Encarando o abismo, disputando o horizonte: classe, trabalho e renda no Brasil
O que nos levou à atual “polarização política” e à uma “calcificação das identidades políticas”? O que está por trás do pragmatismo do eleitorado brasileiro? Este artigo pretende compreender a polarização não como fenômeno autônomo do comportamento político, mas como um sintoma de um processo mais amplo marcado por quarenta anos de hegemonia neoliberal e pela atual fragilidade da esquerda em formular um projeto de futuro hegemônico e compartilhado.
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No Brasil, há um esforço amplo para compreender a ideia difundida de “polarização política”. O livro Biografia do Abismo, de Felipe Nunes e Thomas Traumann, fala em “calcificação das identidades políticas”. Já o publicitário João Santana defende que o eleitorado brasileiro é, na prática, pragmático: a mesma pessoa pode apoiar o Bolsa Família e querer menos impostos, defender a polícia e um fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), ser contra privatizações e admirar empresários.
Entre a calcificação identitária e o pragmatismo eleitoral, este texto propõe um terceiro caminho: compreender a polarização não como fenômeno autônomo do comportamento político, mas como sintoma de um processo mais amplo, marcado por quarenta anos de hegemonia neoliberal no Brasil e pela fragilidade atual da esquerda em formular um projeto de futuro hegemônico e compartilhado.
Ao assumir cargos no Executivo e posições relevantes no Legislativo, a esquerda viu-se progressivamente absorvida pela lógica de gestão do próprio sistema que se propunha a superar. Sua atuação, cada vez mais circunscrita à disputa por políticas específicas dentro dos marcos institucionais vigentes, converteu-a — aos olhos de parcelas relevantes da sociedade — em fiadora da ordem capitalista, não mais em sua antagonista. Essa reflexão dialoga também com a tese de André Singer sobre o lulismo: transformações dentro da ordem, não da ordem. Esse deslocamento abriu espaço para a direita se apropriar do discurso antissistema, encenando-se como força insurgente — uma inversão simbólica em que a esquerda aparece institucionalizada e a direita se apresenta, contraditoriamente, como a voz da revolta.
O argumento central deste texto é que esse suposto abismo político não está apenas no comportamento eleitoral: está, sobretudo, no abismo material e histórico que separa quem vive do próprio trabalho — formal e informal — de quem vive da renda do capital, da terra e do rentismo. Um abismo que a financeirização da economia e o discurso empreendedor não apenas reproduzem, mas atualizam e aprofundam constantemente.
Para sustentar esse argumento, o texto revisita a leitura de André Singer sobre a consciência ambígua dos mais pobres; apresenta dados sobre a profundidade e a permanência histórica da desigualdade brasileira, da formação do mercado de trabalho à precarização atual; situa esse quadro nacional na disputa internacional por hegemonia e recursos que hoje redesenham o capitalismo global; e defende que a resposta não pode se limitar à restauração do modelo anterior à reforma trabalhista de 2017, propondo uma agenda que combina a defesa imediata dos direitos ameaçados com a construção de um horizonte coletivo de futuro.
A consciência ambígua da classe trabalhadora
Desde seus estudos sobre a eleição de 1989, André Singer identifica um fenômeno aparentemente contraditório no subproletariado: uma posição que combina a defesa da ordem e da hierarquia social — típica de leitura de direita — com a aspiração por igualdade e intervenção estatal, mais próxima às pautas da esquerda. Não se trata de alinhamento à direita liberal clássica, mas de uma combinação entre conservadorismo de costumes e defesa da ordem com posição favorável à ação estatal na redução da desigualdade. Essa formulação explica tanto a resistência histórica desse eleitorado a greves e mobilizações de classe quanto sua posterior adesão ao lulismo a partir de 2006, quando um programa de distribuição de renda com intervenção estatal, sem ruptura da ordem, passou a dialogar diretamente com essa base social.
Essa ambiguidade fica mais nítida à luz da distinção clássica entre classe em si e classe para si. Como classe em si, o subproletariado já existe objetivamente e partilha a posição de despossessão diante do trabalho e da renda. Mas essa existência material não se converte automaticamente em consciência organizada em torno de interesses comuns; não basta ocupar o mesmo lugar na estrutura social para agir coletivamente a partir dele. Entre a classe que se é e a classe que se constitui, para si, como sujeito político, há um trajeto que depende de organização, experiência de luta e disputa cotidiana pela hegemonia. É a ausência desse trajeto que Singer identifica quando descreve a defesa da ordem como resposta à desproteção material, não como convicção.
Para essa fração de classe, explica Singer, a clivagem esquerda/direita não se organiza em torno de ser contra ou a favor da redução da desigualdade, mas em torno de como obtê-la. A esquerda, historicamente associada à luta de classes e à mobilização social, é percebida como via que ameaça a ordem estabelecida. O subproletariado — sem carteira assinada, sem sindicato, sem capacidade de autodefesa coletiva — é particularmente vulnerável à instabilidade que um conflito aberto poderia trazer, ao contrário do trabalhador formal e dos setores mais abastados, que dispõem de instrumentos institucionais e reservas financeiras para se proteger em momentos de crise.
Essa reflexão ganha urgência particular às vésperas das eleições presidenciais de 2026. O mercado de trabalho brasileiro segue profundamente precarizado, inclusive para quem tem carteira assinada, com grande contingente informal e crescimento constante do trabalho por conta própria. Se a adesão de setores da sociedade mais empobrecidos à ordem estabelecida sempre esteve condicionada à sua fragilidade material e à ausência de redes de proteção social, é justamente essa fragilidade que se aprofunda hoje, num cenário de multiplicação de vínculos precários, plataformização do trabalho e enfraquecimento da ação sindical. Compreender as condições de trabalho e de vida da classe trabalhadora é, portanto, condição para qualquer projeto político que pretenda romper o ciclo histórico de precarização e disputar, de fato, sua adesão a um horizonte coletivo de transformação.
O verdadeiro abismo da sociedade brasileira
Desde o fim do tráfico de escravizados e a Lei de Terras de 1850 — que impediu a integração com dignidade do trabalhador negro liberto à sociedade —, a negação do direito ao trabalho e à renda é a marca permanente do abismo entre classe trabalhadora e classe dominante.
O que sobra de um lado, historicamente falta do outro: a combinação de fatores que garante às elites o “direito” à acumulação de renda — o privilégio histórico no acesso à terra e à propriedade, a injustiça tributária e os ganhos do rentismo que drenam recursos públicos e bens comuns para fundos privados —, nega o direito ao trabalho digno a cerca de 56 milhões de pessoas, praticamente 1 em cada 3 pessoas em idade ativa no país.
Hoje, os 10% mais ricos do Brasil concentram 70% da riqueza nacional. Cerca de 1% dos estabelecimentos rurais concentram 47,6% da área ocupada e apenas 0,36% dos declarantes do Imposto de Renda concentram 41,6% de todo o patrimônio declarado no país. Crianças nascidas em famílias entre os 50% mais pobres têm apenas 10,82% de probabilidade de chegar aos 25% mais ricos da população — e 1,94% de probabilidade de concluir o ensino superior. A classe trabalhadora está sem renda, sem direitos e sem perspectiva de futuro; a nova configuração da polarização política é parte recente desse processo histórico de desigualdade.
Apesar da centralidade inquestionável do trabalho para a reprodução do capitalismo, a radicalização do projeto neoliberal consolidou no Brasil uma lógica que pode ser chamada de “anti-trabalho”: o trabalho deixou de ser via de mobilidade social e passou, para parcela crescente da população, a não garantir sequer a subsistência mínima. Resultado desse projeto político é um mercado de trabalho historicamente desestruturado e, após a Reforma Trabalhista de 2017, profundamente fragmentado e desregulamentado — o que explica por que, mesmo em momentos de “pleno emprego”, com desocupação entre 5,6% e 6,1%, a classe trabalhadora vive em uma economia aquecida sob uma base institucional precarizada, como avalia a economista Lucia Garcia (Dieese).
Condições de vida da classe trabalhadora: precarização, empobrecimento e “empreendedorismo”
Há uma síntese comum entre trabalhadores e trabalhadoras entrevistados/as para pesquisa do Instituto Tricontinental sobre as condições de vida da classe trabalhadora no Brasil: “Hoje trabalho mais e ganho menos.” Como especificou uma trabalhadora dos serviços gerais de uma empresa terceirizada que presta serviço em hospital público: “aumentou muito a intensidade do trabalho… Diminuiu muito o quadro de funcionários. Então, a gente ficou muito carregado hoje em dia… já tem mais de cinco anos.”
Entre 2012 e 2025, viveu-se de fato um processo de intensificação do trabalho sem contrapartida equivalente de renda. Em termos nominais, a renda média no Brasil cresceu 140,2% nesse período, mas o ganho real foi de apenas 15,5%, e ficou concentrado quase todo nos últimos três anos (2023–2025), como mostra a tabela abaixo:
| Ano | Rendimento real (R$) | Desocupação (%) |
| 2012 | 3.083 | 7,4 |
| 2016 | 3.164 | 11,6 |
| 2019 | 3.204 | 11,8 |
| 2021 | 3.101 | 14,0 |
| 2022 | 3.032 | 9,6 |
| 2023 | 3.249 | 7,7 |
| 2025 | 3.560 | 5,6 |
Fonte: IBGE, PNAD Contínua Anual. Série completa 2012-2025 e metodologia na nota de rodapé.
Entre 2012 e 2022, o poder de compra médio ficou estagnado e chegou a cair abaixo do nível de 2012 — justamente no ano (2022) em que a desocupação já recuava com força frente a 2021 (de 14,0% para 9,6%, quase 4,4 pontos em um único ano). Uma hipótese para esse paradoxo é que a retomada pós-pandemia trouxe de volta ao mercado sobretudo pessoas em posições de renda mais baixa — vagas informais, de comércio, serviços e aplicativos —, puxando a média geral da renda para baixo. Se correta, essa hipótese é um alerta direto contra a promessa do empreendedorismo como porta de saída: o problema não é falta de vagas, é que as vagas que sobram pagam menos, e entrar nelas em massa reduz a renda média sem melhorar a vida e dar condições para projetar o futuro.
A estagnação de 2012–2022 coincidiu com piora mensurável nas condições de trabalho como um todo: o nível de desocupação praticamente dobrou e a informalidade aumentou, e a taxa composta de subutilização também terminou 2022 pior do que em 2012. Foi também resultado da Reforma Trabalhista de 2017 que, segundo estudo do Cesit/Unicamp, precarizou formas de contratação, flexibilizou jornadas, rebaixou remuneração e fragilizou a ação sindical e o acesso à Justiça do Trabalho, um impacto estrutural que a melhora econômica de 2023–2025 ainda não foi capaz de superar.
Isso porque o crescimento da economia nesses anos veio, sobretudo, de mais gente entrando no mercado em piores condições, não do crescimento do rendimento por hora trabalhada: a jornada encolheu mais rápido do que uma subida da remuneração por hora. Essa precarização da quantidade de trabalho disponível também se expressa como polarização da jornada: de um lado, 4,6 milhões de pessoas subocupadas por insuficiência de horas — querem e podem trabalhar mais, mas não conseguem —; de outro, quem trabalha por conta própria, fora de qualquer proteção de jornada máxima, segue com a maior carga horária média entre todas as posições (45 horas semanais, mesmo após queda).
O trabalho por conta própria, aliás, cresceu de forma constante desde 2012: o salto mais forte acontece já entre 2012 e 2016 (+12,2%), junto com a crise, não depois dela; em 2021, chega a 27,1% do total de ocupados, o maior percentual do período. Mas o discurso de que “a vida melhora sem patrão” não se confirma: segundo o Censo 2022, o trabalho por conta própria sem CNPJ — maior contingente informal isolado do país, 17,2 milhões de pessoas, quase 1 em cada 5 ocupados — rende em média R$1.821,10, praticamente o mesmo que um empregado informal (R$1.761,15) e bem menos que um empregado com carteira assinada (R$2.616,98). Segundo esses dados, ter carteira assinada ou CNPJ segue assegurando renda maior; o que mudou é que esse ganho já não basta para produzir, por si só, a sensação de segurança para a reprodução da vida que antes o justificava.
Essa promessa não cumprida do empreendedorismo ajuda a entender por que a desigualdade material afeta de forma distinta a consciência de cada grupo da classe trabalhadora. A queda de renda entre 2012 e 2022 atingiu sobretudo homens, pessoas brancas e trabalhadores mais escolarizados — justamente o grupo mais exposto à disputa ideológica pela direita e à promessa do empreendedorismo como rota de fuga individual. Já a renda de mulheres, pretos e pardos e pessoas de menor escolaridade, historicamente nas faixas mais baixas, não caiu na mesma proporção, em parte por efeito da política de valorização do salário mínimo, que sustenta o piso desses grupos mesmo quando o restante da distribuição recua.
Entre quem tem superior completo, a queda de renda mais acentuada não contradiz essa leitura — é sobretudo efeito de composição: entre 2012 e 2022, o número de ocupados com superior completo saltou de 12,4 milhões para 21,2 milhões, passando de 14,1% para 22,0% de todos os ocupados do país. Mais gente com diploma disputando vagas que não cresceram na mesma proporção dilui a renda média do grupo, sem que graduados individualmente estejam necessariamente ganhando menos — o “graduado médio” de 2022 é uma base mais ampla, menos seletiva e inserida no mercado de trabalho em piores condições do que a de 2012.
Essa diluição do valor do diploma e do trabalho pesa ainda mais sobre os mais jovens, que já vivem doze anos sob o signo da estagnação e com baixíssima margem para projetar o futuro. Não é difícil entender por que absorvem com mais facilidade um discurso que desvaloriza tanto o estudo quanto o vínculo formal como caminhos de vida: se o diploma vale menos e o emprego com carteira não garante segurança, a promessa do empreendedorismo individual ganha terreno por eliminação, não por convicção.
O desânimo tem lastro material e não se reduz a uma questão de percepção. O endividamento das famílias se aprofunda justamente nos anos de “recuperação” da economia. O comprometimento da renda mensal com dívidas, que era de 25,58% em 2021, no auge da crise, chegou a 28,12% em 2025, o maior valor da série histórica, acima até do registrado na pandemia. Enquanto o desemprego caía e a renda média real voltava a crescer, esse indicador bateu sucessivos recordes. Uma explicação provável é que boa parte das novas vagas de trabalho tenham sido ocupadas por pessoas que já tinham a renda comprometida com o pagamento de dívidas.
A composição dessas dívidas ajuda a entender o quadro. Segundo a economista Marilane Teixeira, em 2022 a proporção de endividados foi maior entre as mulheres, se concentrando em cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado e empréstimo pessoal. Para ela, “o permanente endividamento aumenta a pobreza, a desigualdade, e só amplia os rendimentos do capital, ao custo do comprometimento da qualidade de vida e da própria sustentabilidade das mulheres e suas famílias.”
Fecha-se, assim, o ciclo que cava o abismo: a superexploração do trabalho se intensifica, parte considerável da renda é direcionada para pagar juros e garantir lucros aos rentistas, justamente no momento em que os indicadores agregados sugerem melhora geral da economia. Esse abismo é central, material e estrutural — e reproduz condições de ambiguidade material e ideológica na classe trabalhadora, que perdeu direitos e renda de formas desiguais ao longo de uma década, viu o desemprego cair sem sentir alívio real, endivida-se mais justamente quando os indicadores dizem que a economia melhora e, diante desse quadro, oscila entre a descrença nas instituições coletivas e a adesão pragmática a soluções individuais que raramente entregam o que prometem.
O abismo em escala global: imperialismo, rentismo e disputa por horizontes
Esse abismo brasileiro não pode ser compreendido isoladamente do estágio atual do desenvolvimento capitalista, que pode ser descrito como um “hiperimperialismo”. Os Estados Unidos, diante do declínio de sua hegemonia econômica e tecnológica frente à China, acentuam seu caráter agressivo e militarista. Na América Latina, essa ofensiva se manifesta por guerras híbridas, hipersanções e intervenções diretas que visam o controle de recursos estratégicos, como o petróleo venezuelano, o lítio do “triângulo” andino (Argentina, Bolívia e Chile), as terras raras brasileiras. Como economia dependente, o Brasil vê seu destino atrelado aos interesses do capital financeiro internacional, que subordina a política nacional à lógica da especulação e do rentismo; a mesma lógica que, internamente, já vimos drenar cerca de R$1,165 trilhão por ano em juros da dívida pública enquanto nega trabalho digno e direitos aos trabalhadores.
Essa dinâmica geopolítica se reflete no cotidiano da classe trabalhadora pela precarização estrutural. Mesmo sob o regime da CLT, observa-se uma “formalidade precária” em setores como comércio e varejo, marcada por jornadas variáveis, baixos salários e enfraquecimento dos vínculos coletivos. O neoliberalismo não apenas desregulamenta o trabalho, mas também opera uma reconfiguração ideológica profunda, naturalizando a instabilidade e convertendo o trabalho — antes um direito social — em responsabilidade puramente individual, mediada pelo discurso da meritocracia. A internalização desses valores desloca a identidade de classe para uma identidade centrada na sobrevivência, fragmentando o senso de coletividade e limitando a capacidade de planejamento de médio e longo prazo da própria vida.
O crescimento da extrema direita é indissociável dessa crise. Financiada pelo capital financeiro para proteger seus ganhos, ela utiliza o ódio a minorias e o medo e o apego à ordem como ferramentas de imobilização política. A precarização do tempo social impõe um horizonte restrito, no qual a juventude e os trabalhadores, sem perspectiva de futuro, tornam-se receptivos a soluções moralizantes e violentas que preenchem o vazio deixado pela desestruturação das políticas públicas.
Nesse cenário, as mulheres trabalhadoras podem emergir como sujeitos políticos estratégicos, como bem demonstram experiências latino-americanas, já que sua posição central na reprodução social e na gestão da vida nos territórios periféricos exige a articulação de formas de solidariedade prática que se opõem ao individualismo neoliberal — um dado que qualquer projeto de futuro precisa levar em consideração, e ao qual voltamos na agenda que segue.
Como construímos o futuro?
Os trabalhadores do futuro no Brasil já nasceram e, segundo Márcio Pochmann, “sete de cada dez nasceram em famílias miseráveis”. Diante dos dados apresentados e mantidas as condições do projeto em curso, a mobilidade social não se coloca como perspectiva viável para esse grupo — o que torna funcional a crença no “alpinista social” que, por mérito e e de forma individual, consegue escalar o abismo e fincar a bandeira no alto por mérito e esforço empreendedor. É urgente discutir adequadamente as desigualdades estruturais, atentos ao verdadeiro abismo e ao seu impacto real no cancelamento do futuro do povo e do país.
Não se trata, porém, de perseguir a restauração do passado no presente. Insistir exclusivamente na defesa da CLT ou na ampliação de vínculos formais é ignorar a tendência objetiva de precarização, informalização e fragmentação do trabalho já demonstrada. Ao mesmo tempo, é preciso permanecer comprometidos com todas as lutas por direito e dignidade, como o fim da jornada 6×1, a reforma agrária e urbana, o enfrentamento à violência contra as mulheres e ao racismo, e avançar na garantia do direito de cidadania, independentemente das condições de formalização, garantindo aos já nascidos o direito ao trabalho e à vida; e ao país o direito ao futuro.
Essa disputa não se resolve apenas nas urnas. Diante do quadro internacional já descrito, o desafio para resgatar um horizonte pós-capitalista exige superar a mera disputa eleitoral e avançar na politização permanente: a retomada do trabalho de base, a formação de militantes com pensamento crítico e o uso da arte e da cultura para dialogar com o povo de forma mais ampla. É necessário um projeto popular que combine soluções imediatas — emprego digno, moradia, tarifa zero — com mudanças estruturais capazes de enfrentar as causas do abismo.
Esse projeto popular não se refere apenas a boas ideias, nem se resume a uma lista de medidas: é fruto de um processo de debate e convergência com o povo, capaz de traduzir demandas hoje dispersas em um programa comum. Isso exige disputar cotidianamente a hegemonia nos territórios e nas categorias profissionais, formar quadros capazes de estimular esse debate para além dos ciclos eleitorais, e testar coletivamente, em experiências concretas de organização e luta, o que poderia ampliar a adesão da classe trabalhadora a esse horizonte. É esse processo, e não apenas a existência de uma condição material comum, que pode transformar a classe trabalhadora brasileira de classe em si em classe para si.
As tarefas a seguir são uma tentativa provisória de dar forma a esse processo e não seu ponto de chegada, mas material de debate a ser revisto e aprofundado no próprio movimento coletivo que o produz.
- Reduzir a jornada de trabalho e extinguir a escala 6×1, tratando a redistribuição do tempo como devolução de ganhos de produtividade acumulados e não repartidos desde a última redução constitucional da jornada, em 1988. Mais que pauta de qualidade de vida, é o ponto em que convergem, sem contradição, a defesa imediata de quem ainda está no modelo celetista e a construção de uma sociedade que não subordina toda a vida ao trabalho — bandeira capaz de unir mulheres, juventude e trabalhadores de setores distintos.
- Consolidar uma Nova Carta Social do Trabalho, que resgate a função social da economia e o sentido do trabalho como valor coletivo, reconheça juridicamente atividades da economia colaborativa, do trabalho sociocomunitário e dos “bicos”, e garanta direito à renda desatrelado do vínculo empregatício, com direitos universais financiados pelo lucro das empresas ou da taxação dos lucros e renda dos mais ricos — repensando FGTS e INSS, por exemplo, não como contribuição individual amarrada ao contrato formal, mas como um direito de cidadania.
- Instituir um sistema nacional de ocupações sociais — atividades orientadas não pela acumulação de capital, mas por utilidade social, sustentabilidade ambiental e realização humana, com proteção garantida independentemente do vínculo. Resposta estrutural aos milhões que já vivem fora do assalariamento clássico: cuidado e envelhecimento populacional, reflorestamento e recuperação de mananciais, agroecologia urbana, cultura e economia solidária, com o município como espaço de experimentação, desde que articulado à regulação e ao financiamento federal.
- Estruturar um sistema nacional de cuidados que reconheça e remunere o trabalho reprodutivo — hoje gratuito, invisível e recaído sobre mulheres, sobretudo negras —, enfrentando a divisão sexual e racial do trabalho como herança direta da não incorporação do trabalhador negro liberto ao mercado assalariado, e não como desigualdade meramente conjuntural.
- Regular o trabalho plataformizado e barrar a pejotização, revertendo decisões judiciais que hoje disfarçam de autonomia um vínculo de subordinação real a algoritmos que controlam tempo e ganhos, retirando férias, 13º, FGTS e aposentadoria de quem já é, na prática, assalariado; fortalecer a Justiça do Trabalho, o Ministério Público do Trabalho e a negociação coletiva, esvaziados pela reforma de 2017; garantir cobertura integral de saúde e segurança do trabalho a todo tipo de vínculo.
- Reinventar a organização sindical em bases territoriais e interseccionais — presente no bairro e não apenas no local de trabalho, incorporando raça, gênero, juventude e as novas formas de trabalho autônomo e informal —, como condição para reconstruir a capacidade de mobilização de uma classe trabalhadora hoje fragmentada e cética quanto à ação coletiva.
- Fortalecer a agricultura familiar como estratégia de soberania alimentar, geração de emprego e enfrentamento à crise ambiental, criando condições de permanência no campo — em especial para a juventude — a ribeirinhos, quilombolas, quebradeiras de coco, extrativistas, pescadores artesanais, posseiros, sem-terra, povos indígenas e demais povos do campo, das águas e das florestas.
- Impulsionar a reindustrialização soberana articulada à transição ecológica e ao desenvolvimento tecnológico internalizando cadeias produtivas hoje importadas prontas, como fonte de trabalho digno e de soberania tecnológica, revertendo a reprimarização da economia.
- Enfrentar o rentismo improdutivo, reduzir juros e taxar grandes fortunas para financiar a agenda de transformações, aprofundando o passo já dado pela reforma do Imposto de Renda de 2025, que isentou ou reduziu a cobrança para 16 milhões de pessoas e passou a taxar em até 10% os rendimentos acima de R$50 mil por mês.
- Garantir educação pública de qualidade, formação científica, técnica e profissional e condições de trabalho para o desenvolvimento soberano das capacidades do povo de produzir suas próprias soluções para o desenvolvimento nacional.
Nenhuma dessas tarefas se resolve isoladamente, nem apenas dentro das fronteiras nacionais. Enfrentar o abismo brasileiro é também disputar com os povos da América Latina e do Sul Global, ombro a ombro, os termos da dependência e do rentismo internacional que hoje se reorganizam sob o hiperimperialismo. Só a organização coletiva enraizada na solidariedade internacionalista poderá transformar a atual crise de projetos em um caminho de soberania e emancipação para o povo brasileiro.
Notas
1. Felipe Nunes é cientista político, Ph.D. em Ciência Política e mestre em Estatística pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). É professor da UFMG e sócio-fundador do instituto de pesquisas Quaest, que em 2024 se tornou fornecedora de pesquisas para a TV Globo e suas afiliadas.
2. Thomas Traumann é jornalista e mestre em Ciência Política pelo IESP/UERJ. Atuou por vinte anos na Folha de S.Paulo, Veja e Época; entre 2011 e 2014 foi porta-voz da Presidência da República e ministro da Secretaria de Comunicação Social no primeiro governo Dilma Rousseff. É colunista de política da Veja e do Poder360, além de consultor de risco político.
3. João Santana é jornalista e publicitário, coordenador do marketing vitorioso das campanhas de Lula (2006) e Dilma Rousseff (2010 e 2014) no Brasil, além de campanhas presidenciais vitoriosas na Venezuela, na República Dominicana, em Angola e em El Salvador. Fez a afirmação citada durante a VI edição do Summit Cidades, em Florianópolis, junho de 2026.
4. Em Singer (2012, p. 19), o conceito de subproletariado é resgatado de Paul Singer (1981) e definido como a “sobrepopulação trabalhadora superempobrecida permanentemente”.
5. SINGER, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
6. No Relatório de Desigualdade Global do World Inequality Lab (dez/2025), o Brasil aparece como o 5º país mais desigual entre 216: os 10% mais ricos concentram 59,1% da renda nacional; os 50% mais pobres, apenas 9,3%.
7. Segundo dados do Banco Central compilados por análises do BNDES/Observatório de Política Fiscal, o gasto líquido com juros nominais foi de cerca de R$1,165 trilhão em 2025, equivalente a 9,15% do PIB. Fonte: auditoriacidada.org.br.
8. Somam-se aqui a subutilização composta da força de trabalho — desocupados + subocupados por insuficiência de horas + força de trabalho potencial, incluindo desalentados, sem sobreposição entre categorias: 16,6 milhões de pessoas (2025, IBGE/SIDRA 4666) — e os trabalhadores informais, ocupados mas sem carteira, CNPJ ou proteção, grupo distinto que não integra o cálculo de subutilização: 39,2 milhões de pessoas (2025, IBGE/SIDRA 4680). A população de 14 anos ou mais é de 174,1 milhões em 2025.
9. Relatório Mundial sobre a Desigualdade 2026, elaborado por pesquisadores da rede World Inequality Lab, liderada pelo economista francês Thomas Piketty.
10. Fonte: IBGE, Censo Agropecuário 2017: 51.203 estabelecimentos com 1.000 hectares ou mais (1% do total de 5.073.324 estabelecimentos) concentravam 47,6% da área ocupada; em 2006 essa fatia era de 45%.
11. Estudo do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), de autoria de Evilásio Salvador, “Perfil da Desigualdade e da Injustiça Tributária” (dados da Receita Federal, ano-base 2013): 726.725 pessoas (0,36% da população, com rendimentos acima de 40 salários mínimos) detinham 41,56% do patrimônio total informado ao Fisco (R$5,8 trilhões), equivalente a 45,54% do PIB da época.
12. Atlas da Mobilidade Social Brasil: atlasmobilidadesocial.org.br.
13. Dado de desocupação da PNAD Contínua/IBGE, 1º trimestre de 2026.
14. Entrevista ao programa Brasil Popular, exibido em 2 de maio na TV Brasil 247, sobre Precarização, Luta e o Futuro do Trabalho.
15. Trabalhadores entrevistados em abril e maio de 2026, durante pesquisa do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social sobre as condições da classe trabalhadora no Brasil.
16. Fonte: IBGE, PNAD Contínua, tabela SIDRA 4660.
17. Série completa 2012–2025 (rendimento nominal e real mensal, INPC e taxa de desocupação anual) — Fonte: IBGE, PNAD Contínua: 2012: nominal R$1.480,00, real R$3.083,00, INPC 6,20%, desocupação 7,4%. 2013: nominal R$1.623,00, real R$3.185,00, INPC 5,56%, desocupação 7,3%. 2014: nominal R$1.777,00, real R$3.280,00, INPC 6,23%, desocupação 7,0%. 2015: nominal R$1.861,00, real R$3.151,00, INPC 11,28%, desocupação 8,9%. 2016: nominal R$2.032,00, real R$3.164,00, INPC 6,58%, desocupação 11,6%. 2017: nominal R$2.092,00, real R$3.147,00, INPC 2,07%, desocupação 12,6%. 2018: nominal R$2.216,00, real R$3.217,00, INPC 3,43%, desocupação 12,1%. 2019: nominal R$2.290,00, real R$3.204,00, INPC 4,48%, desocupação 11,8%. 2020: nominal R$2.441,00, real R$3.310,00, INPC 5,45%, desocupação 13,7%. 2021: nominal R$2.473,00, real R$3.101,00, INPC 10,16%, desocupação 14,0%. 2022: nominal R$2.648,00, real R$3.032,00, INPC 5,93%, desocupação 9,6%. 2023: nominal R$2.965,00, real R$3.249,00, INPC 3,71%, desocupação 7,7%. 2024: nominal R$3.209,00, real R$3.368,00, INPC 4,77%, desocupação 6,6%. 2025: nominal R$3.555,00, real R$3.560,00, INPC 3,90%, desocupação 5,6%. Nota técnica sobre 2020: o crescimento nominal da renda média naquele ano não reflete melhora efetiva nas condições de trabalho, mas efeito estatístico da composição da força de trabalho ocupada — a pandemia expulsou de forma desproporcional os trabalhadores de menor rendimento (ocupações informais, comércio, serviços, trabalho doméstico), elevando artificialmente a média entre os que permaneceram empregados, em sua maioria com vínculos formais e rendimentos mais altos. Nota: os dados tabulares foram organizados com o auxílio de ferramenta de inteligência artificial (Claude, Anthropic), sendo posteriormente conferidos manualmente para garantir a fidelidade às fontes originais.
18. Série completa de desocupação e informalidade, 2015–2025 (%) — Fonte: IBGE, PNAD Contínua anual, tabelas SIDRA 4562 (desocupação) e 4708 (informalidade): 2015: 8,9 / 39,0. 2016: 11,6 / 39,1. 2017: 12,6 / 40,6. 2018: 12,1 / 40,9. 2019: 11,8 / 41,0. 2020: 13,7 / 37,7. 2021: 14,0 / 39,6. 2022: 9,6 / 39,5. 2023: 7,7 / 39,2. 2024: 6,6 / 39,0. 2025: 5,6 / 38,1. A taxa de informalidade soma cinco categorias sem proteção formal — empregado do setor privado sem carteira assinada, trabalhador doméstico sem carteira, trabalhador por conta própria sem CNPJ, empregador sem CNPJ e trabalhador familiar auxiliar —, como proporção do total de ocupados; o conta própria sem CNPJ é o maior componente isolado dessa informalidade.
19. Métrica mais ampla de ociosidade da força de trabalho, que inclui subocupados e desalentados, além dos desempregados.
20. GALVÃO, Andréia; KREIN, José Dari; BIAVASCHI, Magda Barros; TEIXEIRA, Marilane Oliveira (Orgs.). Contribuição crítica à reforma trabalhista. Campinas: Unicamp/IE/Cesit, 2017.
21. Trabalhadores por conta própria, Brasil, 2012–2025 (milhões / % do total de ocupados) — Fonte: IBGE, PNAD Contínua mensal (trimestre móvel jan-fev-mar de cada ano), tabela SIDRA 6320: 2012: 20,1 / 22,9%. 2013: 20,0 / 22,4%. 2014: 20,4 / 22,5%. 2015: 21,1 / 23,1%. 2016: 22,6 / 25,1%. 2017: 21,5 / 24,5%. 2018: 22,4 / 24,9%. 2019: 23,2 / 25,4%. 2020: 23,5 / 25,7%. 2021: 23,2 / 27,1%. 2022: 24,8 / 26,5%. 2023: 24,7 / 25,7%. 2024: 24,9 / 25,3%. 2025: 25,4 / 25,2%.
22. Renda real do trabalho principal (R$), comparação entre o 1º trimestre de 2012 e o 2º trimestre de 2022 — Fonte: IBGE, PNAD Contínua trimestral, tabelas SIDRA 5436 (sexo), 6405 (raça/cor) e 5438 (instrução), variável 5933, a preços do período mais recente disponível (a série tem hiato entre o 2º trimestre de 2020 e o 1º de 2022, por mudança na coleta durante a pandemia; 2022 T2 é o ponto mais próximo de “2022” disponível). Por sexo: total 3.011 para 2.987 (-0,8%); homens 3.384 para 3.291 (-2,7%); mulheres 2.469 para 2.577 (+4,4%). Por raça/cor: pessoas brancas 3.834 para 3.821 (-0,3%); pretas 2.207 para 2.267 (+2,7%); pardas 2.190 para 2.286 (+4,4%). Por instrução: sem instrução/menos de 1 ano 1.213 para 1.335 (+10,1%); fundamental incompleto 1.756 para 1.714 (-2,4%); fundamental completo 2.114 para 1.984 (-6,1%); médio incompleto 1.921 para 1.794 (-6,6%); médio completo 2.711 para 2.320 (-14,4%); superior incompleto 3.538 para 2.974 (-15,9%); superior completo 7.551 para 6.003 (-20,5%).
23. Fonte: IBGE, PNAD Contínua trimestral, tabela SIDRA 4095.
24. Endividamento e comprometimento de renda das famílias, 2012–2025 (%, valores de dezembro de cada ano) — Fonte: Banco Central do Brasil, séries temporais SGS 29037 (endividamento acumulado em 12 meses) e 29034 (comprometimento mensal de renda com serviço da dívida): 2012: 38,04 / 23,47. 2013: 38,21 / 22,68. 2014: 39,24 / 23,48. 2015: 40,05 / 22,99. 2016: 38,11 / 23,22. 2017: 37,22 / 22,09. 2018: 39,02 / 22,58. 2019: 41,46 / 22,65. 2020: 41,78 / 21,84. 2021: 49,48 / 25,58. 2022: 49,14 / 27,57. 2023: 47,75 / 25,84. 2024: 48,45 / 26,80. 2025: 49,72 / 28,12.
25. PARTIDO DOS TRABALHADORES. Endividadas, mulheres comprometem orçamento para colocar comida na mesa. Brasília, DF, 2 ago. 2022.
26. TRICONTINENTAL: INSTITUTO DE PESQUISA SOCIAL. Hiperimperialismo: um novo estágio, decadente e perigoso. Estudos sobre Dilemas Contemporâneos, n. 4, 23 jan. 2024. Disponível em: thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo/.
27. Fala de Márcio Pochmann em mesa de debates realizada durante o XXVI Congresso Brasileiro de Economia, em outubro de 2025.
28. Os dez pontos foram sistematizados a partir de debates realizados nos últimos dez anos no Projeto Brasil Popular, com a participação de dirigentes de movimentos populares e sindicais, pesquisadores e especialistas no tema do direito ao trabalho e à renda.
29. Estudo do economista Sérgio Wulff Gobetti (pesquisador do Ipea) mostra que as famílias mais pobres chegam a comprometer até 53% da renda com impostos, contra cerca de 29% entre as mais ricas — o sistema tributário brasileiro é regressivo. Pedro Souza (coautor de Piketty na rede World Inequality Lab) mostrou que o período mais longo de queda na concentração de renda no topo no Brasil foi 1945-1964, revertido justamente quando a ditadura adotou um sistema tributário mais regressivo.
Referências bibliográficas
GALVÃO, Andréia; KREIN, José Dari; BIAVASCHI, Magda Barros; TEIXEIRA, Marilane Oliveira (Orgs.). Contribuição crítica à reforma trabalhista. Campinas: Unicamp/IE/Cesit, 2017.
MICK, Jacques; NOGUEIRA, João Carlos. Viver por conta própria. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2023. 244 p. ISBN 978-65-5626-107-2. E-book. Disponível em: https://fpabramo.org.br/livro/viver-por-conta-propria/
NUNES, Felipe; TRAUMANN, Thomas. Biografia do abismo: como a polarização divide famílias, desafia empresas e compromete o futuro do Brasil. São Paulo: HarperCollins Brasil, 2023.
PARTIDO DOS TRABALHADORES. Endividadas, mulheres comprometem orçamento para colocar comida na mesa. Brasília, DF, 2 ago. 2022. Disponível em: https://pt.org.br/endividadas-mulheres-comprometem-orcamento-para-colocar-comida-na-mesa/. Acesso em: 27 set. 2026.
SINGER, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
TRICONTINENTAL: INSTITUTO DE PESQUISA SOCIAL. Hiperimperialismo: um novo estágio, decadente e perigoso. Estudos sobre Dilemas Contemporâneos, n. 4, 23 jan. 2024.