O movimento de cooperativas no estado de Kerala, na Índia
Apoiado por poderosos movimentos da classe trabalhadora e camponesa, bem como por governos de esquerda que estiveram no poder intermitentemente, o movimento de cooperativas de Kerala deu origem a milhares de cooperativas, cada uma delas uma incubadora de futuros possíveis para além do capitalismo.
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Instituto Tricontinental de Pesquisa Social em colaboração com o Centro de Pesquisa UL (Uralungal Labour Contract Cooperative Society)
A arte deste estudo foi produzida por integrantes da Young Socialist Artists (YSA). Desde 2020, esse grupo reúne artistas e trabalhadores culturais de toda a Índia, inseridos em movimentos sociais e políticos em suas regiões. A maioria dos membros da YSA que criou as ilustrações para este estudo é originária de Kerala, onde vivem, e onde essas cooperativas fazem parte do cotidiano. As ilustrações são baseadas em fotografias tiradas pelos pesquisadores que produziram este texto durante suas visitas de campo.
Ashique Ali Thuppilikkat é cofundador e diretor da Fundação SAFAR, um centro de pesquisa-ação com sede em Bengala Ocidental, na Índia. Ele participou ativamente do movimento estudantil na Universidade de Delhi e na Universidade Jawaharlal Nehru, onde pesquisou cooperativismo durante seu mestrado em ciência política. Atualmente, Ashique é estudante de doutorado na Universidade de Toronto, no Canadá, e pesquisador no STREET Lab. Sua pesquisa se concentra em projetos sociotécnicos de resistência, explorando a intersecção entre tecnologia e organização de movimentos sociais/trabalhistas.
Aswathi Rebecca Asok é economista do desenvolvimento e formada em direito, com experiência em pesquisa interdisciplinar, baseada em evidências e orientada para políticas públicas. Ao longo dos últimos nove anos, Aswathi realizou uma extensa pesquisa sobre a trajetória de desenvolvimento de Kerala e explorou uma série de temas, como inclusão financeira, pobreza, gênero, migração, trabalho e descentralização. Ela foi uma ativista estudantil em diversas universidades e campi na Índia.
Najeeb VR é cientista social e coordenador de pesquisa no Centro de Pesquisa da UL em Kozhikode, Kerala, onde integra abordagens transdisciplinares ao desenvolvimento cooperativo, à transformação social e aos sistemas de conhecimento. Ele também é membro do comitê de especialistas do Subgrupo do 14º Plano Quinquenal do Conselho de Planejamento do Estado de Kerala e contribui ativamente para a divulgação acadêmica, o desenvolvimento curricular e a pesquisa pública. É doutor em sociologia pela Universidade Jawaharlal Nehru e é bolsista do programa Revise PhD Fellowship do Conselho de Pesquisa Histórica de Kerala.
Vijoo Krishnan é secretário-geral da All India Kisan Sabha (AIKS) e membro do comitê político do Partido Comunista da Índia (Marxista). Como líder da AIKS, desempenhou um papel crucial na histórica mobilização dos agricultores em Delhi, em 2021-2022. Antes de se tornar um ativista político em tempo integral, era chefe do Departamento de Ciência Política do St. Joseph’s College, em Bangalore. Entre 1998 e 1999, foi presidente da União dos Estudantes da Universidade Jawaharlal Nehru. Vijoo também é fotógrafo e retrata o cotidiano da classe trabalhadora.
Nidheesh J Villatt é membro do Comitê Central de Agricultores da All India Kisan Sabha e coordenador de pesquisa do P Sundarayya Memorial Trust, um instituto de pesquisa que se concentra em questões agrárias e movimentos do campo. Nidheesh dedica-se ao estudo e à construção da aliança operário-camponesa, com foco em economia política e filosofia. Ele escreveu sobre lutas de classes agrárias e industriais, “competição” no capitalismo, ecologia política e Hindutva.
Nitheesh Narayanan é pesquisador de movimentos, escritor e trabalha no Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Estuda a história dos movimentos da classe trabalhadora, incluindo as cooperativas, e foi vice-presidente da Federação Estudantil da Índia e editor do jornal Student Struggle. É doutor pela Universidade Jawaharlal Nehru. Ele é autor de vários livros em inglês e malaiala, incluindo A Rebelião de 1921 em Malabar: Uma coletânea de escritos comunistas, editada com Vijay Prashad, e Se a humanidade é um país: dias cubanos.
Sarga TK é professora assistente na Universidade Azim Premji, em Bhopal. Sua pesquisa aborda temas como mobilidade urbana, migração laboral e cooperativas de construção, explorando como o trabalho e o deslocamento moldam a paisagem urbana. Sarga também já lecionou na Universidade de Kannur, em Kerala.
Subin Dennis é economista e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Antes de ingressar no Tricontinental, trabalhou como correspondente no portal de notícias online NewsClick. Subin também fez parte do movimento estudantil e atuou como vice-presidente estadual de Delhi da Federação Estudantil da Índia. Os escritos de Subin em inglês e malaiala sobre assuntos relacionados à economia e à política aparecem em diversos periódicos e sites. Atualmente, reside em Kerala.
Vijay Prashad é diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Ele é autor de quarenta livros, incluindo Uma história popular do Terceiro Mundo, The Poorer Nations: A Possible History of Global South, e (com Grieve Chelwa) How the International Monetary Fund Suffocates Africa. Vijay é editor da LeftWord Books (Nova Delhi), Inkani Books (Joanesburgo) e La Trocha (Santiago).
Introdução: Comunismo possível
Mas ainda estava por vir uma vitória ainda maior da economia política do trabalho sobre a economia política da propriedade. Falamos do movimento cooperativo, especialmente das fábricas cooperativas erguidas pelos esforços independentes de algumas poucas “mãos” ousadas. O valor dessas grandes experiências sociais não pode ser subestimado. Por meio de fatos, e não de argumentos, demonstraram que a produção em larga escala, e em consonância com os preceitos da ciência moderna, pode ser realizada sem a existência de uma classe de mestres que emprega uma classe de trabalhadores; que, para dar frutos, os meios de trabalho não precisam ser monopolizados como forma de domínio e extorsão contra o próprio trabalhador; e que, assim como o trabalho escravo e o trabalho servil, o trabalho assalariado é apenas uma forma transitória e inferior, destinada a desaparecer diante do trabalho associativo, realizado com boa vontade, mente preparada e coração alegre.
– Karl Marx, Discurso de posse da Associação Internacional dos Trabalhadores, 1864.
A miséria saúda o planeta. A pobreza persiste para bilhões de pessoas em todo o mundo. As mudanças climáticas – produto do expansionismo capitalista – ameaçam a sobrevivência da vida na Terra. Guerras de enormes proporções se alastram pelo globo em inúmeras formas, incluindo o genocídio contra os palestinos em Gaza promovido por Israel, enquanto fomes provocadas pelo comportamento humano assolam vastas áreas da população. É como se os cinco cavaleiros do apocalipse já não fossem suficientes – em vez disso, inúmeros cavaleiros percorrem o planeta sufocando as possibilidades da vida humana.
Tudo isso contribui para a sensação de que nada além desse pesadelo é possível, que alternativas não podem ser imaginadas. Quando pessoas resilientes ousam pensar em um futuro melhor, como inevitavelmente acontece, aqueles que detêm o poder as recebem com escárnio e se esforçam para sufocá-las. É melhor para os poderosos e os proprietários de terras garantir que nenhuma alternativa floresça. A sobrevivência de um único resquício de esperança colocaria em xeque a afirmação de que a História chegou ao fim.
Um desses núcleos é o estado indiano de Kerala (com uma população de 35 milhões), que possui uma rica história de construção socialista. Dez anos após a Índia conquistar sua independência em 1947, o Partido Comunista da Índia venceu as eleições estaduais em Kerala. Desde o início, o governo de esquerda em Kerala adotou uma agenda para destruir hierarquias e costumes sociais ancestrais, fornecer bens sociais que não estavam prontamente disponíveis à população no resto da Índia (incluindo educação pública de qualidade, saúde e transporte) e construir as bases do poder da classe trabalhadora e dos camponeses, defendendo o direito dos trabalhadores de se organizarem em sindicatos e criarem cooperativas. Embora o governo nacional em Délhi tenha destituído inconstitucionalmente o governo estadual comunista de Kerala em 1959, a agenda estabelecida pela esquerda permaneceu em grande parte inalterada. A esquerda retornou ao poder periodicamente (1967-1969, 1980-1981, 1987-1991, 1996-2001, 2006-2011 e 2016-presente), expandindo a cada vez a agenda de descentralização, incentivando a ação pública e construindo as bases para instituições estatais social-democratas.1 Mesmo quando a direita chegou ao poder nos anos seguintes, não conseguiu minar a dinâmica que havia sido iniciada pelos governos de esquerda. Foi nesse contexto que o movimento cooperativo se desenvolveu em Kerala.
As pessoas que criticam o sistema capitalista costumam ser igualmente críticas das alternativas que estão sendo construídas dentro dos parâmetros desse sistema, pois argumentam que tais instituições são reféns da lógica do capitalismo. Mas essa é uma avaliação falha das cooperativas, que são, na verdade, incubadoras de diferentes lógicas de vida e trabalho, servindo como faróis de inspiração e esperança, oferecendo uma janela para o que a humanidade é capaz de fazer quando os grilhões do capitalismo são transcendidos. As cooperativas oferecem escolas para a classe trabalhadora e o campesinato, ensinando-os a construir relações sociais baseadas em uma base econômica diferente. Em seu terceiro volume de O Capital, Marx escreveu:
As fábricas cooperativas dos próprios trabalhadores representam, dentro da forma antiga, os primeiros brotos da nova, embora naturalmente reproduzam, e devam reproduzir, em toda a sua organização real, todas as deficiências do sistema vigente. Mas a antítese entre capital e trabalho é superada dentro deles, ainda que inicialmente apenas através da transformação dos trabalhadores associados em seus próprios capitalistas, ou seja, permitindo-lhes usar os meios de produção para o emprego de seu próprio trabalho. Eles mostram como um novo modo de produção surge naturalmente de um antigo, quando o desenvolvimento das forças materiais de produção e das formas correspondentes de produção social atingem um determinado estágio (Marx, 2010, p. 440).
A percepção de Marx aqui é crucial. As cooperativas não estão inerentemente presas à lei capitalista do valor, nem são capazes de transcendê-la facilmente. São “brotos”, escreve ele, de uma alternativa através da qual a classe trabalhadora pode experimentar a anulação da gestão capitalista. Marx observava com grande orgulho a utopia operária que estava sendo construída na Comuna de Paris de 1871, em que viu como os comunardos desenvolveram cooperativas operárias e outros meios de construir uma nova sociedade frente à euforia da queda do Segundo Império de Luís Napoleão III (1852-1870).2 Em A Guerra Civil na França, Marx escreveu que, durante os dois meses de existência da comuna, de março a maio de 1871, ela foi a “forma finalmente descoberta” para o futuro Estado operário. Foi nesse texto que Marx escreveu sobre as ideias das cooperativas:
Se a produção cooperativa não deve permanecer uma farsa e uma armadilha; se deve suplantar o sistema capitalista; se as cooperativas unidas devem regular a produção nacional segundo um plano comum, assumindo assim o seu controle e pondo fim à anarquia constante e às convulsões periódicas que são a fatalidade da produção capitalista – o que mais, senhores, seria senão o comunismo, o comunismo “possível”? (Marx, 1986, p. 335).
O presente estudo, O movimento de cooperativas no estado de Kerala, na Índia, faz parte de uma série do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social denominado “Socialismo em construção”. Trata-se do comunismo possível, das possibilidades que temos em nosso tempo para uma sociedade futura. Esta pesquisa, uma avaliação honesta de uma empreitada heroica, mostra que as cooperativas de Kerala não só conseguiram sobreviver em um nicho pequeno, como também crescer e se tornar instituições substanciais que se integraram à vida social da região. Atualmente, existem 16.429 cooperativas registradas em Kerala (das quais 12.278 estão ativas, 3.354 estão inativas e 797 estão prestes a encerrar suas atividades) (Governo de Kerala, 2025). As cooperativas atuam em uma ampla gama de setores, desde a produção e distribuição de bens e serviços até hospitais e restaurantes, passando pela produção agrícola e construção de moradias. A maior cooperativa (embora não esteja estritamente registrada como tal), a Kudumbashree, possui 4,8 milhões de integrantes, todas mulheres. Uma em cada quatro mulheres em Kerala está nesta cooperativa. Existem também muitas organizações semelhantes a cooperativas que estão registradas como sociedades e fundações de caridade, como a Brahmagiri Development Society, com foco no desenvolvimento agrário, e a Janatha Charitable Society, uma importante produtora de leite. A maioria das cooperativas ativas possui filiais em diferentes partes do estado.
Existem, naturalmente, desafios e contradições, e estes são discutidos com clareza: não faz sentido exagerar as possibilidades apresentadas pelas cooperativas que precisam lutar para sobreviver em um mundo em que a lei capitalista do valor é a lei vigente. Também não faz sentido minimizar as importantes contribuições dessas cooperativas para as pessoas que vivem em Kerala, tanto em termos materiais quanto espirituais. Essas cooperativas não são meramente uma fonte de inspiração: elas fornecem um modelo para cooperativas em todo o mundo, como sementes de um futuro justo que existem dentro dos limites do capitalismo atual.
Cooperativas de Kerala
Em 1943, na 7ª Sessão da All India Kisan Sabha (AIKS, a maior união de agricultores do país), em Bhakna Kalan, Punjab, os delegados discutiram uma série de questões, incluindo a criação de cooperativas. Em uma de suas resoluções, a AIKS argumentou que as cooperativas poderiam ajudar os agricultores a combater a “angústia e a humilhação” da agricultura capitalista e colonial e capacitá-los a alcançar a “liberdade econômica, social e nacional”. Durante as deliberações, o líder comunista EMS Namboodiripad (1909-1998), ou apenas EMS, como era conhecido, escreveu uma nota intitulada “Organização – não uma máquina”. Na nota, EMS salientou que as resoluções não significariam nada sem uma organização militante que vá além da “política abstrata”. As cooperativas precisariam ser construídas pelos camponeses e trabalhadores agrícolas para expandir a revolução democrática e fortalecer a confiança dos trabalhadores rurais (Thuppilikkat, 2024).
Em outubro de 1956, o Partido Comunista da Índia realizou uma reunião em Thrissur, Kerala, com foco em cooperativas. A reunião foi presidida pelo Professor Joseph Mundassery, que se tornaria o primeiro ministro da educação e cooperação durante o mandato de EMS como ministro-chefe de Kerala (1957-1959), e decidiu que, em vez de permitir que as cooperativas se tornassem um “bairro de bolso” das classes feudais, os próprios trabalhadores as construiriam e haveria educação política sobre o papel que essas cooperativas desempenhavam na construção da democracia e do socialismo. A liderança do partido também enfatizou a necessidade de sociedades de crédito rural e bancos cooperativos bem-sucedidos, controlados por comunistas e trabalhadores, como forma de eliminar o domínio dos agiotas, impulsionar a produção agrícola e melhorar as condições de vida dos camponeses e trabalhadores rurais. Foi a partir dessa clareza ideológica que as cooperativas de Kerala emergiram para se tornarem um farol para as cooperativas democráticas lideradas por trabalhadores em todo o mundo.
O restante deste estudo é composto por breves retratos de algumas cooperativas de Kerala. Esses perfis foram escritos por acadêmicos e lideranças políticas que trabalharam em estreita colaboração com as cooperativas para conhecer e refletir sobre elas. Os dados apresentados nos ensaios foram em grande parte compilados a partir de cooperativas e documentos governamentais. Agradecemos ao Centro de Pesquisa da UL por nos auxiliar neste trabalho.
Estes ensaios revelam alguns fatos importantes:
- O setor cooperativo em Kerala não teria prosperado sem uma longa história de reformas sociais que criou a base social para o cooperativismo. Quando as notícias sobre a União Soviética começaram a chegar a Kerala, as pessoas envolvidas nos movimentos de reforma social e anticastas expressaram sua curiosidade sobre as tentativas soviéticas de reconstruir as relações sociais e econômicas. Essa curiosidade levou a estudos sobre o movimento cooperativista na União Soviética, que foram posteriormente apresentados em reuniões públicas de movimentos de reforma social e anticastas.
- O setor cooperativo desenvolveu-se devido à vitalidade da luta de classes em Kerala, em que camponeses e trabalhadores organizados impulsionaram o movimento de reforma social para combinar as lutas contra o sistema de castas, o latifúndio e o colonialismo. Foi nessas lutas que o movimento camponês – principalmente no norte de Kerala – tomou a iniciativa de criar cooperativas para ajudar os mais pobres. O surgimento dessas cooperativas enfraqueceu o domínio dos latifundiários, que não podiam mais emprestar dinheiro a juros exorbitantes aos camponeses endividados nem continuar sendo seus principais fornecedores de bens de consumo. Em vez disso, eles observaram como as cooperativas camponesas elevaram a confiança das massas. O sucesso das cooperativas levou à sua replicação em outras partes da região, baseando-se nos hábitos das organizações de movimentos de massa.
- O primeiro governo comunista a chegar ao poder em Kerala (1957-1959) recebeu apoio em massa do movimento de reforma social e foi fortalecido tanto pela luta de classes das décadas anteriores quanto pelo sucesso do movimento cooperativista. Por sua vez, o governo comunista utilizou parte da riqueza social de Kerala para financiar o crescimento de mais cooperativas em todo o estado. O governo criou cooperativas de fibra de coco, tecelagem manual e toddy (uma bebida alcoólica feita de seiva de coco fermentada) para fortalecer esses setores da economia e melhorar as condições de trabalho e os salários dos trabalhadores.
- A ênfase na criação de cooperativas para garantir o emprego em massa e salários mais altos, bem como para melhorar a eficiência e a produtividade de diferentes empresas, significava que as cooperativas podiam competir com o setor privado.
- A liderança das castas oprimidas se sentiu atraída pelo sistema cooperativo e viu nele uma oportunidade de concretizar sua independência e emancipação. Por exemplo, na Conferência Cheramar Samajam de dezembro de 1929, o presidente da organização, Chaajan, disse aos dois mil membros da comunidade Pulaya presentes que essas sociedades cooperativas, juntamente com programas educacionais e uma campanha contra o álcool, seriam cruciais para suas lutas (Malayala Manorama, 1929).
- O papel da educação política dentro das cooperativas permitiu que seus membros entendessem o que estavam construindo (socialismo) e como o que estavam construindo era diferente – e melhor – do que o que o setor privado havia construído (capitalismo).
- Sem uma extensa rede de cooperativas financeiras, todo o setor teria ficado sem fundos. Esse sistema também dependeu da entrada periódica da esquerda no governo, o que impediu a privatização em larga escala dos mercados de crédito de Kerala.
- A estrutura democrática das cooperativas, aliada à inovação de seus membros, permite que elas diversifiquem seu trabalho e se adaptem aos tempos de mudança. Quando os hábitos de consumo de tabaco mudaram, por exemplo, a Sociedade Cooperativa Central dos Trabalhadores Dinesh Beedi3 passou a se dedicar à produção de alimentos.
- Um elemento fundamental do movimento cooperativo de Kerala é o seu compromisso com a mudança social, com ênfase no uso da organização cooperativa para transcender o patriarcado (por meio de cooperativas de mulheres), as hierarquias de castas (por meio de cooperativas de castas oprimidas) e a discriminação contra comunidades tribais ou Adivasi (por meio de cooperativas de tribos registradas)4, e discriminação contra comunidades transgênero (por meio de cooperativas transgênero), bem como a promoção da igualdade para pessoas com deficiência.
Este estudo demonstra a eficácia dessas cooperativas na promoção de uma forma social de atividade econômica que oferece uma alternativa às pressões do capitalismo. Na forma regressiva de competição econômica do capital, o sustento dos trabalhadores é o primeiro a ser descartado, enquanto o lucro é endeusado. As cooperativas de Kerala invertem esse sistema de valores, colocando as necessidades – e a dignidade – da classe trabalhadora no centro de suas atividades.
Vanshika Babbar (Young Socialist Artists), Trabalhadores da Cooperativa Uralungal, 2025.
Sahya Tea Cooperative
Na 35ª conferência da All India Kisan Sabha (AIKS), em dezembro de 2022, cada delegado recebeu um pacote de chá Sahya, juntamente com as famosas especiarias de Kerala e outros condimentos. Foi somente meses depois, durante uma visita a Assam para relatar as decisões tomadas na conferência, que um dos participantes notou a marca do chá. Delegados locais perguntaram sobre, afirmando que era melhor do que o chá de Assam, mundialmente famoso. A pergunta deles nos levou a uma busca para descobrir mais sobre a marca e o esforço coletivo que contribuiu para o seu surgimento.
Em uma carta a Wilhelm Bracke, datada de 5 de maio de 1875, Karl Marx escreveu: “cada passo de um movimento real é mais importante do que uma dúzia de programas” (1970, p. 11). A história da Fábrica Cooperativa de Chá Sahya, localizada na área remota de Thankamany, no distrito montanhoso de Idukki, em Kerala, mostra a importância do “verdadeiro movimento” socialista. Inaugurada em 2017, a fábrica foi criada pelo Thankamany Service Cooperative Bank, Ltd (fundado em 1966). O Banco Cooperativo possui 15 mil membros, a maioria pequenos agricultores e trabalhadores, e opera no panchayat da aldeia de Kamakshy5, habitada principalmente por pequenos produtores de chá. A Fábrica Cooperativa de Chá Thankamany produz principalmente chás pretos, verdes e uma variedade de misturas de chás.
O banco cooperativo e a fábrica de chá devem ser compreendidos dentro da trajetória mais ampla do movimento cooperativo liderado pelos comunistas em Kerala (Raghavan, 2019). A Revolução Russa de Outubro de 1917 teve um impacto tremendo nos movimentos progressistas de Kerala e ajudou a reformular sua orientação dentro do movimento nacional. Em 1934, os setores mais fortes desses movimentos formaram o Partido Socialista do Congresso de Toda a Índia. Cinco anos depois, a unidade do partido em Kerala transformou-se na unidade de Kerala do Partido Comunista da Índia, que eventualmente criou a AIKS e vários sindicatos na região. Foi nesse período e nesse contexto que a AIKS e outras forças progressistas começaram a intervir no movimento cooperativo e a confrontar a estratégia britânica de manter as cooperativas isoladas da intensificação da luta de classes que eclodia nas décadas de 1930 e 1940. Por exemplo, como documentado por EMS, durante a Guerra Popular (1941-1945)6, os comunistas pressionaram o governo imperialista britânico para que adquirisse grãos dos proprietários de terras e os distribuísse por meio de lojas de racionamento, que posteriormente foram convertidas em cooperativas de produtores e consumidores (Namboodiripad, 1943, p. 137). Os comunistas em Kerala identificaram a criação de cooperativas como parte da crescente luta de classes, distinta da ideia colonial benevolente de cooperativas derivada dos Princípios de Rochdale, que serviram como diretrizes primárias para as cooperativas desde 1844 (Harnecker, 2012).
A relação dialética entre a construção de uma organização forte da classe trabalhadora que se oponha ao imperialismo e a construção de cooperativas já havia sido estabelecida na resolução da AIKS de 1943 sobre cooperativas, aprovada em sua sétima sessão. Esta resolução apelou aos quadros da AIKS para que iniciassem cooperativas como estratégia de combate à subjugação econômica e social dos camponeses. As ideias resultantes desta resolução, em particular a nota de EMS intitulada Organização – não uma máquina, enfatizaram a necessidade de uma organização de classe militante para impedir que as cooperativas se degenerassem em “política abstrata” e forneceram uma estrutura crucial para discussões posteriores sobre a construção de cooperativas.
Quando os comunistas e líderes do movimento cooperativista se reuniram em Thrissur, em outubro de 1956, o foco havia mudado da base teórica estabelecida em 1943 para os desafios práticos da implementação dessa base em Kerala (Menon, 1956). Durante a reunião, os participantes avaliaram as atividades das cooperativas em Kerala e criticaram as ilusões do regime burguês latifundiário do primeiro-ministro Jawaharlal Nehru, que sugeria que a criação de cooperativas por si só levaria ao socialismo. Os participantes salientaram que os comunistas tinham de se envolver conscientemente na organização de cooperativas e inscrever um grande número de trabalhadores nestas e noutras organizações de massas, a fim de garantir a sua educação política ao longo do processo. Foi feita referência às bem-sucedidas cooperativas de crédito rural e aos bancos, que eliminaram o domínio dos agiotas e impulsionaram a produção agrícola, aumentando assim a renda dos camponeses e dos trabalhadores rurais. O que diferenciava essas cooperativas das malsucedidas era o papel dos comunistas em garantir que a forma cooperativa não fosse cooptada por reacionários que tentavam manter antigas formas de poder rural.
O surgimento dos pequenos produtores de chá
No final da década de 1990, a indústria do chá passou por uma reestruturação profunda impulsionada pela obsessão pelo lucro do capital monopolista, marcada por fusões, aquisições e um foco agressivo na construção de marcas. Monopólios verticalmente integrados, como a Unilever e a Tata – conhecidos como “Big Tea” – abandonaram os laços diretos com a produção agrícola e se desfizeram da propriedade e da gestão de plantações de chá. Em março de 2000, por exemplo, a Tata adquiriu o Grupo Tetley, o segundo maior fabricante e distribuidor de chá do mundo, por 271 milhões de libras (The Guardian, 2000). Tanto a Tata quanto a Unilever, a maior empresa de chá do mundo, passaram a criar e comercializar novos chás de marca própria – incluindo chás CTC (crush, tear, and curl), bem como misturas de chá – voltados para uma variedade de gostos e faixas de preço.
Essa transformação coincidiu com uma crise financeira nas plantações de chá em estados que o cultivam e o processam e são, em grande parte, administrados por capital não monopolista. Embora a maioria das propriedades tenha sido vendida para empresas menores, as empresas monopolistas garantiram seu fornecimento por meio de cláusulas contratuais que asseguravam o acesso a uma quantidade suficiente de chá não processado. Como observa a professora Natalie Langford, a indústria passou da “integração vertical” para cadeias de valor em que “as empresas procuraram melhorar sua posição competitiva por meio da terceirização de atividades de menor valor agregado” (Langford, 2021, p. 11). Na prática, as grandes empresas do setor consideravam a produção agrícola e a gestão das propriedades os elos mais problemáticos da cadeia, uma vez que eram fortemente regulamentadas pelas leis trabalhistas e ambientais, e procuravam se distanciar desses setores para evitar a luta de classes. Em vez disso, consolidaram o controle sobre atividades de maior valor agregado, como mescla, embalagem, marcação, distribuição e vendas. Entretanto, os pequenos produtores emergiram como os principais produtores de folhas de chá: sua participação aumentou de 7%, em 1991, para 52% em 2022, e a projeção é de que alcance 70% até 2030.
Antes da formação da Fábrica Cooperativa de Chá Sahya, os cerca de 3.500 pequenos produtores na área de Idukki operavam sob o domínio de um sistema administrado por empresas monopolistas como a Tata e a AVT Beverages (uma das principais empresas do sul da Índia). Essas grandes empresas compravam folhas verdes (folhas de chá recém-colhidas e não processadas) tanto dos agricultores quanto de “agentes” (intermediários que muitas vezes atuam como compradores em nome das fábricas, geralmente cobrando uma comissão sobre as folhas verdes coletadas de pequenos agricultores) a “um preço arbitrário e [sob] termos e condições humilhantes”, nos disse um grupo de agricultores. Muitos agricultores compartilharam conosco histórias sobre como as empresas rejeitavam suas folhas verdes quando tentavam negociar um preço justo, inventando desculpas superficiais que forçavam os agricultores – que haviam trazido as folhas de longe – a descartá-las ou usá-las como adubo. Eram comuns cenas de agricultores desanimados voltando para casa em seus tratores com as colheitas rejeitadas. Essas rejeições metodicamente planejadas tinham como objetivo criar um campesinato dócil, acostumado a vender suas colheitas às companhias a preços baixos. Todo o sistema era extremamente favorável às grandes empresas.
Na ausência de uma cooperação bem-sucedida, os agentes comerciais geralmente cobram dos pequenos produtores em toda a Índia uma comissão de 15% a 20% por quilo de folhas verdes. Uma grande parte disso é vendida para fábricas de chá de folhas compradas, que processam o chá a partir de folhas adquiridas em vez de cultivarem as suas próprias. Outra parte é, por vezes, vendida para fábricas de chá pertencentes a grandes plantações. Os agentes comerciais avaliam a qualidade e o preço das folhas com base na sua “contagem de folhas finas” (a proporção de folhas jovens e tenras e brotos, que determinam a qualidade geral do chá) de uma forma muito subjetiva, comprometendo os interesses dos pequenos agricultores (Solidaridad Network Asia Limited, 2023).
As fábricas que compram folhas de chá geralmente vendem o produto processado em leilões. Como o processo é controlado pelas grandes empresas de chá (os principais compradores), o produto é vendido a preços distorcidos (Sarkar, 2013). Todo o mecanismo de leilões na Índia é concebido de tal forma que o postulado básico da economia neoclássica – de que a interação entre oferta e demanda determina os preços – parece uma farsa. Por outro lado, as fábricas de chá geralmente vendem apenas metade do chá processado em leilões, conforme estipulado pelas normas estabelecidas na Ordem de Controle de Comercialização de Chá de 1983 (que, por sua vez, está sob a Lei do Chá de 1953), e vendem a outra metade por meio de canais privados mais lucrativos.
Os participantes do leilão são as principais empresas de embalagem de chá, agentes comerciais e outras marcas líderes de chá empacotado. Como essas empresas realizam processos de agregação de valor, como mistura, seleção, classificação e embalagem do chá antes de distribuí-lo aos consumidores, os pequenos produtores, que estão na base da cadeia de valor, recebem uma parcela desproporcionalmente menor dos gastos do consumidor com o produto – cerca de 15%. Por outro lado, as empresas de embalagem de chá, que em sua maioria são grandes empresas monopolistas, recebem 50% dos gastos dos consumidores com chá. Por isso, é imprescindível que os pequenos produtores subam na cadeia de valor e obtenham acesso direto aos mercados para garantir melhores preços (Goswami, 2023). É exatamente isso que a Cooperativa de Chá Sahya pretende alcançar com sua ousada iniciativa de entrar no mercado de grandes empresas de chá.
Chá cooperativo
Foram as difíceis circunstâncias enfrentadas pelos agricultores que levaram os membros da AIKS a formar a Cooperativa de Chá Sahya em 2017. Projetada para processar 15 mil quilos de folhas verdes por dia, ela gera emprego para mais de 150 trabalhadores, a maioria recrutada da classe trabalhadora agrícola e do campesinato, ao mesmo tempo que protege os interesses dos pequenos produtores. Quando visitamos a cooperativa e sua área de abrangência em setembro de 2023, o que nos chamou a atenção foi a visível confiança entre os pequenos produtores de chá.
Os três primeiros anos da cooperativa, de 2017 a 2020, foram desafiadores: além de ter que começar a pagar o grande empréstimo contraído a juros de 12%, ela foi assolada por uma série de choques, como a enchente de Kerala em 2018 e a pandemia de Covid-19 (2020–2023). Apesar dos desafios financeiros enfrentados pela cooperativa, ela conseguiu adquirir folhas verdes e pagar aos agricultores 12 rúpias por quilo (valor muito superior à taxa corporativa de 7 rúpias por quilo). Os preços estáveis da cooperativa, por sua vez, forçaram os fornecedores corporativos de chá a aumentarem os valores pagos aos pequenos produtores.
A direção da cooperativa reuniu camponeses e trabalhadores para debater ideias sobre como melhorar sua situação financeira. Como as grandes empresas dominavam o mercado com seus produtos de chá embalados, elas decidiram aprimorar sua estratégia de marketing e lançar uma campanha para conquistar espaço no mercado. KS Chithra, uma cantora popular conhecida como o “Rouxinol de Kerala”, tornou-se embaixadora da marca da Cooperativa de Chá Sahya e ajudou a popularizá-la, recusando-se a receber qualquer pagamento por seu trabalho. Para fortalecer sua presença no mercado, a cooperativa também fez uso do Sistema de Distribuição Pública de Kerala, como a Supplyco (Kerala State Civil Supplies Corporation) e a Consumerfed (Kerala State Cooperative Consumers’ Federation); também fez uso do sistema que fornece mercadorias para os refeitórios da polícia.
Além disso, a cooperativa recebeu outras formas de apoio do estado, como em 2020-2021, quando o governo estadual comprou chá Sahya para os kits de alimentos distribuídos durante a pandemia. Graças a esses mecanismos criativos de marketing e ao auxílio estatal, a cooperativa obteve lucro em seu quarto ano (2020-2021) e passou a pagar 18 rúpias indianas por quilo de folhas verdes, distribuindo os lucros como incentivos aos agricultores que as forneciam. Isso estabeleceu um precedente histórico: pela primeira vez, os agricultores foram remunerados de forma justa por suas contribuições.
Vanshika Babbar (Young Socialist Artists), Cooperativa de Trabalhadores Udayapuram, 2025.
Sociedade Cooperativa de Contratos de Trabalho Uralungal
Em 1925, antes do estabelecimento do movimento comunista no sudoeste da Índia, os seguidores do reformador social Vayaleri Kunhikannan Gurukkal, também conhecido como Sri Vagbhatananda Guru (1885-1939), fundaram o Sociedade Cooperativa de Contratos de Trabalho Uralungal (ULCCS, na sigla em inglês) para fornecer proteção social aos trabalhadores da construção civil. Atualmente, a ULCCS é a maior cooperativa de trabalhadores da Ásia e foi classificada em segundo lugar na lista World Cooperative Monitor de 2021, que classifica as cooperativas industriais e de serviços públicos. A coordenadora residente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento na Índia, Lise Grande, considera-a um modelo de cooperativa cujo sucesso oferece “grandes lições para o resto do mundo” (The Hindu, 2013). Originária de um grupo de trabalhadores braçais, a ULCCS, localizada em uma área rural de Malabar, no norte de Kerala, agora constrói estradas e pontes, edifícios e sistemas de software. O compromisso da cooperativa com a harmonia e inclusão social, bem como com a cooperação entre os trabalhadores, permitiu que ela tivesse sucesso em áreas da produção social que costumam ser desafiadoras para as cooperativas.
A ULCCS foi formada numa época em que era difícil encontrar trabalho e em que as formas de discriminação de casta e classe eram ainda mais severas do que são hoje. Em 1917, os seguidores de Sri Vagbhatananda Guru inauguraram a escola Atma Vidya Sangham, cujos membros formaram a Cooperativa de Crédito Unida em 1922 para se ajudarem mutuamente, caso algum deles enfrentasse problemas financeiros devido à discriminação no mercado de crédito, que era controlado pelas castas dominantes. Eles também fundaram uma escola para seus filhos, que haviam sido privados de educação pelas castas dominantes da região. Seguindo o conselho de Vagbhatananda, decidiram formar, em 1924, a Sociedade de Ajuda Mútua dos Trabalhadores Diaristas para contornar a proibição de trabalho que a elite lhes havia imposto, numa tentativa de restringir sua luta contra a discriminação de castas. Então, em 13 de fevereiro de 1925, os trabalhadores criaram a Uralungal Kooli Velakkaarude Paraspara Sahaaya Sahakarana Sangham (Sociedade Cooperativa e de Ajuda Mútua dos Trabalhadores de Uralungal, agora ULCCS). Aos poucos, mais e mais trabalhadores se juntaram à ULCCS, que agora tem presença em todo o estado de Kerala.
Durante seus primeiros anos, a ULCCS raramente conseguia obter contratos e, quando conseguia, os valores das licitações (ou dos contratos) eram fixados em um nível muito baixo. Para ser competitiva, a ULCCS apresentou uma proposta com desconto em relação às empreiteiras privadas, oferecendo 27,5% a menos do que as propostas feitas por estas últimas. Embora isso lhes tenha permitido obter alguns contratos, as margens de lucro eram insignificantes. A inexperiência com obras rodoviárias e outras formas de construção em grande escala gerou problemas para a ULCCS. A cooperativa se sustentava obtendo contratos menores de governos locais e recebendo empréstimos de curto prazo dos membros mais abastados da cooperativa. A ULCCS também recebeu fundos de sistemas de microfinanças como payattu (jogos para arrecadar dinheiro) e kurikkalyaanam (anúncios de casamento)7 e usou seu crescente prestígio para fornecer assistência para as necessidades básicas de seus membros, arrecadando doações de comerciantes locais.
Com o passar do tempo, os funcionários da ULCCS aprimoraram suas habilidades e se tornaram mais proficientes em práticas comerciais básicas. O aumento da eficiência e da qualidade do trabalho oferecido atraiu contratos mais lucrativos, e a ética de trabalho da empresa introduziu uma nova cultura de excelência na indústria da construção civil de Kerala. Na década de 1940, começaram a receber financiamento do Malabar Cooperative Central Bank e depósitos a prazo do público em geral em programas da ULCCS.
Ao longo do último século, a ULCCS cresceu de um coletivo com um capital inicial de 0,37 INR (0,13 dólar de 1925) para uma receita anual de 25 bilhões de INR (300 milhões de dólares) em 2023. É composta por 18 mil trabalhadores, incluindo mais de mil engenheiros e 1.200 técnicos. A cooperativa não só promove o bem-estar dos seus trabalhadores e da comunidade envolvente, cumprindo 13 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, como também garante que a qualidade do trabalho (incluindo a sua conclusão no prazo) seja equilibrada com custos razoáveis. Esses fatores, juntamente com as modernas técnicas de construção da ULCCS, permitem que ela concorra com empresas privadas e ganhe grandes contratos, como os da Autoridade Nacional de Rodovias da Índia, do Ministério da União de Transportes Rodoviários e Rodovias e do Governo de Kerala. A ULCCS concluiu mais de 7.500 grandes projetos e está atualmente trabalhando em 500 projetos no valor de 6,5 bilhões de rúpias indianas. Por operar como uma cooperativa, a ULCCS tem conseguido oferecer aos seus trabalhadores salários melhores do que ganhariam no setor privado ou mesmo no setor público.
Como parte de seu esforço para acompanhar as aspirações dos trabalhadores, a ULCCS ingressou em vários setores da economia do conhecimento, como o desenvolvimento de software, diversificando-se de sua forma inicial como uma cooperativa de trabalhadores da construção civil para enfrentar os desafios que as cidades e o trabalho enfrentam em nossos tempos. Essas iniciativas incluem:
- O UL CyberPark em Kozhikode é o primeiro parque cibernético do setor cooperativo da Índia e faz parte de uma das Zonas Econômicas Costeiras do governo central.
- A UL Technology Solutions é uma empresa de soluções digitais de última geração localizada no UL CyberPark.
- As vilas de artes e artesanato Sargaalaya (em Iringal) e Kerala Arts & Crafts Village (em Kovalam), que a ULCSS administra em nome do Governo de Kerala. Essas aldeias ajudam os artesãos a produzirem para os mercados nacional e internacional.
- A UL Housing utiliza as habilidades de construção da cooperativa para construir projetos de apartamentos sob a marca UL SpaceUs. O primeiro edifício desse tipo, chamado One Anthem, fica no UL CyberPark.
- O Laboratório de Testes e Pesquisa de Materiais de Alta Tecnologia, criado em 2021, ou MatterLab, é um desdobramento do trabalho de construção da ULCCS para desenvolver e testar novos materiais de construção sustentáveis.
- O Instituto Indiano de Infraestrutura e Construção, que a ULCCS administra em nome do Governo de Kerala em colaboração com instituições educacionais nacionais e internacionais.
- A UL Education desenvolve as competências dos alunos por meio de uma variedade de instituições e projetos, tais como:
- O Projeto Acadêmico Madappally para Aprendizagem e Empoderamento
- O Projeto Educacional Vagbhatananda
- Programa de Excelência Acadêmica para Estudantes
- O Clube Espacial da UL (para jovens aspirantes a astronautas).
- A Escola Primária Centenária da ULCCS, uma escola primária subsidiada em Muttungal, administrada pela ULCCS, oferece aulas do jardim de infância até o 4º ano do ensino fundamental.
- A Fundação Beneficente e de Bem-Estar ULCCS, o braço de responsabilidade social da cooperativa, administra três projetos principais sob o nome UL Care:
- Escola Prasanthi para Crianças com Necessidades Especiais
- O Instituto Nayanar Sadanam de Formação Profissional e Colocação para Adultos com Deficiência Intelectual
- O Centro Geriátrico Madithattu
- A UL Insight é uma empresa de consultoria de gestão gerida em conjunto com a Insight Advisory e a Consulting India.
Como cooperativa de trabalhadores, a ULCCS não permite que pessoas que não trabalham se tornem membros. Seu conselho administrativo – eleito pelos trabalhadores e que os representa – é composto por treze diretores, cada um entre 30 e 35 anos de experiência em diversos setores da indústria da construção. Cada local de trabalho, incluindo a gestão do projeto, é supervisionado por um membro do conselho que avalia o trabalho ao final de cada dia.
Navin S. (Young Socialist Artists), Alfaiates da Dinesh Apparels, 2025.
Cooperativas de Crédito em Kerala
Cooperativas de crédito – instituições financeiras de propriedade dos membros que fornecem crédito acessível e serviços financeiros para populações rurais e marginalizadas – foram formadas em Kerala mesmo antes da criação do estado, em 1956. Elas atendem principalmente pequenos agricultores e trabalhadores, frequentemente em locais em que os bancos comerciais privados são inexistentes ou insuficientes. Em Kerala, historicamente, eles desempenharam um papel vital no apoio aos beneficiários da reforma agrária e na prevenção da reconcentração da propriedade da terra. Por exemplo, o Banco Cooperativo Central de Trivandrum foi criado em 1915 para fornecer financiamento ao setor cooperativo emergente na região. Posteriormente, cooperativas de crédito semelhantes foram estabelecidas em toda a região norte de Malabar e em Cochin. Em 1956, o Banco Cooperativo Central de Trivandrum se tornou o Banco Cooperativo do Estado de Kerala, consolidando as cooperativas de crédito do novo estado. Atualmente, existem 4.146 cooperativas de crédito em Kerala, representando mais de um terço do total de instituições de crédito no estado (Governo de Kerala, 2025). Essas cooperativas de crédito desempenharam um papel vital na melhoria econômica da situação das pessoas, particularmente nas áreas rurais. Por exemplo, quando o ministério do governo comunista iniciou a reforma agrária em 1957, os pequenos agricultores que receberam terras precisavam de financiamento para começar o cultivo, mas esse crédito não estava disponível no setor privado em volumes suficientes. Foram as cooperativas de crédito que entraram em cena, fornecendo o capital necessário e evitando que os agricultores tivessem que recorrer a agiotas e à classe feudal. Sem a presença de cooperativas de crédito, uma parte substancial das terras distribuídas em Kerala teria retornado à classe feudal e aos agiotas na forma de hipotecas.
Embora o setor bancário comercial privado tenha se desenvolvido nas áreas rurais de Kerala, as cooperativas de crédito continuam desempenhando uma função vital. Kerala é o quinto estado mais bem conectado da Índia em termos de cobertura de agências bancárias comerciais, porém existe uma grande disparidade entre as áreas rurais e urbanas na distribuição dessas agências. Dados do Banco Central da Índia de 2024 mostram que apenas 5,3% dessas agências estão localizadas em áreas rurais, enquanto 22,5% estão em áreas urbanas e 72,2% em áreas semiurbanas (Reserve Bank of India, 2024). No entanto, se incluirmos as instituições de crédito cooperativo nesses números, 25% das agências bancárias do estado estão localizadas em áreas rurais.
A estrutura das cooperativas de crédito em Kerala
O setor de cooperativas de crédito de Kerala está estruturado em dois sistemas paralelos: cooperativas de curto prazo, que fornecem empréstimos sazonais de capital de giro para a agricultura, e cooperativas de longo prazo, que oferecem crédito para investimentos em infraestrutura rural e desenvolvimento agrícola. Cada sistema possui sua própria estrutura institucional, incluindo bancos que operam em um vilarejo, um distrito e um estado.
Historicamente, as cooperativas de curto prazo têm operado por meio de uma estrutura de três níveis, consistindo em Sociedades Primárias de Crédito Agrícola (PACS, na sigla em inglês) no nível dos vilarejos, bancos cooperativos distritais no nível distrital e o Banco Cooperativo Estadual de Kerala no nível estadual. Em 2019, essa estrutura foi simplificada para dois níveis, com a fusão dos bancos distritais e estaduais em uma única entidade, agora conhecida como Kerala Bank. Essa estrutura simplificada fortaleceu a integração e a eficiência da rede de cooperação de curto prazo. De forma geral, essa estrutura pode ser visualizada como uma pirâmide: as PACS formam a base, e o Kerala Bank serve como o vértice. As cooperativas de longo prazo formam uma estrutura separada, ancorada pelo Banco Cooperativo Agrícola e de Desenvolvimento Rural do Estado de Kerala, em nível estadual, e apoiada por bancos cooperativos primários de agricultura e desenvolvimento rural nos níveis distrital e municipal.
Na base da estrutura cooperativa de curto prazo estão as PACS, popularmente conhecidas como “sociedades”. Cada aldeia em Kerala tem pelo menos uma PACS, o que as torna as instituições financeiras mais acessíveis e conhecidas nas áreas rurais de Kerala. Essas PACS também formam a espinha dorsal do movimento cooperativo mais amplo do estado. Com 30,3 milhões de membros em 2022, as Sociedades de Ações Cooperativas Públicas (PACS) de Kerala representam a maior adesão na Índia – mais que o dobro da de Bengala Ocidental, o estado com a segunda maior adesão (Nafscob, 2023). A maioria dos membros provém de famílias de pequenos agricultores ou de outras comunidades economicamente e socialmente desfavorecidas. Essa ampla base de membros permitiu que as PACS (Sociedades de Crédito Agrícola Primárias) em Kerala mobilizassem 1,217 bilhão de rúpias indianas em depósitos – mais de dois terços do total de depósitos mantidos pelas PACS em toda a Índia (idem).
O papel fundamental que as PACS de Kerala têm desempenhado no aumento da disponibilidade e acessibilidade ao crédito para os pobres rurais e outros segmentos marginalizados da população, não atendidos adequadamente pelos bancos comerciais, é ilustrado por diversos estudos empíricos realizados em Kerala (George et. al.; Rao et. al., 2013; Asok et. al. 2020). Esses estudos mostram que grupos social e economicamente desfavorecidos percebem as cooperativas como instituições amigas dos bairros e, portanto, como as instituições bancárias mais acessíveis. Metade das famílias de baixa renda na zona rural de Kerala depende do setor cooperativo para obter empréstimos, enquanto 25% recorrem a bancos comerciais. Os estudos também apontam para uma maior dependência de mutuários dalits e adivasis (grupos socialmente marginalizados na Índia) e de famílias extremamente pobres em relação às cooperativas de crédito, quando comparados a outras categorias socioeconômicas, e destacam as barreiras que existem entre as pessoas pobres e os bancos comerciais. Além disso, as características específicas das cooperativas financeiras – familiaridade entre clientes, funcionários e membros do conselho de administração, bem como o direito de qualquer pessoa na localidade de se tornar membro – tornam essas instituições facilmente acessíveis às populações marginalizadas. Formulários complexos, procedimentos complicados e até mesmo o traje e a sofisticação dos funcionários de bancos comerciais muitas vezes impõem um sentimento “estrangeiro” entre os pobres em relação aos bancos comerciais.
O potencial das cooperativas de crédito em Kerala para libertar grupos social e economicamente vulneráveis das garras e da exploração dos agiotas é evidente na história do Mannarkkad Rural Service Cooperative Bank Ltd, localizado no distrito de Palakkad.
Mannarkkad Rural Service Cooperative Bank Ltd
O Banco Cooperativo de Serviços Rurais de Mannarkkad (MRSCB) iniciou suas operações em 1989 com apenas 305 membros e um capital social de 30 mil rúpias indianas. Ao longo das últimas três décadas, o banco fez progressos notáveis em termos de número de membros, depósitos e capital social. Atualmente, o banco possui mais de 16 mil membros, um capital social de 40 milhões de rúpias indianas e um volume de negócios anual de 7,5 bilhões. A instituição mobilizou um total de 2,7 bilhões em depósitos, distribuiu com um total de 2,5 bilhões em empréstimos e obteve lucro consistentemente desde 1994. A cooperativa paga um dividendo de 25% aos seus membros, que é o valor máximo permitido pela Lei das Sociedades Cooperativas de Kerala. Em 2018, o banco lançou um programa de microfinanças chamado Muttathe Mulla (Jasmim no Seu Quintal) para moradores pobres de vilarejos próximos ao banco, a fim de protegê-los de agiotas ilegais e empresas privadas de microfinanças que cobram taxas de juros exorbitantes. Nesse programa, uma pessoa torna-se elegível para empréstimos bancários com taxa de juros reduzida, o que lhe permite liquidar empréstimos antigos contraídos junto a agiotas. O programa foi implementado com o apoio dos grupos comunitários Kudumbashree, que são responsáveis por identificar os necessitados, distribuir os empréstimos e coletar os pagamentos semanais dos mutuários em suas residências. Ao constatar o sucesso desse programa, o Governo de Kerala o adotou em nível estadual e decidiu implementá-lo em todo o estado por meio dos PACS (Sistemas de Ações Cooperativas de Crédito).
Além de fornecer serviços bancários tradicionais, as PACS também estão realizando diversas intervenções para promover o desenvolvimento das economias locais rurais, atuando assim como a espinha dorsal do setor financeiro rural em Kerala. As instituições desenvolvem uma série de atividades, como a distribuição de crédito e insumos a preços subsidiados; o apoio à agricultura, à pecuária e às pequenas indústrias; e a organização de instalações para o processamento, a criação de marcas e a comercialização de produtos locais.
Palliyakkal Service Cooperative Bank Ltd
O Palliyakkal Service Cooperative Bank Ltd (PSCB) foi fundado em 1943 no grama panchayat (conselho) de Ezhikkara, no distrito de Ernakulam. Ezhikkara, uma vila predominantemente agrícola, é conhecida pelo cultivo de arroz pokkali (uma variedade de arroz tolerante ao sal) e pela piscicultura, que são as principais fontes de renda da comunidade local. Durante as primeiras décadas de sua existência, o PSCB se dedicou a atividades bancárias tradicionais, como empréstimos e recebimento de depósitos. No entanto, seu desempenho financeiro se mostrou muito ruim, com uma taxa de recuperação muito baixa. Em 2000, o conselho de administração do PSCB realizou uma análise aprofundada do banco e descobriu que a baixa rentabilidade e as reduzidas oportunidades de emprego no setor agrícola da região eram os principais fatores que contribuíam para o baixo índice de pagamento dos empréstimos. O banco reconheceu a necessidade de aumentar a renda da comunidade local para melhorar sua viabilidade financeira.
Com isso em mente, o PSCB decidiu abordar a crise agrária enfrentada pelos agricultores em sua área. A associação realizou consultas com seus membros e com a comunidade local e desenvolveu um plano estratégico para alcançar a autossuficiência local na produção de alimentos, garantindo a segurança alimentar local e impulsionando o desenvolvimento econômico local. Grupos de ajuda mútua foram formados sob a égide do PSCB em sete setores: cultivo de arroz pokkali, horticultura, floricultura, produção de leite, avicultura, piscicultura e cultivo de plantas medicinais. Para aumentar a produção agrícola, o PSCB fornecia regularmente a esses grupos de agricultores comunitários treinamento, crédito acessível (com juros baixos ou de fácil acesso) e conexões com fornecedores de insumos e com mercados para a venda de seus produtos. O banco também ofereceu aos agricultores consultoria agrícola contínua por meio de sua equipe técnica agrícola, além de financiamento, e introduziu práticas agrícolas inovadoras. Além disso, oferecia instalações para aquisição e comercialização de produtos agrícolas e organizou seu próprio centro de distribuição de insumos, como sementes e fertilizantes orgânicos e equipamentos. O PSCB organizou trabalhadores agrícolas no Exército Verde, um serviço por meio do qual forneceu aos agricultores mão de obra suficiente, e instalou um moinho de arroz pokkali para melhorar o processamento de produtos desse tipo. A organização também promovia mercados onde frutas, verduras, leite e ovos adquiridos dos agricultores eram vendidos a alguns dos preços mais altos de Kerala. Os proprietários de terras da região apoiaram essas iniciativas, permitindo que o banco utilizasse suas terras para agricultura. Atualmente, mais de mil famílias da região estão envolvidas em atividades promovidas pelo banco, cujos esforços conjuntos e conquistas na revitalização da economia local são amplamente reconhecidos.
Nos últimos anos, o banco ganhou diversos prêmios de desempenho no setor cooperativo. No orçamento estadual de 2020, o então Ministro das Finanças de Kerala, TM Thomas Isaac, anunciou a Plataforma Alimentar Virtual de Kerala, que permite a compra de produtos agrícolas diretamente dos agricultores e sua entrega aos consumidores, garantindo não apenas um acesso mais amplo a produtos mais saudáveis, mas também melhores retornos para os agricultores, evitando intermediários. Em reconhecimento às intervenções do PSCB na área, o banco foi selecionado para implementar o programa.
Desenvolvimento cooperativo
A extensa rede de cooperativas de crédito de Kerala recebeu reconhecimento internacional por suas conquistas em impulsionar o desenvolvimento das economias rurais. Livres da rigidez e dos procedimentos complexos que caracterizam os bancos comerciais, esses “bancos populares” desempenham um papel fundamental no êxito de diversos programas estatais. Essas iniciativas incluem o projeto Care Home, que construiu casas mais seguras e melhores para famílias afetadas pelas inundações e deslizamentos de terra de 2018, e os planos de pensão social. Além disso, essas instituições de crédito locais desempenharam um papel fundamental na recuperação do estado após as grandes inundações de 2018 e a pandemia de Covid-19, oferecendo apoio financeiro à população de Kerala. Entre o processo de desenvolvimento a longo prazo e a dinâmica de assistência a curto prazo, essas instituições provaram ser vitais para o progresso em Kerala.
Kadambari (Young Socialist Artists), Programa de Leitura em voz alta Dinesh Beedi, 2025.
Sociedade Cooperativa Central dos Trabalhadores de Beedi de Kerala Dinesh
Em 15 de fevereiro de 1969, a Kerala Dinesh Beedi Workers’ Central Cooperative Society (Dinesh Beedi) foi registrada no Registro Estadual de Sociedades Cooperativas. Inicialmente, a cooperativa estabeleceu uma sociedade central e vinte unidades de produção primária, onde os trabalhadores enrolavam beedi (um tipo de cigarro enrolado à mão). A cooperativa foi formada após um período prolongado de agitação por parte dos trabalhadores, cujas reivindicações por melhores condições de trabalho também foram acolhidas pelos comunistas. Em 1966, os esforços do líder comunista AK Gopalan levaram à aprovação da Lei dos Trabalhadores de Beedi e Charuto (Condições de Emprego) no parlamento indiano, que estabeleceu uma garantia mínima para o bem-estar dos trabalhadores de beedi, incluindo salários dignos e segurança social, e deixou a responsabilidade pela implementação da lei a critério dos governos estaduais. Foi a agitação dos trabalhadores e a aprovação dessa lei que impulsionaram a formação da Dinesh Beedi três anos depois.
Quando os comunistas venceram as eleições estaduais de 1967 em Kerala por uma margem esmagadora, EMS Namboodiripad, o novo ministro-chefe, implementou a Lei dos Trabalhadores de Beedi e Charuto. Os proprietários privados das fábricas de beedi protestaram, e alguns deles – como a Ganesh Beedi – chegaram ao ponto de fechar abruptamente suas fábricas. Eles se recusaram a negociar com os trabalhadores porque queriam que o governo desistisse de implementar a legislação. Quando os trabalhadores dos distritos de Kannur e Kasaragod, no norte de Kerala, começaram a sofrer os impactos sociais desses fechamentos, sindicatos e comunistas se uniram em uma frente única para exigir apoio para eles. “Os trabalhadores só sabiam fabricar beedi, e não era fácil encontrar empregos alternativos para um número tão grande deles”, escreveu GK Panikkar, que mais tarde se tornou presidente da Dinesh Beedi, cargo que ocupou de 1969 a 1996. “A economia do distrito foi abalada”, disse (Kavubayi, 2019). Foi nesse momento que os trabalhadores sindicalizados decidiram organizar uma cooperativa para a produção de beedi.
A formação dessa cooperativa de trabalhadores tornou-se não apenas uma solução para a crise criada pelo fechamento de fábricas e um antídoto para a fuga de capitais, mas também uma expressão da dignidade do trabalho e do espírito de ação coletiva. “O surgimento da Dinesh Beedi não foi tão simples quanto muitos pensam”, disse KP Sahadevan, que liderou a frente unida e ajudou a estabelecer a cooperativa. “Foi o resultado da luta contínua travada pela classe trabalhadora e da militância geral da época” (idem).
A ideia de formar a Dinesh Beedi foi inspirada pela Sociedade Cooperativa dos Trabalhadores do Café da Índia, formada em 1958 por iniciativa de AK Gopalan. Essa experiência anterior deu confiança de que tais projetos geridos pelos trabalhadores poderiam funcionar, o que – juntamente com o apoio do ministério comunista de Kerala ajudou a transformar a ideia dos trabalhadores de beedi em realidade quase uma década depois.
O capital para a Dinesh Beedi veio dos próprios trabalhadores. Em 1969, fixaram o valor das ações em 20 rúpias indianas, mas muitos não tinham condições de comprá-las, já que o salário diário na época era inferior a 3 rúpias indianas. Para resolver esse problema, o governo estadual concedeu um empréstimo de 19 rúpias indianas a cada futuro trabalhador-proprietário. Os trabalhadores reembolsaram o empréstimo por meio de parcelas descontadas de seus salários. Embora o projeto não pudesse inicialmente acomodar os 12 mil trabalhadores que perderam seus empregos, os 3 mil trabalhadores que aderiram inicialmente foram acompanhados por outros mil em um mês. Em outras palavras, um terço dos trabalhadores desempregados da indústria de beedi ingressou na cooperativa. Os trabalhadores de beedi do norte de Malabar, conscientes de sua classe social, deixaram claro que não seriam permitidas divisões entre aqueles que entrassem na cooperativa como trabalhadores-proprietários e aqueles que não o fizessem, e educaram todos os trabalhadores, empregados na cooperativa ou não, sobre o seu funcionamento.
Desde o início, Dinesh Beedi enfrentou diversos desafios. Por exemplo, teve que lutar para ganhar espaço diante da fidelidade de longa data dos clientes às marcas privadas mais antigas. No início, a cooperativa ficou com um estoque de pacotes de beedi não vendidos, e parecia que o novo empreendimento não teria sucesso, apesar dos esforços dos trabalhadores para produzir beedi de alta qualidade. Nesse momento, por meio de discussão coletiva, os trabalhadores decidiram lançar uma campanha em massa para promover o cigarro da Dinesh Beedi em todas as lojas, solicitando que comprassem a marca. Essa campanha em massa gradualmente transformou a Dinesh Beedi na marca preferida entre a classe trabalhadora e o campesinato de Kerala. Em poucos anos, a Dinesh Beedi se tornou uma das marcas de beedi mais populares da Índia e a maior produtora de beedi do sul do país. A cooperativa, que começou com 3 mil trabalhadores em 1969, empregava 42 mil trabalhadores na década de 1980, tornando-se uma das maiores cooperativas de trabalhadores da Ásia. Como resultado, puderam pagar salários e benefícios de seguridade social mais altos do que os oferecidos no setor privado.
No entanto, o objetivo de uma cooperativa não é apenas sobreviver no sistema capitalista, mas usar sua estrutura democrática para expandir os horizontes sociais de seus trabalhadores. Os trabalhadores-proprietários da Dinesh Beedi criaram uma cultura de trabalho digna e eliminaram o sistema de contratos privados, que não respeitava os direitos trabalhistas estabelecidos – uma das principais queixas durante as agitações das décadas de 1950 e 1960. Foi também uma das primeiras empresas a oferecer aos seus trabalhadores férias remuneradas, bônus e auxílio-funeral. No ambiente de trabalho, a Dinesh Beedi incentivava tanto o sindicalismo quanto o debate político, por meio de um programa de “leitura em voz alta”, no qual um trabalhador designado lia importantes obras literárias ou textos sobre assuntos contemporâneos para os demais trabalhadores. A organização também promoveu clubes de arte e esportes nas aldeias para oferecer aos trabalhadores, suas famílias e à comunidade em geral as atividades de lazer necessárias. Essas reformas tiveram um impacto profundo na indústria do beedi, e algumas delas foram inclusive adotadas por empresas privadas. A Dinesh Beedi tornou-se um símbolo de resistência, da unidade e da dignidade dos trabalhadores.
Na década de 1990, uma crise na indústria de beedi ameaçou a existência da Dinesh Beedi. A crise teve origem em diversos fatores, incluindo o surgimento de novas empresas privadas de fabricação de beedi que pagavam salários abaixo do mínimo exigido pelo governo e ofereciam margens de lucro maiores aos varejistas; uma mudança no comportamento dos consumidores mais jovens, que passaram a consumir cigarros em vez de beedi; e as campanhas governamentais antitabaco. Dinesh Beedi apoiou as campanhas governamentais, que ganharam força à medida que a conscientização pública sobre os riscos do tabaco para a saúde aumentava. Devido a essa nova consciência, a cooperativa parou de contratar novos funcionários após 1993 e a demanda do consumidor diminuiu ano após ano. A jornada de trabalho dos funcionários da Dinesh Beedi foi reduzida e muitos deixaram a cooperativa em busca de emprego em outros lugares.
Nesse contexto, os trabalhadores-proprietários da Dinesh Beedi começaram a discutir a diversificação da produção para salvar a cooperativa. Para apoiar essa iniciativa, a Ministra da Indústria de Kerala, Susheela Gopalan, líder do movimento comunista, realizou um workshop estadual sobre diversificação em 30 de agosto de 1996, no qual muitos cientistas contribuíram com suas ideias para os trabalhadores-proprietários da cooperativa. Logo depois, Dinesh Beedi lançou uma série de produtos piloto, como leite de coco (1997) e curry em pó (1998). No final da década de 1990, Dinesh Beedi expandiu seus negócios para cinco novos empreendimentos:
- A Dinesh Foods fabrica e comercializa especiarias em pó, leite de coco, óleo de coco virgem, sorvete de leite de coco, suco concentrado de frutas, geleia de frutas, xarope e picles, empregando principalmente ex-trabalhadores da indústria de beedi. A cooperativa possui quatro unidades fabris no distrito de Kannur, garantindo emprego durante todo o ano para seus trabalhadores.
- O Café Dinesh opera restaurantes cooperativos e serviços de catering em Kannur, Payyannur, Pinarayi e Thalassery. Os produtos da Dinesh Foods estão disponíveis nesses pontos de venda.
- A Dinesh Information Technology Systems (DITS), fundada em 1999, fornece suporte de TI para o setor cooperativo em Kerala, incluindo o setor bancário cooperativo. Em 2001, a DITS estabeleceu o Parque de Software Dinesh em Kannur.
- O Auditório Dinesh em Kannur aluga um grande salão com capacidade para mil pessoas e está disponível para conferências e casamentos.
- A Dinesh Apparel, criada em 2007 em Kannur e Kasaragod, produz roupas para os mercados local e de exportação. A empresa emprega mais de 400 pessoas.
Ao diversificar-se e criar a Kerala Dinesh, como ficou mais conhecida no início dos anos 2000, a cooperativa conseguiu prosperar e reduzir sua dependência de um produto prejudicial. A tomada de decisões democrática e a crença na priorização dos interesses dos trabalhadores levaram à criação de um ecossistema cooperativo que continua cativando a imaginação dos trabalhadores em todo o mundo.
Vanshika Babbar (Young Socialist Artists), Alimentos Dinesh, 2025
Uma pequena vila constrói sua própria cooperativa de trabalho
Kodom Belur, um panchayat (administração local) situada numa zona remota do distrito de Kasaragod, no norte de Kerala, era há muito marcada por profundas disparidades socioeconômicas enraizadas no sistema feudal de latifúndios. As condições materiais de seu povo foram moldadas tanto pelas reformas agrárias das décadas que se seguiram à formação de Kerala, em 1956, quanto pelas remessas de migrantes para o Golfo Pérsico, que deram origem a uma nova classe abastada. No entanto, grandes parcelas da população não se beneficiaram nem da reforma agrária nem das remessas, permanecendo desempregadas, socialmente marginalizadas e frustradas pela corrupção desenfreada em projetos financiados com recursos públicos. Os trabalhadores da construção civil frequentemente tinham seus salários negados, enquanto os empreiteiros se apropriavam de fundos públicos sem concluir os projetos.
A construção civil é um setor impulsionado pela demanda. A necessidade de infraestrutura depende do nível de desenvolvimento econômico, e a qualidade da infraestrutura física é distribuída de forma desigual entre as regiões. Os trabalhos de construção nem sempre ocorrem onde há mão de obra disponível, nem a necessidade de mão de obra é constante. Os trabalhadores deslocam-se de um local de trabalho para outro conforme a disponibilidade de contratos, sendo a quantidade de mão de obra e capital necessária dependente da dimensão e do valor de cada projeto. Em cada etapa da construção, são necessárias diferentes habilidades e novos trabalhadores são contratados, dando aos investidores de capital a vantagem durante todo o processo de construção. Em projetos de grande escala, as múltiplas camadas de subcontratação aumentam ainda mais a vulnerabilidade dos trabalhadores. Em suma, as características estruturais da atividade de construção criam amplas condições para a exploração da mão de obra.
Em 1996, o governo da Frente Democrática de Esquerda de Kerala lançou a Campanha Popular pelo Planejamento Descentralizado, que construiu um processo impressionante para descentralizar o planejamento, envolvendo grandes parcelas da população de Kerala em discussões sobre os problemas e o potencial não realizado no estado. Esses esforços mobilizaram a população de Kodom Belur a se organizar contra as construtoras exploradoras e a boicotar as obras públicas contratadas por empresas privadas na região. Eles criaram um grupo de ação que começou a executar contratos públicos de forma independente. No entanto, o atraso técnico, o capital limitado, a pressão de construtoras privadas e a obstrução por parte de funcionários corruptos – especialmente no Departamento de Obras Públicas – minaram seus esforços para exercer o controle popular sobre esses projetos.
Em 1997, um líder local eleito e presidente do comitê permanente do panchayat de Kodom Belur, AC Mathew, mobilizou os membros do grupo de ação para se organizarem na Sociedade Cooperativa de Contratos de Trabalho de Hosdurg. A sociedade tinha como objetivo reunir a mão de obra qualificada de seus membros e arrecadar capital por meio de suas próprias economias para que pudessem concorrer a obras públicas. Em 2004, a sociedade foi renomeada para Sociedade Cooperativa de Contratos de Trabalho de Udayapuram. A sociedade cresceu de 221 membros iniciais para 2.981 atualmente, incluindo 235 membros permanentes da Classe A (aqueles com plenos direitos de voto e participação de longo prazo na cooperativa), dos quais cerca de um quarto pertence à categoria de Tribos Registradas. A Sociedade Udayapuram garante contratos de construção junto ao Departamento de Obras Públicas de Kerala, órgãos de autogoverno locais e outros departamentos governamentais. É propriedade dos seus membros e mantida por eles, recebendo financiamento da National Cooperative Development Corporation, dos bancos cooperativos distritais (atualmente Kerala Bank) e da Kerala Financial Corporation.
O modelo da cooperativa está enraizado na ajuda mútua e visa, em última instância, melhorar a qualidade de vida de seus membros. Antes da criação da Sociedade Udayapuram, as obras de construção eram realizadas principalmente por construtoras privadas. Foi por meio da Sociedade Udayapuram que os trabalhadores conseguiram superar a exploração salarial e a dependência de empreiteiros privados.
O aumento do volume de trabalho levou gradualmente a melhores condições socioeconômicas para seus membros. A partir de 2011, a sociedade começou a empreender projetos de construção de grande escala. A empresa também diversificou suas atividades para incluir a agricultura e outros setores, a fim de estabilizar o crescimento e fazer melhor uso dos recursos humanos disponíveis. Ao criar oportunidades de emprego produtivas, a sociedade tornou-se um motor de crescimento na economia regional.
Junaina Muhammad (Young Socialist Artists), Kudumbashree, 2025.
Kudumbashree
Uma das coisas mais impressionantes sobre a Kudumbashree é o seu tamanho gigantesco: 4,8 milhões de mulheres – cerca de um terço das mulheres adultas em Kerala – integram esta rede (Technical Group on Population Projections, 2020).8 Embora a Kudumbashree (que significa “prosperidade da família” em malaiala) tenha começado em maio de 1998 como um programa estadual para erradicar a pobreza entre as mulheres, desde então se tornou uma força transformadora na vida social e política de Kerala. “Em parte um movimento e em parte um programa governamental”, como VK Ramachandran descreve. Hoje, a Kudumbashree está envolvida em uma ampla gama de atividades, desde microfinanças e agricultura coletiva até a fabricação de vestuário e a administração de restaurantes.9 Tornou-se uma presença onipresente na sociedade de Kerala.
Embora a Kudumbashree não seja organizada sob as leis que regem as cooperativas em Kerala, ela é imbuída de um espírito cooperativo – as unidades básicas de sua rede comunitária são controladas e administradas por seus membros de maneira democrática, com base na regra de “uma integrante, um voto”.10 A rede comunitária possui uma estrutura de três níveis:
- O nível mais baixo é o Grupo de Vizinhança ou NHG (Ayalkkoottam em malaiala), composto entre dez e vinte membros. Todas as mulheres adultas do bairro podem se tornar membras, e há uma ênfase na inclusão de mulheres de setores economicamente e socialmente desfavorecidos da população.
- O segundo nível é a Sociedade de Desenvolvimento da Área (ADS, na sigla em inglês), que é formada pela federação de todos os Grupos Nacionais de Habitação (NHG, na sigla em inglês) em uma região da instituição de autogoverno local relevante (LSGI, também conhecida como órgão local ou governo local), como um panchayat ou município.
- O terceiro nível é a Sociedade de Desenvolvimento Comunitário (CDS), que é formada pela federação de todas as sociedades de desenvolvimento de área no órgão local.
A rede comunitária Kudumbashree é apoiada por uma estrutura governamental chamada Missão Kudumbashree (oficialmente Missão Estadual de Erradicação da Pobreza). A missão é liderada por um conselho administrativo presidido pelo ministro de Estado para os governos locais, um comitê executivo presidido pelo secretário-chefe adjunto do departamento de governo local e um funcionário do governo que atua como diretor executivo. Existem quatorze missões distritais Kudumbashree (uma para cada distrito em Kerala) sob a missão estadual.
Origens
Experiências locais anteriores em desenvolvimento comunitário serviram como precursoras da Kudumbashree (Kutty, 2022).11 Um desses experimentos foi o Programa de Nutrição Baseado na Comunidade, iniciado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na cidade de Alappuzha, em 1991, com o objetivo de melhorar a saúde e o estado nutricional de mulheres e crianças. O programa estabeleceu sociedades de desenvolvimento comunitário para mulheres em três níveis: NHG, ADS e CDS. Um projeto semelhante foi implementado no distrito de Malappuram a partir de 1994, com uma estrutura de cinco níveis (NHG, ADS, CDS, CDS em nível local e CDS em nível de distrito), embora tenha sido posteriormente reduzido para três, como o de Alappuzha. As sociedades de poupança e crédito, que mobilizavam as pequenas economias das mulheres pobres associadas às sociedades de desenvolvimento comunitário e concediam empréstimos às suas associadas, tornaram-se parte integrante da organização comunitária.
O início da década de 1990 também foi um período em que o Kerala Sasthra Sahitya Parishad (Fórum de Literatura Científica de Kerala, ou KSSP, o maior movimento popular de ciência de Kerala) liderava novas experiências em um modelo participativo de planejamento para o desenvolvimento local. A formação dos NHGs, que participaram no mapeamento e planejamento de recursos a nível local, fez parte dessas experiências. A mais notável delas foi implementada pela KSSP no panchayat do vilarejo de Kalliasseri, no distrito de Kannur, em 1993, onde foram formados quase duzentos NHGs.
Em 1996, o governo da Frente Democrática de Esquerda chegou ao poder em Kerala e lançou a Campanha Popular pelo Planejamento Descentralizado (também conhecida como Campanha do Plano Popular) naquele mesmo ano. A campanha resultou numa descentralização muito maior de fundos e poderes para os governos locais, e os Grupos Nacionais de Saúde (NHGs) foram formados para fortalecer o processo de planejamento descentralizado.12 Como parte da campanha, o governo estadual também tornou obrigatório que os governos locais destinassem 10% de seus fundos de planejamento anual exclusivamente para vários projetos voltados para o avanço social das mulheres.
Todos esses processos e experimentos contribuíram para a criação da Kudumbashree.
Em 1997, uma força-tarefa especial do governo recomendou a criação da Missão Estadual de Erradicação da Pobreza (Missão Kudumbashree). A missão foi anunciada no orçamento do estado de Kerala de 1997-1998 e inaugurada em 17 de maio de 1998. Seu objetivo era erradicar a pobreza absoluta por meio de ações comunitárias conjuntas sob a liderança dos governos locais.
Atualmente, os principais programas da Kudumbashree incluem microfinanças, atividades econômicas geradoras de renda, como agricultura e microempresas, e a implementação de diversas iniciativas de bem-estar e desenvolvimento dos governos locais.13
Todas as integrantes da Kudumbashree fazem parte de seu programa de poupança e crédito. As mulheres dos grupos de bairro se reúnem uma vez por semana e fazem pequenas contribuições para um fundo de poupança, que é então usado para conceder pequenos empréstimos a integrantes que necessitem. A maioria dos grupos de bairro também está ligada a bancos, que lhes concedem empréstimos. Os grupos utilizam esses empréstimos para atividades de subsistência, como agricultura coletiva e criação de microempresas (Kannan & Raveendran, 2017, p. 57).
Agricultura coletiva
Uma das iniciativas mais notáveis da Kudumbashree é a agricultura coletiva (Kuruvilla, 2019). Grupos de quatro a dez membros dos NHG interessados em agricultura são organizados em Grupos de Responsabilidade Conjunta, também conhecidos como grupos sangha krishi [agricultura coletiva], que identificam terras (frequentemente em pousio) adequadas para cultivo em sua aldeia e arredores. Com a ajuda do panchayat e da Missão Distrital Kudumbashree, arrendam as terras dos proprietários e as cultivam. As integrantes do grupo também compartilham suas próprias terras e as cultivam. Grupos ativos de sangha krishi são vinculados a bancos, e empréstimos são disponibilizados a elas com subsídio nos juros. A Missão também apoia os coletivos, fornecendo-lhes máquinas agrícolas, sementes, fertilizantes e pesticidas a preços subsidiados. O departamento estadual de agricultura oferece treinamento periódico e suporte técnico. Fundos provenientes de diversas iniciativas do governo central também são utilizados para apoiar os esforços da agricultura coletiva. Dez mil agricultoras qualificadas dos grupos sangha krishi foram designadas como “agricultoras mestras”, atuando como pessoas de referência que oferecem treinamento aos demais membros dos grupos sangha krishi.
Em 30 de junho de 2025, o número de mulheres agricultoras que fazem parte dos grupos Kudumbashree Sangha Krishi em Kerala atingiu 439.255. Existem 96.177 grupos sangha krishi, que cultivam 21.457 hectares de terra. As principais culturas cultivadas são arroz, vegetais, tubérculos e bananas. Os produtos são primeiramente utilizados para consumo interno das famílias das mulheres agricultoras, e o excedente é então vendido nos mercados das aldeias. Os esforços de agricultura coletiva da Kudumbashree fortaleceram a segurança alimentar das famílias de seus membros e melhoraram seus rendimentos e padrões de vida.
Governos locais
A rede comunitária Kudumbashree desempenha um papel crucial nas iniciativas de desenvolvimento dos governos locais sob o planejamento descentralizado em Kerala. Embora os governos locais sejam responsáveis pelo planejamento e implementação de programas de desenvolvimento econômico, justiça social e combate à pobreza, a missão principal da rede é a erradicação da pobreza.14 Desde o início, esse foco compartilhado significou que os Grupos Nacionais de Saúde (NHG), os Serviços de Desenvolvimento Agrícola (ADS) e os Serviços de Desenvolvimento Comunitário (CDS) da Kudumbashree trabalham em conjunto com os governos locais.
A Kudumbashree atua como agência de implementação de diversos programas de erradicação da pobreza e iniciativas de desenvolvimento do governo estadual. Por exemplo, o programa Kerala Livre de Indigentes, que visa erradicar a pobreza extrema no estado, é implementado pela rede, e os beneficiários do programa são identificados por suas integrantes. O programa tem como objetivo fornecer alimentação, tratamento médico, vestuário, pensões de assistência social, educação, terrenos e habitação para aqueles identificados como indigentes.15
Como parte do processo de planejamento, os governos locais de Kerala estabelecem grupos de trabalho para setores-chave de desenvolvimento, como saúde, educação, redução da pobreza, desenvolvimento de mulheres e crianças e segurança social, sendo obrigatória a inclusão de pelo menos uma representante da Kudumbashree CDS em cada um desses grupos de trabalho.16 Esses grupos de trabalho têm a tarefa de mapear os recursos existentes, analisar as condições locais, explorar o potencial de desenvolvimento e identificar as necessidades da população. Além disso, as necessidades de desenvolvimento da população são avaliadas nas assembleias barriais (conhecidas como grama sabhas nas aldeias e ward sabhas nas vilas e cidades). As integrantes da Kudumbashree são o segmento mais ativo dessas assembleias e desempenham um papel crucial para as manter dinâmicas.
Em fevereiro de 2020, o governo de esquerda de Kerala anunciou a abertura de mil restaurantes, administrados pela Kudumbashree, em que a comida seria oferecida a preços subsidiados (Moiden, 2021). Durante os confinamentos da Covid-19 naquele ano, a rede de cooperativas começou a montar esses restaurantes, batizando-os de “restaurantes populares”. Durante esses meses, a Kudumbashree – juntamente com os governos locais e os sindicatos de funcionários – também esteve envolvida na gestão de cozinhas comunitárias em todo o estado. Em 1º de março de 2025, havia 1.198 restaurantes populares em funcionamento no estado, administrados por 5.104 integrantes da Kudumbashree.17
Microempresas
As microempresas criadas pelas unidades Kudumbashree atuam em uma ampla gama de setores, incluindo a produção de alimentos embalados, vestuário, absorventes higiênicos, guarda-chuvas, bolsas, cerâmica, tapetes, sabonetes e artigos de higiene pessoal. Existem iniciativas que promovem e comercializam produtos agrícolas produzidos por agricultores tribais em vários distritos do estado, garantindo que os produtores recebam rendimentos mais elevados. A rede Home Shop, que leva os produtos das microempresas Kudumbashree diretamente às residências, foi estabelecida em todos os quatorze distritos do estado. Existem também unidades que se dedicam à criação de gado e aves e à exploração de pisciculturas.
As unidades do Kudumbashree administram restaurantes e cantinas em todo o estado; gerenciam estacionamentos em estações ferroviárias; processam óleo de coco, castanha de caju e tamarindo; e produzem salgadinhos, picles e pappadam (petisco fino e crocante à base de lentilha). Administram academias de ginástica, albergues para mulheres, creches, autoescolas, unidades de produção de fibra de coco, unidades de encadernação, gráficas, laboratórios médicos, oficinas de costura e supermercados. Existem também unidades que fabricam lâmpadas LED e produtos eletrônicos.
Existem equipes de construção da Kudumbashree compostas exclusivamente por mulheres, incluindo supervisoras, pedreiras, encanadoras e eletricistas, que foram treinadas pela Missão Kudumbashree com o apoio de várias outras agências. Também possui uma Haritha Karma Sena [Força-Tarefa Verde] que coleta resíduos plásticos de residências e empresas, transporta-os para unidades de trituração para reciclagem e auxilia no gerenciamento de resíduos orgânicos domésticos. O Amrutham Nutrimix, um suplemento em pó à base de cereais oferecido a crianças de seis meses a três anos de idade em creches de Kerala, também é fabricado por 241 unidades da Kudumbashree no estado.
Em 1º de março de 2025, havia um total de 157.097 microempresas Kudumbashree no estado, administradas por 318.265 membros da cooperativa. Dessas, 69.484 empresas pertenciam ao setor de produção, 49.381 ao setor de serviços e 35.646 ao setor de comércio.
Impacto
A Kudumbashree transformou a vida de suas integrantes, ajudando-as a melhorar seus padrões de vida, obter trabalho remunerado fora de casa, fortalecer sua confiança e autoestima e aumentar sua visibilidade na esfera pública. Suas integrantes também se tornaram uma presença importante nas atividades e na liderança dos governos locais do estado.
De acordo com uma pesquisa amostral realizada em 2015 em Kerala pelo Centro Laurie Baker para Estudos de Habitat, em Thiruvananthapuram (doravante Pesquisa LBC), 54,1% das integrantes estavam envolvidas em alguma forma de atividade econômica geradora de renda (Kannan & Ravendran, 2017, p. 99). Isso representou o dobro da taxa de participação no mercado de trabalho de mulheres adultas no estado (26,3%). A pesquisa da LBC também mostrou que, antes de ingressarem no Kudumbashree, 66,1% de suas integrantes se dedicavam exclusivamente ao trabalho doméstico e não estavam envolvidas em nenhuma atividade geradora de renda fora de casa ou nos estudos. Esse número caiu para 37% depois que elas aderiram à cooperativa (Kannan & Ravendran, 2017, p. 130).
Outra pesquisa amostral realizada por Ambika Devi R em 2008-2009, como parte de seu trabalho de doutorado na Universidade de Kerala, mostrou que o Kudumbashree ajudou quase 50% de seus membros a obterem acesso a atividades geradoras de renda (Devi R, 2010, p. 143). Como parte dessa pesquisa, as integrantes do Kudumbashree foram questionadas sobre o grau de controle que tinham sobre sua renda, sendo as opções “em grande medida”, “em certa medida” e “nenhum controle”. 88,8% das mulheres relataram que tinham controle sobre sua renda “em grande medida” depois de ingressarem na Kudumbashree. A porcentagem de mulheres que tinham o mesmo nível de controle sobre sua renda antes de ingressarem na cooperativa era muito menor: 66,7%. Uma pesquisa realizada em 2016 no distrito de Ernakulam por Taramol KG, como parte de seu trabalho de doutorado na Universidade Bharathiar, mostrou que a renda das integrantes aumentou significativamente depois de entrar na rede comunitária (Taramol, 2018, p. 178).
Famílias com integrantes da Kudumbashree também relataram um aumento na aquisição de bens de consumo duráveis e ativos domésticos como resultado da melhoria de sua renda. A pesquisa da LBC de 2015 mostrou que a porcentagem de integrantes que viviam em casas kutcha (feitas de materiais menos duráveis, como barro, folhas, palha e capim) era de 6,7%, uma queda em relação aos 22,9% formarem parte da cooperativa (Kannan & Ravendran, 2017, p. 175). Além disso, as integrantes relataram que o aumento de sua renda as ajudou a proporcionar educação superior aos filhos, garantir melhor acesso a cuidados de saúde e melhorar suas casas ou construir novas.
Uma parcela significativa dessas mulheres (27,4%, segundo o estudo de Ambika Devi; 36%, segundo a pesquisa da LBC) relataram que suas habilidades de oratória melhoraram desde que entraram para a rede. Uma proporção significativa de mulheres (38,4%, de acordo com a Pesquisa LBC) adquiriu a confiança e as habilidades necessárias para exigir serviços ou instalações de órgãos governamentais (Devi R, 2010, p. 195-196). Ganhos semelhantes foram obtidos em sua confiança para participar e expressar suas opiniões em reuniões, bem como para participar de funções do governo local. A natureza coletiva das atividades da Kudumbashree também contribuiu para aprimorar o espírito e a prática da ajuda mútua entre as integrantes (Kannan & Ravendran, 2017, p. 2065).
Como mencionado anteriormente, essas mulheres estão entre os setores mais ativos nas atividades dos governos locais em Kerala. Isso se traduziu diretamente em maior representação entre os eleitos para as instituições de autogoverno local (LSGI): das 21.854 pessoas eleitas como membros das LSGI em Kerala nas eleições para o governo local de 2020, 7.058 eram mulheres ativas na Kudumbashree (Newsclick, 2020).
Em resumo, a Kudumbashree se tornou um elemento vital da vida social e política de Kerala. Isso ajudou as mulheres – particularmente aquelas de origens socioeconômicas desfavorecidas – a melhorarem suas condições de vida. O programa Kudumbashree elevou o status dessas mulheres dentro de suas famílias e permitiu que elas participassem de forma mais efetiva na esfera pública, inclusive na arena política. Não é de surpreender que tenha sido considerado um dos “maiores programas de justiça de gênero e redução da pobreza do mundo” (Sainath, 2018).
Notas
1 Em 1964, o Partido Comunista da Índia se dividiu no Partido Comunista da Índia (Marxista), ou PCI(M), e no Partido Comunista da Índia (PCI). O governo de Kerala foi liderado pelo PCI(M) e incluiu o PCI e outros partidos de esquerda e democráticos como parceiros de coligação nos seguintes períodos: 1967-1969, 1980-1981, 1996-2001, 2006-2011 e 2016–presente. O período de 1969 a 1977 foi marcado por um governo de coligação que incluía o PCI e o Congresso Nacional Indiano como principais parceiros; o PCI(M) estava na oposição.
2 Para mais informações sobre a Comuna de Paris, ver: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Comuna de Paris 150, Nova Deli: LeftWord, 2021. Disponível em: https://thetricontinental.org/pt-pt/text-paris-commune/.
3 Beedi é um tipo de cigarro enrolado à mão.
4 Na Índia, o governo possui “listas” de castas e tribos que são as mais desfavorecidas socioeconomicamente ou historicamente oprimidas. As pessoas pertencentes às Castas e Tribos Registradas têm direito a certos direitos e benefícios.
5Um panchayat é um órgão de autogoverno local na Índia, responsável principalmente pela governança e desenvolvimento em áreas rurais. Opera ao nível da aldeia, do bloco ou do distrito, como parte do sistema administrativo descentralizado da Índia.
6A fase da Segunda Guerra Mundial posterior à entrada da União Soviética na guerra é conhecida como Guerra Popular.
7Panam payattu e kurikkalyaanam são métodos populares em áreas rurais de Malabar para arrecadar dinheiro para construir casas, pagar casamentos, enviar filhos para trabalhar na região do Golfo Pérsico e atender a outras necessidades financeiras. A pessoa necessitada organiza um evento no qual serve chá e lanches aos participantes, que contribuem com dinheiro. O organizador do evento devolve o dinheiro em outro evento organizado por outra pessoa, e assim por diante.
8 Ver também a aba IBCB-Organisation na página da Kudumbashree: https://kudumbashree.org/pages/518.
9Entrevista com VK Ramachandran, vice-presidente do Conselho de Planejamento do Estado de Kerala, concedida a Subin Dennis em 2020.
10 Kudumbashree é um programa iniciado pelo estado que tem como núcleo uma rede comunitária. A rede comunitária, também conhecida como Kudumbashree, é administrada por seus membros com base na regra de “um membro, um voto”. Ao contrário das empresas do setor privado, em que os direitos de voto dos acionistas são proporcionais ao número de ações que possuem, as cooperativas defendem o princípio de “um membro, um voto”. Segundo a Aliança Cooperativa Internacional, “as cooperativas unem as pessoas de forma democrática e igualitária. Independentemente de os membros serem clientes, funcionários, usuários ou moradores, as cooperativas são administradas democraticamente pela regra de “um membro, um voto”. Os membros compartilham direitos de voto iguais, independentemente da quantidade de capital que investem na empresa”. (“O que é uma cooperativa?”, Aliança Cooperativa Internacional, https://ica.coop/en/cooperatives/what-is-a-cooperative).
11 Ver a seção “History and Evolution” no site da Kudumbashree em: https://kudumbashree.org/pages/178.
12Em 1950, o Governo da Índia criou a Comissão de Planejamento para liderar o processo de planejamento econômico para o desenvolvimento do país. Permaneceu em vigor até 2014, quando foi dissolvido pelo governo após a aceleração das reformas neoliberais. O estado de Kerala, no entanto, continua tendo um conselho de planejamento que formula planos de desenvolvimento em nível estadual. Com o lançamento da Campanha Popular pelo Planejamento Descentralizado (ou campanha Plano Popular), fundos e poderes significativos foram transferidos do governo estadual para os governos locais, cabendo a estes últimos elaborar seus próprios planos de desenvolvimento.
13Ver a seção “Overview” no site da Kudumbashree em: https://www.kudumbashree.org/pages/7; ver a aba “The Mission Setting Up”.
14Manu Sankar em entrevista a Subin Dennis em 22 ago. 2022.
15Manu Sankar em entrevista a Subin Dennis em 22 ago. 2022.
16Manu Sankar, em entrevista a Subin Dennis em 22 ago. 2022.
17Ver seção “Data on Kudumbashree) em https://kudumbashree.org/pages/518. Ver a aba NFL-ME e role para baixo para encontrar “Janakeeya Hotels” [Restaurantes do Povo]). Outros dados contidos nessa seção foram retirados da mesma página. Para mais informações sobre a resposta de Kerala à pandemia de Covid-19, ver: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, CoronaShock e Socialismo, Estudos sobre CoronaShock, 8 jul. 2020. Disponível em: https://thetricontinental.org/studies-3-coronashock-and-socialism/.
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