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Quando a revolução chegar, nossas canções serão entoadas

Boletim de arte n. 23 (Janeiro 2026)

Os movimentos sociais coreanos estão reaproveitando a tradição do minjung-gayo (música popular) ao incorporar criativamente o K-pop e mensagens sobre as lutas das mulheres na atualidade.

Ouça “March for the Beloved” (임을 위한 행진곡), escrita em 1981 pelo letrista e ativista Paik Ki-wan.

 

Sem deixar para trás nenhum amor, honra, nem mesmo nomes
Apenas um juramento ardente, feito até o fim de nossas vidas.
Camaradas se foram, mas nossa bandeira ainda tremula.
Não tremamos até que um novo dia chegue.
Anos passam, mas a terra se lembra
Aquele ardente clamor pelo despertar:
Enquanto lideramos o caminho, que os vivos nos sigam!

– “March for the Beloved” (임을 위한 행진곡, 1981)

Em 1º de novembro de 2025, manifestantes se reuniram por toda a Coreia do Sul, entoando o cântico “Sem rei: Trump não é bem-vindo!”. Esses protestos foram organizados em resposta à reunião da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec, na sigla em inglês) em Gyeongju, que ocorreu de 31 de outubro a 1º de novembro. À margem dessa reunião, Donald Trump confirmou que imporia tarifas à Coreia do Sul, resultando na extorsão de 350 bilhões de dólares, um plano que ele já havia anunciado no início daquele ano. Esse foi mais um exemplo da agenda “América Primeiro” de seu governo, que subordina a soberania das nações em todo o mundo, sobretudo as do Sul Global. Enquanto a reunião da APEC acontecia em Gyeongju, centenas de pessoas se reuniram nas proximidades, na Cúpula dos Povos, para ler e assinar a Declaração Popular de Gyeongju, um documento que clama por uma economia para todos, e não apenas para poucos.

Hong Song-dam, May-27 Daedong Sesang [Um Mundo de Grande Unidade], 1984.

Antes do início da cúpula, a multidão fez um minuto de silêncio em homenagem aos mártires mortos durante o Levante de Gwangju de 1980, um protesto liderado por estudantes contra o regime militar de Chun Doo-hwan (1980-1988) que terminou em um massacre violento, e em seguida cantaram “Marcha pelos Amados”. Escrita em 1981 pelo letrista e ativista Paik Ki-wan para homenagear os massacrados no Levante de Gwangju do ano anterior, a canção tornou-se um hino dos movimentos sociais coreanos. Essa prática de honrar os mártires cantando juntos, um exemplo de minjung-uirye (민중의례, ou “juramento do povo”), começou como uma recusa consciente dos ativistas sul-coreanos em jurar lealdade à bandeira nacional durante a ditadura militar de Chun.

Durante minha estadia na Coreia para a Cúpula Popular, busquei compreender o papel de uma tradição similar, o minjung-gayo (민중가요, “canções do povo”), nos movimentos políticos coreanos contemporâneos. Esse gênero de música de protesto coreana surgiu durante as lutas contra as ditaduras militares que governaram a Coreia do Sul de 1961 a 1988, antes e durante o regime de Chun, e continua sendo utilizado por movimentos sociais até hoje.

Este boletim se baseia em conversas que tive com membros de coletivos artísticos como o Maru (마루), que se apresentou no comício da cúpula, e o recém-formado grupo vocal feminista norae-pae I-eum (이음, “conexão” ou “laços”), integrante da Associação de Mulheres de Seul (서울여성회), que luta pela igualdade de gênero. O que emergiu das minhas conversas foi um retrato da tradição radical viva do minjung-gayo, passando por um renascimento silencioso e até mesmo se cruzando de novas maneiras com questões de gênero e com a indústria do K-pop altamente comercializada para levar adiante a mensagem do povo hoje.

Música popular contra a ditadura e pela reunificação

Uma mobilização durante a Cúpula Popular em Gyeongju, onde manifestantes cantaram “Marcha dos Amados” (à direita).

Minjung-gayo distingue canções criadas para e pelo povo de daejung-gayo (대중가요), ou música popular convencional. Durante a era da ditadura militar, criar minjung-gayo era perigoso. Em 1971, por exemplo, a junta militar proibiu a canção pioneira de Kim Min-gi (김민기) “Orvalho da Manhã” (아침 이슬). No entanto, as pessoas encontraram maneiras de acessar a canção, e ela se tornou um dos hinos mais amados do movimento de democratização, que continua sendo tocado em protestos até hoje.

Segundo Kang Hyo-jun (강효준), do coletivo Maru, embora o minjung-gayo já tivesse surgido como gênero, “explodiu” apenas após a Grande Luta dos Trabalhadores de 1987, quando mais de três milhões de trabalhadores iniciaram greves que finalmente forçaram reformas democráticas na Coreia do Sul. “Muitas músicas novas estavam sendo escritas [durante esse período]”, explicou Kang.

Para muitos no movimento minjung das décadas de 1970 e 1980, a luta pela democracia era inseparável das antigas reivindicações pela reunificação e libertação nacional, desde a partição da Coreia em 1945 até a devastação causada pela Guerra da Coreia imperialista, iniciada na década de 1950, e a presença permanente dos EUA na Coreia do Sul em 1957. Canções como “Nosso desejo é a reunificação” (우리의 소원), composta originalmente por Ahn Byung-won em 1947 com letra de seu pai, Ahn Suk-ju, davam voz ao anseio pela reunificação da Coreia. Outras canções se inspiravam em tradições musicais indígenas, como o pansori (판소리), um gênero de narrativa musical, e os ritmos xamânicos gut (굿), resgatando tradições culturais que sobreviveram à colonização e mobilizando-as como recursos para as lutas contemporâneas.

No entanto, pouquíssimas canções novas foram escritas nas últimas décadas, uma tendência que reflete o próprio enfraquecimento do movimento progressista da Coreia do Sul. “O movimento artístico popular não pôde deixar de acompanhar esse declínio”, refletiu Kang. Coletivos como o Maru trabalham para manter viva a tradição do minjung-gayo: como Kang me disse, “devemos (…) continuar compondo novas canções, expandir nossa solidariedade e ouvir as histórias do povo para transformá-las em ainda mais canções novas”. A visão do Maru visa ampliar a base do seu movimento social por meio de músicas que representem as lutas do povo hoje. “Quando chegar o momento revolucionário e quando um novo mundo surgir”, expressou, “cantarão nossas canções”.

De forma semelhante, o grupo de canto norae-pae I-eum, da Associação de Mulheres de Seul, busca criar minjung-gayo que represente as lutas do povo, incluindo a resistência ao patriarcado. Kim Jee Un (김지은), diretora da associação e líder do grupo, relembrou como a primeira apresentação, no início de 2025, emocionou profundamente o público, “porque quando pensavam em minjung-gayo, geralmente só imaginavam homens cantando”. O grupo valoriza intencionalmente músicas de protesto escritas por mulheres sobre as lutas femininas, já que existem poucas canções desse tipo – e “algumas são escritas por homens com conteúdo sexista”, explicou Kim. Além de expandir o papel do minjung-gayo na libertação feminina, ativistas coreanas também reinventaram a relação do gênero com a música mainstream, como o K-pop, para condenar a violência política e atrair novos membros para a sua luta.

K-Pop pelo impeachment

Uma mobilização em 6 de dezembro anterior à votação do impeachment de Yoon Suk-Yeol na semana seguinte. Crédito: International Strategy Center.

Estamos cantando; vamos melhorar.
Lembramos dos dias desperdiçados de forma tola.
Ainda assim, não é bom?
Mesmo em meio a um rio de lágrimas,
Estamos aqui juntos.
Não é engraçado?
Se tivéssemos ficado sentados chorando,
Nunca teríamos nos conhecido neste mundo.

– “Isn’t That Good?” (좋지 아니한가), capa de 2022 por YUDABINBAND (YdBB).

Em 3 de dezembro de 2024, o presidente de direita Yoon Suk-Yeol declarou lei marcial, alegando que o objetivo era “salvaguardar a ordem constitucional e a estabilidade nacional” contra “elementos antiestatais”, incluindo supostas forças pró-Coreia do Norte que estariam minando o governo. Sua declaração de lei marcial desencadeou protestos e acampamentos massivos em Seul, apesar das noites frias de inverno. Em duas semanas, Yoon foi destituído do cargo pela Assembleia Nacional. O movimento que acabou por derrubá-lo surgiu dos protestos à luz de velas de 2016-2017 contra Park Geun-hye, líder de extrema-direita e filha do ex-ditador militar Park Chung-hee. Ambos os movimentos utilizaram um arsenal musical perceptivelmente híbrido.

Além das tradicionais canções de minjung-gayo apresentadas em manifestações, os organizadores incorporaram o popular gênero K-pop em sua estratégia de mobilização. Por exemplo, músicas do estilo foram tocadas durante os protestos de 2016-2017, intercaladas com discursos e palavras de ordem políticas. Uma dessas músicas é “Into the New World” (다시 만난 세계), do Girls’ Generation, cuja letra, que fala sobre um sentimento geral de “não desistir”, e foi reinterpretada como uma visão de libertação coletiva do regime de direita.

Kim descreveu a comoção que isso causou entre militantes veteranos, que reclamaram que o K-pop e os lightsticks (varetas de luz, acessórios populares que os fãs levam aos shows de K-pop) estavam “arruinando a tradição”. No entanto, ela sustentou que um movimento é sobre o povo: se o K-pop desempenhou um papel ao incentivar os jovens a retornarem semana após semana, ele deveria ter um lugar na luta.

Mais uma vez, avante! 또 다시 앞으로!

Members of Maru (left) and norae-pae I-eum (right). Crédito: Maru and Seoul Women’s Association.

Aqueles anos amargos, aqueles dias sujos e temerosos.
Mais uma vez, vamos nos erguer acima deles
E marchar ao ritmo da história.
Um! Dois! Três!
Avante! Mais uma vez, avante!

– ‘Mais uma vez, avante!’ (또 다시 앞으로)

Ação de solidariedade com a Venezuela, 10 de janeiro de 2026. Crédito: Centro de Estratégia Internacional.

Os mesmos movimentos coreanos que se mobilizaram contra a visita de Trump durante a APEC convocaram agora uma Ação Popular Internacional para denunciar um ano do regime do presidente estadunidense. Essa declaração condena a violência imperialista da administração Trump em todo o mundo, do apoio e financiamento do genocídio em curso na Palestina até o recente bombardeio de Caracas, na Venezuela, e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, a deputada Cilia Flores, em 3 de janeiro de 2026 (veja o cartaz criado pela Assembleia Popular Internacional – uma imagem entre muitas que serão exibidas em manifestações de solidariedade à Venezuela em todo o mundo). Em última análise, os movimentos populares da Coreia à Venezuela nos lembram que a luta continua, assim como suas canções.

Atenciosamente,

Tings Chak
Diretora de Arte, Instituto Tricontinental de Pesquisa Social