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	<title>Boletim Nuestra América Archives - Tricontinental: Institute for Social Research | Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</title>
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	<description>international, movement-driven institution focused on stimulating intellectual debate that serves people’s aspirations.</description>
	<lastBuildDate>Thu, 27 Aug 2026 18:12:37 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-PT</language>
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	<item>
		<title>A defesa de Cuba e do socialismo &#8211; Reflexões da IV Assembleia Continental da ALBA Movimentos em Havana</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/a-defesa-de-cuba-e-do-socialismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laura Capote]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Aug 2026 08:00:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[cuba]]></category>
		<category><![CDATA[ALBA Movimientos]]></category>
		<category><![CDATA[Socialism]]></category>
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		<category><![CDATA[Assembleia Continental]]></category>
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					<description><![CDATA[Para comemorar o centenário de Fidel e enviar uma mensagem de solidariedade a Cuba, foi realizada a IV Assembleia Continental da ALBA Movimentos, em Havana.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--author single-post--author--dynamic"><p class="single-post--author--name">Por <strong class="author-link" id="author-span-0" data-author="0">Laura Capote</strong></p></div>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_153798" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-153798" class="wp-image-153798 size-large" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/1-1-1024x683.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/1-1-1024x683.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/1-1-300x200.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/1-1-768x512.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/1-1-1536x1024.jpg 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/1-1.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-153798" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Altar para Fidel Castro durante a IV Assembleia Continental de ALBA Movimentos (Pedro Pablo Chaviano).</small></p></div>
</div>
<p>Estimadas e estimados camaradas,</p>
<p>Saudações desde o Escritório <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/">Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>.</p>
<p>Durante o mês de agosto, em cada canto do nosso continente, acompanhamos as celebrações do centenário do nascimento do Comandante em Chefe da Revolução Cubana, Fidel Castro, e priorizamos, no Tricontinental, prestar uma homenagem a partir da recuperação de seu <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/fidel-legado-socialista/">legado</a>. Nesse marco, também participamos da IV Assembleia Continental da ALBA Movimentos, realizada em Havana, Cuba, de 6 a 9 de agosto, com o objetivo de enviar uma mensagem de solidariedade ao povo cubano e de defesa irrestrita de sua Revolução, um dos principais campos de batalha da nova ofensiva do imperialismo sobre o nosso continente.</p>
<p>Não atravessamos uma conjuntura simples e, nesse sentido, não apenas temos um acordo comum, como também estabelecemos uma de nossas principais prioridades para a pesquisa que realizamos a partir do Escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental. Como <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/">poderão ver na página web</a>, estamos desenvolvendo uma série de projetos que, por um lado, buscam mapear qual é a caracterização atual das esquerdas em nosso continente, levando em conta o fortalecimento dos governos de extrema direita na região e os desafios políticos e organizativos que este momento coloca para as classes populares. Da mesma forma, estamos nos perguntando sobre o <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-o-futuro/">Futuro</a>, tal como desenvolvemos no Dossiê 100 do Instituto, e quais são essas disputas a partir do nosso continente.</p>
<p><span style="font-size: inherit; letter-spacing: -0.01em;">Celebrar Fidel é, sem dúvida, uma oportunidade de aprofundar essas duas questões. Em uma relação dialética, a construção do futuro só se realiza em nosso presente, o que nos obriga a perguntar como, no cotidiano, damos passos firmes em direção ao único horizonte possível para a salvação da humanidade: o socialismo.</span></p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_153806" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-153806" class="wp-image-153806 size-large" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/2-1-1024x683.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/2-1-1024x683.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/2-1-300x200.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/2-1-768x512.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/2-1-1536x1024.jpg 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/2-1.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-153806" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Abertura da mostra FIDEL X 100 no Edifício Varona da Universidade de Havana durante a IV Assembleia Continental de ALBA Movimentos (Utopix).</small></p></div>
</div>
<p>Em Havana, com cerca de 200 delegados e delegadas de 27 países e 132 organizações, debatemos durante quatro dias não apenas sobre a necessidade, mas sobre a urgência da construção do socialismo como garantia para a defesa da soberania e da integração continental, com uma visão unitária em torno do inimigo que temos diante de nós e que hoje perpetua um genocídio silencioso contra o povo de Fidel. Pudemos ver, em meio aos ricos debates, a absoluta determinação de Cuba em defender sua Revolução até as últimas consequências, apesar dos efeitos devastadores do recrudescimento do bloqueio energético desde janeiro deste ano, que veio aprofundar os 60 anos anteriores de bloqueio ilegal à ilha por parte dos Estados Unidos.</p>
<p>A ALBA Movimentos é uma articulação continental de movimentos sociais e populares que reúne cerca de 400 organizações de 25 países da região e que, assim como o Tricontinental, integra a Assembleia Internacional dos Povos (AIP). Neste boletim, queremos compartilhar alguns fragmentos da <a href="https://albamovimientos.net/declaracion-final-iv-asamblea-continental-de-alba-movimientos-por-el-socialismo-cien-anos-caminando-con-fidel/">Declaração Final</a> da IV Assembleia Continental que sintetiza alguns dos principais desafios que enfrentamos como região. O Tricontinental, na qualidade de instituto de pesquisa que trabalha em parceria com os movimentos sociais, tem como prioridade investigar esses temas.</p>
<p><span style="font-size: inherit; letter-spacing: -0.01em;">“</span>A ofensiva contra Cuba responde à natureza de um imperialismo em profunda crise de hegemonia, que se depara com a comprovada incapacidade de oferecer um futuro para o planeta. As guerras e os genocídios que promove são a prova mais clara de sua decadência e o sinal de que, antes de morrer, o monstro pensa em levar consigo tudo aquilo que considera seu. Nessa fantasia predatória dos <a href="http://ee.uu/">EUA</a>, nosso continente está situado, e a velha fórmula da Doutrina Monroe se recrudesce mais do que nunca, para punir nossos povos e destruir toda possibilidade de transformação social do sistema capitalista.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_153814" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-153814" class="wp-image-153814 size-large" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/3-1-1024x683.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/3-1-1024x683.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/3-1-300x200.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/3-1-768x512.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/3-1-1536x1024.jpg 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/3-1.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-153814" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Cartazes da exposição FIDEL X 100 na Universidade de Havana (Utopix).</small></p></div>
</div>
<p>A bota imperialista nunca deixou nossa região. Por meio de métodos dissimulados, sempre esteve presente na América Latina e no Caribe. No entanto, hoje, a remilitarização do continente se configura como uma das principais ameaças à nossa soberania e integração. Sob o argumento da luta contra o “terrorismo internacional”, o imperialismo impulsiona o projeto Escudo das Américas e, nesse marco, desencadeou-se na região um enorme deslocamento do Comando Sul, com a denominada “Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental”.</p>
<p>Essa ofensiva teve como principal cenário a região do Caribe, como primeira fronteira imperial. Aqui, nesses mares imensos, repletos de riqueza e diversidade, desenvolveram-se os cenários que marcaram a trajetória da luta anticolonial pela independência e pela soberania em todo o nosso continente. E justamente este é o cenário central deste período de remilitarização. Sob o pretexto da guerra contra o narcotráfico, vimos durante meses bombardeios e assassinatos deliberados de pescadores do Caribe perpetrados pelos <a href="http://ee.uu/">EUA</a>, que pretendiam justificar a ofensiva militar na região e que se concretizaram no ataque contra a Revolução Bolivariana da Venezuela na madrugada de 3 de janeiro.</p>
<p><span style="font-size: inherit; letter-spacing: -0.01em;">Hoje, o mapa político de nossa região mudou radicalmente. A chegada de governos de extrema direita e de características fascistas aos países de nossa região implica não apenas uma ameaça aos nossos povos e às conquistas que pudemos alcançar nesses anos. Essa extrema direita fascista criminaliza aqueles que lutam e, por isso, exigimos a libertação dos presos políticos, lutadores e lutadoras vítimas dela. Esse avanço não ocorre apenas no âmbito institucional, mas também ameaça a própria existência da democracia. A crise da democracia liberal ainda é fruto do próprio neoliberalismo; por isso, afirmamos que defendemos outro modelo, não qualquer democracia, mas uma democracia popular, participativa e protagonista, na qual o povo seja quem oriente os destinos da Pátria.</span></p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_153822" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-153822" class="wp-image-153822 size-large" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/4-1024x683.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/4-1024x683.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/4-300x200.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/4-768x512.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/4-1536x1024.jpg 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/4.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-153822" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Cartazes da exposição FIDEL X 100 na Universidade de La Havana (Pedro Pablo Chaviano).</small></p></div>
</div>
<p>Os povos da Argentina, Chile, Equador, Paraguai, Peru, Colômbia, Bolívia, Panamá, Costa Rica, El Salvador, Honduras e muitos outros hoje precisam enfrentar a violência fascista e criminalizadora de seus governos, enquanto buscam avançar nas reivindicações históricas das classes populares: a reforma agrária e a redistribuição da terra, os direitos trabalhistas, o direito à educação, o acesso universal aos sistemas de saúde etc. Sabemos que esse projeto desenhado pelo imperialismo estadunidense busca eliminar a força política organizada que nós, enquanto povos, constituímos ao longo dos séculos, especialmente os setores organizados de nossa região, como os povos indígenas, afrodescendentes, as mulheres e as juventudes.</p>
<p>Companheiras e companheiros, não temos outro caminho senão avançar como povos. Retroceder não é sequer uma possibilidade remota. Devemos nos qualificar nos terrenos em que o inimigo conseguiu impulsionar uma guerra cognitiva que, até o momento, tem lhe proporcionado bons resultados: o uso da inteligência artificial, a utilização dos meios de comunicação e das redes sociais e o manejo dos algoritmos são territórios que temos o dever de conhecer e dominar, para utilizar esse conhecimento produzido pela humanidade e pela classe trabalhadora em uma direção orientada à emancipação dos povos.</p>
<p><span style="font-size: inherit; letter-spacing: -0.01em;">Esta Assembleia é um marco em nossa articulação. Chegamos a Cuba sob o lema “pelo socialismo, cem anos caminhando com Fidel”. Partimos com a reafirmação de que o socialismo não é apenas urgente, mas necessário, e o que nos espera daqui em diante é o compromisso radical de construí-lo, em cada escola, cada bairro, cada comunidade, cada território, cada local de trabalho. A melhor maneira de honrar esse horizonte e assegurá-lo não é apenas enunciá-lo, mas dedicar nossos esforços e nossas vidas a não baixar os braços até que tenhamos erradicado do planeta a desigualdade e a exploração.</span></p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_153830" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-153830" class="wp-image-153830 size-large" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/5-1024x683.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/5-1024x683.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/5-300x200.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/5-768x512.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/08/5.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-153830" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Apresentação da La Colmenita durante a noite cultural da IV Assembleia Continental de ALBA Movimentos no Teatro Martí de Havana (Pedro Pablo Chaviano).</small></p></div>
</div>
<p>A luta contra o imperialismo e suas expressões fascistas é nossa máxima prioridade. Não é possível construir esse caminho sem internacionalismo, sem feminismo popular e sem a participação dos povos originários, afrodescendentes e das trabalhadoras e trabalhadores do campo e da cidade. A partir desse mínimo, e junto às nossas redes irmãs na região e no mundo, abrimos um caminho de coordenação e confluência para construir uma grande articulação que nos permita dar passos firmes e eficazes rumo a esse objetivo. A partir da ALBA Movimentos, nos levantamos hoje e sempre ao lado dos povos da Palestina, do Sudão, da região do Sahel e de todos aqueles que, com sua resistência histórica e sua coragem, dão exemplo de dignidade”.</p>
<p><span style="font-size: inherit; letter-spacing: -0.01em;">Assim como Fidel Castro defendeu o legado de José Martí como membro da Geração do Centenário do nascimento do apóstolo, em 1953, nós faremos o mesmo com o legado do Comandante em Chefe: somos a nova Geração do Centenário que, no nosso caso, a partir da Trincheira da Batalha das ideias e das emoções, da produção de pensamento crítico e da pesquisa social comprometida e rigorosa pelos e para os povos, seguiremos construindo o caminho necessário de organização e consciência para alcançar o futuro socialista.</span></p>
<p>Laura Capote</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/10/lau-retrato.png" width="1080" height="1080"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Laura Capote</strong></p><small>Laura é uma militante social e pesquisadora colombiana. É formada em Ciências da Comunicação Social pela Universidade de Buenos Aires e mestranda em Relações Internacionais pela Universidade Nacional de La Plata. Está no Tricontinental desde 2019 e pesquisa a realidade política e social da América Latina e do Caribe. Atualmente, é <strong>Co-Coordenadora do Escritório Nuestra América do Tricontinental</strong> e, desde 2018, integra a Secretaria Operativa Continental da ALBA Movimentos.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O dilema argentino: modelo dato-exportador ou soberania digital</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/boletim-dilema-argentino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alejandro Jasinski]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2026 21:48:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Corporações não humanas]]></category>
		<category><![CDATA[IA]]></category>
		<category><![CDATA[Soberanía digital]]></category>
		<category><![CDATA[Peter Thiel]]></category>
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		<category><![CDATA[Tricontinental]]></category>
		<category><![CDATA[Jeff Xiong]]></category>
		<category><![CDATA[Milei]]></category>
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					<description><![CDATA[Milei e Thiel desenvolvem “corporações não humanas” e acabam com os limites de terras para estrangeiros. Do modelo agro-exportador ao modelo dato-exportador. O dilema: colônia ou soberania digital. Marx já o explicou.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_151152" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-151152" class="wp-image-151152 size-large" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Enrique-Sobisch-Argentina-Dawn-1989-825x1024.jpg" alt="" width="825" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Enrique-Sobisch-Argentina-Dawn-1989-825x1024.jpg 825w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Enrique-Sobisch-Argentina-Dawn-1989-242x300.jpg 242w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Enrique-Sobisch-Argentina-Dawn-1989-768x953.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Enrique-Sobisch-Argentina-Dawn-1989-1237x1536.jpg 1237w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Enrique-Sobisch-Argentina-Dawn-1989.jpg 1350w" sizes="auto, (max-width: 825px) 100vw, 825px"><p id="caption-attachment-151152" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Enrique Sobisch (Argentina), <em>Dawn</em>, 1989. <a href="https://es.wikipedia.org/wiki/Enrique_Sobisch#/media/Archivo:%22Dawn%22_(1989).jpg">CC BY-SA 3.0</a></small></p></div>
</div>
<div class="single-post--author single-post--author--dynamic"><p class="single-post--author--name">Por <strong class="author-link" id="author-span-0" data-author="0">Alejandro Jasinski</strong></p></div>
<p>Prezadas amigas e amigos,</p>
<p>Saudações da Oficina Nuestra América do <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/">Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</a></p>
<p>Este mês nos encontramos envolvidos em bravatas incomparáveis, que nos levaram de um extremo ao outro na escala das emoções. Ainda sofremos junto às nossas companheiras e aos nossos companheiros da Venezuela, que seguem lutando para se reerguer após o devastador terremoto em La Guaira.</p>
<p>A Copa do Mundo teria sido um cenário incrível para impulsionar uma campanha de solidariedade de espírito humanista, mas esta é a Copa dos milionários, com ingressos que custam milhares de dólares, seus sistemas de apostas on-line e o individualismo característico de um capitalismo desenfreado.</p>
<p>Aliás, a Rússia não participou devido às sanções impostas contra o país em razão da guerra na Ucrânia, mas o genocida Trump desfilou com arrogância, limpando os sapatos sobre a cabeça do presidente da FIFA enquanto anunciava novos bombardeios ao Irã. A destacada atuação dos países do Sul Global, o título conquistado pelo jovem Lamine Yamal, que não se esqueceu da Palestina, e o desdém da zaga central argentina em relação a Trump durante a cerimônia de entrega das medalhas, entre outros acontecimentos, reforçam a mensagem insurgente da resistência: “As Malvinas são argentinas”, dizia a bandeira exibida pelos hermanos após a vitória épica sobre a Inglaterra.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_151171" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-151171" class="wp-image-151171 size-large" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Luisa-Vernet-Argentina-Puerto-Soledad-Malvinas.-1829-1024x598.jpg" alt="" width="1024" height="598" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Luisa-Vernet-Argentina-Puerto-Soledad-Malvinas.-1829-1024x598.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Luisa-Vernet-Argentina-Puerto-Soledad-Malvinas.-1829-300x175.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Luisa-Vernet-Argentina-Puerto-Soledad-Malvinas.-1829-768x449.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Luisa-Vernet-Argentina-Puerto-Soledad-Malvinas.-1829-1536x897.jpg 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Luisa-Vernet-Argentina-Puerto-Soledad-Malvinas.-1829-2048x1197.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-151171" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Luisa Vernet (Argentina), <em>Puerto Soledad, Malvinas</em>, 1829. Actualmente en el Museo Malvinas, Núñez, Buenos Aires, Argentina.</small></p></div>
</div>
<p>Enquanto isso, no Brasil e na Argentina, o Instituto Tricontinental tem impulsionado a agenda da Inteligência Artificial, com os olhos voltados para o futuro, como indicamos em nosso Dossiê nº 100, <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-o-futuro/"><em>O Futuro</em></a>. A visita do companheiro chinês Jeff Xiong em terras latino americanas permitiu-nos explicar o motivo pelo qual é importante estarmos na vanguarda desse desenvolvimento inevitável, mas também por que é fundamental ir além dos tentáculos do Vale do Silício. O modelo das corporações estadunidenses busca nos conduzir ao abismo do passado, ao período em que nossos países eram presas dos imperialismos e de um capitalismo devastador de nossos bens comuns. Aquele Modelo Agroexportador iniciado no final do século XIX — e que, aliás, jamais foi completamente superado — procura renascer, um século e meio depois, sob a forma do Modelo Dado-Exportador. Sim, os dados: o fator de produção cada vez mais valorizado na era das plataformas e do capitalismo <em>tech</em>. Naturalmente, em todas as reuniões que tivemos com Jeff — com pesquisadores, parlamentares, gestores públicos, sindicatos e jornalistas — nunca faltou a pergunta: “Não estaríamos apenas trocando uma coisa pela outra?”</p>
<p>Vejamos o caso da Argentina mais uma vez — que sociedade fascinante! No mesmo dia em que as ruas se enchiam de jovens gritando “Quem não pula é inglês!”, o partido A Liberdade Avança, do presidente Javier Milei, tentava aprovar no Congresso um projeto de lei que eliminava os limites para a compra de terras por estrangeiros, especialmente em áreas de fronteira. A oposição ao projeto foi fragmentada e frágil, mas ainda assim conseguiu adiar sua votação para o próximo dia 6 de agosto. Nesse processo, sem deixar de celebrar o avanço da seleção de futebol, pesquisadores que impulsionaram o <a href="https://www.observatoriodetierras.ar/">Observatório de Terras</a> assumiram a tarefa de desenvolver uma pedagogia sobre o colonialismo libertário. Eles explicam que a atual discussão sobre a revogação de dispositivos das Leis de Terras e de Glaciares ocorre em um país que já entregou cerca de 13 milhões de hectares — aproximadamente 5% de seu território, uma área equivalente à da Inglaterra — ao controle estrangeiro. Além disso, enfatizam o fato de que a verdadeira dimensão do fenômeno aparece em escala local, nas regiões onde se concentram cursos d’água, aquíferos ou jazidas de minerais estratégicos. Em departamentos como <a href="https://www.google.com/maps?client=firefox-b-d&amp;hs=lRJq&amp;sca_esv=30342252162f46f6&amp;output=search&amp;q=General+Lamadrid+en+La+Rioja&amp;source=lnms&amp;fbs=ABfTbFUDadgeu2mn4mYJ8iEZ1GUDd8ABuXxNzQEi57SWOuuPdWnr6CbijqIObRHAsFy-UJWoTM8aZiBG_34I3eK4-VpJPoyobXnkSaOz10I4BjgXU4f-kY9DYKv18LYGofsJ8bwqXQmPY8IC4u_bIkT4W1wa_-bKnwaK6nISWvKRTwLXf7mMXoN75dV-YcBLR37_S61qw-nyGUrbJWOxVt8xknte7sjKqg&amp;entry=mc&amp;ved=1t:200715&amp;ictx=111">General Lamadrid, na província de La Rioja</a>, mais da metade do território já pertence a proprietários estrangeiros. O que aconteceria se nem mesmo esses limites existissem?</p>
<p>E o que a terra tem a ver com a Inteligência Artificial? A resposta é: Peter Thiel. À primeira vista parece estranho, mas faz sentido. Thiel é um dos investidores mais influentes do Vale do Silício, cofundador do PayPal, primeiro investidor externo do Facebook e fundador da Palantir, empresa de vigilância e análise de dados que opera registros dos 45 milhões de argentinas e argentinos. Mas ele também é um ideólogo: defensor do liberalismo extremo, do antiestatismo e da separação radical entre democracia e liberdade. Foi por isso que abraçou Milei em Davos e na Califórnia, chamando-o de “verdadeiro libertário”. Para Thiel, a Argentina de Milei apresenta-se como um laboratório para sua distopia de ocupação territorial e digital. Não por acaso, voltou a encontrá-lo em Buenos Aires há poucas semanas: chegou, comprou uma das mansões mais caras da cidade e apresentou ao presidente e ao seu ministro da Desregulamentação, Federico Sturzenegger, um projeto de reforma da Lei Geral das Sociedades, que inclui as chamadas “sociedades automatizadas” e “corporações não humanas”. As DAOs (<em>Organizações Autônomas Descentralizadas</em>) são entidades governadas por <em>blockchain</em>, sem mediação humana, e esse projeto do governo busca reconhecer-lhes personalidade jurídica plena.</p>
<p>Mas o desenho imperial é ainda mais complexo. Dias antes, Milei havia enviado outro projeto de lei — já estamos falando de pelo menos três iniciativas — que passou a ser conhecido como “Super RIGI”. Trata-se de um regime ampliado de incentivos voltado especificamente para infraestrutura <em>tech</em>, <em>data centers</em> e investimentos em Inteligência Artificial. A chamada “Lei de Bases”, aprovada em 2024, já havia criado o RIGI original, cujo artigo 174 isenta os projetos de <em>data centers</em> das restrições previstas na Lei de Terras. O circuito é lógico: terra → <em>data centers</em> → corporações não humanas. Esse é o núcleo do Modelo Dado-Exportador do século XXI.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_151179" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-151179" class="size-full wp-image-151179" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Roberto-Aizenberg-Argentina-Figures-on-Landscape-1953.jpg" alt="" width="629" height="800" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Roberto-Aizenberg-Argentina-Figures-on-Landscape-1953.jpg 629w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Roberto-Aizenberg-Argentina-Figures-on-Landscape-1953-236x300.jpg 236w" sizes="auto, (max-width: 629px) 100vw, 629px"><p id="caption-attachment-151179" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Roberto Aizenberg (Argentina), <em>Figures on Landscape</em>, 1953.</small></p></div>
</div>
<p>Sem disfarces, foi assim que Milei e Sturzenegger apresentaram essa proposta em um artigo publicado no mês passado no <a href="https://www.ft.com/content/f93022fe-43f7-437d-abd8-06c457c0a43c"><em>Financial Times</em></a>. Ali, esses representantes das <em>big tech</em> à frente do governo argentino defenderam a necessidade de libertar-se da “mão mortal” da regulação estatal, advogaram por um país administrado por empresas “sem seres humanos responsáveis” e, em sua fascinação desenfreada pelas injustiças históricas do capitalismo, lançaram a seguinte consigna: “Que Buenos Aires se torne para a IA o que Amsterdã foi para a era das navegações: o lugar onde a imaginação jurídica encontrou o momento tecnológico, e o mundo mudou”, escreveram. Segundo eles, a máquina e a pessoa jurídica constituíram a “dupla hélice da prosperidade moderna”.</p>
<p>Ao nos conduzirem de volta ao passado, esses “verdadeiros libertários” não economizaram nos exemplos: a Companhia Holandesa das Índias Orientais seria o farol que ilumina seu caminho para o futuro. E o que foi essa companhia, que disputou em ambição e crueldade com as companhias inglesa e francesa tanto no Ocidente quanto no Oriente? No século XIX, Karl Marx utilizou o caso da Companhia Inglesa das Índias Orientais para estudar a maneira como o capital comercial e o Estado monárquico se fundiram em uma estrutura monopolista que, primeiro, transformou uma empresa mercantil em um poder corporativo militar e territorial, com exército e marinha próprios, para depois sucumbir à corrupção interna, às guerras custosas e ao endividamento excessivo. Marx abordou essa questão em diversas ocasiões, especialmente ao tratar da violência como “potência econômica” e ao recordar que o sistema de colonização holandês não foi senão “um quadro insuperável de traições, subornos, assassinatos e infâmias”.</p>
<p>Não por acaso, enquanto alguns hoje optam por erguer as bandeiras dessa história de abusos e violência, outros lembram que até mesmo Adam Smith criticou duramente o papel dessas companhias e que elas representam antecedentes não tão distantes das empresas que atualmente violam os direitos humanos. Em última instância, foi a pilhagem colonial, o retorno da escravidão em escala global e o desenvolvimento da guerra — e não uma suposta inovação jurídica — que impulsionaram o capitalismo naquele período.</p>
<p>Existe alternativa? Sempre.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_151187" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-151187" class="wp-image-151187 size-large" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Xul-Solar-Argentina-Otros-Troncos-1919-1024x733.jpg" alt="" width="1024" height="733" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Xul-Solar-Argentina-Otros-Troncos-1919-1024x733.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Xul-Solar-Argentina-Otros-Troncos-1919-300x215.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Xul-Solar-Argentina-Otros-Troncos-1919-768x550.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Xul-Solar-Argentina-Otros-Troncos-1919-1536x1099.jpg 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Xul-Solar-Argentina-Otros-Troncos-1919.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-151187" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Xul Solar (Argentina), <em>Otros Troncos</em>, 1919.</small></p></div>
</div>
<p>Devemos recordar que o modelo Agroexportador foi substituído, após um processo de transformações econômicas e de lutas sociais, pelo modelo industrial. Já sabemos do que se trata. Devemos trocar uma coisa pela outra? A Inteligência Artificial, a tecnologia, não é um fenômeno puramente técnico nem uma ferramenta neutra de “modernização”: trata-se de um processo de transformação global que exige, com urgência, intervenção do Estado, infraestrutura, regulação e combate à opacidade no tratamento dos dados e à criação de vieses racistas, belicistas e consumistas. Também — como nos propõe Jeff Xiong — exige formação especializada e uma ampla campanha de alfabetização digital. Em poucas palavras: <strong>soberania digital.</strong></p>
<p>Estamos à altura desse desafio na América Latina? Se o grito “As Malvinas são argentinas” é capaz de nos comover para além de uma inesquecível vitória no futebol, que ele também sirva de farol para a defesa de nossas terras, de nossos dados e para a construção de uma vida digital soberana: o ser humano sempre em primeiro lugar.</p>
<p>Saudações,</p>
<p>Alejandro Jasinski</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/07/Alejandro1.png" width="1080" height="1080"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Alejandro Jasinski</strong></p><small>Alejandro é pesquisador do Instituto Tricontinental na Argentina. É jornalista, doutor em História e eterno aspirante às causas justas. Pesquisa, escreve e leciona na Universidade de Buenos Aires. Trabalha na Secretaria de Direitos Humanos da Nação, colaborando com processos judiciais relacionados a crimes contra a humanidade cometidos na Argentina. Seu livro mais recente é <em>El encanto del tanino</em> (Prometeo, 2023). Também é autor de <em>Revuelta obrera y masacre en La Forestal</em> e coorganizador e coautor do relatório <em>Responsabilidad empresarial en delitos de lesa humanidad</em>.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O bicentenário do Congresso do Panamá e  a unidade latino-americana</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/boletim-bicentenario-congresso-do-panama/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Georgette Kuri]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Jul 2026 15:10:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Neocolonialismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=149260</guid>

					<description><![CDATA[No marco dos 200 anos do Congresso do Panamá, analisamos o desafio da unidade, a constante sabotagem imperialista dos EUA e a necessidade urgente de cerrar fileiras para concretizar a emancipação latino-americana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_149201" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149201" class="size-full wp-image-149201" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Pavel-E%CC%81gu%CC%88ez-La-Patria-Naciendo-de-la-Ternura_A-pa%CC%81tria-nascendo-da-ternura-Caracas-Venezuela-2006.jpg" alt="" width="898" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Pavel-Égüez-La-Patria-Naciendo-de-la-Ternura_A-pátria-nascendo-da-ternura-Caracas-Venezuela-2006.jpg 898w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Pavel-Égüez-La-Patria-Naciendo-de-la-Ternura_A-pátria-nascendo-da-ternura-Caracas-Venezuela-2006-263x300.jpg 263w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Pavel-Égüez-La-Patria-Naciendo-de-la-Ternura_A-pátria-nascendo-da-ternura-Caracas-Venezuela-2006-768x876.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 898px) 100vw, 898px"><p id="caption-attachment-149201" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Pavel Égüez, La Patria Naciendo de la Ternura [A Pátria Nascida da Ternura], Caracas, Venezuela, 2006.</small></p></div></div>
<p>Estimados amigos e amigas:</p>
<p>Saudações do nosso escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</p>
<p><em>Neste mês de junho celebramos o bicentenário do Congresso Anfictiônico do Panamá, marco inicial do projeto de unidade e integração da América Latina, que buscava não apenas reafirmar a independência conquistada na guerra contra o império espanhol, mas também avançar em um projeto de profunda transformação social capaz de superar heranças nefastas, como a escravidão, e contribuir para a construção de um equilíbrio universal, no qual as relações entre as nações se estabelecessem sem que o interesse de uma se impusesse sobre as demais. Para refletir sobre a importância desse marco histórico para as lutas do presente, convidamos a mexicana Georgette Kuri — país onde o Congresso realizou sua última sessão — a compartilhar suas reflexões conosco. </em></p>
<p>Há 200 anos ocorreu o Congresso Anfictiônico do Panamá convocado por Simón Bolívar. Trata-se do primeiro grande sonho de Nuestra América e de um ponto de partida de uma tarefa histórica que permanece tão necessária ainda hoje: concretizar a unidade latino-americana. O peso dos Estados Unidos, a ambivalência do México e a permanente mira neocolonial e imperialista voltada para os territórios latino-americanos continuam dificultando o caminho de nossa emancipação. Ainda assim, nossa capacidade revolucionária de ação e a compreensão dos obstáculos históricos que sempre nos acompanharam são as luzes que devem orientar nossos passos.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_149212" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149212" class="size-large wp-image-149212" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Alfredo-Sinclair-Panama%CC%81-Mujer-Con-Cesta-De-Pescado-Ubicacio%CC%81n-desconocida-854x1024.jpg" alt="" width="854" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Alfredo-Sinclair-Panamá-Mujer-Con-Cesta-De-Pescado-Ubicación-desconocida-854x1024.jpg 854w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Alfredo-Sinclair-Panamá-Mujer-Con-Cesta-De-Pescado-Ubicación-desconocida-250x300.jpg 250w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Alfredo-Sinclair-Panamá-Mujer-Con-Cesta-De-Pescado-Ubicación-desconocida-768x920.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Alfredo-Sinclair-Panamá-Mujer-Con-Cesta-De-Pescado-Ubicación-desconocida-1282x1536.jpg 1282w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Alfredo-Sinclair-Panamá-Mujer-Con-Cesta-De-Pescado-Ubicación-desconocida.jpg 1335w" sizes="auto, (max-width: 854px) 100vw, 854px"><p id="caption-attachment-149212" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Alfredo Sinclair (Panamá), Mulher com cesta de peixes/[Mulher com cesta de peixes], (local desconhecido).</small></p></div></div>
<h3 style="margin:2em 0;">Ponto de partida: o Congresso Anfictiônico</h3>
<p>Diversos fatores contribuíram para que a Doutrina Anfictiônica e o projeto bolivariano de unidade latino-americana não prosperassem: a influência externa do Reino Unido e dos Estados Unidos; a diversidade de posições entre os países hispano-americanos; a falta de ratificação dos acordos pelos governos; a disputa territorial entre Brasil e as Províncias Unidas pela Banda Oriental; a invasão do Peru à Bolívia; a abstenção do Chile; a fragilidade da recém-criada República Federal da América Central; e a insistência do México em sediar a Assembleia e definir seu caráter como transitório.</p>
<p>Entretanto, é importante reconhecer que a transferência da sede para a Assembleia de Tacubaya, na Cidade do México, culminou em sua dissolução em 1828. O apoio mexicano voltou-se principalmente para a Liga Americana, centrada na defesa militar conjunta diante de possíveis tentativas europeias de reconquista. Essa posição refletia a preocupação do México em evitar uma eventual concentração de poder em outros territórios hispano-americanos que pudesse ameaçar a integridade das jovens nações. Esse papel de mediador para conter hegemonias no continente acabou criando precedentes para a posterior anexação de territórios mexicanos pelos Estados Unidos, tanto pelo isolamento em que esse processo ocorreu quanto pelo tipo de relação estabelecida entre os dois países.</p>
<p>Por sua vez, os Estados Unidos aproveitaram as sessões do Congresso Anfictiônico para ampliar suas relações comerciais com os países hispano-americanos, revelando seu caráter essencialmente expansionista e passando das relações bilaterais à disputa pelo próprio projeto de unidade continental. Aliaram-se ao Reino Unido e buscaram acordos com o Brasil, explorando inclusive o distanciamento e as rivalidades existentes entre alguns países hispano-americanos e o Brasil império, colocando em prática a antiga — e ainda atual — máxima de “dividir para conquistar”.</p>
<p>Além disso, a proclamação da Doutrina Monroe, em 1823, inaugurou formalmente a política intervencionista dos Estados Unidos em nosso continente. Desde então, o país utilizou seus corpos diplomáticos como instrumentos de ingerência para promover o endividamento externo e a dependência financeira das nações latino-americanas, além de recorrer repetidamente a invasões, bloqueios, ocupações e anexações territoriais ao longo de todo o século XIX.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_149223" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149223" class="size-large wp-image-149223" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Jose%CC%81-Clemente-Orozco-Me%CC%81xico-Pueblo-mexicano-1929-1024x749.jpg" alt="" width="1024" height="749" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/José-Clemente-Orozco-México-Pueblo-mexicano-1929-1024x749.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/José-Clemente-Orozco-México-Pueblo-mexicano-1929-300x219.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/José-Clemente-Orozco-México-Pueblo-mexicano-1929-768x561.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/José-Clemente-Orozco-México-Pueblo-mexicano-1929.jpg 1316w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-149223" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>José Clemente Orozco (México), Pueblo mexicano, [Povo mexicano], 1929.</small></p></div></div>
<h3 style="margin:2em 0;">Horizonte revolucionário e a convicção latino-americana</h3>
<p>Diante do papel desempenhado pelo México na Anfictionia de 1826, cabe também recordar outros acontecimentos da história para equilibrar a balança. Consolidada a independência, o México se posicionou como vanguarda insurgente contra os regimes oligárquicos instalados em nossos países, por meio da irrupção das massas populares camponesas e operárias que protagonizaram a primeira grande revolução de nosso tempo.</p>
<p>A Revolução Mexicana estabeleceu a reforma agrária e os direitos das classes trabalhadoras como as principais reivindicações sociais, cujo eco ressoou nos movimentos sufragistas de mulheres em todo o continente, nos Movimentos de Libertação Nacional da América Central, nas reflexões de José Carlos Mariátegui e Haya de la Torre, no Peru, na Primavera Guatemalteca, na Revolução Cubana, nas múltiplas e diversas organizações guerrilheiras — inclusive nos Partidos Comunistas —, na Revolução Sandinista, no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no levante do Exército Zapatista de Libertação Nacional e na Revolução Bolivariana, que coroou o rebelde e longo século XX latino-americano.</p>
<p>Nesse período efervescente, o México teve a oportunidade de tornar-se exemplo de profundas transformações sociais e estatais: educação socialista, movimentos culturais de alcance regional, como o muralismo, assembleia constituinte, expropriação do petróleo e outros paradigmas de diplomacia, solidariedade e soberania. Também demonstrou a convicção política de manter uma estreita relação com a Cuba socialista e de acolher grandes contingentes do exílio latino-americano produzidos pelas ditaduras militares entre as décadas de 1960 e 1980. Ainda hoje, continua recebendo vítimas de perseguição política e acolhendo, de forma solidária, aqueles que o escolhem como lugar para viver.</p>
<p>Com a implantação do neoliberalismo no México, no final da década de 1980, iniciou-se um processo de descontinuidade — ou, em determinados momentos, de distanciamento — de seus esforços em favor da unidade latino-americana, que inevitavelmente se diversificaram e passaram a se expressar em múltiplas dimensões. Ainda assim, na década de 1990, o México atuou como mediador nos diferentes processos de paz da América Central, bem como na resolução de conflitos internos na Colômbia e na Venezuela já no presente século. Esse breve percurso ajuda a compreender a complexa ambivalência que o México tem mantido em sua relação com Nuestra América, marcada também pela vizinhança com os Estados Unidos, por sua dependência econômica, pelos quarenta milhões de pessoas de origem mexicana que vivem naquele país e por sua localização geográfica na porção norte do continente.</p>
<p>Por tudo isso, adquire hoje um significado especial reivindicar, a partir do México, os ideais de unidade e integração legados pela doutrina anfictiônica e impulsionados neste século XXI pela geopolítica bolivariana da Venezuela revolucionária.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_149234" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149234" class="size-large wp-image-149234" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Arte-urbana-de-Eva-Bracamontes-Me%CC%81xico-1024x683.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Arte-urbana-de-Eva-Bracamontes-México-1024x683.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Arte-urbana-de-Eva-Bracamontes-México-300x200.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Arte-urbana-de-Eva-Bracamontes-México-768x512.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Arte-urbana-de-Eva-Bracamontes-México.jpg 1440w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-149234" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Arte urbana de Eva Bracamontes (México). Mais informações: <a href="https://utopix.cc/columnas/eva-bracamontes/">Utopix</a>.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Romper para sempre as correntes imperialistas e neocoloniais</h3>
<p>É importante recordar a hipótese de que a Anfictionia se dissolveu porque as tentativas de reconquista deixaram de representar uma ameaça comum. Embora essa ideia tenha sido, em geral, descartada, vale retomá-la porque remete à sensação de <em>estar fora de perigo</em>, recorrente na história latino-americana e da qual ainda não aprendemos plenamente a lição. Em primeiro lugar, porque as ameaças de conquista neocolonial e imperialista jamais desapareceram. Em segundo, porque é justamente quando os tempos parecem favoráveis que devemos aproveitar para avançar com firmeza.</p>
<p>O século XXI tem sido palco de avanços progressistas na América Latina e no Caribe, impulsionados por nossas sociedades por meio de governos populares. Retomamos a unidade latino-americana como horizonte, sendo a geopolítica bolivariana — inspirada também pelo internacionalismo solidário de Cuba — o projeto que mais se aproximou de tornar esse sonho realidade. Hoje, assim como ontem, o imperialismo estadunidense continua sendo o principal opositor, disposto a cometer qualquer atrocidade para impedir esse processo, e estamos testemunhando isso.</p>
<p>O ano de 2026 começou com uma verdadeira declaração de guerra dos Estados Unidos contra nossos povos latino-americanos, tendo na linha de frente as repúblicas irmãs de Cuba e Venezuela, por representarem as experiências mais radicais e mais bem-sucedidas no caminho de nossa libertação. A ameaça imperialista e neocolonial está mais ativa do que nunca, e ninguém está a salvo. De fato, são poucos os governos progressistas que resistem à ofensiva imperial ao lado de seus povos, sobretudo daqueles mais oprimidos pelas direitas ultraliberais e autoritárias.</p>
<p>Convém recordar que parte do jugo colonial consiste em um continente fragmentado em repúblicas, mais vinculadas às metrópoles ocidentais do que entre si, apesar de compartilharem uma mesma história, identidade e cultura. Também será necessário romper com as hierarquias territoriais herdadas dos impérios, vice-reinados e capitanias, assim como com as rivalidades e desconfianças próprias da modernidade ocidental, tão úteis à sua geopolítica de guerra.</p>
<p>É preciso defender a geopolítica da paz e o equilíbrio do universo que Bolívar nos propôs como alternativa para a vida. Na árdua tarefa de concretizar a unidade latino-americana, é necessário romper para sempre as correntes imperialistas e neocoloniais. E, sobretudo, assumir o compromisso de que é justamente nos momentos de maior ameaça que devemos cerrar fileiras e radicalizar nossas posições.</p>
<p>Saudações cordiais,</p>
<p><strong>Georgette Kuri<br>
</strong>Tacubaya-Mixcoac, Cidade do México</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Georgette-Kuri-color.jpg" width="779" height="779"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Georgette Kuri</strong></p><small>Georgette Kuri é mexicana, professora e pesquisadora da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e integrante da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade. É também co-coordenadora do Grupo de Trabalho &#8220;Imperialismo, neocolonialismo e políticas de intervenção&#8221; do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO).</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O debate sobre segurança pública e a disputa pelo território</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/o-debate-sobre-seguranca-publica-e-a-disputa-pelo-territorio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carmen Navas Reyes e Carlos Ron]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 May 2026 08:00:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Guerra contra os Pobres]]></category>
		<category><![CDATA[Modelo Bukele]]></category>
		<category><![CDATA[Nuestra América]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[crime]]></category>
		<category><![CDATA[human rights]]></category>
		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Segurança pública]]></category>
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					<description><![CDATA[É fundamental abordar o tema da segurança pública sem ilusões para o desenvolvimento saudável de uma sociedade. O campo popular não pode ignorar esse desafio, nem minimizá-lo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_144545" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-144545" class="size-full wp-image-144545" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Sidney-Amaral-Brasil-Mae-Preta-ou-A-Furia-de-Iansa-2014.png" alt="" width="970" height="681" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Sidney-Amaral-Brasil-Mae-Preta-ou-A-Furia-de-Iansa-2014.png 970w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Sidney-Amaral-Brasil-Mae-Preta-ou-A-Furia-de-Iansa-2014-300x211.png 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Sidney-Amaral-Brasil-Mae-Preta-ou-A-Furia-de-Iansa-2014-768x539.png 768w" sizes="auto, (max-width: 970px) 100vw, 970px"><p id="caption-attachment-144545" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><a href="https://www.wikiart.org/en/sidney-amaral"><span style="font-weight: 400;">Sidney Amaral </span></a>(Brazil), <em>Mãe Preta ou A Fúria de Iansã</em> [Black Mother or the Fury of Iansa], 2014.</small></p></div></div>
<p>Saudações do escritório de Nuestra América do <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/">Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</a></p>
<p>Há uma guerra longa, silenciosa e lucrativa em curso em Nuestra América: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-guerra-contra-os-pobres/">a guerra contra os pobres</a>. Embora mudem os uniformes, as doutrinas ou os <em>slogans </em>— que vão desde “pacificação” até <a href="https://jacobin.com/2026/01/el-salvador-us-bukele-trump-authoritarianism">“linha dura” </a>ou “tolerância zero” —, seja sob o escudo da “<a href="https://thetricontinental.org/es/argentina/adictos2-geopolitica/">guerra às drogas</a>” ou da “guerra contra o crime”, a guerra produzida pela desigualdade da ordem econômica dominante é travada para criminalizar a pobreza ao mesmo que tempo que serve para aterrorizar a população.</p>
<p><a href="https://www.nodal.am/2025/12/la-marea-furiosa-de-la-extrema-derecha-latinoamericana-por-vijay-prashad/">A “Maré Furiosa” </a>que nos últimos tempos avançou sobre os governos da América Latina teve como um de seus focos combater a crise de segurança percebida em toda a região. Em sua estratégia de desmoralização do progressismo latino-americano, a nova direita apresenta as forças de esquerda como ineficientes e incapazes — e até cúmplices — da criminalidade. Com frequência, no debate político, utiliza-se de pesquisas que revelam a segurança pública como uma das principais preocupações do eleitorado da região; essa seria uma das razões pela qual a população estaria preferindo governos que prometem linha dura e implacável contra a criminalidade. Não surpreende, nesse sentido, que mesmo sendo as mais afetadas por políticas de criminalização da pobreza, as pessoas se manifestem a favor do combate ao crime via aumento do processo repressivo. Segundo pesquisa da AtlasIntel, por exemplo, <a href="https://www.reuters.com/world/americas/brazils-deadliest-police-raid-puts-lula-political-bind-2025-11-05/">62%</a> dos próprios habitantes do Rio de Janeiro apoiaram uma operação policial que deixou 121 vítimas no último mês de outubro. De Kast a Keiko Fujimori, as <a href="https://www.chathamhouse.org/2026/05/if-jair-bolsonaro-was-trump-tropics-lula-bossa-nova-biden">campanhas da direita</a> destacaram o combate à violência entre suas prioridades. O próprio presidente uruguaio, Yamandú Orsi, <a href="https://casillerovacio.substack.com/p/yamandu-orsi-gobernar-despues-de">afirmou em entrevista</a> que 50% dos eleitores da Frente Ampla também simpatizam com o presidente salvadorenho Nayib Bukele. “A direita tomou a bandeira da segurança, que é um direito humano, e a monopolizou por muito tempo”, acrescentou.</p>
<p>Atualmente, o grande aparato midiático nos apresenta o chamado<a href="https://elmaipo.cl/el-espejismo-de-la-seguridad-el-peligroso-modelo-bukele-por-carmen-navas-reyes/"> “modelo Bukele”</a> como a fórmula mais eficaz para combater a insegurança e o crime organizado. No entanto, uma análise mais profunda nos leva a perguntar: a quem serve esta política e sobre quais corpos ela é edificada? Bukele <a href="https://elmaipo.cl/el-espejismo-de-la-seguridad-el-peligroso-modelo-bukele-por-carmen-navas-reyes/">construiu um sistema</a> por meio de uma política de desmonte do Estado e de precarização social amparada na prorrogação indefinida de um Estado de Exceção. Em El Salvador, a maior taxa de encarceramento do mundo, com 1.650 pessoas presas para cada 100 mil habitantes, criminaliza-se a infância por meio da redução da idade penal, realizam-se julgamentos coletivos e encarceramentos em massa e persegue-se pensamentos políticos diferentes, como no caso do defensor dos direitos humanos <a href="https://cispes.org/article/update-human-rights-attorneys-targeted-after-fidel-zavala-and-la-floresta-community-leaders">Fidel Zavala</a>.</p>
<p>Entre os números que Bukele esconde, porém, estão o crescimento da pobreza para 9,6% e os 10 mil estudantes que abandonaram os estudos.</p>
<p>Isso demonstra que tanto a insegurança que persiste quanto essa ilusão de ordem e segurança acabam atingindo com mais força quem vive nas periferias — pessoas que, ainda assim, orientaram seus votos para soluções tangíveis diante dos discursos mais conciliadores e sociológicos da esquerda regional. Segundo pesquisa da CB Consultora de abril de 2026, Bukele lidera a popularidade regional com 70,1% de imagem positiva, enquanto Lula da Silva tem cerca de 48,4% de apoio e 49,1% de rejeição, e Gustavo Petro alcança apenas 38,2% de aprovação. O próprio Lula viu-se obrigado, em sua campanha, a apresentar um plano contra o crime organizado prometendo padrões de segurança máxima nas prisões.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_144561" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-144561" class="size-full wp-image-144561" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Rosa-Mena-Valenzuela-El-Salvador-Calles-1983.-Coleccion-MARTE-1.webp" alt="" width="1500" height="1236" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Rosa-Mena-Valenzuela-El-Salvador-Calles-1983.-Coleccion-MARTE-1.webp 1500w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Rosa-Mena-Valenzuela-El-Salvador-Calles-1983.-Coleccion-MARTE-1-300x247.webp 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Rosa-Mena-Valenzuela-El-Salvador-Calles-1983.-Coleccion-MARTE-1-1024x844.webp 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Rosa-Mena-Valenzuela-El-Salvador-Calles-1983.-Coleccion-MARTE-1-768x633.webp 768w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px"><p id="caption-attachment-144561" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Rosa Mena Valenzuela (El Salvador), <em>Calles</em> [Streets], 1983. MARTE Collection.</small></p></div></div>
<p>Esse “autoritarismo pop” que cultiva medos, esconde, por trás de sua repressão e propaganda, sua incapacidade de resolver a desigualdade estrutural que conduz à pobreza e, em alguns casos, à própria criminalidade. Vende-se como um modelo para o qual não existe alternativa, e a geração de lideranças da Maré Furiosa que busca restaurar um domínio colonial sobre toda a região soma-se obedientemente ao chamado Escudo das Américas, liderado pelos Estados Unidos como solução para a criminalidade. Mas acontece que existem alternativas.</p>
<p>Recentemente, a cientista política Viri Ríos, do Mexico Decoded, assinalou que o governo progressista de Claudia Sheinbaum vem construindo uma proposta diferente. Em apenas 18 meses, a taxa diária de homicídios caiu 41%, embora sua população seja 20 vezes maior que a de El Salvador e os desafios de segurança no México vão além das gangues e organizações criminosas, incluindo o grande crime organizado transnacional e os cartéis de drogas. Sem implementar um Estado de Exceção, a população carcerária mexicana aumentou 11% após a mudança de sua política de segurança.</p>
<p>A chave, destaca Ríos, é que a estratégia não evita confrontar diretamente as fontes do crime, abandonando tanto a política de decapitação dos cartéis — que nos seis anos anteriores disparou exponencialmente a violência — quanto a abordagem de baixa confrontação que predominou entre 2018 e 2024. A política mexicana ataca diretamente as causas materiais da criminalidade: busca, em primeiro lugar, frear as fontes de financiamento do crime, enfrentando nacionalmente problemas de acordo com a realidade territorial: combate ao contrabando de combustível nas zonas petrolíferas, supervisão dos pontos alfandegários nas regiões de fronteira, combate à extorsão no campo e assim por diante. Ríos reconhece que no México persistem problemas estruturais como a corrupção, mas assinala que, apesar de suas limitações, o país está conseguindo reduzir a criminalidade por meio de uma política que não recorre à violência desenfreada de Bukele.</p>
<p>Outra experiência de esquerda que vale a pena estudar é a da Grande Missão Quadrantes de Paz, na Venezuela. Aqui surge outra chave conceitual decisiva: a territorialização da segurança sob uma lógica preventiva e de trabalho conjunto entre a comunidade e as forças policiais, em vez da lógica carcerária. Segundo dados oficiais, a taxa de homicídios passou de 56 por 100 mil habitantes em 2016 para cerca de 4 em 2024. No final de 2025, as autoridades relataram uma redução de mais de 25% dos assassinatos em relação ao ano anterior.</p>
<p>O que o modelo dos Quadrantes de Paz propõe é que uma política de segurança construída com participação comunitária organizada, a partir do bairro onde vive a classe trabalhadora — e não contra ela, como no modelo Bukele — pode gerar resultados efetivos. Pode servir de orientação para a esquerda, já que vincular a segurança à construção do poder popular no território é mais eficaz do que a punição.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_144553" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-144553" class="size-full wp-image-144553" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Vlady-Mexico-Mecanismo-Carcelario-1958-1959.avif" alt="" width="1480" height="840" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Vlady-Mexico-Mecanismo-Carcelario-1958-1959.avif 1480w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Vlady-Mexico-Mecanismo-Carcelario-1958-1959-300x170.avif 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Vlady-Mexico-Mecanismo-Carcelario-1958-1959-1024x581.avif 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Vlady-Mexico-Mecanismo-Carcelario-1958-1959-768x436.avif 768w" sizes="auto, (max-width: 1480px) 100vw, 1480px"><p id="caption-attachment-144553" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><a href="https://www.wikiart.org/en/vlady-kibalchich-rusakov">Vlady</a> (Mexico), <em>Mecanismo Carcelario</em> [Prison Mechanism], (1958-1959).</small></p></div></div>
<p>As forças populares que, nos próximos anos, quiserem disputar o campo eleitoral devem estudar profundamente essas soluções e também construir suas próprias propostas. Em primeiro lugar, o tema da segurança não pode ser ignorado, porque não se trata de um capricho da elite, mas de uma preocupação real da população trabalhadora, ainda que, em alguns casos, a construção de narrativas ultraconservadoras busque aterrorizar a população exagerando as condições de criminalidade em nossos países. A segurança também deve ser assumida como um direito da população trabalhadora, e deve-se reconhecer sua dupla vulnerabilidade pelo fato de ser atacada tanto pela criminalidade quanto por políticas reacionárias de repressão.</p>
<p>Em segundo lugar, devemos nos perguntar qual é a institucionalidade concreta que um governo popular deve construir e financiar no âmbito da segurança pública — uma maior profissionalização das forças de investigação e segurança? O combate direto às fontes de financiamento do crime e aos escalões intermediários que o operam? A construção de uma agenda de trabalho entre a comunidade e as autoridades no território baseado no respeito e na colaboração, e não na perseguição?</p>
<p>Em terceiro lugar, é preciso demonstrar que a repressão e o terror, a longo prazo, exacerbam a exclusão e fomentam práticas criminosas. A repressão é custosa e, muitas vezes, acaba sendo terceirizada para forças mercenárias ou, pior ainda, estrangeiras, o que, a longo prazo, coloca em risco a soberania nacional.</p>
<p>Abordar a segurança sem ilusões é fundamental para o desenvolvimento saudável de uma sociedade. O campo popular não pode ignorar esse desafio, nem minimizá-lo. Mas deve, sobretudo, convencer a população de que possui uma alternativa viável, que não implique nem a desarticulação do Estado nem a repressão letal e que, ao contrário, convide a classe trabalhadora a fazer parte de sua própria estratégia de segurança.</p>
<p>O debate está aberto. Gostaríamos de conhecer suas opiniões.</p>
<p>Atenciosamente,</p>
<p>Carmen Navas Reyes e Carlos Ron</p>
<p>Tricontinental Nuestra América</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/08/Carmen.jpg" width="300" height="300"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Carmen Navas Reyes</strong></p><small>Carmen Navas Reyes é pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. É feminista venezuelana e ex-diplomata. Suas áreas de pesquisa incluem democracia e sistemas políticos, movimentos sociais, história da diáspora africana e afrodescendência.</small></td></tr></tbody></table><hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/08/Carlos.jpg" width="300" height="300"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Carlos Ron</strong></p><small>Carlos Ron é co-coordenador do escritório de Nuestra América no Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. É ex-diplomata venezuelano e atuou como vice-ministro para a América do Norte (2018–2025) e presidente do Instituto Simón Bolívar para a Paz e a Solidariedade entre os Povos (2020–2025).</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Intelectuais, artistas e movimentos em defesa da humanidade: uma trincheira necessária para o século XXI</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/redh-uma-trincheira-necessaria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ximena González Broquen]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Apr 2026 08:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Nova Intelectualidade]]></category>
		<category><![CDATA[batalha de ideias]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[Nuestra América]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=141350</guid>

					<description><![CDATA[A rede nasceu do abraço fundacional entre dois gigantes, Hugo Chávez e Fidel Castro, no calor da luta contra a agressão imperial. Desde então, constitui-se como um movimento de pensamento e ação, uma trincheira coletiva diante da pretensão hegemônica do imperialismo global.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_141300" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-141300" class="size-large wp-image-141300" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/1_Taller-4-Rojo-1024x725.jpg" alt="" width="1024" height="725" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/1_Taller-4-Rojo-1024x725.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/1_Taller-4-Rojo-300x212.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/1_Taller-4-Rojo-768x544.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/1_Taller-4-Rojo-1536x1087.jpg 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/1_Taller-4-Rojo.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-141300" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Taller 4 Rojo (Colômbia), A luta é longa — vamos começar agora, 1973.</small></p></div>
</div>
<p><em>Saudações desde o Escritório Nuestra América do </em><a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/"><em>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</em></a></p>
<p><em>O teórico marxista libanês Mahdi Amel assinalou que o intelectual “que não luta pela revolução em todo momento é um falso intelectual, e seu intelecto é enganoso e superficial”. Em tempos de ofensiva </em><a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo/"><em>hiperimperialista </em></a><em>e de avanço da direita neofascista, torna-se ainda mais urgente que a intelectualidade em Nuestra América mantenha viva sua convicção revolucionária. Há 22 anos, um grupo de intelectuais, artistas e militantes de movimentos sociais vem acompanhando os processos revolucionários e populares, defendendo a aspiração a uma sociedade de dignidade para todos e todas. Para conhecer sua história e compreender melhor esse espaço, pedimos a Ximena González Broquen, coordenadora internacional da </em><a href="https://humanidadenred.org/"><em>Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade</em></a><em> (REDH), uma contribuição para este debate. Segue abaixo.</em></p>
<p>No tecido de poder que atravessa o Sul Global, a guerra cognitiva tornou-se uma trincheira decisiva. Diante dela, existem ferramentas de resistência que transcendem o conjuntural e se erguem como faróis de esperança e ação organizada. A Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade (REDH) é uma delas. Nasceu do abraço fundacional entre dois gigantes, Hugo Chávez e Fidel Castro, no calor da luta contra a agressão imperial e, desde então, constitui-se como um movimento de pensamento e ação, uma trincheira coletiva diante da pretensão hegemônica do imperialismo global.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Origem: um grito do Sul diante da barbárie</h3>
<p>A origem da REDH é fruto de uma urgência histórica. No final de 2003, a comoção mundial provocada pelas guerras do Afeganistão e do Iraque atravessou como uma lâmina a consciência da América Latina. O grande pensador mexicano Pablo González Casanova, preocupado com a ofensiva imperial, convocou um encontro no México, reunindo figuras como Rigoberta Menchú, Evo Morales e Eduardo Galeano. A ideia germinou: era necessário articular uma frente global de intelectuais e artistas que colocasse sua capacidade de criar e pensar a serviço da defesa da humanidade.</p>
<p>Esse chamado culminou em dezembro de 2004, em Caracas, com o Primeiro Encontro Mundial de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade. A conferência inaugural foi realizada pelo prêmio Nobel José Saramago, e a convocatória foi um ato de afirmação anti-imperialista. Ali, mais de 300 pensadores e pensadoras de mais de 40 países se reuniram para construir, a partir da palavra e da ação, um cerco coletivo contra a dominação. Era a materialização de um sonho compartilhado, a certeza de que a inteligência crítica deveria abandonar as torres de marfim para se misturar ao sopro dos povos.</p>
<p>Sob o sol do Caribe, a voz de Chávez se fez verbo encarnado, traçando o rumo para sempre: “Esta é a ofensiva pela humanidade. Só nos enchendo de humanidade, fazendo carne e alma os valores verdadeiramente humanos, poderemos defender a humanidade e tecer futuros de libertação a partir da memória viva de nossos povos. Outro mundo é possível se nós o tornarmos possível, com o amor como valor supremo e com a convicção de que estamos no ataque pela humanidade, na ofensiva para defender esta bela humanidade.”</p>
<p>“A humanidade se trata de viver no dia a dia fazendo alma e carne com o humano, o verdadeiramente humano. Viver no humano, preencher o vazio com sentimentos e ações profundamente humanas. Os valores do ser humano e o valor sublime, o amor (…) caso contrário, não poderemos defender nenhuma humanidade. E menos ainda partir para a ofensiva por ela. Creio que este é um dos maiores desafios do mundo hoje: começando por nós mesmos, nos encher de humanidade, fazer carne, nervo, músculo, alma e corpo, a humanidade.” Essas palavras foram a certidão de nascimento de uma trincheira que ainda hoje segue de pé, sustentada pelo amor revolucionário como prática cotidiana.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_141311" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-141311" class="size-full wp-image-141311" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/2_TeleSUR.jpeg" alt="" width="1280" height="853" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/2_TeleSUR.jpeg 1280w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/2_TeleSUR-300x200.jpeg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/2_TeleSUR-1024x682.jpeg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/2_TeleSUR-768x512.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px"><p id="caption-attachment-141311" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Comemorando o 20º aniversário da teleSUR com o Grande Concerto de Gala “O Nascimento de um Novo Mundo”, uma noite dedicada à cultura, à unidade e à resistência latino-americanas. Venezuela, 2025. Foto: La Radio del Sur.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Importância histórica: para além das palavras</h3>
<p>O legado da REDH é concreto. Uma de suas propostas mais ousadas, surgida naquele primeiro encontro, foi a do brasileiro Beto Almeida: criar uma emissora de televisão para o Sul. Essa ideia se materializou na TeleSur, que durante duas décadas tem sido uma trincheira informativa da nossa região, rompendo o cerco midiático imperial.</p>
<p>A REDH também criou o Prêmio Libertador ao Pensamento Crítico, um reconhecimento sem precedentes, único prêmio global que celebra a palavra que incomoda, que desafia as elites, que coloca o pensamento a serviço das lutas populares e contribui para o socialismo e a emancipação latino-americana. Em suas treze edições, homenageou Franz Hinkelammert, Enrique Dussel, István Mészáros, Marta Harnecker, Juan José Bautista e Atilio Borón, entre muitos outros, construindo um arquivo vivo da rebeldia intelectual do Sul.</p>
<p>A REDH teceu sua própria geografia: onze encontros mundiais em Caracas (Venezuela), reuniões na Itália, Bolívia e Bélgica, demonstrando que sua articulação não conhece fronteiras. Paralelamente, desenvolveu sete Fóruns Internacionais de Filosofia, onde a reflexão coletiva sobre capitalismo, socialismo, humanismo revolucionário, alienação, Estado e hegemonia tornou-se prática militante.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_141322" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-141322" class="size-full wp-image-141322" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/3_Violeta-Parra-Chilesharp_web.jpg" alt="" width="950" height="672" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/3_Violeta-Parra-Chilesharp_web.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/3_Violeta-Parra-Chilesharp_web-300x212.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/3_Violeta-Parra-Chilesharp_web-768x543.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-141322" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Violeta Parra (Chile). Sem título (inconcluso), 1966. Bordado / arpillera natural. 136 x 200 cm.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">O REDH hoje: Na encruzilhada global</h3>
<p>As múltiplas guerras do presente — expressões do imperialismo — se entrelaçam em um mesmo emaranhado. O genocídio na Palestina, o bloqueio criminoso a Cuba, a agressão contra o Irã, as agressões multifacetadas contra a Venezuela, o saque da África — com o Congo como ferida aberta —, a exploração incessante do Haiti e o avanço de expressões neofascistas na Argentina, Chile, El Salvador e outras nações que desmontam direitos e criminalizam protestos: tudo isso compõe a hidra imperial mostrando suas cabeças. Tudo brota de uma mesma matriz imperialista, colonial e patriarcal.</p>
<p>A guerra cognitiva não busca convencer com argumentos, mas perfurar a percepção da realidade por meio de narrativas, emoções e algoritmos. Fragmenta o tecido social para impor uma premissa brutal: há vidas que importam e vidas que não. Atua no cotidiano das redes e dos meios de comunicação, desenhada para capturar atenção e reforçar identidades isoladas.</p>
<p>Diante dessa ofensiva, a REDH assume a soberania epistêmica libertadora como bússola: a capacidade dos povos de se narrar, governar e se proteger coletivamente. A partir daí, trava diversas batalhas que são um mesmo pulsar. Desmontar a fragmentação mostrando a continuidade histórica de cada agressão é lutar por uma consciência libertadora. Disputar o poder de nomear — dizer “sequestro” onde impõem “detenção” — constitui um ato de autodeterminação do pensamento. Desativar as armadilhas da divisão implica que a memória viva, como reparação histórica, fortaleça o tecido comunitário. E cultivar a confiança como ato político, pois em um mundo onde a suspeita é arma de guerra, a confiança baseada na memória compartilhada de lutas e resistências torna-se revolucionária. Assim se constrói a soberania relacional: a unidade Sul-Sul como autodefesa coletiva se estabelece como horizonte de luta da REDH.</p>
<p>A REDH se organiza em uma estrutura horizontal que materializa o princípio do comum, essa trama de autogoverno e solidariedade que atravessa Nuestra América desde tempos ancestrais. Capítulos nacionais em mais de 30 países, da América Latina à África, Oceania e Península Ibérica, e uma base de 9 mil contatos expressam essa comunalização em movimento. Seus núcleos temáticos — o Movimento Poético Mundial, Canto de Todos, o coletivo feminista “Libertadoras”, REDH Comunicação, REDH-Artistas, juventudes em rede — são células vivas de uma mesma rede de resistência, a partir das quais se co-organizam fóruns, debates, seminários, concertos e espaços de formação.</p>
<p>Em sua atuação cotidiana, seu <a href="https://humanidadenred.org/">site </a>funciona como uma ágora insurgente digital. Ali são publicadas semanalmente as colunas “Olhares desde a RED”, junto com artigos e ensaios críticos, resenhas, entrevistas, poesia militante, dossiês e comunicados de repúdio, tecendo a sororidade internacionalista como mais uma arma na ofensiva pela humanidade.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_141333" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-141333" class="size-full wp-image-141333" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/4_NO-ALCA-2025-esp_08-1.jpg" alt="" width="842" height="1191" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/4_NO-ALCA-2025-esp_08-1.jpg 842w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/4_NO-ALCA-2025-esp_08-1-212x300.jpg 212w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/4_NO-ALCA-2025-esp_08-1-724x1024.jpg 724w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/4_NO-ALCA-2025-esp_08-1-768x1086.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 842px) 100vw, 842px"><p id="caption-attachment-141333" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Cartaz da exposição “20 anos do Não à ALCA”, organizada pelo Instituto Tricontinental, ALBA Movimientos e UTOPIX, 2025.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Conclusão: A ofensiva pela humanidade</h3>
<p>A REDH é uma estrutura viva, um movimento em permanente construção que sabe que a defesa da humanidade não é uma abstração. Ela se joga em cada território devastado, em cada povo sitiado, em cada resistência que se levanta contra o imperialismo. Por isso ergue o grito da ofensiva: não se trata apenas de resistir, mas de criar, pensar e organizar um novo mundo de construção coletiva.</p>
<p>Que a poesia tempere o aço da aurora. Que a memória viva teça futuros de libertação. Que a rede seja cada dia mais trama, mais abraço, mais certeza de que, desde o Sul, está sendo construída uma vitória compartilhada.</p>
<p>Saudações a todas e todos,</p>
<p>Ximena González Broquen</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Ximena-González-Broquen.jpg" width="934" height="1178"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Ximena González Broquen</strong></p><small>Ximena González Broquen é Coordenadora Internacional da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade (REDH). É doutora em Estudos Políticos e Filosofia e chefe do Centro de Estudos de Transformações Sociais do Instituto Venezuelano de Investigações Científicas (CETS IVIC).</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Os feminismos populares contra a guerra neocolonial na América Latina</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/feminismos-populares-america-latina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carmen Navas, Maisa Bascuas e Pilar Troya]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Mar 2026 18:51:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminist Struggle]]></category>
		<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[March 8]]></category>
		<category><![CDATA[cuba]]></category>
		<category><![CDATA[Luta feminista]]></category>
		<category><![CDATA[EUA]]></category>
		<category><![CDATA[Marielle]]></category>
		<category><![CDATA[berta cáceres]]></category>
		<category><![CDATA[Beta Cárceres]]></category>
		<category><![CDATA[Latin America]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[United States]]></category>
		<category><![CDATA[8 de março]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/popular-feminisms-latin-america/</guid>

					<description><![CDATA[Para quebrar uma nação, o imperialismo entende que é preciso quebrar a vontade de quem sustenta o tecido social. Na guerra híbrida, a mulher não é uma vítima passiva, mas um sujeito combatente que reorganiza a vontade em cada comuna e em cada território.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138413" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138413" class="size-large wp-image-138413" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Paulina-Veloso-Chile-724x1024.jpg" alt="" width="724" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Paulina-Veloso-Chile-724x1024.jpg 724w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Paulina-Veloso-Chile-212x300.jpg 212w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Paulina-Veloso-Chile-768x1086.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Paulina-Veloso-Chile-1086x1536.jpg 1086w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Paulina-Veloso-Chile.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 724px) 100vw, 724px"><p id="caption-attachment-138413" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Paulina Veloso (Chile), <i>Sin título</i>, 2021. Disponível em <a href="https://capiremov.org/multimidia/galeria/galeria-de-cartazes-feminismo-anti-imperialista-para-mudar-o-mundo/">capiremov.org</a>.</small></p></div>
</div>
<p>Saudações do Escritório Nuestra América do<a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/"> Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>.</p>
<p>Neste 8 de março, dia em que o mundo honra a mulher trabalhadora, rendemos homenagem às mulheres anti-imperialistas do nosso continente. Elas, com seus corpos-territórios, seu intelecto e seus exemplos, escrevem hoje as páginas mais dignas da história contemporânea de Nuestra América.</p>
<p>Atravessamos uma etapa marcada pela agressão de Donald Trump — uma intensificação da guerra híbrida — e por uma guerra neocolonial que se desdobra por meio da impunidade financeira e do extrativismo voraz. O avanço da extrema direita na região não é casual; busca impor um modelo de espoliação no qual o peso da dívida asfixie a soberania dos povos. Diante da resistência à invasão direta e da guerra silenciosa das Medidas Coercitivas Unilaterais (MCU) contra Cuba e Venezuela, o feminismo popular emerge não apenas enquanto protesto, mas como a espinha dorsal da sobrevivência e da dignidade.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138437" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138437" class="size-large wp-image-138437" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Heroinas-y-Mujeres-venezolanas-Foto-Prensa-Min-Mujer-2025-1024x768.jpg" alt="" width="1024" height="768" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Heroinas-y-Mujeres-venezolanas-Foto-Prensa-Min-Mujer-2025-1024x768.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Heroinas-y-Mujeres-venezolanas-Foto-Prensa-Min-Mujer-2025-300x225.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Heroinas-y-Mujeres-venezolanas-Foto-Prensa-Min-Mujer-2025-768x576.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Heroinas-y-Mujeres-venezolanas-Foto-Prensa-Min-Mujer-2025.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-138437" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Mulheres no Monumento às Heroínas da Resistência e da Independência. Caracas, 2025. (Prensa MinMujer).</small></p></div>
</div>
<ol style="list-style-type: upper-roman;">
<li>
<h3 style="margin:2em 0;">As 3 lições da agressão Trump e da guerra neocolonial na América Latina</h3>
</li>
</ol>
<p>A história recente da Nuestra América, marcada pela sombra da Doutrina Monroe e sua atualização sob o “Corolário Trump” — que persiste como lógica de Estado em Washington —, nos deixa três lições fundamentais sobre a natureza da guerra atual contra a soberania.</p>
<ol>
<li><b> O corpo da mulher como primeiro território de defesa</b></li>
</ol>
<p>O ataque de 3 de janeiro contra a Venezuela não foi apenas uma incursão militar; foi uma afronta à dignidade de um povo que decidiu ser livre. Naquele dia, 12 mulheres entregaram suas vidas em combate. Nove delas eram soldadas, integrantes da Guarda de Honra Presidencial.</p>
<p>O imperialismo entende que, para quebrar uma nação, deve quebrar a vontade de quem sustenta o tecido social. Na guerra híbrida, a mulher não é uma vítima passiva, mas um sujeito combatente que reorganiza a vontade em cada comuna e em cada território.</p>
<p>Essa lição se firma com a semeadura de Berta Cáceres em Honduras. Há uma década, a elite extrativista acreditou que, ao assassinar Berta, apagaria a voz do povo Lenca. Não compreenderam que seu corpo, assim como o das milicianas (componente da Força Armada Nacional Bolivariana) e comuneras venezuelanas, representa a resistência contra as barragens e o capital transnacional.</p>
<p>A detenção de Cilia Flores é apresentada como mais uma tentativa de sequestrar esse símbolo de dignidade e resistência política. Detida nos Estados Unidos junto a seu companheiro e presidente venezuelano Nicolás Maduro, ela enfrenta acusações relacionadas ao narcotráfico (<a href="https://www.contextotucuman.com/nota/370459/quien-es-cilia-flores-la-esposa-de-maduro-y-tambien-detenida-en-eeuu-por-narcoterrorismo.html?utm_source=chatgpt.com">Contexto Tucumán</a>). Advogada e figura central do chavismo, foi também defensora de militares envolvidos nas insurreições de 1992, incluindo o comandante Hugo Chávez.</p>
<p>Neste dia, as mulheres do mundo pedem sua libertação e retorno à Venezuela.</p>
<ol start="2">
<li><b> A economia da resistência é feminina</b></li>
</ol>
<p>Em Cuba, a “guerra silenciosa” das MCU assumiu a forma de um cerco energético sem precedentes. Ao impedir a chegada de combustível, Washington busca transformar a vida cotidiana em um inferno de escassez. No entanto, na ilha, a resistência tem rosto de mulher. São elas que, por meio da organização popular e dos vínculos comunitários, inventam soluções diárias para sustentar a vida diante do bloqueio.</p>
<p>Essa economia da resistência não busca o lucro, mas a reprodução da vida. Enquanto o sistema financeiro internacional utiliza a dívida para disciplinar as nações, as mulheres cubanas e venezuelanas contrapõem uma economia de cuidados coletivizados. Na Venezuela, 80% das lideranças das comunas e dos conselhos comunais são mulheres. Elas decidem, planejam e executam os projetos que mantêm de pé a estrutura social sob o bloqueio. A lição é clara: o socialismo em Nuestra América sobrevive porque as mulheres transformaram o âmbito do privado em um espaço de gestão política e de resistência econômica frente à agressão imperialista.</p>
<ol start="3">
<li><b> A solidariedade e a paz como diplomacia dos povos</b></li>
</ol>
<p>A recente ação do governo de Claudia Sheinbaum no México, ao enviar navios com 1.200 toneladas de ajuda a Cuba, rompe com a lógica da submissão financeira. A “sororidade” não é apenas um conceito interpessoal, mas uma categoria política internacional.</p>
<p>Vemos isso também na mobilização de organizações populares que, desafiando pressões externas, coordenam o envio de ajuda e o apoio mútuo entre nações sitiadas. No dia 21 de março, chegou o Convoy Nuestra América, organizado por diversos movimentos e organizações populares. Essa solidariedade popular é o que permite que Cuba resista e que a Venezuela aprofunde seu modelo comunal.</p>
<p>Quando o México desafia as pressões de Washington para apoiar a ilha e quando as mulheres se autoconvocam em brigadas feministas como a Brigada Internacionalista pela Paz Cilia Flores, pratica-se um feminismo que prioriza a vida das famílias e das comunidades acima dos ditames do capital transnacional. A solidariedade é a ternura — e a estratégia — dos povos.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138429" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138429" class="size-large wp-image-138429" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/74_Gabriela-Barraza_Viviremos-y-venceremos-1024x1024.jpg" alt="" width="1024" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/74_Gabriela-Barraza_Viviremos-y-venceremos-1024x1024.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/74_Gabriela-Barraza_Viviremos-y-venceremos-300x300.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/74_Gabriela-Barraza_Viviremos-y-venceremos-150x150.jpg 150w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/74_Gabriela-Barraza_Viviremos-y-venceremos-768x768.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/74_Gabriela-Barraza_Viviremos-y-venceremos.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-138429" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Gabriela Barraza (Argentina), <i>Viviremos y venceremos</i>, 2021. Disponível em <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/let-cuba-live-exhibition/">eltricontinenal.org</a>.</small></p></div>
</div>
<ol style="list-style-type: upper-roman;" start="2">
<li>
<h3 style="margin:2em 0;">As 3 tarefas às quais os feminismos populares nos convocam</h3>
</li>
</ol>
<p>O diagnóstico não basta; a conjuntura exige um plano de ação que blinde os processos populares contra a reação patriarcal e extrativista.</p>
<ol>
<li><b> Institucionalizar a gestão comunal do poder popular</b></li>
</ol>
<p>Na Venezuela, cerca de 80% das lideranças nos conselhos comunais são exercidas por mulheres. Elas são as porta-vozes de base, as que planejam projetos e executam o orçamento soberano. Diante do avanço da ultradireita, a resposta é mais poder popular. A tarefa urgente é fortalecer a Consulta Popular Nacional e o modelo de comunas. É aí que o feminismo popular realiza gestão e responde à ofensiva imperialista.</p>
<p>Devemos garantir que os recursos do território sejam geridos por quem os habita e defende, fechando caminho para a impunidade das milícias (no Brasil, grupos armados parapoliciais e paramilitares) e das estruturas ilegais de poder, como aquelas que tentaram silenciar Marielle Franco, no Brasil.</p>
<ol start="2">
<li><b> Desmantelar a impunidade do extrativismo neocolonial</b></li>
</ol>
<p>Não podemos avançar para o futuro sem fechar as feridas da impunidade. As histórias de Berta Cáceres em Honduras e de Marielle Franco no Brasil são faróis, mas também lembranças da ferocidade do capital.</p>
<p><b>Justiça para Berta:</b> dez anos após seu assassinato, a tarefa é desmantelar o modelo extrativista que mata quem defende os bens comuns. A punição dos autores intelectuais do crime segue sendo uma dívida de toda a região frente às transnacionais.</p>
<p><b>Justiça para Marielle:</b> a recente condenação dos irmãos Brazão no Brasil representa um avanço contra as milícias e o poder paraestatal. Em 2026, o Supremo Tribunal Federal condenou os mandantes do assassinato a mais de 76 anos de prisão, responsabilizando-os por organização criminosa e duplo homicídio (<a href="https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/procuradoria-geral-da-republica-pgr/noticias/stf-condena-os-mandantes-dos-assassinatos-de-marielle-franco-e-anderson-gomes-a-76-anos-de-prisao-1?utm_source=chatgpt.com">MPF</a>). A tarefa agora é erradicar as estruturas de violência política que atingem os tecidos populares e tentam silenciar mulheres negras, periféricas e dissidentes que ocupam espaços de poder.</p>
<p>Berta e Marielle nos ensinaram que defender o território indígena, camponês e afro, assim como defender a vida nas cidades, é a mesma luta. Seus nomes são bandeiras que alimentam nossa resistência cotidiana contra o patriarcado, o colonialismo, o racismo e o capitalismo.</p>
<ol start="3">
<li><b> Impulsionar a reforma agrária popular e a soberania alimentar</b></li>
</ol>
<p>Como ensinam as companheiras camponesas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, uma tarefa urgente para o feminismo popular é a defesa da terra. A reforma agrária popular é o direito das mulheres de decidir sobre a produção e as sementes frente ao agronegócio extrativista.</p>
<p>Para as mulheres, a terra é o espaço de reprodução da cultura e da vida. Sem soberania alimentar, a soberania nacional está incompleta. Devemos fortalecer os laços entre as camponesas e as trabalhadoras urbanas para garantir que o alimento seja um direito, e não uma mercadoria subordinada à lógica da dívida.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-138461" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Berta-Marielle-1024x512.jpg" alt="" width="1024" height="512" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Berta-Marielle-1024x512.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Berta-Marielle-300x150.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Berta-Marielle-768x384.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Berta-Marielle-1536x768.jpg 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Berta-Marielle.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"></p>
</div>
<ol style="list-style-type: upper-roman;" start="3">
<li>
<h3 style="margin:2em 0;">Mensagem de Berta Cáceres</h3>
</li>
</ol>
<p>Para as mulheres em Nuestra América, a luta é pela própria vida. Berta Cáceres, guardiã dos rios e da dignidade dos povos, nos deixou um mandato que sacode a consciência de todo o continente:</p>
<blockquote><p>Despertemos, humanidade! Já não há tempo. Nossas consciências serão abaladas pelo fato de estarmos contemplando a autodestruição baseada no capitalismo, no racismo e no patriarcado. Em nossas cosmovisões, somos seres que surgem da terra, da água e do milho. Dos rios somos guardiãs ancestrais… Demos a vida, se necessário, pela defesa da humanidade e do planeta!</p></blockquote>
<p>Esse grito de Berta é nossa bússola. Diante da agressão neocolonial, nossa resposta é a unidade, a defesa de nossa terra e a rebeldia inquebrantável.</p>
<p><b>Viva as mulheres que lutam! Viva Nuestra América livre e soberana! Venceremos!</b></p>
<p>Saudações a todos e todas,</p>
<p>Carmen Navas, Maisa Bascuas e Pilar Troya</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/08/Carmen.jpg" width="300" height="300"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Carmen Navas</strong></p><small>Carmen Navas é uma cientista política venezuelana e pesquisadora do Escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></td></tr></tbody></table><hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Buenos-Aires_Maisa-e1627398964213.png" width="500" height="500"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Maisa Bascuas</strong></p><small>Maisa Bascuas é uma cientista política argentina, professora e pesquisadora da Universidade de Buenos Aires e co-coordenadora do Departamento de Feminismos do Sul Global do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></td></tr></tbody></table><hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Inter-regional_Pilar-e1627396408577.png" width="500" height="500"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Pilar Troya</strong></p><small>Pilar Troya é pesquisadora e ativista feminista equatoriana. Ela tem trabalhado com políticas públicas de igualdade e o movimento de mulheres e é co-coordenadora do Departamento de Feminismos do Sul Global do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um dia para ler um “livro vermelho” e alimentar nossa indignação e luta</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/boletim-na-dia-livros-vermelhos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Miguel Yoshida]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Feb 2026 05:25:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Marx]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Communist Manifesto]]></category>
		<category><![CDATA[manifesto comunista]]></category>
		<category><![CDATA[red books day]]></category>
		<category><![CDATA[culture]]></category>
		<category><![CDATA[Dia dos Livros Vermelhos]]></category>
		<category><![CDATA[art]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/newsletter-na-red-books-day/</guid>

					<description><![CDATA[Há 5 anos, milhões de pessoas em todo o mundo participaram do Dia dos Livros Vermelhos, fortalecendo a cultura e as ideias de esquerda que tem como primazia a vida, o ser humano e a coletividade.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136328" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136328" class="size-large wp-image-136328" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/kael-abello-819x1024.jpg" alt="" width="819" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/kael-abello-819x1024.jpg 819w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/kael-abello-240x300.jpg 240w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/kael-abello-768x960.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/kael-abello.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px"><p id="caption-attachment-136328" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Ilustração de Kael Abello (Venezuela/Utopix) para o <a href="https://www.iulp.org/en/red-books-day">calendário do Dia dos Livros Vermelhos 2026</a>.</small></p></div>
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<p>Saudações do Escritório Nuestra América do<a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/"> Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>,</p>
<p>Um dos principais valores do neoliberalismo é o individualismo e ele moldou as gerações que surgiram a partir de sua implementação no mundo. A frase de Margareth Tatcher é a síntese ideológica desse projeto que procurava minar toda a vida coletiva: “A sociedade não existe, o que existe são os indivíduos”. Este é um dos fundamentos, em termos sociais, da fase atual do capitalismo que concentra cada vez mais riqueza na mão de poucos tornando a vida para a maior parte da população mundial cada vez mais insustentável. Essa lógica de acumulação só pode ser sustentada por uma política cada vez autoritária e violenta, da qual é exemplo os vários regimes de extrema direita no mundo, mas principalmente a da maior potência imperialista, os EUA. Seu governo patrocina o genocídio do povo palestino, o sequestro de um presidente legitimamente eleito e o bloqueio econômico assassino a Cuba  na tentativa de sufocar essa experiência revolucionária, além de muitas outras guerras ao redor do mundo.</p>
<p>Em contraposição a isso, as classes trabalhadoras, os povos de todo o mundo resistem de forma coletiva por meio de sua organização em movimentos, partidos, sindicatos e coletivos. Estes têm como objetivo lutar contras as desigualdades de todo tipo sociais, de gênero e sexualidade, raciais e de classe. Na Nuestra América essa tradição de luta remonta ao período da colonização quando os europeus invadiram nossos territórios para roubar daqui nossas riquezas, não sem resistência por parte dos povos originários que aqui viviam, como bem demonstra Eduardo Galeano em seu clássico <i>As veias abertas da América Latina</i>.</p>
<p>O projeto histórico de emancipação dos trabalhadores e trabalhadoras tem como base principal a teoria social elaborada Karl Marx e Friedrich Engels, dois revolucionários alemães cuja principal preocupação e objetivo na vida era a de construir a de destruir o capitalismo e construir uma sociedade que  não se baseasse na exploração de um ser humano por outro.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136312" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136312" class="size-large wp-image-136312" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/shenby-g-819x1024.jpg" alt="" width="819" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/shenby-g-819x1024.jpg 819w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/shenby-g-240x300.jpg 240w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/shenby-g-768x960.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/shenby-g.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px"><p id="caption-attachment-136312" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Ilustração de shenby g (Estados Unidos) para o calendário do Dia dos Livros Vermelhos 2026.</small></p></div>
</div>
<p>Em 21 de fevereiro de 1848 foi publicado em Londres um pequeno panfleto com menos de 30 páginas que mudou a história da sociedade e das lutas sociais, o Manifesto do Partido Comunista. Nesse pequeno texto, escrito como programa político de uma organização internacional de trabalhadores – a Liga Comunista – os dois autores fazem uma análise do, então, nascente capitalismo evidenciando suas potencialidades e limites. Ali, eles destacam principalmente a possibilidade e a necessidade da organização dos trabalhadores para construir uma nova sociedade.</p>
<p>Este texto inspirou todos os processos revolucionários desde então na Rússia, na China, em Cuba, no Vietnã, Nicarágua, nas lutas de libertação do continente africano entre outros. Nos países do Sul Global o desenvolvimento dessa tradição foi sendo enriquecido com os elementos da luta dos povos de cada região se configurando como uma síntese entre prática política e teoria revolucionária, lembrando a formulação de V. I. Lenin de que sem “teoria revolucionária não existe movimento revolucionário”.</p>
<p>Na Nuestra America o peruano José Carlos Mariátegui fez uma interpretação criativa da tradição marxista chegando a conclusão que o nosso socialismo não pode ser “nem decalque nem cópia, mas sim uma criação heroica” dos nossos povos. E essa construção tem sido feita a partir das experiências históricas de Cuba, Chile, Nicarágua, Venezuela e das lutas de resistência dos povos do nosso continente.</p>
<p>Essa tradição se mantém viva na Nuestra América pela ação organizada de movimentos populares camponeses e urbanos que mantém acesa a chama da revolução e da construção do projeto histórico dos trabalhadores por meio da organização e da luta popular. Essas forças sociais compreendem como fundamental também aquilo que o comandante em chefe da revolução cubana chamou de Batalha das Ideias, a disputa por corações e mentes para a construção de uma nova sociedade.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136320" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136320" class="size-large wp-image-136320" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/ignacio-minaverry-819x1024.jpg" alt="" width="819" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/ignacio-minaverry-819x1024.jpg 819w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/ignacio-minaverry-240x300.jpg 240w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/ignacio-minaverry-768x960.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/ignacio-minaverry.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px"><p id="caption-attachment-136320" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Ilustração de Ignacio Minaverry (Argentina) para o calendário do Dia dos Livros Vermelhos 2026.</small></p></div>
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<p>Martha Harnecker, umas das principais marxistas de Nuestra America dedicou sua vida a refletir sobre os diversos processos revolucionários para se avançar na transformação social em nosso continente. Após a implementação do neoliberalismo e analisando a temporária derrota das forças de esquerda em nossa região ela identificou três grandes crises: de projeto, programática e organizativa. Superar essas três crises é um desafio prático e teórico.</p>
<p>Inspirados por essa tradição de luta, diversas organizações populares ao redor do mundo, a partir do chamado de algumas editoras de esquerdas organizadas na União Internacional das Editoras de Esquerda, desde 2020, passaram a comemorar o Dia dos Livros Vermelhos. Um dia para celebrarmos a cultura de esquerda materializada nos livros que questionam a lógica do capital, que anunciam a construção de uma nova sociedade e contribuem para a superação do capitalismo. É uma data também para questionarmos na prática o valor do individualismo tão destacado pelo neoliberalismo e recuperarmos a vida coletiva. É um dia de encontro em que as pessoas se reúnem para ler coletivamente Livros Vermelhos que alimentam nossa indignação e nossa luta.</p>
<p>Nesses 5 anos de realização do Dia dos Livros vermelhos, milhões de pessoas em todas as regiões do mundo desde o Chile até o o Coreia do Sul, participaram da celebração do Dia dos Livros Vermelhos fortalecendo com isso a cultura e as ideias de esquerda que tem como primazia a vida, o ser humano e a coletividade.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136304" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136304" class="size-large wp-image-136304" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/cesar-mosquera-819x1024.jpg" alt="" width="819" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/cesar-mosquera-819x1024.jpg 819w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/cesar-mosquera-240x300.jpg 240w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/cesar-mosquera-768x960.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/cesar-mosquera.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px"><p id="caption-attachment-136304" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Ilustração de César Mosquera (Venezuela/Utopix) para o calendário do Dia dos Livros Vermelhos 2026.</small></p></div>
</div>
<p>Em 2026 celebramos o centenário de Fidel Castro e os 60 anos da Conferência Tricontinental, realizada em Havana, ao mesmo tempo que nos colocamos em extremo alerta contra a ofensiva imperialista que segue o genocídio em Gaza e invade países soberanos e sequestra presidentes. Neste sentido, convidamos a todos e todas para se juntar a essa iniciativa de celebrar a vida coletiva, recuperando assim um valor central da sociedade que queremos construir, e de divulgar as ideias que questionam o regime de morte do capital e anunciam a esperança de uma nova sociedade.</p>
<p>Essa é uma importante maneira de fortalecermos a luta de nossos povos e o espírito internacionalismo, relembrando duas formulações de José Marti, o apóstolo da independência cubana, de que “uma trincheira de ideias vale mais que uma trincheira de pedras” e de que “pátria é humanidade”.  Se reunir para ler livros vermelhos no dia 21 de fevereiro tem este sentido e mantém viva a nossa esperança da construção de uma sociedade em que viveremos não mais a partir da exploração de um ser humano por outro, mas, como formulou Marx, “de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades!”</p>
<p>Saudações a todos e todas,</p>
<p>Miguel Yoshida</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Brazil_Miguel-Y-2.png" width="950" height="950"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Miguel Yoshida</strong></p><small>Miguel es Membro da oficina Nuestra América, en Brasil, investigador del departamento de arte de tricontinental y editor de Expressão Popular.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Três lições do efeito Trump, 2 tarefas para o futuro e 1 mensagem de Bolívar</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/boletim-na-corolario-trump-bolivar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carlos Ron]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 05:00:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Clima en el Sur Global]]></category>
		<category><![CDATA[Nuevas Derechas]]></category>
		<category><![CDATA[Clima Sul Global]]></category>
		<category><![CDATA[Novas Direitas]]></category>
		<category><![CDATA[Nuestra América]]></category>
		<category><![CDATA[Guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Doutrina Monroe]]></category>
		<category><![CDATA[Hiperimperialismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[No dia 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos executaram uma operação militar de grande escala contra a Venezuela, denominada por Washington de “Operação Determinação Absoluta”. Essa ação de guerra da maior potência militar do mundo contra a Revolução Bolivariana deixou ao menos 100 mortos — entre eles 32 internacionalistas cubanos —, mais de uma centena de feridos, danos à infraestrutura militar e civil do país (como depósitos de medicamentos para pacientes renais) e o sequestro do presidente Nicolás&hellip;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135393" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135393" class="size-large wp-image-135393" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ELIAS-TANO-pueblo-digno-731x1024.jpeg" alt="" width="731" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ELIAS-TANO-pueblo-digno-731x1024.jpeg 731w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ELIAS-TANO-pueblo-digno-214x300.jpeg 214w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ELIAS-TANO-pueblo-digno-768x1075.jpeg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ELIAS-TANO-pueblo-digno-1097x1536.jpeg 1097w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ELIAS-TANO-pueblo-digno.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 731px) 100vw, 731px"><p id="caption-attachment-135393" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Elías Taño (Tenerife), <em>Aquí hay un pueblo digno</em>, 2026.</small></p></div>
</div>
<p>Saudações do Escritório Nuestra América do<a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/"> Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>,</p>
<p>No dia 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos executaram uma operação militar de grande escala contra a <mark class="ep-highlight">Venezuela</mark>, denominada por Washington de “Operação Determinação Absoluta”. Essa ação de guerra da maior potência militar do mundo contra a Revolução Bolivariana deixou ao menos 100 mortos — entre eles 32 internacionalistas cubanos —, mais de uma centena de feridos, danos à infraestrutura militar e civil do país (como depósitos de medicamentos para pacientes renais) e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama e deputada Cilia Flores, que hoje permanecem detidos como prisioneiros de guerra na cidade de Nova York.</p>
<p>No entanto, ao contrário do que imaginaria qualquer analista político ou historiador, o governo revolucionário não foi derrubado. Ele segue de pé e lidera uma resistência organizada para preservar a paz, a estabilidade e a soberania do país. Esse fato, aparentemente paradoxal, revela as contradições internas do projeto imperial e a força dos processos enraizados na organização popular.</p>
<p>A brutalidade do ataque poderia ter nos surpreendido, mas os sinais já o anunciavam com clareza. O Projeto 2025, elaborado pela Heritage Foundation e seus aliados para preparar um exército de burocratas ideologicamente comprometidos com o segundo governo Trump, recomendava uma “re-hemisferização” do continente. A Estratégia de Segurança Nacional, publicada semanas antes, reavivava a doutrina Monroe e lhe acrescentava um corolário Trump: os Estados Unidos tomarão todas as medidas necessárias — incluindo o uso unilateral da força militar — para garantir que nenhuma potência estrangeira possa se apropriar dos recursos do continente americano que consideram de seu interesse. Na prática, isso significa que condicionarão a soberania das nações do continente à sua disposição de atender às necessidades da superpotência.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135417" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135417" class="size-large wp-image-135417" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ivan-lira-TRUMP-1-819x1024.png" alt="" width="819" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ivan-lira-TRUMP-1-819x1024.png 819w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ivan-lira-TRUMP-1-240x300.png 240w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ivan-lira-TRUMP-1-768x960.png 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ivan-lira-TRUMP-1.png 1080w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px"><p id="caption-attachment-135417" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Iván Lira (<mark class="ep-highlight">Venezuela</mark>), <em>Dtrump</em>, 2025.</small></p></div>
</div>
<p>Do novo corolário Trump à doutrina Monroe, podemos extrair três lições:</p>
<p><strong>1. A ofensiva do hiperimperialismo é brutal e busca impor uma nova ordem mundial por meio da força.</strong> Começou em setembro de 2025 com execuções extrajudiciais de supostos narcotraficantes em alto-mar — alguns deles pescadores colombianos e trinitensis, como denunciou o presidente da Colômbia, Gustavo Petro — e iniciou o ano com um ataque militar que, em menos de duas horas, violou a Carta das Nações Unidas, o Estatuto de Roma e a própria Constituição dos Estados Unidos, que reserva ao Congresso a prerrogativa exclusiva de declarar guerra.</p>
<p>A política de “paz através da força” é o novo método para avançar a agenda estadunidense. Ficaram no passado as tentativas de cooptar organismos multilaterais e instrumentalizá-los, assim como o chamado “ordenamento baseado em regras”, que Washington invocava de forma seletiva. Já não é necessário manter aparências. O imperialismo conta com sua força bruta para criar uma nova ordem internacional, e quem quiser disputá-la terá de demonstrar a sua. Enquanto isso, os Estados Unidos reconfiguram seu domínio sobre o continente: intervieram nas eleições da Argentina e de Honduras, ameaçam a Colômbia e o México com operações antinarcóticos em seus territórios, exigem de Cuba um acordo “antes que seja tarde demais”, expandem sua presença militar no Equador, no Panamá (buscando exercer controle sobre o Canal) e no Haiti (impulsionando na ONU uma “força de supressão de gangues”) e, mais recentemente, lançam um ultimato à Dinamarca e a outros aliados da OTAN para que cedam o controle da Groenlândia ou o tomarão “pela força”.</p>
<p><strong>2. O novo estado de ânimo do Sul Global se fortalece a partir de conquistas concretas dos povos, não do idealismo nem da timidez:</strong> apesar do avassalador poderio militar, os Estados Unidos não ocuparam militarmente a <mark class="ep-highlight">Venezuela</mark> nem derrubaram o governo. A estabilidade do país tem sido garantida pela Revolução Bolivariana, um projeto alternativo à lógica imperialista que conseguiu se consolidar por meio da organização territorial (comunas), da criatividade produtiva, da participação política e da consciência social.</p>
<p>Existe um novo estado de ânimo no Sul Global, contrário à ação unilateral e favorável à cooperação por meio do multilateralismo e da unidade regional para enfrentá-la. A solidariedade desempenha um papel fundamental, e a defesa da soberania da <mark class="ep-highlight">Venezuela</mark> fez-se sentir em espaços tão distantes quanto Kerala, Roma, Pretória ou Havana, para citar apenas alguns dos centenas de lugares que manifestaram sua rejeição ao ataque estadunidense. O que esses povos defendem é o direito de existirem alternativas políticas reais e transformadoras. São esses projetos que podem liderar um novo futuro para o Sul Global. Em dezembro, foi realizada no Rio de Janeiro uma Cúpula Popular do BRICS, na qual o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e outros movimentos defenderam a formulação de propostas concretas para tornar realidade projetos de cooperativas e empresas sociais. São as transformações verdadeiras — e não propostas inalcançáveis por seu idealismo ou tímidas ao confrontar os esquemas de dominação — que geram estabilidade e unidade.</p>
<p><strong>3. A nova direita ocupa cada vez mais espaços, mas é facilmente descartável na ofensiva hiperimperialista.</strong> Os Estados Unidos surpreenderam ao impor um aumento de tarifas contra o Brasil e medidas coercitivas unilaterais contra o ministro da Suprema Corte Alexandre de Moraes, responsável pela condenação de Jair Bolsonaro. Por meio de ameaças nas redes sociais e na imprensa, o governo Trump acusou as instituições brasileiras e o próprio governo de perseguição ao seu principal aliado no país.</p>
<p>No entanto, com Bolsonaro condenado, o hiperimperialismo rapidamente mudou sua estratégia, promovendo um diálogo com Lula. Em uma operação semelhante, María Corina Machado, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz após indicação do próprio secretário de Estado, foi descartada como opção política na <mark class="ep-highlight">Venezuela</mark> por não contar com apoio ou legitimidade suficientes. Embora as direitas estejam ocupando os espaços deixados abertos pelas fragilidades do campo popular, o hiperimperialismo não hesitará em descartá-las diante de qualquer conjuntura estratégica. Isso revela que devemos trabalhar urgentemente por um projeto mínimo comum que permita avançar as causas populares sem depender das contradições internas do campo inimigo.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135409" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135409" class="size-large wp-image-135409" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/OLFEr-abyayala-contra-trump-742x1024.jpg" alt="" width="742" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/OLFEr-abyayala-contra-trump-742x1024.jpg 742w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/OLFEr-abyayala-contra-trump-217x300.jpg 217w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/OLFEr-abyayala-contra-trump-768x1060.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/OLFEr-abyayala-contra-trump-1112x1536.jpg 1112w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/OLFEr-abyayala-contra-trump.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 742px) 100vw, 742px"><p id="caption-attachment-135409" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Olfer Leonardo (Perú), <em>Abyayala contra Trump</em>, 2026.</small></p></div>
</div>
<p>Em <i>O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte</i>, Marx nos lembra que “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem de livre arbítrio, sob circunstâncias escolhidas por eles mesmos, e sim sob aquelas circunstâncias com que se deparam diretamente”. Depois deste início abrupto de 2026, assumamos as tarefas históricas diante das circunstâncias que nos coube viver:</p>
<p><b>1. Não basta a multipolaridade, devemos buscar o “equilíbrio do universo”: </b>Há duzentos anos foi realizado o Congresso Anfictiônico do Panamá, que tentou criar a unidade do continente americano para salvaguardar sua independência e soberania. Diferente do pan-americanismo impulsionado a partir de Washington, esse congresso não pretendia impor uma tutela, mas apostava em alcançar aquilo que Bolívar concebia como o equilíbrio do universo: “(…) todas estas partes [do mundo] devem buscar estabelecer uma balança entre elas e a Europa, para destruir a preponderância desta última”. A ordem mundial construída após a Guerra Mundial Antifascista dividiu o mundo em zonas de influência a serem repartidas na Guerra Fria. O que precisamos construir hoje, mais do que uma simples multipolaridade, é um equilíbrio entre todos os atores internacionais que garanta a cooperação, o desenvolvimento justo e compartilhado e a resolução das grandes ameaças, como a guerra e a mudança climática.</p>
<p><b>2. Nossa luta deve ser comum e simultânea: </b>Há 60 anos realizou-se a Conferência Tricontinental de Havana, onde pela primeira vez se uniram as lutas do que hoje chamamos de Sul Global. Ali, o comandante Fidel Castro apresentou, em seu discurso de encerramento, uma fórmula que segue mais atual do que nunca:</p>
<blockquote><p>“Na América Latina não deve restar um, nem dois, nem três povos lutando sozinhos contra o imperialismo. A correlação de forças dos imperialistas neste continente, a proximidade de seu território metropolitano, o zelo com que tratarão de defender seus domínios nesta parte do mundo, exige neste continente, mais do que em qualquer outra parte, uma estratégia comum, uma luta comum e simultânea”.</p></blockquote>
<p>Durante o mês de maio de 2026, e no marco do centenário de Fidel, será realizada em Cuba a IV Assembleia Continental da ALBA Movimentos. Será o cenário propício para que os movimentos e as organizações populares do continente, com uma visão realista dos desafios, tracem uma nova estratégia de luta comum e simultânea para preservar a soberania e a dignidade frente ao avanço hiperimperialista.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135401" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135401" class="size-large wp-image-135401" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/kael-venceremos-731x1024.jpg" alt="" width="731" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/kael-venceremos-731x1024.jpg 731w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/kael-venceremos-214x300.jpg 214w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/kael-venceremos-768x1075.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/kael-venceremos-1097x1536.jpg 1097w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/kael-venceremos.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 731px) 100vw, 731px"><p id="caption-attachment-135401" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Kael Abello (<mark class="ep-highlight">Venezuela</mark>), <em>Venceremos: Bolívar vs Donroe</em>, 2026.</small></p></div>
</div>
<p><b>Uma mensagem de Bolívar: </b>Em 1825, poucos meses após a Batalha de Ayacucho, que selou definitivamente a independência sul-americana do império espanhol, a França cogitava uma invasão à Colômbia. Bolívar, à frente do Peru, enviou a Santander, na Colômbia, uma carta dura, carregada de realismo, pragmatismo e, sobretudo, visão estratégica.</p>
<p>Diante da superioridade militar francesa, recomendava não resistir frontalmente para evitar maior destruição ao país. Preferia recuar para o sul e iniciar uma guerra de guerrilhas; e, em torno de um ou dois anos, começar a guerra ativa que traria a vitória. Bolívar defendia a unidade do Congresso Anfictiônico e o fortalecimento de alianças com potências estrangeiras, enquanto considerava medidas mais sagazes. “Ainda que sacrifique minha popularidade e minha glória, quero salvar a Colômbia de seu extermínio nesta nova guerra. Se me sair bem, ficarei satisfeito, e se me sair mal, também, porque terei dado o último passo de salvação”.</p>
<p>O cenário hoje, francamente, não é alentador. A incursão militar na <mark class="ep-highlight">Venezuela</mark> e o sequestro de seu presidente foram um golpe duro; também o são as ameaças a outros países ao longo da região, as derrotas eleitorais, os desafios econômicos e sociais e a ausência de um projeto mínimo comum para os novos tempos.</p>
<p>Mas, ao mesmo tempo, Nuestra América não é uma região subjugada. A paciência deve ser estratégica e a determinação inquebrantável, mesmo diante da adversidade. É tempo de construir um novo momento mais favorável a partir das conquistas alcançadas. Como escreveu o Libertador em sua carta: “devemos saber perder no início, para saber ganhar depois”.</p>
<p>Saudações a todos e todas,</p>
<p>Carlos Ron</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/08/Carlos.jpg" width="300" height="300"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Carlos Ron</strong></p><small>Carlos Ron é co-coordenador do Escritório de Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A falsa Geração Z e o fascismo mexicano</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/boletim-na-genz-fascismo-mexico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rodrigo Guillot]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 Dec 2025 08:00:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mexico]]></category>
		<category><![CDATA[Gen Z]]></category>
		<category><![CDATA[Geração Z]]></category>
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					<description><![CDATA[No mês passado de novembro, o México passou por protestos por parte da oposição de direita, sob o disfarce de ‘Geração Z’, mas que promove táticas violentas e uma agenda de extrema direita contra o atual governo mexicano. Para compreender o contexto desses acontecimentos, convidamos ao bacharel em Relações Internacionais Rodrigo Guillot, militante do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) do México, esta contribuição ao debate.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_134015" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-134015" class="size-large wp-image-134015" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/David-Alfaro-Siqueiros-1024x768.jpg" alt="" width="1024" height="768" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/David-Alfaro-Siqueiros-1024x768.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/David-Alfaro-Siqueiros-300x225.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/David-Alfaro-Siqueiros-768x576.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/David-Alfaro-Siqueiros.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-134015" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>David Alfaro Siqueiros (México), <em>El nacimiento del fascismo [O nascimento do fascismo]</em>, 1936.</small></p></div></div>
<p>Saudações do escritório Nuestra América do<a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/"> Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>.</p>
<p><i>No mês passado, em novembro, o México passou por protestos organizados pela direita sob o disfarce de ‘Geração Z’, promovendo táticas violentas e uma agenda de extrema direita contra o atual governo mexicano. Para compreender o contexto desses acontecimentos, convidamos o bacharel em Relações Internacionais Rodrigo Guillot, militante do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) do México.</i></p>
<p>Em novembro de 2025, a direita mexicana convocou uma marcha em todas as capitais do México sob a bandeira do anime <i>One Piece</i>, que havia sido usada recentemente por manifestantes nepaleses – majoritariamente jovens – para protestar contra medidas restritivas daquele governo. A aposta em uma imagem estrangeira e descontextualizada da realidade mexicana parece bizarra, porque de fato o é. Trata-se de um sintoma da falta de causas concretas e de identidades próprias que os setores reacionários no México vêm experimentando desde a chegada da <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-mexico-quarta-transformacao/">Quarta Transformação em 2018</a>.</p>
<p>Durante o período de López Obrador (2018–2024), os mesmos atores políticos que saíram às ruas no último mês de novembro realizaram manifestações semelhantes, sobretudo contra o que eles entendiam enquanto a destruição das instituições liberais: um processo de devolução de capacidades estatais iniciado por Obrador, em oposição aos preceitos neoliberais que governaram o país durante os 30 anos que precederam o início de seu governo.</p>
<p>O caráter dos protestos contra o governo progressista de Cláudia Sheinbaum mudou da mesma forma que o cenário geopolítico. Em um mundo no qual as direitas têm apostado com êxito na via do fascismo, na política de identidades xenófobas e no apelo à sociedade de livre mercado levada ao extremo, a direita mexicana abandonou o discurso de defesa institucional e optou pelo da liberdade. O grande articulador dessa guinada é Ricardo Salinas Pliego, proprietário do Banco Azteca, da rede de Lojas Elektra (conhecida por oferecer créditos impagáveis aos setores de menor poder aquisitivo) e concessionário da TV Azteca, uma das duas redes de televisão mais poderosas do México.</p>
<p>Durante a reta final do mandato de Andrés Manuel e nos primeiros meses do governo de Claudia, o empresário endureceu sua postura de oposição ao governo mexicano devido a um litígio contra ele, que poderia obrigá-lo a pagar 3,5 bilhões de pesos mexicanos — pouco mais de 192 milhões de dólares — em impostos atrasados. Para se contrapor a esta ofensiva, Salinas ameaçou a se tornar candidato à presidente, ideia que agrada alguns setores dos partidos políticos da direita mexicana.</p>
<p>Durante o processo de convocação da marcha de novembro, porém, o México foi abalado pelo assassinato do prefeito de Uruapan, Michoacán, Carlos Manzo, conhecido por enfrentar o crime organizado em seu estado. Os organizadores da marcha de oposição se aproveitaram do episódio para colocar no centro da pauta a demanda por segurança dirigida ao governo mexicano, e incluíram em seus protestos a imagem do prefeito assassinado. A esposa de Carlos Manzo, Grecia Quiroz, que assumiu a prefeitura interina de Uruapan, viu-se obrigada a se desvincular publicamente da marcha.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_134025" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-134025" class="size-large wp-image-134025" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Cucarachas-fascistas.Intervenciones-en-las-calles-de-la-ciudad-de-Oaxaca-mayo-2025-1024x1024.jpeg" alt="" width="1024" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Cucarachas-fascistas.Intervenciones-en-las-calles-de-la-ciudad-de-Oaxaca-mayo-2025-1024x1024.jpeg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Cucarachas-fascistas.Intervenciones-en-las-calles-de-la-ciudad-de-Oaxaca-mayo-2025-300x300.jpeg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Cucarachas-fascistas.Intervenciones-en-las-calles-de-la-ciudad-de-Oaxaca-mayo-2025-150x150.jpeg 150w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Cucarachas-fascistas.Intervenciones-en-las-calles-de-la-ciudad-de-Oaxaca-mayo-2025-768x768.jpeg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Cucarachas-fascistas.Intervenciones-en-las-calles-de-la-ciudad-de-Oaxaca-mayo-2025.jpeg 1080w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-134025" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Coletivo Subterráneos (México), <em>Cucarachas fascistas [Baratas fascistas]</em>, 2025.</small></p></div></div>
<p>Como resultado, no dia 15 de novembro, em diferentes cidades do país, diversos agrupamentos e setores de oposição ao governo mexicano se reuniram para marchar e se concentrar nas praças públicas, sem que houvesse uma causa comum ou um discurso unificado, exceto o chamado à derrubada da presidenta Claudia Sheinbaum. No Zócalo da Cidade do México, a principal praça pública do país, pessoas encapuzadas e armadas com ferramentas metálicas e correntes agrediram fisicamente integrantes da polícia.</p>
<p>Em geral, a oposição tem se caracterizado pelo uso violento da linguagem, mas ao longo dos seis anos do governo de López Obrador, não havia ocorrido nenhum episódio de violência física durante as manifestações opositoras. Esse fato coincide com a guinada estratégica da direita mexicana e está sendo investigado pelo Congresso da Cidade do México, uma vez que há indícios de que dois prefeitos do Partido da Ação Nacional teriam financiado os agressores.</p>
<p>Sem dúvida, a oposição mexicana considerou as manifestações um sucesso. No dia seguinte já se convocava uma segunda marcha para 20 de novembro, na Cidade do México, cujo percurso coincidia com o caminho percorrido pelo desfile militar que ocorre justamente nessa data para celebrar o aniversário da Revolução Mexicana. A presidenta anunciou uma mudança na rota do desfile, a fim de evitar qualquer ato violento, mas o episódio evidencia a determinação da direita em provocar a violência.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_134045" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-134045" class="size-large wp-image-134045" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Frida-812x1024.jpg" alt="" width="812" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Frida-812x1024.jpg 812w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Frida-238x300.jpg 238w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Frida-768x969.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Frida.jpg 951w" sizes="auto, (max-width: 812px) 100vw, 812px"><p id="caption-attachment-134045" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Frida Khalo (México), <em>El marxismo dará salud a los enfermos [O marxismo dará saúde aos doentes]</em>, ca. 1954.</small></p></div></div>
<p>A segunda convocação foi um fracasso. Além de não ter conseguido provocar um confronto entre civis e integrantes do Exército, reuniu apenas cerca de uma centena de pessoas. Porém, deixou claro as intenções dos grupos oposicionistas: forçar ao máximo as condições para provocar um enfrentamento violento com o Estado.</p>
<p>Em um contexto nacional em que os partidos Ação Nacional e Revolucionário Institucional apelam abertamente à intervenção dos Estados Unidos sob o pretexto do narcotráfico, e acusam o governo mexicano de ser autoritário e comunista, o recrudescimento da direita e sua guinada para posições fascistas e abertamente violentas só podem ser compreendidos como uma tática funcional à estratégia intervencionista dos Estados Unidos.</p>
<p>Saudações a todos e todas,</p>
<p>Rodrigo Guillot</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/guillot.jpg" width="640" height="640"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Rodrigo Guillot</strong></p><small>Rodrigo Guillot é licenciado em Relações Internacionais, militante de Morena e assessor em comunicação política.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>COP30: entre a vitrine do capital verde e a urgência de um projeto popular de transição ecológica</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/boletim-na-cop30-transicao-ecologica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Loureiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Nov 2025 08:00:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[COP30]]></category>
		<category><![CDATA[meio ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[crise ambiental]]></category>
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					<description><![CDATA[A COP30 deixou ainda mais evidente que a política ambiental está profundamente subordinada ao capital. As decisões climáticas não partem da conservação e recuperação dos ecossistemas, mas da necessidade de garantir a continuidade da acumulação, transformando florestas, rios, sol, vento e territórios em ativos financeiros estratégicos.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_131838" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-131838" class="size-large wp-image-131838" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/releitura-de-candido-portinari-o-lavrador-de-cafe-pintada-com-cinzas-1666109571870_v2_1x1-1024x1024.jpg" alt="" width="1024" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/releitura-de-candido-portinari-o-lavrador-de-cafe-pintada-com-cinzas-1666109571870_v2_1x1-1024x1024.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/releitura-de-candido-portinari-o-lavrador-de-cafe-pintada-com-cinzas-1666109571870_v2_1x1-300x300.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/releitura-de-candido-portinari-o-lavrador-de-cafe-pintada-com-cinzas-1666109571870_v2_1x1-150x150.jpg 150w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/releitura-de-candido-portinari-o-lavrador-de-cafe-pintada-com-cinzas-1666109571870_v2_1x1-768x768.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/releitura-de-candido-portinari-o-lavrador-de-cafe-pintada-com-cinzas-1666109571870_v2_1x1.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-131838" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="font-weight: 400;">Mundano </span><span style="font-weight: 400;">(Brasil)</span><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Brigadista da Floresta</span></i><span style="font-weight: 400;">, 2021. Mural de 46 metros de altura, feito com cinzas coletadas de 4 biomas brasileiros devastados pelo fogo. Releitura de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Lavrador de Café</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1934), de Cândido Portinari.</span></small></p></div>
</div>
<p>Saudações do escritório Nuestra América do <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/">Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>.</p>
<p>A 30ª Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, ou COP30, acaba de ser realizada na Amazônia brasileira. Para compreender melhor as dinâmicas em jogo, pedimos a contribuição de Bárbara Loureiro, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), para este debate:</p>
<blockquote><p>A COP30, realizada em Belém do Pará, em plena Amazônia, entre os dias 10 a 21 de novembro, colocou na centralidade o debate sobre a crise climática. Ao mesmo tempo, revelou com nitidez o quanto a política ambiental segue capturada pelos interesses corporativos, pelo capital financeiro e pela racionalidade colonial que transforma florestas, rios, sol, vento e povos em objetos de gestão para benefício dos países ricos e das elites econômicas.</p>
<p>Mais do que um encontro diplomático, a COP30 funcionou como um espelho: de um lado, a celebração das chamadas “soluções de mercado” e da descarbonização financeira; do outro, e de forma paralela e autônoma, a força crescente do campo popular, que fez de Belém um território de denúncia, solidariedade internacionalista e construção de alternativas reais. Essa tensão atravessou todos os debates, decisões e disputas que marcaram o evento.</p>
<p>A política climática dominante baseia-se na ideia de que é possível enfrentar a crise ecológica sem enfrentar seus motores, ao acreditar que só é possível enfrentá-la por meio do seu alinhamento com os princípios do mercado: a acumulação capitalista, a exploração e expropriação colonial dos territórios e o poder das corporações transnacionais.</p>
<p>Em Belém, essa contradição ficou ainda mais evidente no contexto da celebração dos dez anos do Acordo de Paris. Apesar de ser amplamente saudado como um marco histórico, o Acordo não conseguiu colocar o mundo em uma rota viável de enfrentamento ao aquecimento global. Na prática, serviu apenas para aprofundar a regulamentação e a disseminação de mecanismos de financeirização da natureza, sem enfrentar as causas estruturais da crise climática.</p>
<p>As próprias projeções oficiais indicam um aquecimento em cerca de 2,5ºC até o final do século, enquanto cortes profundos em emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), necessários para manter o aquecimento em “apenas” 1,5ºC, continuam distantes e politicamente bloqueados.</p>
<p>A COP30 deixou ainda mais evidente que a política ambiental contemporânea está profundamente subordinada ao capital e estruturada por uma racionalidade colonial que persiste no século XXI. As decisões climáticas de âmbito internacional – que supostamente deveriam enfrentar a crise ecológica – não partem da conservação e recuperação dos ecossistemas, mas da necessidade de garantir a continuidade da acumulação, transformando florestas, rios, sol, vento e territórios em ativos financeiros estratégicos.</p>
<p>Essa lógica é articulada a partir de dois pilares centrais: a primazia absoluta da acumulação (que coloca as soluções de mercado acima da integridade ecológica) e a visão colonial que trata o Sul Global como zonas de sacrifício, destinadas a prestar “serviços ambientais” para manter o padrão de vida e de consumo das potências do Norte. Assim, enquanto a Amazônia e os biomas são fatiados em métricas de carbono, “planos de manejo” e energias ditas renováveis, não há qualquer disposição internacional para enfrentar o núcleo do problema: o modo de produção capitalista, que continua definindo padrões tecnológicos, regulatórios e financeiros que aprisionam o Sul Global em um papel subalterno.</p></blockquote>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_131828" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-131828" class="size-large wp-image-131828" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/Coletivo-MAHKU-o-Movimento-dos-Artistas-Huni-Kuin-1024x641.jpg" alt="" width="1024" height="641" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/Coletivo-MAHKU-o-Movimento-dos-Artistas-Huni-Kuin-1024x641.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/Coletivo-MAHKU-o-Movimento-dos-Artistas-Huni-Kuin-300x188.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/Coletivo-MAHKU-o-Movimento-dos-Artistas-Huni-Kuin-768x481.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/Coletivo-MAHKU-o-Movimento-dos-Artistas-Huni-Kuin.jpg 1155w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-131828" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="font-weight: 400;">Coletivo MAHKU (Brasil), </span><i><span style="font-weight: 400;">Rashuaka</span></i><span style="font-weight: 400;">, 2022.</span></small></p></div>
</div>
<blockquote>
<h3 style="margin:2em 0;">Promessas trilionárias, entregas simbólicas</h3>
<p>O chamado Roteiro Baku–Belém prometeu mobilizar 1,3 trilhões de dólares para mitigação e adaptação. Mas é um gigante de papel: mistura recursos internacionais com fundos nacionais que muitos países sequer possuem, carece de mecanismos de monitoramento e segue a lógica do capital financeiro, que privilegia projetos de baixo risco mas com alto retorno econômico, exatamente o oposto das necessidades de adaptação dos países periféricos.</p>
<p>Governos, cientistas e especialistas criticaram a falta de mecanismos vinculantes, a ausência de clareza sobre as fontes reais dos recursos e a imprecisão das metas. O documento final da COP30 foi amplamente interpretado como insuficiente e desconectado da urgência climática. A principal crítica é de que não há garantias de implementação e não há instrumentos de responsabilização. Na prática, os países só concordaram em “se esforçar” para triplicar o financiamento, mas sem dizer quem paga, quanto e de onde vem o recurso financeiro.</p>
<p>Sem um financiamento climático robusto e redistributivo, as NDCs (planos nacionais de redução de emissões) permanecem frágeis e insuficientes. No caso brasileiro, por exemplo, embora o país apresente metas de reduzir entre 59% e 67% das emissões até 2035 (em relação a 2005), zerar o desmatamento ilegal até 2030 e eliminar todo o desmatamento até 2035, não há nenhum indicativo de que o modelo de produção do agronegócio – a origem do desmatamento – será enfrentado. Este é um modelo que segue em expansão, especialmente sobre o bioma amazônico, mesmo que seu discurso defenda que esta expansão predatória não faça parte de um suposto “agronegócio racional, moderno e tecnológico”, mas de uma parte atrasada da agropecuária.</p>
<p>Além disso, o governo brasileiro continua rendido pelo agronegócio, que captura as estruturas públicas, como empresas públicas, universidades e centros de pesquisa, em busca de um “esverdeamento”. Uma das consequências desta captura é que o governo se recusa a impor metas específicas e restritivas ao setor, <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/brasil/a-transicao-energetica-para-alem-do-debate-combustiveis-fosseis-e-fontes-renovaveis/">justamente o maior emissor de GEE do país</a>. Assim, as promessas climáticas convivem com a manutenção de um modelo agrícola que bloqueia avanços reais e impede a transformação estrutural necessária.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">A vitrine brasileira e a armadilha para os povos</h3>
<p>O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), uma proposta do governo brasileiro para criar um financiamento global e permanente para a conservação de florestas tropicais e anunciado como uma grande inovação para proteger florestas, sintetiza a lógica colonial da financeirização. É concebido a partir da ideia de que a floresta só será preservada se ela tiver uma valoração econômica. Ou seja, a floresta não tem um valor em si, mas só será preservada se for aferida a ela um preço. Bilhões de dólares seriam captados por bancos multilaterais que comprariam títulos públicos e privados do Sul Global, e estes países terminam pagando juros aos mesmos agentes que “financiam” sua preservação. É um mecanismo que transfere riqueza do Sul para o Norte enquanto transforma florestas em ativos, territórios e modos de vida em métricas de risco.</p>
<p>Com pagamentos de no máximo quatro dólares por hectare e critérios que criminalizam práticas tradicionais, o TFFF não reduz o desmatamento nem enfrenta suas causas, mas apenas reforça o controle financeiro sobre a Amazônia. Não por acaso, países europeus recuaram diante do “alto risco”. As expectativas iniciais de 125 bilhões dólares se revelaram fantasia; nem a meta reduzida de 10 bilhões de dólares foi atingida até o final desta COP.</p>
<p>O mais preocupante é que esta iniciativa foi aceita por alguns segmentos progressistas e defendida, inclusive, enquanto um avanço por estes setores, ainda que represente um aprofundamento da financeirização da natureza, já que com o TFFF não somente o carbono será precificado, mas vários outros “serviços ambientais”. Tal tese vem na esteira de uma suposta defesa do protagonismo internacional do governo Lula frente ao tema ambiental. No entanto, este será um protagonismo esvaziado de sentido caso seu conteúdo não aponte a saídas concretas construídas pelos povos para a crise ambiental.</p></blockquote>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_131848" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-131848" class="size-large wp-image-131848" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_DB_MASP_11130_01-1024x724.jpg" alt="" width="1024" height="724" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_DB_MASP_11130_01-1024x724.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_DB_MASP_11130_01-300x212.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_DB_MASP_11130_01-768x543.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_DB_MASP_11130_01.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-131848" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="font-weight: 400;">Denilson Baniwa (Brasil), </span><i><span style="font-weight: 400;">Natureza morta 1, </span></i><span style="font-weight: 400;">2016.</span></small></p></div>
</div>
<blockquote>
<h3 style="margin:2em 0;">O protagonismo das corporações na COP</h3>
<p>A COP30 consolidou a captura corporativa da crise climática. Bancos e grandes transnacionais transformaram pavilhões, eventos e casas temáticas em centros de <i>lobby</i> e oportunidade de negócios. <a href="https://racismoambiental.net.br/2025/11/11/de-olho-nos-ruralistas-e-fase-lancam-estudo-sobre-lobbies-na-cop30/">A mídia corporativa recebeu patrocínios ambientais de empresas com extensos passivos socioambientais</a>, afetando a independência da cobertura. Uma cena reveladora mostrou <a href="https://www.oc.eco.br/numero-de-lobistas-fosseis-na-cop30-supera-delegacoes-de-todos-os-paises-exceto-brasil/">1.602 lobistas de combustíveis fósseis circulando livremente pelas negociações</a>, uma presença maior que a de quase todos os países, exceto a da própria delegação brasileira.</p>
<p>Embora o Brasil tenha defendido a construção de um “Mapa do caminho para a eliminação dos combustíveis fósseis”, o texto final não inclui qualquer compromisso concreto de eliminação do uso destes recursos, não estabeleceu datas para o fim da produção de petróleo, gás e carvão e ignorou recomendações científicas para um abandono rápido das fontes fósseis. A ausência desse compromisso foi considerada por especialistas internacionais um “fracasso estrutural” da COP30 e se deve à pressão direta do <i>lobby </i>dos países produtores e das empresas do setor.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Agronegócio: o general invisível da COP</h3>
<p>O agronegócio atuou como um dos blocos mais organizados e influentes da COP30. Seus objetivos foram nítidos: apresentar-se como protagonista da solução climática por meio de soluções tecnológicas, ampliar seu acesso a financiamentos públicos e privados, bloquear regulações ambientais mais rígidas e direcionar o debate climático global conforme seus interesses.</p>
<p>Para isso, utilizou-se exaustivamente de termos como “agricultura regenerativa”, “agricultura tropical” e “bioeconomia”, discursos que procuram pintar de verde práticas baseadas em monoculturas, uso intensivo de agrotóxicos e expansão territorial. Essa estratégia apoia-se na narrativa de que o agronegócio brasileiro é altamente tecnológico e, portanto, automaticamente sustentável, mesmo quando seus impactos ambientais indicam o contrário.</p>
<p>O espaço liderado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) durante a COP30, a Agrizone, contou com forte patrocínio de corporações como Bayer e Nestlé, além de abrigar estruturas do próprio governo federal, e funcionou como vitrine privilegiada desse projeto: um ambiente de negócios, <i>lobby</i> e engenharia de reputação que reforça a captura corporativa da política climática.</p>
<p>Vale lembrar que o Brasil é um dos países com maior número de assassinatos de ambientalistas e lideranças dos povos do campo e da floresta no mundo. Este ato é a linha de frente antes da derrubada das florestas. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) revelam um quadro alarmante: 2024 apresentou o segundo maior número de conflitos no campo desde 1985. A Amazônia permanece como a região mais vulnerável, e o estado do Pará, local da COP30, lidera registros de assassinatos e tentativas de assassinato. Esse cenário de violência estrutural está diretamente ligado à expansão do agronegócio e ao seu modelo de modernização conservadora, que aprofunda contradições históricas sobre uso, posse e propriedade da terra no Brasil, mas também sobre diferentes formas de compreender a relação entre humanidade e natureza.</p></blockquote>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_131858" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-131858" class="size-large wp-image-131858" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_HG_MASP_11052_01-1024x626.jpg" alt="" width="1024" height="626" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_HG_MASP_11052_01-1024x626.jpg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_HG_MASP_11052_01-300x184.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_HG_MASP_11052_01-768x470.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_HG_MASP_11052_01.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-131858" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="font-weight: 400;">Hulda Guzmán (República Dominicana)</span><i><span style="font-weight: 400;">, Venha dançar – convidou a natureza gentilmente, </span></i><span style="font-weight: 400;">2019-20.</span></small></p></div>
</div>
<blockquote>
<h3 style="margin:2em 0;">A Cúpula dos Povos e o contraponto popular</h3>
<p>Enquanto a COP30 expressava o avanço das cercas financeiras sobre a natureza, a Cúpula dos Povos, realizada entre 12 e 16 de novembro em paralelo à Conferência oficial, expressou a força da resistência. Foram mais de 25 mil inscritos, mais de 1.200 organizações articuladas e uma barqueata internacionalista com mais de 200 embarcações; a marcha global contou com 70 mil pessoas. Delegações de 60 países construíram um documento que denuncia o racismo ambiental, o poder das corporações e as falsas soluções do capitalismo verde, identificando o capitalismo como o motor da crise climática.</p>
<p>A Cúpula reafirmou que não há saída climática dentro do sistema que criou a crise, e que apenas a organização popular é capaz de enfrentar o inimigo comum: o capitalismo em suas expressões imperialistas, racistas e patriarcais.</p>
<p>A quantidade de manifestações em diversos espaços da COP30 e na Agrizone também expressaram um descontentamento com a incapacidade destas governanças globais lideradas sobretudo pela ONU, incapazes de apresentar soluções efetivas para os diversos conflitos globais.</p>
<p>A COP30 evidenciou que o debate climático também é um debate sobre modelo de sociedade, bem como demonstrado pelo dossiê do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-crise-ambiental/"><i>A crise ambiental como parte da crise do capital</i></a>. Para os movimentos populares, há três tarefas urgentes e necessárias:</p>
<ol>
<li aria-level="1"><b>Politizar a disputa ambiental: </b>é fundamental seguir construindo a luta ambiental a partir do enfrentamento direto ao agronegócio e à mineração, setores que seguem intocados no centro das emissões e da destruição territorial. Politizar a disputa significa também denunciar as falsas soluções que vêm ganhando força, baseadas na financeirização da natureza, nos mercados de carbono e nos fundos “verdes” que aprofundam dependências e invisibilizam as causas estruturais da crise.</li>
<li aria-level="1"><b>Ampliar a mobilização popular: </b>Para que a agenda climática se torne força social transformadora, é urgente ampliar a capacidade de mobilização popular, fortalecendo organizações de base, territorializando o debate ambiental e conectando pautas como moradia, saneamento, alimentação, transporte, energia e acesso à terra com a luta climática.</li>
<li aria-level="1"><b>Construir um programa próprio de transição ecológica justa e popular: </b>os movimentos precisam projetar um programa de transição que enfrente o poder corporativo, recupere a centralidade dos bens comuns e reorganize a economia a partir das necessidades dos povos. Isso implica massificar a produção de alimentos saudáveis, fortalecer a agroecologia, garantir soberania energética e colocar água, solo, floresta e energia fora dos mercados financeiros.</li>
</ol>
<p>A COP30 escancarou que a política climática dominante segue alinhada ao capital, e que não há saída capaz de enfrentar as causas estruturais da crise ecológica sob estes marcos. Ao mesmo tempo, mostrou que existe um caminho insurgente, construído por povos, movimentos e territórios que, no cotidiano, produzem as únicas soluções realmente enraizadas na vida e na justiça socioambiental.</p>
<p>A tarefa histórica diante de nós é transformar essa força social em projeto político: uma transição ecológica popular, anticolonial, agroecológica e anticapitalista, porque não há saída real para a crise climática sem ruptura com o modelo capitalista, e não há ruptura possível sem organização popular, sem luta coletiva e sem enfrentamento às estruturas que lucram com a devastação.</p>
<p>Saudações a todos e todas,</p>
<p>Bárbara Loureiro</p></blockquote>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/barbara-loureiro.jpeg" width="449" height="493"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Bárbara Loureiro</strong></p><small>Bárbara Loureiro faz parte da coordenação nacional do MST e é mestre em meio ambiente e desenvolvimento rural.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
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