o escultor de Okinawa estarem agora construindo algo juntos — mãos moldando o mesmo concreto, esculpindo a mesma história a partir de dois lados — não é meramente simbólico. É uma recusa viva à guerra que quase os destruiu a ambos e à Nova Guerra Fria que ameaça fazê-lo novamente.

Não chore — Estude sua própria história

Obra de arte de Kinjo Minoru sobre a Batalha de Okinawa.

Os pais de Kinjo se casaram aos 18 anos. Depois que seu pai foi morto na guerra, sua mãe nunca mais se casou. Ela chorava todos os anos no dia 23 de junho, Dia da Memória de Okinawa. Certa vez, Kinjo disse a ela: “Não chore. Não estou triste pela morte do meu pai. Era uma época assim. Todos sofreram. Um em cada quatro morreu na guerra de Okinawa. Hoje não é dia para chorar. É um dia para refletir sobre a sua própria história: História de Okinawa”.

Foi isso que Kinjo Minoru fez com a sua vida. Transformando o luto e a raiva em escultura — imprimindo as formas dos mortos no concreto para que os vivos não possam fingir que eles nunca existiram. O seu ateliê não é uma galeria burguesa. As esculturas ficam ao ar livre, sofrendo as intempéries tal como a própria ilha, e são visitadas por estudantes, visitantes internacionais e velhos amigos que vêm ver seu trabalho e ouvir suas histórias.

Mas a questão já não se resume apenas a 1945. Kinjo percebe claramente o que está acontecendo agora. Ele observa que 70% dos jovens de Okinawa não sabem o que o Japão fez na Ásia durante a guerra — na China, na Coreia e no Sudeste Asiático. “Talvez eles não apoiassem o primeiro-ministro”, diz ele, “e a mídia fala da China como uma ameaça”. O mesmo mecanismo que outrora levou as mães de Okinawa a matarem seus próprios filhos — a educação militarizada, o medo induzido e a supressão do conhecimento histórico — está sendo reativado hoje em torno da “ameaça” chinesa. Okinawa, mais uma vez, está sendo preparada para servir de zona de sacrifício. Mas os habitantes de Okinawa, como Kinjo, continuam a se lembrar — e a resistir.

Tinsagu nu hana ya, chimasaki ni sumiti
Uya nu yushi gutu ya, chimu ni sumiri
A flor de bálsamo tinge as pontas dos dedos
Os ensinamentos dos pais moldam o coração
– Tinsagu nu Hana (てぃんさぐぬ花, Flores de bálsamo), canção folclórica de Okinawa.

Cordialmente,

Tings Chak

Diretora de arte do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

PS: Junte-se a nós no dia 30 de abril, no 51º aniversário do Dia da Libertação do Vietnã, para um webinário para lançar “Hands Off Asia! [Tire as mãos da Ásia!]”, a campanha da Assembleia Internacional dos Povos contra o militarismo dos EUA na região.