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É preciso recuperar a hipótese socialista nas sociedades contemporâneas

Pensar no socialismo hoje exige afirmar que a crise orgânica chilena só poderá ser resolvida por meio de uma alternativa antioligárquica, popular e socialista.

Arte de El Cometa Ludo (Chile). Cortesia do artista.

I. A proscrição da hipótese socialista

Durante mais de três décadas, sob a transição negociada e a democracia tutelada pela Constituição de 1980, assistimos a uma operação ideológica metódica: a proscrição da hipótese socialista do debate público no Chile. Não foi apenas jurídica, mas sobretudo cultural e semântica. O neoliberalismo chileno não apenas privatizou os direitos sociais; ele cerceou nossa imaginação política.

Um desses obstáculos era jurídico: uma Constituição ardilosa, redigida a portas fechadas pela Comissão Ortúzar, com o Congresso fechado e milhares de chilenos presos e desaparecidos pela ditadura civil-militar.

Essa Constituição pétrea, por meio de princípios como o da subsidiariedade do Estado, admitiu apenas um modelo econômico: o neoliberal, sistema que fez do Chile um dos países mais desiguais do mundo. A essa condenação econômica somaram-se os “cadeados” da democracia: quóruns supramajoritários de dois terços para reformar seus capítulos centrais, como aqueles relativos aos direitos sociais. Durante trinta anos, cada tentativa de consagrar direitos, como o direito à moradia ou ao aborto, esbarrou na resposta de que era inconstitucional, e nenhuma coalizão jamais alcançou essa proporção. A ditadura sabia muito bem disso.

Nesse processo, a hegemonia dominante instaurou um dogma sufocante: a única política possível era a gestão eficiente do que já existia. O “socialismo” foi substituído pelo rótulo ameno, mas desprovido de força transformadora do “progressismo”. Tomás Moulian caracterizou esse ponto cego:

O transformismo do sistema político chileno operou desarticulando os imaginários de ruptura e substituindo a vontade de soberania popular por uma mitologia do consumo e da governabilidade tecnocrática. A democracia foi reduzida ao ritual do voto, enquanto as decisões sobre a vida e o trabalho permaneciam blindadas pelo fetiche do mercado (Chile actual: anatomía de un mito, 1997).

Pensar no socialismo hoje exige romper essa chantagem ideológica e afirmar que a administração compassiva do modelo chegou ao seu limite histórico e que a crise orgânica chilena só encontrará uma saída por meio de uma alternativa antioligárquica, popular e socialista.

Arte de El Cometa Ludo (Chile). Cortesia do artista.

II. A ruptura com o progressismo sem horizonte

Por que o progressismo é insuficiente diante das demandas da classe trabalhadora? Porque opera sob a ilusão de que o Estado é um instrumento neutro, modificável por meio de ajustes normativos que não tocam a matriz de acumulação nem a relação entre capital e trabalho. Ao desvincular as conquistas imediatas do poder popular, acaba neutralizando as forças mobilizadas: se as reformas não questionam a propriedade dos meios de produção nem os pilares do capital financeiro, são cooptadas ou revertidas pela contraofensiva das classes dominantes.

É isso que o Chile vive hoje sob o governo de José Antonio Kast. A oligarquia não apenas protege seus interesses: ela disciplina o povo por meio de cortes sociais, da cobrança compulsória do Crédito com Garantia do Estado e da transferência dos custos do mercado para as famílias. Assim, pune direitos conquistados após anos de luta. É a restauração pinochetista, agora sem a pose de “fundamento intelectual” que um dia teve; é a comédia total e o descaramento na administração do Estado.

Em relação ao progressismo, Rosa Luxemburgo já havia alertado sobre isso em sua polêmica com Bernstein:

Quem defende a via da reforma legal em vez da conquista do poder político e da transformação da sociedade, e em oposição a elas, não escolhe um caminho mais tranquilo, seguro e lento para chegar ao mesmo fim, mas um fim diferente: não a construção de uma nova ordem social, mas meras modificações secundárias na velha ordem (Reforma ou revolução, 1899).

Não se trata de desprezar as reformas. Para o marxismo, reforma e revolução são momentos de uma mesma unidade dialética: a luta pela jornada de trabalho, pelos salários ou pela saúde pública é a “ginástica revolucionária” por meio da qual a classe trabalhadora toma consciência de sua própria força. O erro do progressismo é transformar a reforma em um fim em si mesmo, isolado da auto-organização popular e submetido aos limites tolerados pelo grande empresariado.

Arte de El Cometa Ludo (Chile). Cortesia do artista.

III. O marxismo como pulsão criadora

Pensar o socialismo também exige evitar dois desvios: a adaptação pragmática ao institucionalismo e o dogmatismo que reproduz fórmulas do século XX na realidade hiperdigitalizada e fragmentada do século XXI. Reivindicamos a lição de José Carlos Mariátegui: “Não queremos, certamente, que o socialismo na América seja decalque e cópia. Deve ser criação heroica” (“Aniversário e balanço”, Amauta, 1928).

Essa criação heroica dialoga com Alain Badiou, para quem o comunismo não é uma teleologia da história, mas uma hipótese emancipatória e uma pulsão criadora, capaz de intervir nas fissuras do real: um acontecimento de ruptura no qual os “inexistentes” de um sistema se afirmam como sujeitos. Gramsci nos legou a compreensão de que a disputa pelo poder, enquanto disputa pela hegemonia, consiste em articular um bloco histórico de classes subalternas capaz de dissolver o senso comum burguês. O socialismo é, em última instância, portanto, a democratização radical da existência: o salto da pré-história da necessidade para o reino consciente da liberdade — a liberdade do povo, das maiorias organizadas.

Daí decorrem quatro teses:

  1. O socialismo não surge mecanicamente quando as contradições do capitalismo se tornam insustentáveis. Ele é uma alternativa que organiza de outra maneira os mesmos elementos: meios de produção, distribuição e mercado. As crises podem, de fato, levar a formas ainda mais intensas de capitalismo.
  2. Por serem alternativos, espaços socialistas podem existir dentro do capitalismo; portanto, chega-se ao socialismo organizando esses microssocialismos em disputa com o capital.
  3. O socialismo é, antes de tudo, uma tarefa política: a organização consciente de suas condições subjetivas e objetivas, sem etapas prévias obrigatórias.
  4. Não existe triunfo final. Ambos os sistemas podem ser derrotados; por isso, o socialismo é escolhido e construído a cada dia, como uma tarefa inacabada.

Arte de El Cometa Ludo (Chile). Cortesia do artista.

IV. O tabuleiro global: multipolaridade e experiências de Nuestra América

Assistimos ao ocaso da hegemonia unipolar estadunidense e ao surgimento de uma ordem multipolar na qual a China tem um peso decisivo. Seu “socialismo com características chinesas”, baseado no planejamento soberano, na vanguarda científica e na “prosperidade compartilhada”, demonstra que a modernização não é patrimônio exclusivo do modelo estadunidense, cujas guerras deixaram regiões inteiras em colapso no Oriente Médio e em outras partes do mundo. O socialismo, por sua vez, representa um desenvolvimento em grande escala sem a necessidade do imperialismo belicista, abrindo caminho e prefigurando uma nova hipótese geopolítica global: a da Arca de Noé, ou do barco compartilhado da humanidade.

Independentemente de nossas fronteiras, os dados mundiais refletem não apenas a incapacidade do capitalismo de redistribuir a riqueza, mas também sua própria lógica de acumulação. É o que demonstra o Primeiro relatório sobre a desigualdade global do G20 (2025), que alerta para o fato de que o 1% mais rico do mundo concentrou 41% da nova riqueza mundial entre 2000 e 2024, enquanto os 50% mais pobres receberam apenas 1%. Essa tendência parece não estar diminuindo, mas, ao contrário, se aprofundando. Em contraste, o socialismo não apenas alfabetizou populações em todo o mundo, como também retirou, na China — apenas para citar um exemplo —, 800 milhões de pessoas da pobreza extrema.

Em Nuestra América, Cuba continua sendo, apesar do bloqueio, uma referência de soberania, solidariedade sem fronteiras e internacionalismo. A Quarta Transformação no México, que se define como de centro-esquerda, promoveu mudanças profundas e alcançou uma popularidade sem precedentes. O Governo da Mudança na Colômbia revelou tanto a força da mobilização para afastar as oligarquias do poder quanto os bloqueios institucionais e midiáticos que o capital impõe a qualquer iniciativa de redistribuição.

A lição é clara: um projeto soberano no Chile exige articulação latino-americana e um horizonte comum para construir um mundo multipolar e respeitoso, no qual se consolide uma prosperidade compartilhada e, sobretudo, uma sólida base popular, capaz de resistir ao grande capital transnacional. Neste período, isso exige, em particular, um campo popular comprometido e atuante, capaz de resistir à narrativa disseminada nas redes sociais por meio da inteligência artificial. Talvez seja aí que esteja a porta de entrada para a pergunta: qual socialismo?

Arte de El Cometa Ludo (Chile). Cortesia do artista.

V. Práxis prefigurativa: só se chega ao socialismo por meio do socialismo

O socialismo não é um acontecimento futuro, mas uma práxis prefigurativa no presente. Assim como a democracia, o socialismo é, ao mesmo tempo, um meio e um fim em si mesmo, ao qual só se pode aspirar precisamente por meio dele. Na tradição revolucionária chilena, essa compreensão tem um nome e um rosto: Luis Emilio Recabarren. Recabarren não esperou conquistar o Palácio de La Moneda para começar a construir o socialismo. Ele o construiu nas associações operárias das regiões salitreiras, nas gráficas da imprensa operária, nos teatros proletários e nos ateneus populares. Para Luis Emilio, a auto-organização do povo era, simultaneamente, o instrumento de luta e a semente da nova sociedade.

Uma tarefa urgente é estabelecer, em nossa atuação junto às massas populares, uma distinção categórica entre o assistencialismo focalizado e a caridade própria do modelo neoliberal, que trata o povo como cliente ou beneficiário passivo, e a práxis socialista, que concebe as comunidades como sujeitos ativos da transformação. Devemos nos reapropriar de valores sociais fundamentais, como a solidariedade. A solidariedade é socialista porque é cooperação e empatia entre iguais, que prefigura e nos permite habitar a sociedade que estamos construindo. Essa matriz deve orientar nossa atuação nos governos locais e nos movimentos sociais. As Farmácias Populares, o Aluguel a Preço Justo e os cursos preparatórios populares para o ingresso na universidade não são políticas acessórias: são rupturas com a lógica da mercadoria. Demonstram que a saúde, a moradia e a educação podem ser geridas com justiça social.

Conquistar avanços concretos, como a redução da jornada de trabalho para 40 horas, o aumento do salário mínimo ou a gratuidade do ensino universitário, fortalece a posição do trabalho diante do capital. No entanto, essas conquistas só serão sustentáveis se estiverem enraizadas em uma massa crítica organizada, consciente de seu destino histórico e de sua responsabilidade na salvaguarda e no avanço da revolução socialista.

Arte de El Cometa Ludo (Chile). Cortesia do artista.

VI. Tarefa histórica: reposicionar a hipótese socialista

Por fim — e esse não é um aspecto menor —, nos últimos anos, a esquerda e as forças progressistas tenderam a se entrincheirar sob o guarda-chuva do “antineoliberalismo”. No entanto, precisamos dizer isso com clareza e rigor dialético: hoje, o antineoliberalismo é insuficiente.

Em termos dialéticos, declarar-se “antineoliberal” significa posicionar-se apenas no momento da reação ou da negação. Trata-se de uma postura meramente defensiva, um movimento de recuo que busca preservar as poucas garantias do Estado social ou atenuar as garras do mercado. O antineoliberalismo nos diz o que rejeitamos, mas não possui a potência criadora, o projeto histórico nem a carga utópica exigidos pela gravidade do momento atual.

Essa insuficiência é perigosa, pois o vazio de projeto vem sendo ocupado, em escala global e local, pelo avanço da ultradireita e do fascismo. Assistimos à irrupção de um fascismo reeditado: ignorante, estridente e anti-intelectual, que explora o descontentamento popular, captura a raiva dos despossuídos e a canaliza por meio do ódio aos migrantes, da rejeição às mulheres e às diversidades e do fetiche pelo autoritarismo repressivo.

Diante de um fascismo ignorante, que mobiliza emoções primárias e soluções simplistas, a resposta não pode ser o discurso morno, diluído e tecnocrático do progressismo ou do “antineoliberalismo”. O avanço fascista não é detido pela administração compassiva do modelo; ele é derrotado pelo enfrentamento das causas estruturais do capital. Por isso, afirmamos categoricamente que não basta ser antineoliberal; é preciso ser decididamente socialista.

Ser decididamente socialista significa recuperar a capacidade de propor um projeto de sociedade qualitativamente distinto, baseado na propriedade social dos recursos estratégicos, no planejamento democrático da economia e na soberania popular. Significa assumir a formação política e a organização de base não como um passatempo acadêmico, mas como o principal escudo contra a demagogia da extrema direita.

Não estamos condenados a administrar o que existe nem a viver com medo diante da barbárie neofascista. Voltemos a reconstruir a hipótese socialista com rigor teórico, combatividade política e amor pelo nosso povo. Pela reconstrução do pensamento crítico, pela criação heroica do socialismo em Nossa América Latina.

Saudações fraternas,

Millaray

Este texto é uma adaptação da apresentação feita por Millaray Huaquimilla Neyra, secretária executiva do Instituto de Ciências Alejandro Lipschutz (ICAL), no evento “Qual socialismo?”, organizado em agosto passado, conjuntamente pelo ICAL, pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e pelo Centro de Estudos de Políticas Públicas, Território e Comunidade.