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	<title>Dossiê | Tricontinental: Institute for Social Research</title>
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		<title>A arquitetura do poder: o dólar, a financeirização e a luta pela soberania</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Amilcar]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 08:00:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
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					<description><![CDATA[O papel do dólar enquanto a principal moeda de troca no comércio mundial concede aos EUA um poder exorbitante. Este dossiê analisa a ascensão desta moeda, os mecanismos de sua dominação e os limites estruturais para construir uma alternativa ao dólar.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em uma sociedade capitalista, o dinheiro cumpre uma função essencial. Ele é a representação material de uma relação social imaterial: o “valor”, que se estabelece por meio do trabalho de milhões de pessoas globalmente. O dinheiro serve como meio de troca, unidade de conta e ainda como forma de armazenar esse valor. Contudo, o dinheiro nunca é neutro. Quando uma moeda nacional específica transcende suas fronteiras para se tornar a moeda do mundo, ela passa a ser um poderoso instrumento de hegemonia, disciplina e poder imperial.</p>
<p>A história dos últimos duzentos anos é a história da ascensão e da contestação de duas dessas moedas-chave: a libra esterlina e, de forma muito mais abrangente, o dólar estadunidense.</p>
<p>A atual ordem global, sustentada pelo dólar, concede aos Estados Unidos o que foi apropriadamente chamado de “privilégio exorbitante”: o poder de emitir a moeda que o resto do mundo precisa como reserva de valor, meio de pagamento e unidade de conta (BATISTA JR., 2024). Isso permite aos EUA financiar seus <em>déficits</em>, consumir acima de sua produção e projetar seu poderio militar, simplesmente porque sua dívida pública é tratada como o ativo mais seguro do planeta. Além disso, permite aos EUA ter o mercado financeiro mais importante do mundo, base de formação de expectativas que transcendem a dimensão financeira e influenciam decisões de investir e de produzir; estabelece as condições mais importantes para definir a direção dos fluxos financeiros globais que limitam a autonomia dos países dependentes e subordinados.</p>
<p>Há hierarquia entre as moedas nacionais em relação ao dólar. Algumas delas têm aceitação internacional, como o euro e o renminbi. Para os países do Sul Global, essa arquitetura impõe um custo elevado. Suas moedas são tratadas como ativos financeiros voláteis, e suas economias ficam reféns da disciplina imposta pelo capital financeiro internacional. A necessidade de acumular dólares como defesa contra ataques especulativos e para garantir as importações resulta em uma transferência líquida e perversa de riqueza do Sul para o Norte Global, especialmente para investidores/especuladores da Europa Ocidental e dos EUA.</p>
<p>Diante dessas questões estruturais do capitalismo contemporâneo, compreender a ascensão do dólar, os mecanismos de sua dominação atual e os limites estruturais que qualquer alternativa enfrenta é, portanto, uma tarefa central para aqueles e aquelas que buscam uma ordem internacional mais justa e cooperada.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<h2 style="margin:3em 0;">O dinheiro, o valor e a necessidade de uma moeda mundial</h2>
<p>Em qualquer sociedade baseada na divisão do trabalho e na troca de mercadorias, o dinheiro surge como uma necessidade prática. Quando diferentes produtores se especializam — um cultiva trigo, outro fabrica tecidos, outro extrai minério — eles precisam trocar seus produtos entre si para satisfazer suas necessidades. Mas a troca direta, ou escambo, apresenta dificuldades evidentes: o agricultor que quer tecido precisa encontrar um tecelão que, naquele exato momento, queira trigo, na quantidade exata, e aceite a proporção de troca proposta.</p>
<p>O dinheiro resolve esse problema ao funcionar como um <em>equivalente geral</em>: uma mercadoria especial que todos aceitam em troca de qualquer outra. Com o dinheiro, o agricultor pode vender seu trigo a qualquer comprador, guardar o valor recebido e, quando quiser, comprar tecido de qualquer vendedor. O dinheiro cumpre assim três funções básicas: como <em>meio de circulação</em>, facilita as trocas; como <em>unidade de conta</em>, permite comparar o valor de mercadorias diferentes; e como <em>reserva de valor</em>, permite guardar riqueza para uso futuro.</p>
<p>Na análise marxista, o dinheiro não é uma invenção arbitrária nem um simples instrumento técnico. Ele é a <em>expressão material</em> de uma relação social: o valor. O valor de uma mercadoria corresponde ao tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la. Quando milhões de produtores independentes trocam mercadorias no mercado, eles estão, na prática, comparando quantidades de trabalho humano. O dinheiro é a forma pela qual essa comparação se torna possível e visível. Ele representa, de forma condensada, o trabalho social (MARX, 2023).</p>
<p>Dentro de um mesmo país, o uso do dinheiro é relativamente simples: existe uma moeda nacional, emitida e garantida pelo Estado, que todos os habitantes reconhecem e aceitam. Mas o que acontece quando produtores de países diferentes querem comercializar entre si?</p>
<p>Consideremos um exemplo concreto. Uma empresa brasileira exporta café para a Alemanha. O importador alemão possui euros; o exportador brasileiro precisa de reais para pagar seus trabalhadores, fornecedores e impostos. Como conciliar essas duas moedas?</p>
<p>O problema se desdobra em várias dimensões. Primeiro, é preciso estabelecer uma <em>taxa de câmbio</em>: quantos reais equivalem a um euro? Segundo, é preciso um mecanismo para <em>converter</em> efetivamente uma moeda na outra. Terceiro, é preciso que ambas as partes <em>confiem</em> que a moeda recebida terá valor estável e será aceita por outros.</p>
<p>Quando o comércio internacional era pequeno e esporádico, esses problemas podiam ser resolvidos caso a caso, frequentemente com o uso de metais preciosos (ouro e prata), que tinham aceitação universal. Mas à medida que o mercado mundial se expandiu, essa solução tornou-se insuficiente.</p>
<p>Com o crescimento do comércio internacional, surge a necessidade de um sistema organizado para <em>liquidar</em> (acertar) as contas entre países. Não é prático que cada transação individual envolva a transferência física de ouro ou a conversão direta entre duas moedas quaisquer. É preciso um mecanismo de <em>compensação</em>.</p>
<p>Imaginemos que, em um dado período, o Brasil exporte US$ 100 milhões em café para a Alemanha e importe US$ 80 milhões em máquinas. Em vez de realizar duas transferências separadas, basta que a Alemanha transfira ao Brasil a diferença líquida de US$ 20 milhões. Esse é o princípio da compensação.</p>
<p>Mas para que esse mecanismo funcione em escala global, envolvendo dezenas de países com moedas diferentes, é necessário que exista uma <em>referência comum</em> — uma divisa que todos aceitem como unidade de conta e meio de pagamento para liquidar os saldos. Historicamente, essa função foi desempenhada pelo ouro e, posteriormente, por moedas nacionais de países economicamente dominantes.</p>
<p>Portanto, as vantagens associadas ao controle da moeda de referência são tudo menos simples. Elas incluem:</p>
<p>(i) a possibilidade de o Estado emissor ampliar de forma desproporcional sua capacidade de endividamento e de gasto em relação aos demais Estados nacionais;</p>
<p>(ii) o uso da moeda como instrumento de política e dominação externa, por meio do controle de canais centrais da liquidez internacional, como no caso da aplicação de sanções econômicas; e</p>
<p>(iii) os benefícios garantidos à atuação internacional de seus bancos, que, inseridos em um sistema de reservas fracionárias lastreado nessa moeda expansível, passam a ocupar uma posição privilegiada no circuito das altas finanças globais.</p>
<p>Surge aqui uma questão fundamental: <em>quem</em> emite essa moeda de referência? Como ela é <em>escolhida</em>? E quais são as consequências de um país ter sua moeda nacional elevada à condição de moeda mundial?</p>
<h2 style="margin:3em 0;">O mercado mundial se expande, o problema se agrava</h2>
<p>O mercado mundial não cresceu de forma gradual e pacífica. Sua expansão foi impulsionada, desde o século XV, pela conquista colonial, pelo tráfico de escravizados, pela apropriação de terras e recursos naturais e pela imposição de relações comerciais assimétricas às populações subjugadas. A acumulação primitiva de capital, que Marx analisou no primeiro volume de <em>O Capital</em>, foi um processo global e violento (MARX, 2023).</p>
<p>À medida que o capitalismo se consolidou como modo de produção dominante, o volume do comércio internacional cresceu exponencialmente. No século XVIII, a Revolução Industrial intensificou esse processo: as potências europeias precisavam de matérias-primas de todo o mundo (algodão, minérios, produtos agrícolas) e buscavam mercados para seus produtos manufaturados.</p>
<p>Esse crescimento tornou o problema da moeda internacional cada vez mais urgente. Com milhares de transações diárias entre dezenas de países, era indispensável um sistema monetário internacional organizado — um conjunto de regras, instituições e práticas que definisse como as moedas se relacionam entre si, como os pagamentos são liquidados e como os desequilíbrios comerciais são ajustados.</p>
<p>A solução encontrada no século XIX e início do século XX refletiu a estrutura de poder da época: um mundo dividido entre impérios coloniais concorrentes. Cada potência imperial organizou sua própria <em>zona monetária</em>, integrando suas colônias e áreas de influência ao espaço de circulação de sua moeda nacional.</p>
<p>Como maior potência industrial, comercial e financeira do século XIX, a Grã-Bretanha fez da libra esterlina a principal moeda do comércio internacional, fazendo valer suas “preferências imperiais”. O chamado <em>padrão-ouro</em>, que vigorou do último quartel do século XIX até 1914, era na prática um <em>padrão libra-ouro</em>: a libra era a moeda em que se denominavam a maioria dos contratos comerciais, em que se cotavam as principais <em>commodities </em>e em que se realizavam os empréstimos internacionais.</p>
<p>O sistema da libra esterlina como moeda internacional dominante foi possibilitado pela drenagem de riqueza das colônias. A Índia mantinha elevados <em>superávits </em>em conta corrente com a Europa continental, os Estados Unidos, o Canadá e o Japão. Mas, mantinha um <em>déficit </em>em conta corrente com a Grã-Bretanha, em parte devido às exportações britânicas para a Índia, e, prioritariamente, pelas obrigações impostas pelos britânicos à colônia, incluindo enormes quantias de “presentes” da Índia Britânica para a metrópole (Patnaik e Patnaik 2024). Segundo relatório denominado <em>Estudos sobre Comércio Ultramarino Britânico</em>, apresentado pelos autores, “A chave para todo o padrão de pagamentos da Grã-Bretanha residia na Índia, que provavelmente financiava mais de dois quintos do <em>déficit </em>total britânico.”</p>
<p>As colônias britânicas — da Índia à África, do Caribe à Oceania — foram integradas ao espaço monetário da metrópole pelo sistema de preferências imperiais britânico. Suas exportações eram cotadas em libras; suas importações, em grande parte provenientes da própria Grã-Bretanha devido ao exclusivismo comercial metropolitano, eram pagas em libras; seus sistemas bancários operavam com a libra como referência. As populações coloniais eram obrigadas a obter libras para pagar impostos e adquirir bens essenciais, o que as subordinava inteiramente aos termos de troca definidos pela metrópole.</p>
<p>O império colonial francês — que se estendia pelo norte e oeste da África, pela Indochina e por ilhas do Pacífico e do Caribe — constituía uma zona monetária própria, organizada em torno do franco. Até hoje, vestígios dessa estrutura sobrevivem no <em>franco CFA</em>, moeda utilizada por 14 países africanos que permanece atrelada ao euro e antes ao franco francês (METRI, 2023).</p>
<p>Embora não possuíssem um império colonial formal comparável aos europeus, os Estados Unidos exerciam hegemonia econômica sobre grande parte das Américas desde o final do século XIX. A Doutrina Monroe (“América para os americanos”) expressava essa pretensão. O dólar circulava amplamente na América Central, no Caribe e em partes da América do Sul, frequentemente imposto por intervenções militares e pela presença de empresas estadunidenses que controlavam setores estratégicos (como a United Fruit Company na América Central).</p>
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<p>Outras zonas como Alemanha, Japão, Holanda, Bélgica e Portugal também mantinham suas próprias esferas monetárias coloniais, ainda que menores.</p>
<p>O resultado dessa configuração era um <em>sistema monetário internacional fraturado</em>. Não havia uma única moeda mundial, mas várias moedas regionais concorrentes, cada uma dominante em sua esfera de influência. A libra era a mais importante globalmente, mas não era universal.</p>
<p>Esse sistema refletia a estrutura do <em>Imperialismo</em> tal como analisado por Lenin e outros marxistas do início do século XX: um mundo dividido entre potências capitalistas rivais, cada uma controlando seu próprio bloco de territórios coloniais e semicoloniais. As tensões entre esses blocos — a disputa por mercados, matérias-primas e áreas de investimento — foram uma das causas profundas da Primeira Guerra Mundial (LENIN, 2012).</p>
<p>A guerra de 1914-1918 destruiu essa ordem. O conflito exigiu gastos colossais, financiados pela emissão monetária e pelo endividamento. A maioria dos países suspendeu a conversibilidade de suas moedas em ouro. O Reino Unido, antes o grande credor mundial, emergiu como devedor. Os Estados Unidos, que entraram na guerra tardiamente e forneceram suprimentos aos aliados, tornaram-se o principal credor internacional.</p>
<p>O período entre guerras (1918-1939) foi marcado por tentativas fracassadas de restaurar o padrão-ouro, por instabilidade cambial crônica, por desvalorizações competitivas, as chamadas guerras cambiais, e pelo colapso do comércio internacional após a crise de 1929. A Grande Depressão demonstrou que um sistema monetário internacional desorganizado era incompatível com a estabilidade do capitalismo.</p>
<p>A Segunda Guerra Mundial criou as condições para uma reorganização radical. Os Estados Unidos emergiram do conflito como a única grande potência com sua economia intacta e fortalecida. Embora mantendo um compartilhamento da hegemonia Global com a antiga URSS, foram apenas os EUA que se destacaram como uma potência capitalista líder disposta a não impor controles de capital, a permitir a alienação de seus ativos e a utilizar sua moeda como moeda mundial.</p>
<p>Os EUA ao final do conflito mundial detinha cerca de dois terços das reservas mundiais de ouro. Sua indústria respondia por quase metade da produção manufatureira global. Seu território não havia sido devastado pela guerra (MAZZUCHELLI, 2013).</p>
<p>Essa assimetria de poder permitiu aos EUA impor uma nova arquitetura monetária internacional. Em 1944, na conferência de Bretton Woods, foi criado um sistema que, pela primeira vez na história, estabelecia uma <em>única moeda nacional</em> como eixo do sistema monetário mundial: o dólar estadunidense.</p>
<p>O sistema de Bretton Woods marcou a transição de um cenário de zonas monetárias concorrentes vinculadas a impérios rivais para uma hegemonia monetária unificada sob a liderança dos Estados Unidos. Esse processo representou a mudança de um sistema interimperialista, caracterizado pela disputa entre múltiplas potências, para um modelo imperialista de ordem unipolar liderada pelos EUA, no qual uma única potência dominante organiza o conjunto (INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL; GLOBAL SOUTH INSIGHTS, 2024).</p>
<p>Essa transição não foi automática nem puramente econômica. Ela foi o resultado da guerra, da destruição das potências rivais, da ocupação militar de antigos impérios (Alemanha, Japão) e da construção de uma vasta rede de bases militares, alianças e instituições internacionais sob liderança norte-americana.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Como o dólar se tornou hegemônico</h2>
<p>A verdadeira consolidação do dólar como moeda dominante foi um projeto estratégico meticulosamente executado pelos Estados Unidos durante e imediatamente após a Segunda Guerra Mundial. A ascensão do dólar não foi um acidente histórico; foi o resultado de três movimentos estratégicos decisivos.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">1. O Financiamento das Guerras</h3>
<p>Os EUA utilizaram sua posição como “arsenal da democracia” para estruturar a dependência global de sua moeda. Inicialmente, a regra <em>cash-and-carry</em> (Pague e Leve) de 1937 exigia que os compradores de suprimentos dos EUA pagassem imediatamente em dólares ou ouro.</p>
<p>Posteriormente, o mecanismo de <em>Lend-Lease</em> (Empréstimo e Arrendamento) forneceu financiamento vital para as importações dos países aliados. No entanto, isso teve um efeito estrutural profundo: ao final da guerra, as potências aliadas e dezenas de outros países acumularam dívidas massivas denominadas em dólares. Dada a vulnerabilidade dos demais países, os EUA puderam impor a moeda de denominação de seus créditos. Isso criou uma demanda estrutural e permanente pela moeda estadunidense; os países precisavam agora exportar bens reais ou contrair novas dívidas para obter os dólares necessários para liquidar seus passivos (METRI, 2023).</p>
<h3 style="margin:2em 0;">2. O Controle do Petróleo</h3>
<p>O segundo pilar foi garantir o controle sobre a fonte de energia que alimentaria o capitalismo industrial do pós-guerra. O petróleo, em razão da transformação que provocou na lógica dos conflitos – já a partir da Primeira Guerra Mundial – acabou se tornando o recurso natural central do sistema internacional. O controle das regiões produtoras passou a integrar o núcleo das disputas geopolíticas globais. Mais especificamente, o petróleo converteu-se no principal combustível das Forças Armadas; ocupou posição decisiva na matriz de transportes em escala mundial; e seus derivados passaram a ser amplamente empregados em inúmeras cadeias produtivas.</p>
<p>Disso resultou uma implicação adicional para as relações internacionais: o petróleo passou a ser manejado como instrumento recorrente no “tabuleiro diplomático”, funcionando como mecanismo de pressão, retaliação, dissuasão, apoio ou sustentação, sempre vinculado a cálculos, interesses e iniciativas que refletem as disputas geopolíticas mais amplas próprias da competição entre Estados.</p>
<p>Em 1940, os EUA eram a potência petrolífera dominante, produzindo 63% do petróleo mundial (QUINTAS, 2020). Contudo, à medida que ficava claro que o centro de gravidade da produção futura se deslocava para o Oriente Médio, os EUA agiram de forma decisiva.</p>
<p>Desde 1933, empresas americanas haviam adquirido direitos de exploração na Arábia Saudita. Em 1943, o presidente Roosevelt incorporou o Reino da Arábia Saudita ao “território monetário do dólar”, autorizando o financiamento do Reino de Ibn Saud por meio do <em>Lend-Lease</em>. A intensa atuação diplomática e militar dos EUA na região, consolidando seu domínio sobre a Arábia Saudita, garantiu que o petróleo exportado desse novo centro nevrálgico fosse cotado e transacionado exclusivamente em dólares na década de 1970. Passava, assim, a ocorrer a transformação da Arábia Saudita em zona de influência e espaço econômico dos Estados Unidos, bem como sua incorporação à esfera monetária do dólar (METRI, 2015).</p>
<p>Essa decisão compeliu a maioria dos países, especialmente as nações industrializadas e importadoras de energia, a aderir ao território monetário do dólar. Para comprar energia, era preciso primeiro obter dólares.</p>
<p>Nesse sentido, mais do que o controle direto sobre a produção, foi decisiva a imposição de uma arquitetura monetária para o mercado petrolífero global. A partir da década de 1970, principalmente com os choques do petróleo, esse movimento foi institucionalizado por meio dos “petrodólares”. Com a Guerra do Yom Kippur, o preço do petróleo quadruplicou e a economia mundial entrou em colapso. Nesse contexto, o governo Nixon negociou um acordo secreto com a Arábia Saudita. Os termos eram os seguintes: os sauditas se comprometeram a vender seu petróleo exclusivamente em dólares e a investir os excedentes em títulos do Tesouro estadunidense. Em troca, os EUA garantiram proteção militar ao reino saudita. Os demais países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) logo seguiram o mesmo modelo.</p>
<p>Ao atrelar a principal <em>commodity</em> do mundo à sua moeda, os Estados Unidos ampliaram de forma estrutural o alcance internacional do dólar.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">3. Os Acordos de Bretton Woods</h3>
<p>Em 1944, na conferência de Bretton Woods, os EUA formalizaram e institucionalizaram sua hegemonia, principalmente no campo econômico. Um ano depois, em 1945 ocorreu a Conferência de Yalta, que reorganizou a ordem geopolítica e militar e, do ponto de vista da moeda, acordou que as reparações de guerra da Alemanha seriam contabilizadas em dólares.</p>
<p>Em Bretton Woods, duas visões opostas para a ordem do pós-guerra colidiram. A proposta inglesa, liderada por John Maynard Keynes, era radicalmente diferente da vitoriosa. Keynes propunha o “Bancor”, uma moeda de conta internacional supranacional, controlada por um órgão multilateral (a <em>Clearing Union</em>). O objetivo de Keynes era criar um sistema simétrico, que penalizasse tanto países deficitários crônicos quanto países <em>superavitários</em> crônicos. Essencialmente, a proposta de Keynes visava vetar a passagem do “privilégio exorbitante” da libra para o dólar.</p>
<p>A proposta de Keynes foi sumariamente derrotada. Dada a correlação de forças, prevaleceu o plano dos EUA, liderado por Harry Dexter White. O plano de White era simples e centrado no poder estadunidense: o dólar seria definido como a moeda de conta internacional e seria a <em>única</em> moeda com conversibilidade plena em ouro, a uma taxa fixa de US$ 35 por onça de ouro. Todas as outras moedas manteriam sua conversibilidade no dólar a taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis.</p>
<p>Para gerir essa nova ordem, foram criados o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD, hoje Banco Mundial). O capital de ambos foi definido em dólares e a estrutura dessas instituições foi desenhada para garantir o controle dos EUA.</p>
<p>O poder de voto de cada país-membro foi vinculado às suas quotas ou subscrições de capital. No FMI, essas subscrições eram pagas em parte em ouro e em parte na moeda nacional. No BIRD, parte do capital deveria ser integralizada em ouro ou dólares. Como os Estados Unidos detinham a maior participação em ambas as instituições, enquanto o Reino Unido aparecia em segundo lugar, consolidou-se uma estrutura decisória assimétrica. No caso do FMI, como decisões cruciais exigem maioria qualificada de 85% dos votos, os EUA passaram a exercer, na prática, poder de veto sobre reformas fundamentais (BATISTA JR, 2019).</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Centralidade e declínio da hegemonia do dólar no Século XX</h2>
<p>O sistema de Bretton Woods, por vezes chamado de “padrão dólar-ouro”, consolidou a centralidade estadunidense. Porém, esse sistema não funcionava sozinho. Ele precisava de liquidez. As economias devastadas da Europa e do Japão não tinham os dólares necessários para importar insumos e reiniciar suas exportações ou reconstruir as cidades, infraestruturas e aparelhos produtivos.</p>
<p>Os Estados Unidos resolveram esse problema com o Plano Marshall para a Europa e o Plano Dodge para o Japão, que forneceram os dólares necessários para financiar essa reconstrução. Esses planos “salvaram” o sistema de Bretton Woods, garantindo que seus aliados estratégicos se reerguessem já plenamente integrados ao território monetário do dólar. Simultaneamente, os EUA estimularam a expansão global de suas empresas multinacionais, que realizavam investimentos diretos em dólares.</p>
<p>Como os recursos em dólares eram, em grande medida, utilizados para a compra de bens e serviços produzidos nos próprios Estados Unidos, o plano acabou recebendo apoio interno de diversos segmentos econômicos. Em uma conjuntura de arrefecimento da atividade doméstica, agravada pelo aumento da capacidade industrial durante os anos de guerra na Europa e no Pacífico, esse fluxo de demanda externa ajudava a sustentar a economia estadunidense.</p>
<p>Do ponto de vista estratégico, os Estados Unidos não apenas viabilizaram os chamados “milagres” de reconstrução e crescimento em vários países, estabilizando regiões centrais para a lógica da Guerra Fria, como também fortaleceram, de forma duradoura, a posição hegemônica de sua moeda. Nas décadas seguintes, as áreas sob sua influência experimentaram um longo ciclo de expansão e prosperidade, ancorado na centralidade do dólar.</p>
<p>Mais concretamente, ao mesmo tempo que financiavam a recuperação econômica das regiões-chave para a contenção da URSS, os Estados Unidos reforçaram a primazia do dólar porque: i) injetaram dólares diretamente nas economias aliadas, por meio de programas como o Plano Marshall (1948-1951); ii) ampliaram de maneira significativa seus gastos militares no exterior, denominados em dólares, como no caso da Guerra da Coreia; iii) abriram, de forma unilateral, seu mercado às exportações de parceiros estratégicos, garantindo-lhes receitas em dólar; iv) aceitaram que esses países mantivessem taxas de câmbio artificialmente desvalorizadas, tendo o dólar como referência; e v) estimularam o investimento direto externo de suas grandes corporações, o que naturalmente se realizava em dólares, dada a origem dessas empresas.</p>
<p>Além disso, toleraram a adoção de controles unilaterais sobre movimentos de capitais internacionais (em qualquer moeda), aceitaram a inconversibilidade das demais moedas, não reagiram de forma contundente a políticas protecionistas e ainda enviaram missões de assistência técnica.</p>
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<p><strong>O Dilema de Triffin</strong></p>
<p>Apesar de sua aparente solidez, o sistema de Bretton Woods carregava em si uma contradição fatal, identificada pelo economista Robert Triffin. O “Dilema de Triffin” expôs a falha lógica de usar uma moeda <em>nacional</em> como moeda <em>internacional</em>.</p>
<p>A contradição era a seguinte: para que o comércio global e o crescimento econômico se expandissem, o mundo precisava de uma oferta crescente de liquidez internacional, ou seja, de mais dólares. Mas, para fornecer esses dólares ao resto do mundo, os Estados Unidos eram <em>obrigados</em> a incorrer em <em>déficits </em>em sua balança de pagamentos, ou seja, mandar mais dólar para fora do que recebiam de fora. No entanto, ao emitir mais e mais dólares (passivos) do que possuía em ouro (ativos) em seus cofres, os EUA inevitavelmente erodiriam a confiança global na conversibilidade do dólar ao ouro (AKYÜZ, 2010).</p>
<p>O sistema estava, portanto, condenado. Se os EUA parassem seus <em>déficits</em>, o comércio mundial estagnaria. Se continuassem, a confiança no dólar entraria em colapso.</p>
<p>Durante os anos 1960, essa contradição tornou-se aguda. O aumento maciço dos gastos públicos dos EUA, impulsionado simultaneamente pela Guerra do Vietnã e pelos programas sociais domésticos, levou a <em>déficits </em>crescentes e a uma emissão descontrolada de moeda. Ao mesmo tempo, a hegemonia dos EUA era contestada pelas revoluções na periferia e pela crítica dos aliados europeus, especialmente os franceses. Em 1969, o FMI criou os Direitos Especiais de Saque (SDRs), apelidados de “ouro-papel”, um ativo de reserva sintético e supranacional, cujo valor era baseado em uma cesta de moedas. Era uma tentativa de criar uma fonte de liquidez que não dependesse dos <em>déficits </em>dos EUA.</p>
<p>Em 1971, o Dilema de Triffin chegou ao seu ponto de ruptura. Com os países superavitários (liderados pela França) trocando dólares por ouro, as reservas dos EUA diminuíram drasticamente. Em 15 de agosto de 1971, o presidente Richard Nixon agiu. Em uma decisão unilateral que reconfigurou todo o sistema que havia sido criado multilateralmente, Nixon suspendeu indefinidamente a conversibilidade do dólar em ouro. O “padrão dólar-ouro” estava morto. O mundo entrou em uma nova era: a do dólar “flexível, financeiro e fiduciário”. A moeda hegemônica não tinha mais qualquer lastro em uma mercadoria física; seu valor era determinado puramente pela confiança — ou, mais precisamente, pela imposição do poder.</p>
<p>Após 1973, diante das sucessivas desvalorizações e da instabilidade do valor do dólar, os principais países capitalistas passaram a adotar um regime de “câmbio flutuante”, ou seja, as moedas deixam de ter paridade fixa em relação ao dólar e o seu valor passa a ser determinado no mercado de câmbio de cada economia nacional.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">O choque dos juros e a “diplomacia do dólar forte”</h2>
<p>Para completar esse quadro, diante da crescente contestação à economia americana, especialmente nos campos econômicos e monetários, os EUA resolvem atuar no que ficou conhecido como “golpe dos juros”. Diante das pressões inflacionárias domésticas e da ameaça à hegemonia do dólar, Paul Volcker, presidente do Banco Central Americano (FED), resolveu elevar a taxa básica de juros americana. Assim, a taxa de juros de curto prazo nos Estados Unidos foi elevada de patamares em torno de 10–11% para níveis próximos de 20% ao ano, em um movimento que começou em 1979 e que se estendeu até 1980, representando praticamente uma duplicação do custo do dinheiro em escala mundial (TAVARES, 1985).</p>
<p>Segundo a economista brasileira Maria da Conceição Tavares (1985), em um texto seminal chamado <em>A retomada da hegemonia americana</em>, antes do “golpe dos juros”, o sistema bancário privado estava funcionando praticamente à margem do controle dos bancos centrais, em especial do Federal Reserve (FED). As redes de filiais transnacionais estruturavam uma divisão regional de trabalho no interior das próprias empresas, muitas vezes em desacordo com os interesses nacionais dos Estados Unidos, e alimentavam um aumento da concorrência entre capitais que se mostrava desfavorável à economia americana. Em termos gerais, a configuração de uma economia mundial sem um polo hegemônico definido contribuía para a desorganização da ordem estabelecida no pós-guerra e para a crescente fragmentação de interesses privados e regionais. A partir de 1979, com o “golpe dos juros”, a condução da política econômica interna e externa dos Estados Unidos caminhou justamente no sentido de reverter essas tendências e recuperar o comando sobre as finanças internacionais.</p>
<p>Maria da Conceição Tavares (1985) usou a expressão “diplomacia do dólar forte” para se referir a essa ação unilateral estadunidense, que fez uso deliberado do seu poder monetário e financeiro como instrumento de política externa e de reconstrução da sua hegemonia. Não é possível entender o aumento dos juros apenas como uma medida de política monetária para lidar com os problemas macroeconômicos domésticos dos EUA, mas sim como uma ação central para a retomada da hegemonia do dólar e de reconstrução completa do sistema monetário e financeiro internacional.</p>
<p>Se a taxa de juros americana está elevada, os detentores da riqueza financeira passam a sair das suas posições nos demais países e tentam ganhar com o diferencial de juros da dívida pública americana. Com isso, aquele mercado de eurodólares que estava se gestando fora do controle do Banco Central americano, na Europa, volta quase todo para a praça financeira de Wall Street. Isso reforça o domínio do capital financeiro pelos EUA e reforça o poder do seu sistema bancário. Portanto, houve o uso da moeda estadunidense como <strong>arma geoeconômica</strong>: controlando juros, liquidez e acesso ao crédito internacional, os EUA disciplinam aliados, enquadram concorrentes e aprofundam a dependência da periferia. Portanto, a política de juros altos e dólar forte não é só economia, é uma estratégia de poder.</p>
<p>No entanto, essa ação teve impactos. O primeiro deles é que ela mergulhou os EUA e o resto do mundo em uma <strong>recessão prolongada</strong>, quebrando empresas e até bancos estadunidenses. Em segundo lugar, houve uma contração súbita do crédito internacional, causando danos especialmente à periferia capitalista que havia aproveitado o período de elevada liquidez internacional para se endividar em dólar e com taxas de juros pós fixadas. Em terceiro e último lugar, o golpe dos juros fez com que o crédito interbancário e os grandes bancos internacionais se recentralizassem em Nova York sob o guarda chuva do FED, que desde então comanda o sistema bancário privado internacional.</p>
<p>Outro objetivo do “golpe dos juros” foi enquadrar os concorrentes dos EUA. O Japão havia alcançado forte dinamismo industrial e tecnológico, obtendo crescentes <em>superávits </em>comerciais com os EUA, em uma trajetória para se tornarem os maiores credores do mundo, ao contrário dos EUA que estavam (e estão) na posição dos maiores devedores.</p>
<p>Com os juros muito altos, o dólar se manteve supervalorizado e com os enormes rendimentos dos títulos da dívida pública estadunidense houve um influxo de capitais para os EUA, inclusive japoneses, com empresas e bancos comprando títulos do Tesouro estadunidense.</p>
<p>Mesmo com <em>superávits </em>comerciais, o Japão se viu numa posição em que financiava o <em>déficit </em>estadunidense comprando ativos em dólar e passava a ter seu próprio desenvolvimento cada vez mais acoplado ao sistema financeiro e ao ciclo de ativos dos EUA.</p>
<p>Quando o <em>déficit </em>comercial dos EUA com o Japão explode e a pressão política interna aumenta, vem a segunda parte do enquadramento. Em 1985, o governo Reagan ameaça medidas protecionistas pesadas e força uma coordenação no G5, no que ficou conhecido como Acordo do Plaza. O objetivo era promover uma desvalorização coordenada do dólar frente ao iene e ao marco alemão. Resultado rápido: entre setembro de 1985 e abril de 1986, o iene se aprecia cerca de 35% frente ao dólar (MELIN, 1997).</p>
<p>Depois vem o Acordo do Louvre (1987), que tentou estabilizar as paridades após essa forte correção. Na leitura de Tavares e Melin (1997), esse não foi um ajuste “técnico” neutro, mas um movimento político visando consolidar seu poder: os EUA usaram sua posição no centro do sistema para obrigar o Japão a aceitar uma forte valorização do iene e uma reorganização do seu padrão de crescimento.</p>
<p>Portanto, os EUA obrigaram o Japão a ajustar a sua trajetória de crescimento e sua política cambial e financeira aos interesses da hegemonia americana,<br>
garantindo que o iene não se tornasse uma moeda rival de reserva e que os <em>superávits </em>japoneses fossem reciclados em benefício do financiamento do <em>déficit </em>e da liderança financeira dos EUA. Em vez de uma ruptura, há uma reabsorção do Japão dentro de uma ordem comandada pelo dólar: o país mantém alta sofisticação produtiva, mas sob forte condicionamento financeiro e geopolítico definido em Washington.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Como o dólar se mantém</h2>
<p>O colapso de Bretton Woods, paradoxalmente, não enfraqueceu o dólar. Pelo contrário, libertou os EUA de qualquer restrição material à sua política monetária e consolidou uma nova forma de hegemonia, baseada não mais no ouro, mas em três novos pilares: o petróleo, a profundidade de seus mercados financeiros e o uso da moeda como arma de guerra.</p>
<p>Para entender a ordem pós 1971, é crucial recorrer à análise marxista da “financeirização”. O abandono do lastro metálico (ouro) foi um divisor de águas. Ele removeu a restrição material à criação infinita de dinheiro. O dinheiro, que antes era uma representação de uma mercadoria (ouro), tornou-se uma representação de si mesmo — puros números em contas computadorizadas. Em outras palavras, houve autonomização da “moeda do mundo”.</p>
<p>Isso permitiu que o capital migrasse massivamente da esfera da produção de valor (o investimento em manufatura, agricultura etc., baseado na aplicação do trabalho social) para a esfera da circulação, do “capital fictício”. O capital fictício é o investimento em títulos de propriedade (ações) e, principalmente, em títulos de dívida (hipotecas, dívida pública), cujo valor não se baseia no valor já produzido, mas na <em>antecipação</em> de rendimentos futuros.</p>
<p>Esse processo, possibilitado pela criação ilimitada de dinheiro fiduciário, permitiu que o capital fictício se autoalimentasse, gerando mais capital fictício desconectado da base de valor do trabalho social.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">O pilar 1: a reciclagem do petrodólar</h3>
<p>Com o fim do lastro-ouro, os EUA agiram rapidamente para reancorar o dólar em outra <em>commodity </em>essencial. Eles reforçaram sua aliança estratégica e militar com a Arábia Saudita, garantindo que a OPEP continuasse a precificar e transacionar o petróleo exclusivamente em dólares. Isso recriou a demanda estrutural: como toda nação industrializada precisa de petróleo, toda nação precisa de dólares. Isso também criou um novo mecanismo de reciclagem. Os países produtores de petróleo (OPEP) acumulavam enormes <em>superávits </em>em dólares (“petrodólares”), que eram então “reciclados” de volta para os bancos de Wall Street, financiando os <em>déficits </em>dos EUA.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">O pilar 2: a ditadura da liquidez (Treasuries)</h3>
<p>A dominância do dólar hoje se baseia em algo pragmático: o dólar é a única moeda que garante <em>acesso</em> aos mercados financeiros mais líquidos e profundos do mundo. O pilar central desse sistema são os títulos da dívida pública dos EUA (<em>U.S. Treasuries</em>). Eles são universalmente considerados o “porto seguro” global, o ativo financeiro mais nobre, com risco de crédito mínimo e liquidez imediata.</p>
<p>Isso permite aos EUA subverterem completamente a lógica econômica: eles são o maior devedor do mundo, mas sua dívida é tratada como o ativo mais valioso pelos outros países. Em momentos de crise financeira global — mesmo em crises originadas nos próprios EUA, como a de 2008 — o capital internacional não foge do dólar; ele corre <em>para</em> o dólar, buscando a segurança dos <em>Treasuries</em>. Isso sustenta o “Mecanismo Global de Reciclagem de Excedentes” (MGRE), uma versão ampliada da reciclagem dos petrodólares:</p>
<ol>
<li>Os EUA absorvem os produtos excedentes do mundo, incorrendo em <em>déficits </em>comerciais massivos com países como China, Alemanha e Japão.</li>
<li>Os lucros dessas exportações (dólares) acumulados por esses países superavitários retornam a Wall Street, porque esses países reciclam esses dólares recebidos de exportação na dívida pública estadunidense.</li>
<li>Wall Street utiliza esse fluxo de capital estrangeiro para comprar <em>Treasuries</em>, financiando o <em>déficit </em>do governo estadunidense e fornecendo crédito aos consumidores do país para sustentar o consumo de produtos importados.</li>
</ol>
<p>Nesse sistema, o resto do mundo é forçado a financiar os <em>déficits </em>gêmeos (comercial e fiscal) dos EUA, subsidiando o consumo estadunidense e, crucialmente, o poderio militar global dos EUA.</p>
<p>Na América Latina, esse processo se acelerou após as recomendações do Consenso de Washington, que sugeriu que os países deveriam abrir mão de controle das suas contas de capital. Isso significa que o capital pode entrar e sair livremente de cada país, mas isso tem impactos diretos na volatilidade das taxas de câmbio nacionais. Os países, por sua vez, para se protegerem dessa volatilidade, acumulam reservas cambiais na dívida pública estadunidense. Por isso, podemos afirmar que o dólar é uma arma de extorsão da periferia, que precisa, para se proteger internamente, sustentar os <em>déficits </em>gêmeos dos EUA, que, por sua vez, servem, entre outras coisas, para financiar as guerras imperialistas.</p>
<p>A crise de 2008 foi o momento em que as “pirâmides de dinheiro privado” (capital fictício) construídas por Wall Street sobre esse mecanismo colapsaram. No entanto, a crise não quebrou o sistema. O FED atuou como o banco central <em>do mundo</em>, fornecendo linhas de <em>swap </em>(proteção contra a volatilidade da taxa de câmbio) de dólares a outros bancos centrais, provando que, no colapso, a dependência do dólar era total, e não o contrário.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">O pilar 3: a moeda como ativo de violência</h3>
<p>O pilar final da hegemonia do dólar é o uso explícito da moeda como arma. Como a maior parte do comércio global, finanças e transações de <em>commodities </em>(especialmente petróleo) é denominada em dólares e compensada pelo sistema financeiro dos EUA, Washington ganha um poder de coerção imenso.</p>
<p>A diplomacia monetária é usada para restringir inimigos estratégicos e recompensar aliados. Os EUA podem impor sanções financeiras, congelar reservas de bancos centrais estrangeiros (como fizeram com o Irã, Venezuela e, mais dramaticamente, com a Rússia) e excluir países inteiros do sistema de pagamentos internacional (SWIFT).</p>
<p>Quando um país é sancionado, como ocorreu com a Rússia e a Venezuela, ele é excluído de redes de pagamento em dólar e pode ter ativos congelados no exterior. Isso encarece importações, atrapalha empresas e desorganiza o comércio daquele país.</p>
<p>O dólar, portanto, não é apenas uma ferramenta econômica; é um “ativo de violência”, um instrumento de disciplina geopolítica que garante que os interesses dos EUA prevaleçam.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">A desdolarização já está em curso?</h2>
<p>Os dados sobre as moedas de faturamento no comércio e nas finanças internacionais são escassos e apresentam defasagens maiores do que os dados comerciais (Gopinath, 2024). Ainda assim, as evidências disponíveis indicam que a preponderância do dólar é superior ao peso da economia dos Estados Unidos nos agregados globais de Produto Interno Bruto, comércio e finanças internacionais, refletindo uma assimetria estrutural no uso internacional das moedas.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_149575" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149575" class="wp-image-149575 size-large img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_1-1024x783.png" alt="" width="1024" height="783" data-original-src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_1.png" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_1-1024x783.png 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_1-300x230.png 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_1-768x588.png 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_1-1536x1175.png 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_1.png 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-149575" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Fontes: BIS Triennial Survey 2025 · SWIFT Watch 2024 · IMF COFER 2024 · Federal Reserve 2025</small></p></div>
</div>
<p>Dados da SWIFT mostram que a moeda responde por mais de 80% do financiamento do comércio internacional, em grande medida devido ao fato de que parcela significativa do comércio de <em>commodities </em>continua sendo faturada e liquidada em dólares. Além disso, o dólar mantém participação próxima a 60% nas reservas cambiais globais.</p>
<p>Por outro lado, a evolução das reservas cambiais globais em 2022-2023 foi marcada por um aumento significativo das aquisições de ouro por bancos centrais. Considerado um ativo seguro, o ouro oferece proteção contra riscos geopolíticos, ainda que apresente limitações como meio de transação. Esse padrão sugere que a intensificação das compras de ouro por determinados bancos centrais está associada à busca por mitigação de riscos econômicos e geopolíticos, em especial aqueles relacionados a sanções internacionais. No caso chinês, a participação do ouro nas reservas totais aumentou de menos de 2% em 2015 para 4,3% em 2023, ao passo que a proporção de ativos denominados em títulos do Tesouro e de agências dos Estados Unidos recuou de cerca de 44% para aproximadamente 30%, refletindo a recomposição de seu portfólio (GOPINATH, 2024).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_149586" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149586" class="size-large wp-image-149586 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_2-1024x813.png" alt="" width="1024" height="813" data-original-src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_2.png" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_2-1024x813.png 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_2-300x238.png 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_2-768x610.png 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_2-1536x1220.png 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_2.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-149586" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Fonte: World Gold Council Gold Demand Trends Full Year 2024 (gold.org)</small></p></div>
</div>
<p>Ainda que se observe uma redução da participação do dólar nas reservas cambiais globais nas últimas décadas, os dados indicam que esse movimento não corresponde a uma substituição direta por uma outra moeda. Ao contrário, essa redução foi absorvida por um conjunto que o FMI apresenta como moedas não tradicionais: dólar australiano, dólar canadense, won sul coreano, coroa sueca e renminbi, em menor proporção. Isso, somado ao aumento de reservas em ouro, sugere que o processo em curso não é impulsionado principalmente por um projeto político coordenado de desdolarização, mas por estratégias de diversificação de portfólio adotadas por autoridades monetárias, voltadas à gestão de risco e à busca por maior segurança em um contexto de crescente instabilidade financeira global.</p>
<p>Esse movimento pode ser interpretado como uma resposta às próprias contradições da financeirização liderada pelos Estados Unidos e pela Europa, cuja dinâmica tende a gerar episódios recorrentes de volatilidade e formação de bolhas. Nesse sentido, a diversificação das reservas aparece menos como uma ruptura política e mais como um ajuste técnico diante das fragilidades do sistema, o que torna o processo de transformação do sistema monetário internacional simultaneamente mais robusto e mais lento do que sugerem as narrativas geopolíticas mais imediatas.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_149597" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149597" class="size-large wp-image-149597 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_3-1024x789.png" alt="" width="1024" height="789" data-original-src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_3.png" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_3-1024x789.png 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_3-300x231.png 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_3-768x592.png 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_3-1536x1184.png 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_3.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-149597" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Fonte: IMF COFER | Federal Reserve, International Role of the U.S. Dollar 2025 Edition | *CNY no incluidado do 4T de 2016</small></p></div>
</div>
<p>Já a análise do comércio internacional até o primeiro quarto do século XXI indica que a participação combinada do dólar e do euro no faturamento do comércio global permaneceu relativamente estável ao longo do período, com a manutenção da dominância do dólar e o Euro com uma predominância maior dentro do próprio bloco da União Europeia. Embora a China tenha ampliado de forma significativa sua participação nas exportações globais desde os anos 2000, aproximando-se do peso comercial dos Estados Unidos, o uso do renminbi no faturamento do comércio internacional permanece limitado, sem que haja uma internacionalização da sua moeda. Ou seja, os dados apontam para a resiliência do dólar como principal moeda de faturamento do comércio internacional, ao mesmo tempo em que sugerem um processo ainda incipiente de diversificação monetária.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_149608" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149608" class="size-large wp-image-149608 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_4-1024x817.png" alt="" width="1024" height="817" data-original-src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_4.png" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_4-1024x817.png 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_4-300x239.png 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_4-768x613.png 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_4-1536x1226.png 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_4.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-149608" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Fonte: IMF Working Paper (2025) Patterns of Invoicing Currency in Global Trade in a Fragmenting World Economy</small></p></div>
</div>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_149619" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149619" class="size-large wp-image-149619 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_5-1024x707.png" alt="" width="1024" height="707" data-original-src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_5.png" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_5-1024x707.png 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_5-300x207.png 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_5-768x530.png 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_5-1536x1060.png 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_5.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-149619" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Fonte: IMF Working Paper (2025) Patterns of Invoicing Currency in Global Trade in a Fragmenting World Economy</small></p></div>
</div>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_149630" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149630" class="size-large wp-image-149630 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_6-1024x721.png" alt="" width="1024" height="721" data-original-src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_6.png" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_6-1024x721.png 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_6-300x211.png 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_6-768x541.png 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_6-1536x1082.png 1536w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Web-Charts-PT_6.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-149630" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Fonte: IMF Working Paper (2025) Patterns of Invoicing Currency in Global Trade; IMF DOTS</small></p></div>
</div>
<p>Impulsionada pelos avanços na tecnologia financeira e na infraestrutura de pagamentos, observa-se a ascensão de sistemas alternativos de pagamento, custódia e liquidação, que passam a constituir possibilidades concretas ao sistema financeiro internacional centrado no dólar. Mais do que um debate recente, trata-se da materialização de novas arquiteturas institucionais capazes de viabilizar transações fora dos circuitos tradicionais. Nesse contexto, destacam-se iniciativas como o Sistema de Transferência de Mensagens Financeiras (SPFS), desenvolvido pela Rússia, e o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS), liderado pela China, que ampliam a capacidade de liquidação internacional em moedas locais e reduzem a dependência de infraestruturas dominadas por países centrais.</p>
<p>Paralelamente, os países do BRICS têm intensificado esforços para fortalecer sistemas domésticos de pagamento digital e desenvolver soluções para operações transfronteiriças, com o objetivo de expandir o comércio internacional denominado em moedas locais e avançar na construção de um sistema monetário mais multipolar (ATLANTIC COUNCIL, 2024a). A China, em particular, tem ampliado o uso internacional do renminbi por meio da expansão do CIPS e de sua participação em projetos de Moeda Digital de Banco Central (CBDC)<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>1</sup></a>. Observa-se também a rápida disseminação global de projetos de CBDC: 137 países e uniões monetárias, representando cerca de 98% do PIB mundial, encontram-se em algum estágio de desenvolvimento dessas moedas digitais (ATLANTIC COUNCIL, 2024b).</p>
<p>Iniciativas como o mBridge, que envolve o Banco Popular da China, o Banco Central de Hong Kong, o Banco Central dos Emirados Árabes Unidos e o Banco da Tailândia, com apoio do Bank for International Settlements e o sistema ACUMER, desenvolvido pelo Banco Central do Irã, sinalizam o potencial de novas infraestruturas digitais de liquidação em moedas locais entre bancos centrais através de CBDC, sem a necessidade de intermediários tradicionais, como bancos correspondentes ou sistemas como o SWIFT.</p>
<p>Soma-se a esse quadro o papel crescente dos acordos bilaterais de <em>swap </em>cambial, especialmente a partir da crise financeira de 2007-2008. Esses instrumentos têm sido utilizados tanto para prover liquidez em momentos de estresse quanto para reduzir os custos associados à acumulação de reservas internacionais, permitindo que países acessem moedas estrangeiras sem depender exclusivamente dos mercados financeiros internacionais. Nesse sentido, os <em>swaps </em>cambiais se consolidam como um componente central das estratégias contemporâneas de diversificação monetária e de mitigação da dependência do dólar (COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2025).</p>
<p>Em suma, os dados disponíveis indicam que o papel do dólar permanece dominante e relativamente estável no sistema monetário internacional. No entanto, esses dados também revelam mudanças importantes na composição e no funcionamento desse sistema. Um exemplo significativo é o caso do renminbi, cuja participação nas reservas internacionais partiu de praticamente zero, no início da década de 2010, para cerca de 2,2% em menos de uma década — um movimento sem precedentes históricos para a moeda de um país que ainda mantém controles relevantes sobre sua conta de capital.</p>
<p>Assim, a análise da desdolarização requer, portanto, uma distinção entre diferentes dimensões do sistema monetário internacional. No que se refere às reservas cambiais, o processo é lento, gradual e ainda longe de configurar uma ruptura com a centralidade do dólar. Já no plano dos pagamentos bilaterais, observa-se maior dinamismo, ainda que geograficamente concentrado em arranjos específicos, como no caso das transações entre Rússia e China, que, segundo reportagem de novembro passado, passaram a ser liquidadas em 99,1% em rublos e yuans (POLITICS TODAY, 2025). Por fim, no campo da infraestrutura financeira, que inclui sistemas de pagamento, compensação e liquidação, o processo ainda é incipiente, mas possui um caráter estrutural, uma vez que a criação dessas plataformas tende a reduzir, de forma duradoura, a dependência do sistema financeiro centrado no dólar.</p>
<p>Nesse sentido, a relevância da desdolarização reside na direção de seu processo e, sobretudo, na construção de alternativas institucionais e produtivas capazes de reduzir os custos de saída do sistema dólar para um número crescente de países.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Desdolarizar é lutar por soberania</h2>
<p>Para a vasta maioria dos países do Sul Global, o sistema monetário e financeiro internacional centrado no dólar não é uma rede de segurança, mas uma camisa de força. Na medida em que os países precisam acumular reservas internacionais (moedas fortes, como o dólar) eles estão sendo extorquidos pelo sistema dólar, já que precisam manter essas reservas, e as fazem comprando títulos da dívida americana, portanto, financiando a capacidade desmedida dos EUA atuarem financiando guerras, por exemplo. Por outro lado, é um mecanismo de punição, pois os EUA podem decretar, mediante sanções e bloqueios, o banimento do sistema de pagamentos internacional àqueles países que não sejam a eles subservientes. Nas últimas décadas, Washington aumentou em 933% as sanções econômicas contra alvos de sua política externa (METRI, 2023).</p>
<p>Na prática, as moedas nacionais não são vistas como reserva de riqueza, mas como “ativos financeiros” voláteis. A demanda internacional por elas é especulativa, sujeita a pânicos e fugas de capital. Além disso, os países do Sul Global sofrem a incapacidade estrutural de emitir dívida externa em suas próprias moedas. Eles tomam empréstimos em dólares, mas geram receita em moeda local, criando um descasamento cambial devastador.</p>
<p>A hegemonia do dólar não se limita, portanto, à sua centralidade como meio de pagamento ou reserva de valor, mas se expressa também na forma como suas dinâmicas internas são transmitidas ao restante do mundo. Em momentos de valorização do dólar, as moedas periféricas tendem a se desvalorizar, encarecendo importações e pressionando a inflação doméstica, especialmente em economias dependentes de energia, alimentos e bens intermediários. Como grande parte das <em>commodities </em>internacionais é precificada em dólar, esses efeitos se amplificam mesmo na ausência de alterações nas condições reais de oferta e demanda.</p>
<p>No plano financeiro, decisões de política monetária dos Estados Unidos, como elevações nas taxas de juros, frequentemente desencadeiam fluxos de capitais em direção aos ativos denominados em dólar. Isso provoca desvalorizações cambiais, eleva o custo do financiamento externo e restringe o espaço de política econômica nos países do Sul Global, que muitas vezes são forçados a adotar medidas contracionistas para conter a inflação e estabilizar suas moedas, mesmo em contextos de baixo crescimento. Em economias com elevado endividamento em moeda estrangeira, a valorização do dólar aumenta imediatamente o peso da dívida em termos domésticos, aprofundando fragilidades estruturais.</p>
<p>Para atrair o capital internacional volátil, os ativos do Sul Global precisam oferecer taxas de juros muito mais altas do que os ativos “seguros” do Norte. Isso resulta em uma transferência líquida e constante de riqueza dos países mais pobres para os centros financeiros mais ricos.</p>
<p>Com as políticas neoliberais e a liberalização dos movimentos de capitais, a capacidade dos Estados de conduzir a macroeconomia foi enfraquecida. Qualquer governo que tente implementar políticas fiscais ou monetárias expansionistas, como reduzir juros para estimular o investimento, é imediatamente punido pelo “mercado” com uma fuga de capitais, que desvaloriza a moeda, gera inflação e pode levar ao colapso. Os governos ficam reféns da “confiança” dos financistas.</p>
<p>Para se protegerem dessa volatilidade, os países do Sul Global são forçados a acumular reservas internacionais massivas. O Brasil, por exemplo, detém mais de US$ 358 bilhões (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2026). Essas reservas são, em sua maioria, investidas em ativos em dólar, especialmente títulos da dívida dos EUA. Este é o paradoxo final: para se defender do sistema, o Sul Global é obrigado a financiar seu opressor, emprestando trilhões de dólares ao Tesouro dos EUA a juros baixos.</p>
<p>A hegemonia do dólar impõe custos insustentáveis ao Sul Global. A insatisfação com essa “assimetria desestabilizadora” não é nova, mas ganhou uma nova urgência em um mundo que caminha para a multipolaridade. A desdolarização tornou-se uma “tendência secular”, mas que enfrenta obstáculos estruturais imensos.</p>
<p>Segundo o economista Bruno de Conti (2025), observam-se hoje alguns movimentos que podem, a médio ou longo prazo, desencadear mudanças no sistema monetário e financeiro internacional:</p>
<p>i) a redefinição do papel de certos países na hierarquia da economia mundial;</p>
<p>ii) o acirramento das tensões geopolíticas entre as principais potências;</p>
<p>iii) o aumento das desconfianças em relação ao dólar, intensificadas durante o governo Trump, combinado à disposição política de um conjunto amplo de países em buscar caminhos, de forma isolada ou coordenada, para reduzir sua dependência da moeda estadunidense.</p>
<p>A discussão sobre desdolarização, contudo, não pode se restringir à proteção contra sanções ou à mitigação de vulnerabilidades externas. Uma análise mais profunda exige interrogar seu próprio propósito. A substituição de uma moeda hegemônica por outra não implica necessariamente uma transformação qualitativa da ordem internacional, nem garante maior estabilidade ou benefícios para os países periféricos. A experiência histórica sugere que a hierarquia monetária tende a se reproduzir, ainda que sob novas configurações.</p>
<p>Nesse sentido, a desdolarização deve ser compreendida não apenas como uma disputa entre moedas, mas como parte de um debate mais amplo sobre a natureza das relações econômicas internacionais. Para os países do Sul Global, isso implica deslocar o foco da mera substituição de instrumentos para a construção de alternativas estruturais, envolvendo novas formas de inserção comercial, cooperação tecnológica, integração produtiva e coordenação política.</p>
<p>Uma transformação efetiva do sistema monetário internacional exigiria, portanto, mais do que a criação de mecanismos financeiros alternativos. Ela demandaria enfrentar os pilares que sustentam a hegemonia do dólar, incluindo a centralidade da precificação das <em>commodities</em>, a dominância dos mercados financeiros denominados em dólar e a capacidade de coerção geopolítica. Nesse horizonte, a desdolarização não é um fim em si mesmo, mas parte de uma luta mais ampla pela soberania econômica e pela construção de uma ordem internacional mais equitativa, capaz de interromper a transferência sistemática de riqueza do Sul Global para os centros de poder.</p>
<p>A luta pela desdolarização, portanto, não é um mero ajuste contábil. É uma luta política fundamental pela soberania econômica e pelo fim da transferência de riqueza do Sul Global para os centros imperiais.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup></a> Cabe distinguir que as Moedas Digitais de Banco Central (CBDC) são dinheiro em sentido estrito, emitidas e garantidas por autoridades monetárias nacionais, desempenhando as funções clássicas da moeda. Já as criptomoedas privadas, como o Bitcoin e similares, não possuem lastro estatal, sendo ativos de caráter especulativos sem base produtiva de caráter especulativo, cuja existência e valorização são subordinadas à própria ordem monetária baseada no dólar.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p>ATLANTIC COUNCIL. <strong>Dollar Dominance Monitor</strong>. Washington, DC: Atlantic Council, 2024a. Disponível em: <a href="https://www.atlanticcouncil.org/programs/geoeconomics-center/dollar-dominance-monitor/">https://www.atlanticcouncil.org/programs/geoeconomics-center/dollar-dominance-monitor/</a>.</p>
<p>ATLANTIC COUNCIL. <strong>Central Bank Digital Currency Tracker</strong>. Washington, DC: Atlantic Council, 2024b. Disponível em: <a href="https://www.atlanticcouncil.org/cbdctracker/">https://www.atlanticcouncil.org/cbdctracker/</a>.</p>
<p>AKYÜZ, Yilmaz. <strong>Política de resposta à crise financeira global: questões fundamentais para os países em desenvolvimento</strong>. Revista Tempo do Mundo (RTM), Brasília, v. 2, n. 3, p. 147-185, dez. 2010.</p>
<p>BANCO CENTRAL DO BRASIL. <strong>Série Temporal 13621: Investimento direto – passivo – ingresso líquido (US$ milhões)</strong>. Brasília, DF: BCB, 2026. Disponível em: <a href="https://www3.bcb.gov.br/sgspub/consultarvalores/consultarValoresSeries.do?method=consultarSeries&amp;series=13621">https://www3.bcb.gov.br/sgspub/consultarvalores/consultarValoresSeries.do?method=consultarSeries&amp;series=13621</a>.</p>
<p>BATISTA JR., Paulo Nogueira. <strong>O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata</strong>. São Paulo: LeYa, 2019.</p>
<p>BATISTA JR., Paulo Nogueira. <strong>O BRICS e o desafio da desdolarização</strong>. Editorial publicado no sítio do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2024. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/wenhua-zongheng-2024-1-editorial-brics-desafio-desdolarizacao/">https://thetricontinental.org/pt-pt/wenhua-zongheng-2024-1-editorial-brics-desafio-desdolarizacao/</a>.</p>
<p>CONTI, Bruno de.<strong> As iniciativas dos BRICS para a transformação do sistema monetário e financeiro internacional.</strong> Nota n. 15. Campinas: Projeto Transforma Economia – Unicamp, 2025. Disponível em: <a href="https://transformaeconomia.org/as-iniciativas-dos-brics-para-a-transformacao-do-sistema-monetario-e-financeiro-internacional/">https://transformaeconomia.org/as-iniciativas-dos-brics-para-a-transformacao-do-sistema-monetario-e-financeiro-internacional/</a>.</p>
<p>COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS (CFR). <strong>Central Bank Currency Swaps Tracker</strong><em>.</em> New York: CFR, 2025. Disponível em: <a href="https://www.cfr.org/trackers/central-bank-currency-swaps-tracker">https://www.cfr.org/trackers/central-bank-currency-swaps-tracker</a>. Acesso em: 19 mar. 2026.</p>
<p>GOPINATH, Gita. <strong>Geopolitics and its impact on global trade and the dollar.</strong> Washington, DC: International Monetary Fund, 8 maio 2024. Disponível em: <a href="https://www.imf.org/en/news/articles/2024/05/07/sp-geopolitics-impact-global-trade-and-dollar-gita-gopinath">https://www.imf.org/en/news/articles/2024/05/07/sp-geopolitics-impact-global-trade-and-dollar-gita-gopinath</a>.</p>
<p>IMF – International Monetary Fund. <strong>Patterns of Invoicing Currency in Global Trade in a Fragmenting World Economy.</strong> IMF Working Paper, 2025. Disponível em: <a href="https://www.imf.org/en/publications/wp/issues/2025/09/12/patterns-of-invoicing-currency-in-global-trade-in-a-fragmenting-world-economy-570297">https://www.imf.org/en/publications/wp/issues/2025/09/12/patterns-of-invoicing-currency-in-global-trade-in-a-fragmenting-world-economy-570297</a>.</p>
<p>IMF – International Monetary Fund. <strong>2025 External Sector Report: Global Imbalances in a Shifting World</strong>, julho de 2025b. Disponível em:<a href="https://www.imf.org/-/media/files/publications/esr/2025/english/text.pdf">imf.org/-/media/files/publications/esr/2025/english/text.pdf</a>.</p>
<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL; GLOBAL SOUTH INSIGHTS. <strong>Hiperimperialismo: um novo estágio decadente perigoso</strong> – Estudos sobre Dilemas Contemporâneos, n. 4, jan. 2024. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/01/PT_Hyperimperialism_RGB_240206.pdf">https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/01/PT_Hyperimperialism_RGB_240206.pdf</a>.</p>
<p>LENIN, Vladimir.<strong> Imperialismo: fase superior do capitalismo</strong>. Expressão Popular. São Paulo, 2012.</p>
<p>MARX, Karl. <strong>O capital – Livro 1: </strong><strong>Crítica da economia política. O processo de produção do capital</strong>. Boitempo. São Paulo, 2023.</p>
<p>METRI, Maurício. <strong>História e diplomacia monetária</strong>. São Paulo: Dialética, 2023.</p>
<p>METRI, Maurício. A ascensão do dólar e a resistência da libra: uma disputa político-diplomática. <strong>Revista tempo do mundo | rtm</strong> | v. 1 | n. 1 | jan. 2015.</p>
<p>MAZZUCCHELLI, Frederico. <strong>Os dias de sol: a trajetória do capitalismo no pós-guerra</strong>. Campinas, SP: Facamp, 2013.</p>
<p>MELIN, Luis Eduardo. O Enquadramento do Iene: A Trajetória do Câmbio Japonês desde 1971. In:<strong> Fiori, José Luís (org.). Poder e dinheiro</strong>. Petrópolis: Vozes, 1997.</p>
<p>PATNAIK, Utsa; PATNAIK, Prabhat. <strong>Uma teoria do Imperialismo</strong>. LavaPalavra: São Paulo, 2024.</p>
<p>POLITICS TODAY. Russia and China settle 99% of trade in national currencies. 2025. Disponível em: <a href="https://politicstoday.org/russia-and-china-settle-99-of-trade-in-national-currencies/">https://politicstoday.org/russia-and-china-settle-99-of-trade-in-national-currencies/</a>.</p>
<p>QUINTAS, Felipe Maruf. Os EUA e a geopolítica imperialista do petróleo. Site da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET). Disponível em: <a href="https://aepet.org.br/artigo/os-eua-e-a-geopolitica-imperialista-do-petroleo/">https://aepet.org.br/artigo/os-eua-e-a-geopolitica-imperialista-do-petroleo/</a>.</p>
<p>TAVARES, M. C. A retomada da hegemonia norte americana. <strong>Revista de Economia Política</strong>, São Paulo, v. 5, n. 2 (18), p. 157-167, abr./jun. 1985.</p>
<p>TAVARES, M. C; MELIN, L, E. A reafirmação da hegemonia norte americana. In: <strong>Poder e dinheiro</strong>. Fiori, José Luís (org.) Petrópolis: Vozes, 1997.</p>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O dilema do Leste Asiático: contradições e possibilidades na Nova Guerra Fria</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-leste-asiatico-duplo-vinculo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Stephanie Sandoval]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 08:00:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
		<category><![CDATA[multilateralism]]></category>
		<category><![CDATA[Guerra imperialista]]></category>
		<category><![CDATA[multilateralismo]]></category>
		<category><![CDATA[Soberanía nacional]]></category>
		<category><![CDATA[imperialismo]]></category>
		<category><![CDATA[hegemonia dos EUA]]></category>
		<category><![CDATA[Imperialism]]></category>
		<category><![CDATA[militarism]]></category>
		<category><![CDATA[Global South]]></category>
		<category><![CDATA[Hiperimperialismo]]></category>
		<category><![CDATA[US hegemony]]></category>
		<category><![CDATA[Hyper-Imperialism]]></category>
		<category><![CDATA[nova guerra fria]]></category>
		<category><![CDATA[militarismo]]></category>
		<category><![CDATA[class struggle]]></category>
		<category><![CDATA[luta de classes]]></category>
		<category><![CDATA[New Cold War]]></category>
		<category><![CDATA[Cerco à China]]></category>
		<category><![CDATA[Sul Global]]></category>
		<category><![CDATA[Segurança cooperativa]]></category>
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					<description><![CDATA[O papel do dólar enquanto a principal moeda de troca no comércio mundial concede aos EUA um poder exorbitante. Este dossiê analisa a ascensão desta moeda, os mecanismos de sua dominação e os limites estruturais para construir uma alternativa ao dólar.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--acknowledgments">As imagens deste dossiê, editadas pelo departamento de arte do Instituto Tricontinental, destacam o trabalho de Kinjo Minoru, um escultor okinawano que homenageia as gerações que resistiram à guerra e à ocupação. Durante décadas, Kinjo esculpiu as atrocidades cometidas durante e após a Guerra Mundial Antifascista (amplamente conhecida como Segunda Guerra Mundial). Kinjo trabalha com concreto, gesso e metal – os mesmos materiais que agora estão sendo usados ​​em Okinawa para construir mais uma base militar estadunidense. Em Okinawa – hoje uma linha de frente da Nova Guerra Fria – as esculturas de Kinjo representam memória e refutação material: uma história áspera e pesada que se recusa a ser suavizada.<a href="#_edn1" name="_ednref1"><sup>1</sup></a></div>
<div class="single-post--content--logos-block">
<p class="wider-150"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-145074 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/ISC-300x100.jpeg" alt="" width="300" height="100" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/ISC-300x100.jpeg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/ISC-1024x342.jpeg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/ISC-768x257.jpeg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/ISC.jpeg 1278w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px"></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-123601 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/ncw-logo-300x260.jpg" alt="" width="300" height="260" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/ncw-logo-300x260.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/ncw-logo-768x666.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/ncw-logo.jpg 785w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px"></p>
<p class="wider-125"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-145151 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/IPA_PT-300x119.png" alt="" width="300" height="119" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/IPA_PT-300x119.png 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/IPA_PT.png 663w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px"></p>
<p class="wider-150"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-145162 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/Logo_PT_Tricontinental-300x73.png" alt="" width="300" height="73" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/Logo_PT_Tricontinental-300x73.png 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/Logo_PT_Tricontinental.png 674w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px"></p>
</div>
<p>Quando os Estados Unidos e Israel iniciaram sua guerra ilegal de agressão contra o Irã em 28 de fevereiro de 2026, era inevitável que o Irã retaliasse restringindo o tráfego pelo Estreito de Ormuz. Embora o país nunca tenha fechado ou limitado a circulação pelo estreito anteriormente, o governo de Teerã deixou claro que a geografia do estreito passaria a fazer parte de sua estratégia defensiva caso fosse provocado. Para as nações da Ásia, o Estreito de Ormuz e o Estreito de Malaca são rotas vitais — pontos de controle — para o fluxo de mercadorias, especialmente energia. Cerca de 90% do petróleo do Japão e 75% do da Coreia do Sul passam pelo estreito. Qualquer lentidão no estreito afeta drasticamente as economias industriais do Leste Asiático, que consomem muita energia. Do ponto de vista econômico, a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã é também uma guerra contra os interesses do Japão e da Coreia do Sul — e, na verdade, de todos os países asiáticos que dependem do petróleo do Golfo Pérsico. Apesar disso, muitos países asiáticos mantiveram silêncio diplomático ou, como no caso do Japão e da Coreia do Sul, apoiaram abertamente os Estados Unidos.</p>
<p>Países como o Japão e a Coreia do Sul alinham-se com os Estados Unidos contra seus próprios interesses econômicos porque foram integrados à estrutura militar estadunidense após o fim da Guerra Mundial Antifascista (amplamente conhecida como Segunda Guerra Mundial) (Instituto Tricontinental, 2025). A presença contínua de enormes bases militares estadunidenses nesses países acaba por arrastá-los inexoravelmente para as guerras intermináveis dos Estados Unidos. Esses países não podem romper com os EUA na questão da guerra contra o Irã enquanto estiverem militarmente subordinados a ele.</p>
<p>O principal alvo militar dos EUA na Ásia não é o Irã, mas a China, que é um dos principais parceiros comerciais do Japão, da Coreia do Sul, das Filipinas, de Taiwan e da maioria dos outros países asiáticos. Dado o papel central da China nas cadeias industriais da região, qualquer ação hostil contra o país perturbaria todo o paradigma de desenvolvimento do Leste Asiático. Em contrapartida, os Estados Unidos continuam sendo o principal patrocinador militar do Japão, da Coreia do Sul, das Filipinas e de Taiwan, além de constituírem um importante mercado de exportação para vários desses países. Isso coloca essas economias em uma <em>situação delicada</em>: elas não conseguem romper facilmente com sua dependência militar e financeira dos EUA, nem com sua relação econômica vital com a China — a nova fábrica do mundo.</p>
<p>Em<em> O dilema da Ásia Oriental: contradições e possibilidades na Nova Guerra Fria</em>, analisamos como o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e Taiwan se encontram presos em uma contradição intransponível que persiste independentemente das mudanças no governo. Embora nosso foco seja o Leste Asiático, também analisamos brevemente o papel de países como a Austrália e a Índia neste contexto. As contradições exploradas neste dossiê são principalmente de natureza econômica e geopolítica; no entanto, elas oferecem possibilidades para impulsionar a luta de classes nessas sociedades, ao revelarem a necessidade de romper com as alianças subordinadas ao imperialismo.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<h2 style="margin:3em 0;">O Leste Asiático e o papel da China</h2>
<p>Nos últimos trinta anos, o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e Taiwan passaram por uma mudança radical em seus padrões comerciais e trajetórias de desenvolvimento (Glawe; Wagner, 2021; Asian Development Bank, 2025). Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos foram o principal pilar da ordem econômica da região, seguidos pelo Japão no final do século XX (Chalmers, 1982; Aoki, 1995). Hoje, o novo centro de gravidade é a China, que desempenha um papel central — embora desigual — nessas economias. Embora cada um tenha seu próprio modelo de desenvolvimento e relação política com Beijing, os quatro estão profundamente integrados a uma rede de produção na qual a China atua como centro de manufatura, âncora da cadeia de suprimentos e principal mercado.</p>
<p>Estudos realizados pelo Banco Mundial e pelo Banco Asiático de Desenvolvimento demonstraram claramente a importância econômica da China no Leste Asiático (Asian Development Bank, 2025). A China é o maior parceiro comercial do Japão e da Coreia do Sul, respondendo por cerca de 20% a 25% das exportações de cada um desses países. A relação de Taiwan é ainda mais forte, com 30% a 40% de suas exportações destinadas à China. As Filipinas estão menos integradas, mas a China continua figurando entre seus principais parceiros comerciais, absorvendo cerca de 15% a 20% de suas exportações. Esses números indicam que uma parcela significativa da atividade econômica do Leste Asiático está diretamente ligada à demanda das indústrias chinesas (Yifu, 2012).</p>
<p>Quando analisada em relação à produção econômica global, a importância da China torna-se ainda mais evidente. O comércio com a China, ou seja, o total das exportações para o país, representa um décimo do Produto Interno Bruto (PIB) da Coreia do Sul. Um quarto do PIB de Taiwan está ligado ao comércio com a China continental. O Japão, cuja economia é muito mais voltada para o mercado interno, tem, no entanto, 5% do seu PIB vinculado às exportações para a China (aproximadamente a mesma porcentagem do seu PIB está vinculada aos EUA, o que inclui o impacto econômico das 120 instalações militares estadunidenses no Japão). Embora as Filipinas sejam um país menos dependente das exportações, cerca de 6% do seu PIB está ligado às exportações para a China (Comtrade, s.d.). A vitalidade da economia chinesa está, portanto, diretamente ligada aos níveis de produção, emprego e investimento em todo o Leste Asiático.</p>
<p>Na cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) de 2011, realizada em Bali, na Indonésia, os Estados-membros discutiram a necessidade de criar um enquadramento regional para a integração econômica. Essas discussões acabaram por conduzir à Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP), um acordo comercial assinado em 2020 e que entrou em vigor em janeiro de 2022. A RCEP representa cerca de 30% da população mundial e 30% do PIB global. Abrangendo economias que vão da Nova Zelândia ao Japão, o bloco reúne uma variedade de setores, da mineração à alta tecnologia, e um mercado de 2,2 bilhões de consumidores. Os signatários concordaram em reduzir ou eliminar 92% das tarifas ao longo de vinte anos. O Japão, a Coreia do Sul e as Filipinas fazem parte da RCEP, que reforça os fluxos comerciais e formaliza o espaço econômico interconectado no qual a China é a maior economia (Cheng, 2023).</p>
<p>Por trás dos dados comerciais agregados, a estrutura da produção reforça ainda mais essa integração. A China não é apenas um mercado de destino, mas também um nó central nas cadeias industriais regionais e globais, na qualidade de grande consumidora e produtora de bens intermediários. Empresas japonesas e sul-coreanas exportam componentes de alto valor — como máquinas e peças automotivas, produtos petroquímicos e semicondutores — que muitas vezes são montados ou processados na China antes de serem exportados globalmente. A indústria de semicondutores de Taiwan está intimamente ligada à indústria manufatureira chinesa, já que os <em>chips</em> produzidos em Taiwan são frequentemente enviados para a China para serem incorporados em produtos eletrônicos acabados (Tinn, 2025; Sinha, 2026). Essas estruturas de produção integradas geraram interdependências setoriais. A indústria de semicondutores da Coreia do Sul — liderada por empresas como a Samsung Electronics e a SK Hynix — depende da demanda da indústria eletrônica chinesa. Os setores automotivo e de maquinário do Japão — liderados por empresas como Toyota, Honda, Nissan, Mazda, Komatsu, Hitachi e Mitsubishi — dependem dos consumidores chineses e das redes de produção do país.</p>
<p>Em conjunto, essas ligações comerciais e de produção mostram que todas as quatro economias estão estruturalmente ligadas à China, embora o grau de integração varie (sendo mais elevado em Taiwan e na Coreia do Sul e mais moderado no Japão e nas Filipinas). Isso gera tanto oportunidades de crescimento quanto pontos vulneráveis, à medida que a pressão dos EUA sobre a China se reflete em toda a região.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">A rede de bases militares dos EUA</h2>
<p>Na última década, os Estados Unidos consolidaram uma estratégia militar coerente com o objetivo de cercar a China. Essa “estratégia de negação” foi formalizada em sucessivos documentos da Estratégia de Defesa Nacional dos EUA e exposta de forma proeminente no livro de Elbridge A. Colby, de 2021<em>, </em>intitulado<em> The Strategy of Denial: American Defense in an Age of Great Power Conflict</em>. Colby liderou a elaboração da Estratégia de Defesa Nacional de 2018 enquanto subsecretário adjunto de Defesa para Estratégia e Desenvolvimento de Forças durante o primeiro mandato de Trump e é, atualmente, subsecretário de Guerra para Políticas dos Estados Unidos, além de ser um dos principais estrategistas por trás da abordagem do governo Trump em relação à China (Colby, 2021). No cerne da estratégia de negação está a ideia de que o Indo-Pacífico — que se estende da África Oriental até a costa oeste dos Estados Unidos e abrange os oceanos Índico e Pacífico — é a região economicamente mais importante do mundo. Os interesses estratégicos dos EUA dependem de impedir que a China suplante a primazia estadunidense na região do Indo-Pacífico. A estratégia se baseia na dissuasão por meio da superioridade militar e da coordenação entre aliados, que foi institucionalizada por meio do Diálogo Quadrilateral de Segurança, ou Quad, que reúne Austrália, Índia, Japão e Estados Unidos (2017); do AUKUS, a parceria trilateral de segurança entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos (2021); da Iniciativa de Dissuasão do Pacífico, um quadro de financiamento militar e postura de forças dos EUA para a região Indo-Pacífico (2021); e do Acordo Trilateral EUA-Japão-Coreia do Sul (2023) (Fernandes, 2022; Fowler, 2024; Wagner; Song, 2023).</p>
<p>Em vez de um confronto direto, como no caso do Irã, os EUA buscam elevar os custos de defesa da China a um nível inaceitável, fortalecendo o sistema de alianças baseado em Washington e o posicionamento avançado das bases militares americanas. Atualmente, existem cerca de 270 instalações militares dos EUA, que se estendem desde Diego Garcia, no Arquipélago de Chagos, até Guam. No cerne dessa estratégia está a convicção de Washington de que uma capacidade militar confiável dos EUA pode limitar as opções estratégicas da China, ao mesmo tempo que preserva uma ordem regional liderada pelos EUA e continua aproveitando o papel da China como motor econômico da região.</p>
<p>Taiwan ocupa um lugar fundamental nesse enquadramento estadunidense (Zhao; Yang, 2024). Em 1º de janeiro de 1979, os Estados Unidos reconheceram formalmente a República Popular da China e aceitaram a posição de Beijing de que existe uma “China Única”, da qual Taiwan faz parte. No entanto, em 10 de abril de 1979, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Lei de Relações com Taiwan, que estabeleceu a base jurídica para que Washington mantivesse relações não oficiais com Taiwan. Isso permitiu que os EUA adotassem uma postura ambígua, reconhecendo formalmente o princípio de “Uma China”, ao mesmo tempo que provocavam Beijing por meio da venda de armas a Taiwan e mantinham laços econômicos e culturais diretos com Taipei. Desde 1950, os Estados Unidos venderam a Taiwan quase 50 bilhões de dólares em equipamentos e serviços de defesa (Council on Foreign Relations, 2023). Para os EUA, a questão do <em>status</em> de Taiwan não é apenas política, mas também estratégica, pois a reunificação de Taiwan com o continente proporcionaria à China um acesso significativamente maior ao Oceano Pacífico. Para Washington, Taiwan funciona como um instrumento para pressionar Beijing e conter a China.</p>
<p>A estratégia de contenção dos EUA está organizada geograficamente por meio de um sistema de cerco que começa com a primeira cadeia de ilhas (um arco de ilhas que se estende do Japão às Filipinas e funciona como uma barreira ao acesso da China ao Oceano Pacífico). Isso se estende à “profundidade do cerco” mais ampla que abrange Diego Garcia, o Sri Lanka e as bases estadunidenses na região do Golfo Pérsico.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>2</sup></a> Os Estados Unidos desenvolveram uma rede de bases e acordos de acesso ao longo dessa cadeia para controlar pontos-chave e rotas marítimas, restringindo a mobilidade militar chinesa. Essa estratégia de cerco inclui não apenas grandes instalações militares permanentes (como as do Japão e da Coreia do Sul), mas também, cada vez mais, uma rede dispersa de bases menores e mais flexíveis espalhadas pelos oceanos Pacífico e Índico, destinadas a reforçar a resiliência militar. As bases estão integradas a sistemas de vigilância, inteligência e mísseis que permitem o monitoramento e uma resposta rápida. Em conjunto, essa rede militar constitui um sistema estruturado de contenção. Embora os documentos de segurança nacional dos EUA apresentem isso como dissuasão defensiva, o posicionamento efetivo das forças estadunidenses ao longo da fronteira com a China <em>gera </em>tensões, em vez de <em>resolvê-las</em>.</p>
<p>O quadro estratégico dos EUA de contenção e cerco tem sido posto em prática por meio de uma expansão contínua das capacidades militares e da infraestrutura dos EUA no Leste Asiático, especialmente nas últimas duas décadas e com intensidade crescente desde 2020. Os EUA também têm financiado exercícios militares em grande escala, como o Exercício Balikatan (com as Filipinas), o Exercício Malabar (com a Austrália, a Índia e o Japão) e o Exercício Talisman Sabre (com a Austrália). Esses esforços são elaborados de forma a melhorar a interoperabilidade militar e transformar os aliados dos EUA de parceiros regionais em participantes de primeira linha na contenção da China.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-145011 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_1.jpg" alt="" width="505" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_1.jpg 505w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_1-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px"></div>
<p>Um dos marcos mais recentes promovidos pelos EUA é a Iniciativa de Dissuasão do Pacífico (PDI, na sigla em inglês), estabelecida pela Lei de Autorização de Defesa Nacional dos EUA de 2021 (Prashad <em>et al</em>., 2022). A PDI garante financiamento específico para o envio de forças, infraestrutura de bases, defesa antimísseis e exercícios conjuntos com aliados dos EUA, como Japão, Coreia do Sul e Filipinas. No Japão, a PDI garantiu melhorias na defesa antimísseis e nas forças de mobilização rápida. Na Coreia do Sul, ela possibilitou a realização de exercícios conjuntos, enquanto nas Filipinas permitiu a modernização das bases estadunidenses e dos sistemas de vigilância. A PDI também sustenta a integração e a implantação de sistemas de mísseis de precisão de longo alcance em toda a região do Indo-Pacífico. Isso inclui o reforço das capacidades de defesa aérea e antimísseis que foram implementadas em bases militares dos EUA em locais como Guam e as Ilhas Marianas, bem como na Base Aérea de Basa, nas Filipinas (para a qual o governo dos EUA destinou cerca de 66 milhões de dólares em 2023) (Heydarian, 2023). A PDI garante sistemas de inteligência, vigilância e reconhecimento que aprimoram o monitoramento das atividades militares na região e possibilitam o que é conhecido como “ataques de precisão” — a identificação rápida e o ataque preciso de alvos militares.</p>
<p>Esses acontecimentos transformaram países como o Japão, a Coreia do Sul e as Filipinas em plataformas operacionais avançadas para a agressão dos EUA.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Semeando o conflito: contradições de classe e os limites da democracia</h2>
<p>A estratégia de contenção dos EUA depende não apenas da integração militar, mas também do alinhamento das classes dominantes ao longo da primeira cadeia de ilhas em uma postura coordenada contra a China — particularmente no Japão, em Taiwan e nas Filipinas, e, de forma mais ampla, na vizinha Coreia do Sul. Essa aliança reflete os interesses das elites industriais, militares e políticas nacionais ligadas ao poder dos Estados Unidos. Em todo o Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Taiwan, o aprofundamento da integração militar com os EUA agrava as contradições de classe existentes e expõe as limitações dos sistemas eleitorais. Embora isso gere resistência da base, esses sistemas políticos são concebidos para impedir o crescimento de qualquer força que seja contrária à intervenção dos EUA. Além disso, cada uma dessas sociedades carrega as marcas da Guerra Mundial Antifascista e da presença militar estadunidense no pós-guerra, incluindo bases militares que hoje parecem permanentes — uma experiência que continua definindo a visão política desses “Estados clientes”.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><sup>3</sup></a></p>
<h3 style="margin:2em 0;"><em>Japão</em></h3>
<p>O sistema político japonês do pós-guerra tem sido dominado pelo Partido Liberal Democrático (PLD), uma formação política de direita a extrema direita com laços estreitos com o Estado e o capital dos Estados Unidos. Embora seja formalmente democrático, o sistema político do Japão é, na prática, dominado por um único partido, com o PLD no poder durante todos os anos, exceto quatro, desde sua fundação em 1955. Embora o artigo 9 da Constituição japonesa de 1947, por vezes denominado “cláusula pacifista”, proíba o reforço militar para além da defesa mínima, a direita política tem defendido a sua revogação desde o mandato do primeiro-ministro Nobusuke Kishi (1957-1960). Em 2014, durante o mandato do neto de Kishi, Shinzō Abe (2012-2020), o artigo 9 foi reinterpretado para permitir a “autodefesa coletiva”, possibilitando a expansão dos gastos militares japoneses — que aumentaram significativamente desde 2022, sob os mandatos dos primeiros-ministros Fumio Kishida, Shigeru Ishiba e Sanae Takaichi. Entre 2023 e 2024, os gastos militares do Japão aumentaram 21%, representando 1,4% do PIB do país (Sipri, 2025). Em abril de 2026, sob o governo de Takaichi, o Japão suspendeu a proibição da exportação de armas letais, que havia sido instituída com base na lógica de que um país pacifista não deveria lucrar com as guerras.</p>
<p>A contradição entre o aumento dos gastos militares e as demandas democráticas para que a riqueza do Japão seja investida em necessidades sociais — exemplificada pelos protestos contra as bases militares em regiões mais pobres, como Okinawa — revela as limitações da democracia formal do país. A sociedade japonesa continua subordinada às prioridades militares definidas por uma elite interna permanente alinhada com os Estados Unidos.</p>
<p>A construção de uma nova base do Corpo de Fuzileiros Navais na área da Baía de Henoko-Oura, em Okinawa, destinada a substituir a Base Aérea de Futenma — há muito criticada por estar localizada no meio da densamente povoada Ginowan —, tem enfrentado oposição contínua desde 1996. Em 2018, Denny Tamaki foi eleito governador de Okinawa com uma plataforma contrária à base; em um referendo provincial realizado em 2019, 70% dos votantes se opuseram à sua construção. Apesar desses mandatos democráticos e de décadas de contestação judicial, o governo central do Japão prossegue com as operações de aterro que estão destruindo os ecossistemas de corais da Baía de Oura em nome das Forças Armadas dos Estados Unidos (Mitchell, 2026). Organizações como o Conselho de Toda Okinawa contra a Construção da Nova Base em Henoko, o Centro do Movimento pela Paz de Okinawa, o Projeto de Justiça Ambiental de Okinawa e os manifestantes do acampamento de Henoko — que mantêm uma resistência diária há mais de duas décadas — representam uma política que vincula a luta local a questões mais amplas de imperialismo e autodeterminação (McCormack, 2018).</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><em>Coreia do Sul</em></h3>
<p>A história política da Coreia do Sul é marcada por uma intensa luta de classes. Nascida em meio à Guerra da Coreia, que teve início em 1950 e permanece formalmente sem solução – uma vez que o armistício de 1953 não resultou em um tratado de paz –, a Coreia do Sul tem sido tratada pelos Estados Unidos como uma base militar e um baluarte econômico contra o comunismo. Embora o país tenha sido governado por governos pró-EUA, incluindo uma ditadura militar de 1967 a 1988, seu sistema político tem se mostrado mais dinâmico do que o do Japão: nenhum partido isolado governou de forma ininterrupta. No entanto, os governos eleitos, tanto conservadores quanto liberais, continuam estruturalmente dependentes dos Estados Unidos. Essa dinâmica se evidenciou tanto durante o governo de Yoon Suk-yeol, um conservador fortemente alinhado com os Estados Unidos e os <em>chaebols</em> (conglomerados sul-coreanos), quanto durante o governo de Moon Jae-in, um liberal que buscava uma autonomia limitada, mas continuava vinculado ao capital orientado para a exportação e aos <em>chaebols</em>. De fato, em 2018, durante a presidência liberal de Moon Jae-in, os gastos militares da Coreia do Sul subiram para 2,5% do PIB, estabelecendo um patamar que os orçamentos anuais subsequentes continuaram buscando (subindo para 2,6% em 2022) (World Bank, s.d.).</p>
<p>Desde meados da década de 2010, a Coreia do Sul tem vivenciado uma onda de lutas democráticas, que vão da Revolução das Velas ou <em>Chot-bul Hyuk-myung </em>(2016-2017), que destituiu a presidenta Park Geun-hye do cargo, até a Revolução das Luzes ou <em>Bit-eh Hyuk-myung</em> (2024-2025), que buscou defender a democracia sul-coreana contra a lei marcial imposta pelo presidente Yoon Suk-yeol em dezembro de 2024. Apesar das repetidas mobilizações da classe trabalhadora e da sociedade civil contra a desigualdade e dos apelos por uma maior independência na política externa, a subordinação da Coreia do Sul aos Estados Unidos tem impedido essa transformação. Além disso, a dependência econômica e militar da Coreia do Sul em relação aos EUA significa que o país é obrigado a adotar medidas profundamente impopulares, como o envio de tropas coreanas ao Iraque ou a instalação do sistema antimísseis balísticos, o Terminal High Altitude Area Defense (THAAD). Desde a sua fundação, a Coreia do Sul tem alinhado sua política externa à dos Estados Unidos. Uma das consequências disso é que o fracasso da Cúpula de Hanói entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, em 2019, levou a um congelamento nas relações intercoreanas (Song, 2024). Enquanto isso, o estreitamento das relações entre a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) e a Rússia ampliou a margem de manobra de Pyongyang.</p>
<p>Em junho de 2025, Lee Jae-myung foi eleito presidente após ter contribuído para impedir que o presidente Yoon impusesse a lei marcial alguns meses antes. Apesar de ser advogado especializado em direitos humanos e direito do trabalho, o presidente Lee continuou estreitando os laços entre o complexo militar-industrial da Coreia do Sul e os Estados Unidos. Embora Lee tenha tentado recuperar o controle operacional das Forças Armadas da Coreia do Sul em tempo de guerra, suas concessões econômicas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, integraram ainda mais a Coreia do Sul à máquina de guerra estadunidense. Lee não só concordou com os apelos dos EUA para que os aliados destinem 3,5% do PIB à defesa, como também estabeleceu que a Coreia do Sul também investirá 350 bilhões de dólares nos próximos dez anos para aumentar a produção de semicondutores nos EUA (cujo uso duplo permite a expansão da IA militar) e ampliar a construção naval estadunidense, ajudando a aliviar os gargalos crônicos na base industrial marítima dos EUA — um impulso refletido no <em>slogan</em> coreano bajulador MASGA: Make American Shipbuilding Great Again [Tornemos a construção naval dos EUA grande novamente]. Mais especificamente, a aquisição do Estaleiro da Filadélfia pelo Grupo Hanwha da Coreia do Sul, em 2024, permite que este sirva como uma solução potencial para a demanda reprimida por submarinos de propulsão nuclear na Marinha dos Estados Unidos e contribua para a produção de navios de guerra da corporação. Além disso, a Coreia do Sul acolhe a presença da Força Espacial dos EUA e coopera na criação de uma rede de satélites interoperáveis para o “Golden Dome” de Trump, um sistema de defesa antimíssil (Song, 2024). Todas essas medidas permitiram que a Coreia do Sul se unisse a Israel no seleto grupo de “aliados exemplares” dos Estados Unidos (US Department of war, 2026).</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><em>Filipinas</em></h3>
<p>As Filipinas têm enfrentado dificuldades para afirmar sua soberania desde a ocupação pelos Estados Unidos em 1898. O poder político no país tem sido dominado por algumas famílias da elite (por exemplo, o atual presidente, Bongbong Marcos, é filho de Ferdinand Marcos, que governou o país de 1965 a 1986). O país dependia inteiramente dos Estados Unidos para seus planos de segurança até 1991 e, em 1995, lançou o Programa de Modernização das Forças Armadas das Filipinas, que permitiu a expansão da Marinha e da Força Aérea filipinas, principalmente por meio da aquisição de equipamento militar estadunidense. As Forças Armadas das Filipinas se tornaram integradas às dos Estados Unidos por meio de intervenções e exercícios conjuntos.</p>
<p>A estrutura do domínio dos Estados Unidos sobre as Filipinas é mais bem ilustrada pelo Acordo de Cooperação Reforçada em Defesa (EDCA, na sigla em inglês), assinado pela primeira vez em 2014 e posteriormente ampliado em 2022. O EDCA permite que as forças militares dos EUA tenham acesso rotativo às bases militares filipinas, possibilitando o pré-posicionamento de equipamentos, o treinamento conjunto e a construção de infraestrutura militar dos EUA nessas instalações, com supervisão mínima por parte do governo filipino.</p>
<p>Em 2023, no início do governo de Marcos Jr., o número de locais designados no âmbito do EDCA quase dobrou (passando de cinco para nove). A Base Naval Camilo Osias e o Aeroporto de Lal-lo estão localizados no extremo norte das Filipinas, permitindo uma “resposta rápida” a conflitos no Estreito de Taiwan (Guzman, 2023). Essas duas bases contam com o apoio do Acampamento Melchor F. Dela Cruz, localizado no vale montanhoso de Cagayan, que funciona como base logística. A presença dos EUA nessas instalações ajuda Washington a projetar sua força por meio do Estreito de Luzon, que as Filipinas compartilham geograficamente com Taiwan. O quarto local recém-designado ainda não foi divulgado publicamente, mas sua localização deixa clara sua importância para a projeção de poder dos EUA no Mar da China Meridional. Por meio do EDCA, as forças estadunidenses realizam o Exercício Balikatan, que atingiu uma escala sem precedentes durante o governo de Marcos Jr., com a participação do Japão prevista para 2025. Organizações da sociedade civil e ativistas pela paz continuam debatendo as implicações da estreita aliança do governo de Marcos Jr. com os Estados Unidos. Essa aliança tem se desenvolvido em paralelo a uma repressão cada vez mais intensa contra ativistas e militantes rurais, incluindo o assassinato de dezenove pessoas pelas tropas filipinas em Toboso, Negros Ocidental, em abril de 2026 — um incidente que grupos de direitos humanos têm exigido que seja investigado de forma independente.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><em>Taiwan</em></h3>
<p>Após a derrota do partido nacionalista Kuomintang (KMT) na Revolução Chinesa, este se refugiou na ilha de Taiwan sob a liderança de Jiǎng Jièshí (Chiang Kai-shek na antiga transliteração) e ali estabeleceu o seu governo. O KMT governou Taiwan sob a lei marcial por trinta e oito anos, até 1987, e depois continuou a governar em um sistema eleitoral dominado por um único partido até 2000. Desde então, o Partido Democrático Progressista (PDP) tem estado, em grande parte, no poder, conduzindo a política taiwanesa cada vez mais na direção do separatismo em relação à China continental e de uma integração mais profunda da ilha nos planos estratégicos dos Estados Unidos. O PDP reflete uma coalizão de tecnocapitalistas, elites separatistas e instituições militares, enquanto o KMT conta com o apoio de empresas com interesses no comércio entre os dois lados do Estreito com a China. Ambos, no entanto, atuam dentro de um escopo definido pelas prioridades estratégicas dos Estados Unidos. Desde 2022, os gastos militares de Taiwan e o apoio militar dos EUA têm apresentado um padrão de fortalecimento constante e coordenado, em vez de um rearmamento repentino. O orçamento militar de Taiwan disparou, chegando a aproximadamente 30 bilhões de dólares em 2026. Os gastos militares aumentaram de 2% do PIB na década de 2010 para 3,3% em 2026, com planos de chegar a 5% até 2030. Esse enorme desvio de recursos recai sobre uma sociedade que já enfrenta salários estagnados e aumento do custo de vida.</p>
<p>O orçamento militar financia a compra de armas e enriquece as empresas do setor de defesa dos EUA. As vendas de armamento estadunidense a Taiwan tornaram-se mais frequentes, com pacotes de armas regulares focados em mísseis, defesa aérea e drones. Entre 2019 e 2024, os Estados Unidos aprovaram mais de 32 bilhões de dólares em vendas de armas para a ilha, incluindo caças F-16V (8 bilhões), tanques M1A2 Abrams (2 bilhões), sistemas de foguetes HIMARS (436 milhões) e mísseis de defesa costeira Harpoon, com novos pacotes de grande porte, no valor de mais de 11 bilhões de dólares, anunciados em 2025 (No Cold War, 2023). Mas a venda de armas já não é o único limite do envolvimento militar dos EUA. Desde 2024, as Forças Especiais do Exército dos EUA, conhecidas popularmente como Boinas Verdes, estão estacionadas nas ilhas de Kinmen e Penghu, marcando a primeira presença militar duradoura dos EUA em território taiwanês em mais de quarenta anos. A escalada militar é, sem dúvida, impulsionada por Washington, criando as condições para uma crise que se autoalimenta por meio da militarização, ao mesmo tempo que as respostas chinesas são apresentadas como “provocações”.</p>
<p>A fragilidade política desse caminho rumo à militarização merece destaque. Lai Ching-te, do escritório do DPP, assumiu a presidência em 20 de maio de 2024 após obter apenas 40,1% dos votos, enquanto o KMT conquistou 33,5% e o Partido Popular de Taiwan (TPP), 26,5%. É importante destacar que a oposição, formada pelo KMT e pelo TPP, controla o Yuan — o órgão legislativo máximo de Taiwan — pela primeira vez desde 2016. Dos 113 assentos, 52 são ocupados pelo KMT, 8 pelo TPP e 51 pelo DPP. Essa abertura política ficou evidente em abril de 2026, quando a presidenta do KMT, Cheng Li-wun, visitou Beijing e se reuniu com Xi Jinping — a primeira visita desse tipo realizada por uma liderança do partido em uma década —, sinalizando que parte da oposição está tentando retomar o diálogo entre os dois lados do estreito, em vez de seguir o caminho de escalada militar traçado pelo DPP. O legislativo, portanto, não tem respaldado a escalada militar defendida pelo DPP.</p>
<p>Uma pesquisa de opinião pública realizada pelo Centro de Estudos Eleitorais da Universidade Nacional Chengchi revela que apenas 3,8% da população, o menor índice desde 2002, apoia a “independência imediata”, enquanto 1,2% defende a unificação imediata. Enquanto isso, de 83% a 88% preferem a manutenção do <em>status quo</em>, com um recorde de 33,2% que desejam o “<em>status quo</em> indefinidamente” (National Chengchi University Election Study Center, 2025). A postura de confronto do DPP com a China continental, intensificada com a Lei Anti-Infiltração de 2019 – que visava conter a suposta influência política da China em Taiwan – carece agora tanto de mandato legislativo quanto de apoio popular.</p>
<p>Organizações unificacionistas de esquerda, como o Partido Trabalhista de Taiwan, têm argumentado que a base social do separatismo do DPP tem suas raízes nos colaboradores japoneses da era colonial e que a questão de Taiwan é um legado da intervenção dos EUA na Guerra Civil Chinesa. Os EUA não precisam ampliar formalmente sua presença na ilha da mesma forma que fazem no Japão ou nas Filipinas, já que o DPP apoia incondicionalmente a estratégia de contenção estadunidense. Essas tendências indicam uma integração militar cada vez mais estreita entre os EUA e Taiwan, aproximando-se, na prática, de uma quase-aliança, uma vez que um tratado formal provocaria uma reação de Beijing. Desde 2022, tem havido uma militarização contínua de Taiwan, marcada por momentos de total indiferença em relação ao próprio desenvolvimento nacional — os EUA chegaram até a sugerir a destruição das fábricas de semicondutores de Taiwan para proteger os interesses estadunidenses na ilha.<a href="#_ftn3" name="_ftnref3"><sup>4</sup></a></p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-144941 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_2.jpg" alt="" width="505" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_2.jpg 505w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_2-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px"></div>
<h2 style="margin:3em 0;">Além da primeira cadeia de ilhas</h2>
<p><strong><br>
</strong>A estratégia dos EUA para conter a China vai além da primeira cadeia de ilhas, operando por meio de alianças como o Aukus e o Quad. Esses acordos criam camadas sobrepostas de cooperação militar que restringem a mobilidade da China nas águas vizinhas e em toda a região do Indo-Pacífico. Eles também revelam tensões entre a interdependência econômica com a China e as alianças militares voltadas para o confronto. As contradições resultantes levantam dúvidas quanto à durabilidade dessas formações. Dois atores importantes destacam-se como figuras centrais nessa estrutura mais ampla: a Austrália e a Índia.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><em>Austrália</em></h3>
<p>A Austrália é membro da Five Eyes — uma rede de compartilhamento de informações liderada pelos EUA — e é um dos seis “Parceiros de Oportunidades Alargadas” da Otan. Nesse sentido, o país sempre desempenhou um papel fundamental na estratégia dos Estados Unidos na Ásia. O desenvolvimento mais significativo na aliança entre os EUA e a Austrália é o acordo Aukus, de 2021, que, em seu primeiro pilar, prevê o fornecimento de submarinos de ataque movidos a energia nuclear à Austrália. O programa teve início com o aumento das visitas de submarinos estadunidenses a portos australianos, seguidas por destacamentos rotativos em bases locais, e deverá culminar na aquisição, pela Marinha Real Australiana, de pelo menos oito submarinos de propulsão nuclear a partir da década de 2030 (sendo que uma parte deles será construída no país por meio de cooperação conjunta na década de 2040). Com um custo total estimado em mais de 264 bilhões de dólares, esses submarinos de propulsão nuclear são estratégicos, pois permitem operações de longo alcance nos oceanos Índico e Pacífico. Embora isso não seja explicitamente declarado, a interoperabilidade e a profunda dependência operacional em relação aos Estados Unidos fariam com que a Austrália se integrasse à posição dos EUA diante da China, inclusive nos esforços para controlar as rotas marítimas e apoiar as operações estadunidenses no Estreito de Taiwan ou no Mar da China Meridional.</p>
<p>Embora a Austrália já tenha pago 500 milhões de dólares a Washington, o governo Trump, que enfrenta seu próprio gargalo no programa de submarinos, está avaliando se fornecerá à Austrália os submarinos prometidos. Um relatório do Congresso chegou a considerar a possibilidade de manter os submarinos sob controle dos EUA e operá-los a partir de bases australianas, dada a relutância da Austrália em prometer intervenção militar em uma eventual guerra entre os EUA e a China, já que esta última é o maior parceiro comercial da Austrália (Doherty, 2026). Isso é revelador das contradições e tensões entre os interesses nacionais e os compromissos de aliança.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><em>Índia</em></h3>
<p>A posição da Índia na estrutura de contenção difere daquela do Japão ou de Taiwan. A Índia não mantém nenhuma aliança formal com os EUA, faz parte do Brics e da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e herda uma forte tradição de não-alinhamento. No entanto, a trajetória da política externa indiana na última década revela uma tendência de alinhamento com as preferências estratégicas dos EUA, muitas vezes disfarçada pela retórica da autonomia estratégica. A Índia assinou acordos de defesa com os EUA que integram as forças indianas às estruturas de comando, controle e inteligência estadunidenses. A aproximação da Índia com Washington torna-se ainda mais evidente quando analisada no contexto do enfraquecimento de suas relações com o Irã, um tradicional parceiro comercial e aliado. Quando o governo Trump restabeleceu as sanções contra o Irã em 2018 e exigiu a interrupção das compras de petróleo iraniano, a Índia atendeu à exigência, reduzindo as importações de 500 mil barris por dia para quase zero em maio de 2019. O cumprimento das exigências por parte da Índia significou abrir mão do petróleo iraniano mais barato e colocar em risco seus investimentos no porto de Chabahar, no Irã, um projeto de importância estratégica para a Índia, pois garante acesso à Ásia Central sem passar pelo Paquistão (Prashad, 2013; Karat, 2007; Bhadrakumar <em>et al</em>., 2007). Em 12 de março de 2025, entraram em vigor tarifas globais de 25% sobre o aço e o alumínio, elevando as tarifas sobre o aço e o alumínio indianos para 26%. Em 6 de agosto, Trump impôs uma tarifa adicional de 25% sobre os produtos indianos em resposta à compra de petróleo russo a preço reduzido pela Índia, elevando a alíquota acumulada para 50%. A Índia acabou concordando em suspender as compras de petróleo russo, mas não chegou a assinar um acordo comercial decisivo com os EUA após a Suprema Corte anular as tarifas impostas por Trump.</p>
<p>Apesar desses acordos com os EUA, a Índia continua sendo membro do grupo Brics e mantém relações econômicas importantes tanto com a China quanto com a Rússia. O comércio bilateral entre a Índia e a China cresceu 12% em relação ao ano anterior em 2025, atingindo 155,6 bilhões de dólares. A participação indiana na Organização para a Cooperação de Shanghai (OCX) se intensificou, especialmente após a visita do primeiro-ministro indiano Narendra Modi à cúpula de 2025 em Tianjin. Em 2018, a Índia assinou um contrato de 5,4 bilhões de dólares para adquirir o sistema de defesa aérea S-400 da Rússia, apesar das ameaças de sanções por parte dos Estados Unidos. O comércio entre a Índia e a Rússia cresceu significativamente nos últimos anos, impulsionado principalmente pelas compras de petróleo bruto russo a preços reduzidos, que passaram de níveis insignificantes antes de 2022 para um pico de dois milhões de barris por dia em 2025, tornando a Rússia o maior fornecedor de petróleo da Índia. O fato de a Índia manter relações comerciais com a Rússia e a China contrasta com sua participação no Quad e nos acordos de parceria com os EUA, revelando uma contradição no cerne do posicionamento da Índia. A Índia ilustra um padrão de coerção gradual por parte dos EUA; mesmo como parceira estratégica, a Índia não está imune à coerção imperial (Srujana, 2025; Instituto Tricontinental, 2026).</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Fragilidade da aliança e contradições econômicas</h2>
<p>A estratégia de negação parte do pressuposto de que os EUA podem convencer seus aliados a conter a China — uma suposição que se desmorona quando analisada com mais cuidado. A prosperidade material dos aliados dos EUA depende cada vez mais da integração econômica com a China, mesmo que os alinhamentos militares os comprometam em um possível conflito. Todas as regiões analisadas neste dossiê enfrentam a mesma contradição fundamental: o dilema entre a integração econômica <em>com</em> a China e o alinhamento militar <em>contra</em> ela. Em 2025, o comércio desses países com a China — 331 bilhões de dólares da Coreia do Sul, 322 bilhões do Japão, 73 bilhões das Filipinas e 207 bilhões da Austrália — superou em muito o comércio com os EUA — 241,2 bilhões de dólares com a Coreia do Sul, 228 bilhões com o Japão, 27 bilhões com as Filipinas e 89,6 bilhões com a Austrália. Até mesmo o comércio da Índia com a China (156 bilhões de dólares) é maior do que o comércio com os EUA (149 bilhões de dólares). Esses fluxos representam riqueza, empregos e receitas públicas que seriam devastados por uma guerra ou por um confronto prolongado com a China. Quando um conflito real se aproxima, esses interesses econômicos podem revelar-se mais decisivos do que compromissos militares abstratos.</p>
<p>Durante a guerra dos EUA contra o Iraque, importantes aliados estadunidenses se recusaram a participar, apesar da enorme pressão exercida pelos EUA e da invocação dos compromissos das alianças. Na Ásia, o Japão e a Coreia do Sul se recusaram a enviar forças de combate, embora tenham fornecido assistência logística e recursos para a reconstrução. Mais recentemente, nenhum dos aliados dos EUA (incluindo o Japão e a Coreia do Sul) atendeu às exigências de Trump para que enviassem navios para abrir o Estreito de Ormuz. Se os aliados se mostraram pouco confiáveis em uma guerra contra um adversário mais fraco, qual seria a probabilidade de sua participação em uma guerra contra a China, uma potência industrial e nuclear? A Austrália enviaria forças de combate para lutar contra a China, arriscando sofrer retaliações contra cidades australianas e a perder seu maior parceiro comercial? A Coreia do Sul participaria, se uma guerra regional pudesse desencadear uma intervenção da Coreia do Norte? Será que o povo japonês, traumatizado pelos bombardeios nucleares dos EUA, aceitaria baixas em combate? A Índia enviaria tropas, considerando que a situação de Taiwan não tem relevância direta para a segurança indiana e que tal participação colocaria em risco suas relações com a China e a Rússia? As Filipinas entrariam em conflito se isso significasse o risco de uma retaliação chinesa?</p>
<p>As alianças funcionam bem quando os custos permanecem hipotéticos e abstratos: exercícios conjuntos, compartilhamento de informações, aquisição de armamentos e coordenação diplomática. Elas enfrentam provações severas quando uma guerra real exige o sacrifício de vidas, a aceitação da devastação econômica e o risco da própria existência nacional em prol dos interesses de outra potência, especialmente quando essa potência é a agressora. A dependência da estratégia de negação em relação à participação dos aliados pode ser sua falha fatal caso surja um conflito, especialmente quando as alianças se baseiam na subordinação e na coerção, em vez de em interesses comuns genuínos.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Resistindo à máquina de guerra e construindo o multilateralismo</h2>
<p>A Nova Guerra Fria que está surgindo, com foco no Leste Asiático, é uma resposta estratégica dos Estados Unidos à mudança do centro de gravidade da economia mundial. À medida que as capacidades econômicas e tecnológicas da China se expandem, a política dos EUA depende cada vez mais da força militar e das estruturas de alianças para manter sua influência estratégica na região do Indo-Pacífico (Instituto Tricontinental, 2024). Essa estratégia de contenção visa conter a China por meio da militarização, da coordenação de alianças e da modernização da defesa. Washington está construindo uma estrutura militar provocativa na região por meio de uma rede de iniciativas e parcerias.</p>
<p>Em toda a Ásia Oriental e na região do Indo-Pacífico, as implicações da crescente militarização são profundas. O Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas, Taiwan, a Austrália e a Índia possuem infraestrutura militar significativa ou participam de uma cooperação militar que poderia colocá-los no centro de um grande conflito. Para muitas sociedades da região, a perspectiva de uma maior militarização suscita preocupações quanto aos custos de oportunidade, uma vez que os recursos destinados aos gastos com defesa competem com os investimentos em bem-estar social, infraestrutura, resiliência climática e desenvolvimento econômico.</p>
<p>Analistas de política externa e formuladores de políticas progressistas da região propuseram várias reformas com o objetivo de promover a paz e a redução das tensões. Entre elas estão medidas de fortalecimento da confiança em zonas de atrito, como o Estreito de Taiwan, novas iniciativas de controle de armas e mecanismos multilaterais para a gestão de disputas marítimas no Mar da China Meridional. As organizações regionais, em particular a Asean, são frequentemente citadas como plataformas potenciais para a promoção do diálogo e a gestão de conflitos.</p>
<p>Embora essas propostas sejam bem-vindas, qualquer transformação deve, inevitavelmente, partir do próprio povo organizado da região. Diversos movimentos sociais em toda a região continuam defendendo a diplomacia, a cooperação regional e a desmilitarização. Em Okinawa, organizações como o Projeto de Justiça Ambiental de Okinawa e o movimento “No More Battle of Okinawa” protestam contra a expansão das bases estadunidenses. Nas Filipinas, organizações como a Bagong Alyansang Makabayan (Bayan) se opõem à ampliação dos acordos de acesso militar e reivindicam maior soberania nacional. Na Coreia do Sul, partidos políticos e movimentos sociais, como a Ação Internacional Popular contra Trump, apoiam a retomada do diálogo diplomático para reduzir as tensões na Península Coreana. Debates semelhantes ocorrem em Taiwan, na Austrália, na Índia e em outras regiões que enfrentam o militarismo dos EUA.</p>
<p>A Assembleia Internacional dos Povos (AIP) — uma rede de cerca de 200 movimentos sociais, partidos políticos e sindicatos fundada em 2015 — tem trabalhado em estreita colaboração com organizações de base locais, promovendo a solidariedade e o consenso em questões fundamentais. Nesta conjuntura crucial, em que a militarização ameaça a paz e o desenvolvimento na Ásia e, na verdade, em todo o mundo, a AIP lançou a campanha “Hands-Off Asia” [<a href="https://ipa-aip.org/pt-br/campaign/tirem-as-bases-da-asia/">Tire as mãos da Ásia</a>]. Essa iniciativa gira em torno de quatro reivindicações para amenizar as tensões dessa Nova Guerra Fria na região:</p>
<ol>
<li><strong>Retirar todas as bases militares estrangeiras e democratizar a segurança</strong>. As centenas de bases militares estrangeiras espalhadas pela região asiática devem ser removidas para que a política regional possa ser democratizada e a paz possa ser mais do que apenas uma preparação para a próxima guerra. Os Estados devem evitar a formação de blocos militares rígidos, limitar as mobilizações avançadas e se comprometer a impedir uma corrida armamentista. A política militar deve prestar contas ao público — deve haver supervisão por parte do Parlamento, dos governos locais e da sociedade civil sobre acordos militares, orçamentos de defesa e o envio de tropas ao exterior.</li>
<li><strong>Aumentar o contato entre as pessoas</strong>. Apoiar a cooperação entre sindicatos, grupos estudantis, organizações pela paz e movimentos sociais em toda a Ásia para se opor à corrida armamentista, às bases estrangeiras e à escalada do confronto. Incentivar o intercâmbio entre os povos, os laços culturais e a diplomacia de base além das fronteiras — especialmente entre sociedades em conflito ou sob tensão elevada — para construir uma cultura regional comum de paz.</li>
<li><strong>Institucionalizar um diálogo contínuo.</strong> Estabelecer canais de comunicação regulares e de alto nível, tanto políticos quanto entre as Forças Armadas, para gerenciar crises, reduzir erros de avaliação e construir a confiança mútua. Promover mecanismos práticos de fortalecimento da confiança, como linhas diretas e acordos de prevenção de incidentes.</li>
<li><strong>Priorizar a segurança cooperativa e os desafios comuns.</strong> Mudar o foco da competição de soma zero para a colaboração em questões fundamentais, como as mudanças climáticas, a saúde pública, a estabilidade econômica e o desenvolvimento, reforçando a interdependência como base para a paz. Promover campanhas pela redução dos gastos militares e pela realocação de recursos para a saúde, a ação climática, a educação e a redução da desigualdade, vinculando diretamente a paz à justiça social.</li>
</ol>
<p>Por trás dessas dificuldades está uma mudança estrutural mais ampla na economia global. O crescimento da China como grande potência industrial remodelou as redes de produção globais e alterou a distribuição da influência econômica. Essas mudanças deram um novo impulso aos movimentos que lutam pela soberania em todo o Sul Global. Ainda não se sabe se essa transição levará a um multilateralismo estável e pacífico ou a uma competição mais acirrada. Muito depende de se a luta de classes poderá avançar de forma a orientar a agenda para a paz e o desenvolvimento, em vez de para a guerra e a austeridade.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-144933 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_3.jpg" alt="" width="505" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_3.jpg 505w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_3-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px"></div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ednref1" name="_edn1"><sup>1</sup></a> Embora Okinawa represente apenas 0,6% da área territorial do Japão, abriga cerca de 70% de todas as instalações militares estadunidenses no país. Leia mais sobre Kinjo e a história de Okinawa em nosso boletim de arte n. 26 (abril de 2026), “Não se pode engolir uma agulha, por menor que seja: o escultor da resistência de Okinawa” <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-escultor-resistencia-okinawa/">https://thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-escultor-resistencia-okinawa/</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>2</sup></a> Sobre o papel do Sri Lanka no epicentro da estratégia indo-pacífica dos EUA, ver Illanperuma, 2024. Sobre Diego Garcia, ver Sands, 2022.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2"><sup>3</sup></a> Estamos seguindo a narrativa apresentada por McCormack, 2007.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3"><sup>4</sup></a> A sugestão dessa estratégia de “terra arrasada” foi apresentada pela primeira vez por McKinney &amp; Harris, em 2021, e retomada dois anos depois pelo ex-conselheiro de segurança nacional dos EUA, Robert O’Brien. Ver também: Clemons, 2023.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
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			</item>
		<item>
		<title>O futuro</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-o-futuro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Amilcar]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 May 2026 08:00:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
		<category><![CDATA[construção socialista]]></category>
		<category><![CDATA[Sul Global]]></category>
		<category><![CDATA[far right of a special type]]></category>
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		<category><![CDATA[socialist construction]]></category>
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					<description><![CDATA[Presos entre a dependência militar dos EUA e a profunda integração econômica com a China, o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e Taiwan enfrentam crescentes contradições à medida que a Nova Guerra Fria remodela o Leste Asiático.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--acknowledgments">A arte deste dossiê pertence à coleção Arte de Nuestra América Haydée Santamaría (Arte de Nossa América Haydée Santamaría) da Casa de las Américas. Desde sua fundação em 1959, após a Revolução Cubana, essa instituição tem servido como uma plataforma fundamental para o internacionalismo cultural anti-imperialista, construindo laços estreitos com artistas, escritores, intelectuais e ativistas políticos renomados. As galerias da Casa acolheram exposições de diversos gêneros, disciplinas e técnicas, realizadas por gerações de artistas, principalmente latino-americanos e caribenhos. Muitas dessas obras foram exibidas pela primeira vez nas galerias da Casa, premiadas em seus concursos ou doadas pelos artistas. Desde então, passaram a integrar o acervo, formando um patrimônio artístico excepcional.</div>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_142720" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-142720" class="size-full wp-image-142720 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_11.-Venturelli.jpg" alt="" width="950" height="628" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_11.-Venturelli.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_11.-Venturelli-300x198.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_11.-Venturelli-768x508.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-142720" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>José Venturelli (Chile), <em>Serigrafía</em> (Serigrafia), 1970, ed. 15/90. 260 x 430 mm.</small></p></div>
</div>
<p>Todos os meses, nos últimos 10 anos, nossa equipe do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social realizou uma pesquisa, redigiu e elaborou um dossiê. Esses dossiês — que abrangem desde histórias do imperialismo e da libertação nacional até análises de política econômica, soberania, guerra e a ordem mundial em transformação — têm circulado pelo mundo em diversas línguas, como inglês, hindi e português, passando pelo árabe, tailandês e espanhol. Este é o nosso dossiê n. 100, e por isso decidimos fazer uma pausa para apresentar uma análise histórico-materialista de um conceito fundamental em nosso instituto: o futuro.</p>
<p>Quando nosso <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/nossa-historia/">instituto</a> foi concebido em 2015, tínhamos três linhas principais de investigação em vista:</p>
<ol class="single-post--content--list-double-spacing">
<li>Compreender melhor o capitalismo contemporâneo e a natureza da luta de classes que o molda.</li>
<li>Compreender melhor a ascensão do que chamamos de extrema direita de um tipo especial (Instituto Tricontinental, 2024a).</li>
<li>Compreender melhor o futuro — ou o que vem a seguir.</li>
</ol>
<p>Essa terceira linha de investigação surgiu de uma compreensão materialista do processo histórico, que vê o presente não como uma realidade eterna, mas como algo aberto à transformação. Em outras palavras, o presente pode ser moldado para se tornar um futuro de natureza diferente. O sistema capitalista em que vivemos não é permanente: ele pode ser transformado em um sistema socialista por meio da luta de classes e do desenvolvimento das forças produtivas.</p>
<p>Aqui, pela primeira vez, apresentamos uma análise filosófica e política do futuro. Inspirando-nos na tradição do marxismo de libertação nacional, defendemos que esse futuro deve ser chamado não apenas de<em> socialismo</em>, o objetivo, mas também de<em> esperança</em>, a sensibilidade para tal futuro (Instituto Tricontinental, 2021a).</p>
<p>Esperamos que leiam este dossiê da mesma forma que leram os 99 anteriores e que o compartilhem, debatam e discutam coletivamente em círculos de leitura e outros espaços de formação política. Estamos sempre abertos às suas contribuições e comentários.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<p>Todas as línguas do mundo têm uma palavra para “futuro”, o tempo que vem depois do presente. Por exemplo, nas línguas mais faladas do mundo, estas são algumas das palavras para o futuro:</p>
<blockquote><p>Inglês: <em>future</em>, o tempo que ainda não aconteceu.</p>
<p>Chinês mandarim: <em>wèilái</em> (未来), o que ainda não chegou.</p>
<p>Hindi: <em>bhavishya</em> (भविष्य), aquilo que está por vir ou que se tornará.</p>
<p>Espanhol: <em>futuro</em>, o tempo que ainda está por vir.</p>
<p>Francês: <em>avenir</em>, o que está por vir.</p>
<p>Árabe: <em>mustaqbal</em> (مستقبل), aquilo que está por vir.</p>
<p>Bengali: <em>bhobishyot</em> (ভekomst), aquilo que ainda está por vir ou por se tornar.</p>
<p>Português:<em> futuro</em>, o tempo que ainda está por vir.</p>
<p>Russo: <em>budushchee</em> (будущее), o que está por vir.</p>
<p>Urdu: <em>mustaqbil</em> (مستقبل), aquilo que está por vir ou que deve ser enfrentado.</p></blockquote>
<p>Essas palavras não têm todas o mesmo significado; elas refletem diferentes abordagens culturais em relação à mudança. Algumas delas tratam do calendário vazio, da ideia de que existe um amanhã assim como existe um hoje, enquanto outras tratam dos encontros que ocorrerão e que devem ser enfrentados. É importante reconhecer que, mesmo ao ler um texto como este — escrito em uma língua e traduzido para várias outras —, a palavra “futuro” carrega uma variedade de significados que não podem ser totalmente transmitidos de uma língua para outra. Embora essas palavras tenham diferentes perspectivas em relação ao que está por vir, há perguntas que podemos fazer em todas as línguas faladas na civilização capitalista: o futuro existe, ou estamos vivendo no que o realismo capitalista nos garante ser um presente permanente? (Fischer, 2009). Será que existe mesmo um amanhã que possa ser diferente de hoje?</p>
<p>Essas questões são essenciais para o momento que vivemos, enquanto lutamos para compreender a catástrofe e o<em> apartheid </em>climático, a guerra permanente e o genocídio sem fim, bem como a ditadura do capital financeiro e a normalização da austeridade. Décadas de realismo capitalista obscureceram nossa consciência, impedindo-nos de imaginar qualquer coisa além de uma catástrofe global.</p>
<p>Existe um futuro? Claro que sim. Estamos lutando para construí-lo e estamos construindo-o agora.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_142731" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-142731" class="size-large wp-image-142731 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_B-09-Emilio-Pettoruti-Argentina-561x1024.jpg" alt="" width="561" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_B-09-Emilio-Pettoruti-Argentina-561x1024.jpg 561w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_B-09-Emilio-Pettoruti-Argentina-164x300.jpg 164w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_B-09-Emilio-Pettoruti-Argentina-768x1403.jpg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_B-09-Emilio-Pettoruti-Argentina-841x1536.jpg 841w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_B-09-Emilio-Pettoruti-Argentina.jpg 950w" sizes="auto, (max-width: 561px) 100vw, 561px"><p id="caption-attachment-142731" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Emilio Pettoruti (Argentina), <em>Pájaro rojo</em> (Pássaro vermelho), 1959. Óleo sobre tela, 116 x 63 cm.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Parte 1: Ruptura</h2>
<p>Na linguagem dominante do poder, o futuro é apresentado como uma extensão neutra do presente. É medido em calendários, projetado em curvas de crescimento e gerenciado por meio de previsões. Nessa perspectiva, o futuro não é algo pelo qual se deva lutar, mas algo <em>pelo qual</em> se deve <em>esperar</em>. Chega automaticamente, como a página seguinte de um livro contábil. Essa visão do futuro é profundamente conservadora. Isso pressupõe que as estruturas de exploração, hierarquia e dominação que definem o presente serão simplesmente otimizadas, em vez de derrubadas. Essa visão do futuro é reproduzida por todas as principais instituições da sociedade capitalista — como a mídia, as escolas, as universidades, <em>think tanks</em> e as fundações filantrópicas —, que insistem em <em>slogans</em> vazios sobre mudança, mas, na verdade, pregam o evangelho de que “não há alternativa” ao sistema capitalista que nos sufoca.</p>
<p>Na nossa opinião, o futuro não é uma data no calendário. É um rompimento. Uma ruptura com a ordem existente, uma transformação estrutural das relações sociais, do poder político e das possibilidades humanas. Falar do futuro dessa maneira não é entregar-se à fantasia, mas recuperar uma dimensão da política que foi deliberadamente suprimida: a capacidade de imaginar e construir um mundo fundamentalmente diferente daquele em que vivemos, um mundo que os projetos socialistas e de libertação nacional dos séculos XX e XXI buscaram construir e, mesmo com seus limites, começaram a concretizar. Essa visão rejeita as ideias de continuidade controlada (reformismo) e colapso não planejado (catastrofismo). A classe dominante cria uma série de futuros falsos: mitos do empreendedorismo, do capitalismo verde e da segurança militarizada — mas nada que tenha qualquer conteúdo emancipatório.</p>
<p>As bases para essa visão do futuro foram desenvolvidas pelo filósofo marxista Ernst Bloch (2000) com sua noção do “Ainda Não” (<em>Noch-Nicht</em>). Para Bloch, inspirando-se diretamente nos escritos de Marx, o futuro não é uma abstração adiada para o amanhã, mas uma força ativa que está imersa no presente, lutando para emergir de suas limitações. A realidade é inacabada, afirma Bloch, o que o colocou em desacordo com as correntes filosóficas que tratam o mundo como algo fechado, concluído ou já totalmente explicado. Ele insistiu que o presente está impregnado de tendências, desejos e contradições que apontam para além. O “Ainda Não” não é uma utopia que paira acima da história, mas um potencial latente contido nas condições materiais e na luta coletiva. Esse “Ainda Não” pode ser percebido nos sonhos das lutas anticoloniais que encontraram expressão programática no comunicado final da <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Bandung_Conference">Conferência</a> <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Bandung_Conference">de Bandung (1955)</a>, na declaração de Belgrado da <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Non-Aligned_Movement">Cúpula do Movimento</a> <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Non-Aligned_Movement">dos Países Não Alinhados (1961)</a>, nas resoluções da <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Tricontinental_Conference_(1966)">Conferência</a> <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Tricontinental_Conference_(1966)">Tricontinental (1966)</a> e na declaração sobre a Nova Ordem Econômica Internacional adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (1974). Isso também pode ser observado nos processos revolucionários desencadeados pela Revolução de Outubro (1917), pela Revolução Vietnamita (1945), pela Revolução Chinesa (1949) e pela Revolução Cubana (1959) (Instituto Tricontinental, 2025a, 2025b).</p>
<p>Nessa tradição marxista, o futuro não é inevitável. Essa visão baseia-se em duas proposições materialistas que decorrem das contradições do sistema capitalista.</p>
<p>Em primeiro lugar, o próprio curso da história desenvolve as forças produtivas e amplia o excedente social. Mas, como esses avanços continuam limitados pela propriedade privada, eles também agravam a desigualdade e o sofrimento social da grande maioria. É importante reconhecer que, hoje em dia, as forças produtivas não se limitam às fábricas e às máquinas. Isso inclui também, por exemplo, o trabalho de cuidados, as infraestruturas digitais e as cadeias de abastecimento globais, todos organizados por meio de uma força de trabalho cada vez mais socializada. É também fundamental observar que o capitalismo, simultaneamente, desenvolve essas forças e sabota seu potencial, mantendo-as sob controle por meio da propriedade privada, dos monopólios de plataformas uberizadas, da repressão sindical, da austeridade, da militarização e outras formas de controle capitalista.</p>
<p>Em segundo lugar, o sofrimento social inerente ao capitalismo gera indignação e raiva, que podem se transformar espontaneamente em revolta. Mas essas lutas não avançam automaticamente em direção à emancipação: elas são moldadas por forças políticas, seja em direção ao socialismo — promovendo as demandas concretas do povo —, seja contra ele — distorcendo essas demandas e colocando as pessoas umas contra as outras por meio de uma agenda tóxica e antissocial (Instituto Tricontinental, 2024d). O futuro, portanto, não é algo que simplesmente <em>acontece</em>, mas algo que devemos <em>construir</em>, e só poderemos construí-lo rompendo com as estruturas que geram e perpetuam o sofrimento. Essa visão rompe com o fatalismo e a inevitabilidade e nos lembra que a história é aberta e que o presente contém possibilidades ainda não concretizadas que podem ser ativadas por meio da luta.</p>
<p>A esperança, nessa tradição, não é otimismo nem uma expectativa passiva, mas uma <em>orientação militante</em> em relação ao caráter inacabado do mundo. Ela surge da miséria, da opressão e da despossessão, e da recusa em aceitar a miséria como destino. Para os movimentos do Sul Global que orientam o trabalho do nosso instituto, a esperança nunca foi um luxo. Isso se concretizou em diversos movimentos e organizações liderados por camponeses, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, que representam esforços coletivos para promover a causa da dignidade (Instituto Tricontinental, 2025a, 2024b). Esses movimentos não lutam por uma versão melhor do presente, mas por uma ordem social totalmente diferente. O futuro deles não está ligado a um calendário, mas sim a uma transformação estrutural. Esperançar é reconhecer que o presente é insuportável e passageiro e que as condições de exploração e opressão não são nem naturais nem definitivas. Essa esperança é perigosa para a classe dominante porque é uma força concreta que transforma a consciência, levando as pessoas a deixar de simplesmente suportar o presente para passar a agir em prol do futuro.</p>
<p>Nessa tradição de ruptura, o futuro não é uma criação individual: ele tem um caráter coletivo. A cultura capitalista nos incentiva a imaginar um futuro particular — uma carreira, uma casa, segurança pessoal e o projeto interminável de “autoaperfeiçoamento” — ao mesmo tempo que nos priva de horizontes coletivos. Essa cultura é marcada pela ansiedade individual, em vez de responsabilidade coletiva ou transformação social. No capitalismo, o futuro do calendário é tratado como algo administrável — como algo a ser previsto, programado, avaliado, garantido e gerenciado por instituições que se apresentam como neutras. Suas decisões são apresentadas como necessidades técnicas, e não como escolhas políticas, como questões a serem reguladas em nosso nome por especialistas, mercados, Estados e aparelhos de segurança. Essas instituições não oferecem um horizonte de emancipação, mas apenas a continuação controlada da catástrofe. Nesse contexto, surge uma extrema direita de um tipo especial para propor um futuro <em>mítico</em> baseado na exclusão, na hierarquia e na violência; trata-se de um sintoma da incapacidade do capitalismo de gerar um futuro positivo (Instituto Tricontinental, 2024a). O futuro não pode ser construído por essa extrema direita; ele deve ser reconquistado como um espaço de soberania popular. Nem a catástrofe nem a emancipação são inevitáveis. É preciso lutar contra o primeiro e lutar pelo segundo. Do ponto de vista da ruptura, ou da transformação estrutural, o instrumento não é o avanço individual, mas sim forças organizadas capazes de enfrentar o poder estabelecido, tais como partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais. Sem essas forças, o “Ainda Não” continuará sendo um sonho sem caminho. A esperança requer estrutura, disciplina e persistência.</p>
<p>O futuro não é algo que se situa fora da história da humanidade. Já está presente em fragmentos, gestos e lutas que prenunciam outro mundo. Entre elas estão as formas cooperativas de trabalho, as práticas de cuidado, as experiências de democracia popular e os processos inacabados e contestados de construção socialista em países como China e Cuba (Instituto Tricontinental, 2021a, 2019a). Não se trata de curiosidades marginais; são antecipações de uma lógica social diferente. Descrevê-los não significa romantizá-los, mas compreender seu significado e seu potencial latente. Eles nos lembram que o mundo que buscamos construir não é um horizonte abstrato, mas uma possibilidade concreta. A tarefa de um marxista não é prever o futuro, mas sim se organizar para ele. Para romper com o presente, é preciso clareza, coragem e disciplina coletiva. O futuro só poderá chegar se provocarmos uma ruptura. O futuro é, portanto, um campo de batalha. Para lutar por isso, precisamos identificar as forças que tentam impedir que isso aconteça.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_142742" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-142742" class="size-full wp-image-142742 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/09.-Lora.jpg" alt="" width="638" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/09.-Lora.jpg 638w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/09.-Lora-245x300.jpg 245w" sizes="auto, (max-width: 638px) 100vw, 638px"><p id="caption-attachment-142742" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Silvano Lora (República Dominicana), <em>Serigrafía</em> (Serigrafia), 1976, ed. 18/60. 640 x 570 mm.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Os inimigos do futuro</h3>
<p>O futuro não é um horizonte vazio que aguarda para ser preenchido pelas aspirações humanas. É ativamente planejado, estruturado e condicionado por forças poderosas que buscam reproduzir as relações de dominação existentes. Os inimigos do futuro não são tendências abstratas: são forças concretas determinadas a prolongar a ordem atual no futuro (Instituto Tricontinental, 2024a). A seguir, analisamos quatro grandes inimigos do futuro: o capital financeiro, o capital de plataforma, o extrativismo e o militarismo. Essas forças não se limitam a defender as relações sociais do presente — elas procuram colonizar o futuro antecipadamente.</p>
<p><strong>O capital financeiro.</strong> ocupa o centro dessa constelação. Por meio do controle sobre os rendimentos do colonialismo e do neocolonialismo, dos fluxos de investimento, da magia da especulação e do poder da dívida, o capital financeiro disciplina os Estados e as sociedades, restringindo o leque de seus futuros possíveis (Instituto Tricontinental, 2024c). As agências de classificação de risco, os credores multilaterais e as instituições financeiras privadas — em sua maioria localizadas no Norte Global — atuam como planejadores do futuro para a classe dominante do Norte, garantindo que o amanhã continue favorável à acumulação de capital, e não ao florescimento humano. Os ditames do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial, da Organização Mundial do Comércio e de inúmeras outras instituições tornam-se uma realidade concreta para muitas ex-colônias, hoje países sobrecarregados por dívidas (Instituto Tricontinental, 2023).</p>
<p><strong>Capital de plataforma.</strong> Os monopólios tecnológicos capitalistas canalizam a inovação e a eficiência para a extração de dados, a reorganização do trabalho e a fragmentação da vida social. Os algoritmos controlam o tempo, a atenção e o desejo, enquanto o trabalho plataformizado priva os trabalhadores de estabilidade e poder coletivo (Instituto Tricontinental, 2021b).</p>
<p><strong>Extrativismo.</strong> Apesar das evidências científicas contundentes de uma catástrofe ecológica, os conglomerados dos setores de petróleo, gás, carvão, mineração e agronegócio continuam moldando os sistemas energéticos, os mercados de trabalho e as políticas públicas. O horizonte de planejamento deles é extremamente curto: <em>extrair</em>, <em>lucrar</em>, <em>abandonar</em>. A crise climática, por exemplo, não é uma falha de previsão, mas o resultado de decisões deliberadas por parte de corporações capitalistas que aceitam a destruição do planeta como um custo aceitável da acumulação (Instituto Tricontinental, 2024e, 2025g).</p>
<p><strong>Militarismo.</strong> As crises geradas e agravadas pelo sistema capitalista — guerra, deslocamento e catástrofe climática — não são enfrentadas com soluções sociais e políticas, mas com uma economia de guerra permanente que impõe soluções militares para problemas políticos. Nos centros imperiais, o militarismo se manifesta na forma de acumulação de armas, regimes fronteiriços, vigilância e normalização do estado de emergência. No Sul Global, isso se manifesta como agressão imperialista, guerras por procuração, ocupação e o desvio forçado de recursos públicos escassos para os exércitos e as infraestruturas de segurança, sempre em benefício da indústria de armas. O militarismo estreita os horizontes políticos: as situações de emergência justificam medidas autoritárias, reprimem a dissidência e normalizam o medo. Para grande parte da humanidade, especialmente no Sul Global, o futuro não se apresenta como uma promessa, mas como instabilidade permanente, deslocamento e morte. A guerra torna-se um mecanismo para gerenciar as crises geradas pelo próprio capitalismo (Instituto Tricontinental, 2025e, 2024g).</p>
<p>Esses inimigos do futuro não se limitam a impedir a transformação social: eles criam ativamente um futuro que garante privilégios para poucos, enquanto condena a maioria ao esgotamento, à insegurança e ao desespero. Não é possível recuperar o futuro sem um desafio frontal ao poder deles.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">As forças sociais prestes a provocar a ruptura</h3>
<p>Como as classes proprietárias insistem no presente permanente, o futuro só pode ser reconquistado por meio da luta coletiva em massa. As forças sociais capazes de provocar uma ruptura com a ordem atual já estão aqui, embora estejam fragmentadas, desiguais e, muitas vezes, invisibilizadas. Entre elas estão os trabalhadores tanto da economia formal quanto da informal, camponeses e trabalhadores agrícolas sem terra, mulheres, jovens, comunidades oprimidas e o que Marx chamou de “população excedente” — aqueles excluídos ou marginalizados pelos ciclos da acumulação capitalista, mas ainda assim indispensáveis como exército de reserva de mão de obra e como parte das forças de reprodução social (Marx, 1976).</p>
<p>Apesar de todo o debate sobre o “pós-marxismo” e as novas teorias sobre a fragmentação dos sujeitos políticos, a classe trabalhadora — tanto urbana quanto rural — continua sendo fundamental, embora sua composição tenha, sem dúvida, mudado. Vários relatórios da <a href="https://www.ilo.org/sites/default/files/2025-01/WESO25_Trends_Report_EN.pdf">Organização</a> <a href="https://www.ilo.org/sites/default/files/2025-01/WESO25_Trends_Report_EN.pdf">Internacional do Trabalho</a> e do Banco Mundial sugerem que a força de trabalho global totaliza quase 4 bilhões de pessoas (incluindo aqueles que estão empregados e aqueles que procuram emprego ativamente). A seguir, apresentamos uma divisão aproximada do emprego global por setor:</p>
<ol class="single-post--content--list-double-spacing single-post--content--list-leaders">
<li>Agricultura <em>/</em> 923 milhões.</li>
<li>Indústria <em>/</em> 800 milhões.</li>
<li>Serviços <em>/</em> 1,8 bilhão</li>
<li>Transporte/Logística <em>/</em> 230 milhões.</li>
<li>Trabalhadores de plataformas <em>/</em> 154 milhões.</li>
</ol>
<p>Os trabalhadores da indústria convivem com os trabalhadores dos setores de serviços, transporte, armazenagem, assistência, entregas e plataformas (ou “uberizados”). Na maior parte do Sul Global, o trabalho informal não é uma exceção, mas sim a regra. Esses trabalhadores — seja na fábrica, no campo ou no armazém — enfrentam extrema precariedade, proteções legais fracas ou inexistentes e ameaça constante de desemprego. No entanto, apesar da queda na taxa de sindicalização, esses trabalhadores detêm um poder estratégico: eles produzem e transportam mercadorias, cultivam a terra, extraem recursos minerais, prestam cuidados, constroem cidades e sustentam a vida cotidiana. Suas lutas — desde greves em centros logísticos até rebeliões em massa de trabalhadores sem terra e paralisações de empregadas domésticas — revelam o antagonismo contínuo entre capital e trabalho.</p>
<p>As lutas nem sempre se manifestam de forma direta, por meio de uma organização consciente da força de trabalho contra o capital. Frequentemente, se manifestam por meio de outras estruturas de opressão, como o patriarcado e a hierarquia social (casta, raça), ou são impulsionadas pela experiência geracional e por outras formações sociais. Por exemplo, os movimentos feministas têm revelado como os sistemas econômicos dependem da exploração dos corpos e do tempo, especialmente dos corpos das mulheres em geral e, em particular, das mulheres negras, migrantes e da classe trabalhadora racializada. Da mesma forma, as lutas pela dignidade social se refletem em identidades que, embora não sejam em si mesmas de natureza de classe, revelam a maneira complexa como o capitalismo reativa antigas hierarquias para as suas próprias estratégias de acumulação: a casta e a raça, por exemplo, são mobilizadas pelo sistema capitalista a serviço da acumulação e, assim, os protestos pela dignidade também criam bases para a luta socialista. A população excedente — migrantes, desempregados, camponeses sem terra e pobres urbanos — é frequentemente tratada como politicamente marginalizada, mas vive o sistema capitalista em sua forma mais crua. As lutas dessas pessoas por moradia, serviços e dignidade são lutas pela reprodução da vida. Essas inúmeras lutas demonstram a energia existente na classe trabalhadora para formar um bloco histórico contra o capitalismo e lutar pelo futuro.</p>
<p>No entanto, muitos dos protestos que agitam nossas cidades e o interior do país assumem a forma de grandes mobilizações, muitas vezes organizadas por pequenas organizações ou impulsionadas por convocatórias nas redes sociais dirigidas a indivíduos. O capital prospera com a divisão: formal <em>versus</em> informal, urbano <em>versus</em> rural, homens <em>versus</em> mulheres e pessoas de gêneros dissidentes, cidadão <em>versus</em> migrante (Instituto Tricontinental, 2026). Hoje, a estrutura de classes fragmentada e a organização social representam grandes desafios para a organização política e a unidade de ação baseada em princípios. Há muitos exemplos dessa raiva mobilizada sendo aproveitada por forças reacionárias ou se dissipando na forma de desespero. Uma ruptura exige a construção da unidade sem apagar as diferenças, forjando projetos políticos capazes de articular interesses compartilhados e horizontes comuns. Sem essa organização, as forças sociais continuam a agir de forma reativa. Com isso, tornam-se agentes históricos capazes de construir o próprio futuro. A verdadeira questão organizacional para a esquerda em todo o mundo é como construir as bases subjetivas da luta a partir das condições objetivas de sofrimento e sobrevivência enfrentadas pelo povo.</p>
<h4 style="margin:2em 0;"><em>Tempo</em></h4>
<p>O capitalismo impõe sua concepção de tempo às sociedades — uma concepção que reflete urgência sem rumo, velocidade sem propósito, crise sem solução. Há uma sensação de frenesi que toma conta da vida social, prejudicando a nossa capacidade de controlar o nosso dia e criando uma desordem que consome o nosso tempo de lazer. Sem tempo livre, não é fácil encontrar tempo para construir uma comunidade (embora o enfraquecimento das políticas sociais em âmbito estatal tenha forçado as mulheres da classe trabalhadora a criarem estruturas de reprodução social que têm sido vitais para o seu papel em tantos movimentos de protesto da classe trabalhadora em nossa época). Sem tempo, é impossível construir poder organizacional nos locais de trabalho, bairros e comunidades.</p>
<p>As contradições do capitalismo geram lutas espontâneas, muitas vezes desencadeadas por baixos salários e más condições de trabalho, mas também pelas condições de reprodução social, como o acesso à água, ao espaço público e a alimentos e combustível a preços acessíveis. Essas lutas baseiam-se, por vezes, em redes sociais e relações construídas ao longo do tempo, mas também podem surgir de uma rápida deterioração das condições de trabalho e de vida, que geram um sentimento compartilhado com muitas outras pessoas.  Essas revoltas espontâneas — embora muitas vezes heroicas — são insuficientes; elas podem perturbar o presente sem uma organização disciplinada, mas raramente remodelam o futuro. Os exemplos das grandes revoluções são, todos, histórias de uma atividade revolucionária resiliente ao longo de períodos extensos, que preparou as comunidades, por meio da luta, para os grandes surtos que viraram o mundo de cabeça para baixo. As lutas espontâneas refletem raiva e injustiças genuínas. Elas podem ocupar as ruas e inspirar esperança, e também podem derrubar governos. No entanto, os registros históricos (como o caso do Egito em 2011) mostram que, sem continuidade e solidez organizacionais, esses momentos ficam vulneráveis à repressão, à cooptação e ao esgotamento. As classes proprietárias têm uma visão estratégica do tempo. Eles planejam, muitas vezes com décadas de antecedência. Os movimentos que atuam apenas no calor do momento do protesto acabam cedendo o terreno a longo prazo aos seus inimigos.</p>
<h4 style="margin:2em 0;"><em>Organização</em></h4>
<p>Ir além da imediatez requer organização, que pode assumir diversas formas — desde movimentos sociais mais difusos até partidos leninistas que adotam o centralismo democrático. O debate entre essas duas formas não é o tema central deste dossiê. O que queremos destacar aqui é a importância de como a organização política — em suas diversas formas — constitui um veículo por meio do qual o tempo é estruturado com fins emancipatórios. Partidos, frentes, sindicatos, organizações camponesas, associações de mulheres e movimentos de juventude desempenham papéis distintos, mas interligados. Os partidos de tipo leninista são capazes de elaborar programas de longo prazo e disputar o poder estatal. As organizações de massas podem integrar as lutas ao cotidiano e proporcionar continuidade às comunidades. As frentes podem promover a unidade entre forças diversas sem exigir uniformidade ideológica. A organização permite que a classe trabalhadora, fragmentada e oprimida, socialize o tempo de que dispõe e construa uma sociedade que, de outra forma, lhes teria sido roubada.</p>
<h4 style="margin:2em 0;"><em>Disciplina</em></h4>
<p><strong><em> </em></strong>A vantagem de um partido leninista reside na importância central que essa tradição atribui à disciplina. Disciplina não significa obediência nem rigidez burocrática, embora muitas vezes possa degenerar, aos poucos, nessas formas. Isso significa formar quadros politicamente instruídos e que compreendam a necessidade da forma partidária, os procedimentos coletivos necessários para construir um entendimento político comum ou um programa, as estruturas essenciais da liderança representativa dentro do partido e um compromisso absoluto com objetivos, estratégias e formas de prestação de contas em comum. A disciplina permite que as organizações economizem energia, aprendam com a experiência e resistam aos momentos de crise. Isso transforma a revolta em um projeto.</p>
<p>No centro de toda essa operação estão aqueles a quem chamamos de novos intelectuais, os defensores incansáveis de um projeto político oriundo da classe trabalhadora, do campesinato e dos movimentos populares (Instituto Tricontinental, 2019b). A tarefa deles é esclarecer, sintetizar e comunicar — traduzir a experiência vivida em estratégia política. Eles ajudam os movimentos a compreender não apenas contra o que estão lutando, mas também o que o futuro deve trazer.</p>
<h4 style="margin:2em 0;"><em>Internacionalismo</em></h4>
<p>Nenhuma ruptura com o capitalismo pode ser sustentada apenas dentro das fronteiras nacionais. O capital se organiza internacionalmente por meio das finanças, do comércio, dos blocos militares, das cadeias de abastecimento e das instituições ideológicas. As forças que buscam construir o futuro devem fazer o mesmo. O internacionalismo não é um complemento moral nem um gesto sentimental, mas uma necessidade prática enraizada na estrutura da economia mundial e na condição comum dos oprimidos. Isso significa estabelecer laços entre países e lutas, aprender com os processos revolucionários, defender a soberania contra o imperialismo e coordenar a educação política, as campanhas e as formas de solidariedade material. Sem o internacionalismo, as vitórias permanecem isoladas e vulneráveis. Com isso, as lutas nos âmbitos local, nacional e regional começam a adquirir a dimensão necessária para enfrentar um sistema global.</p>
<p>O futuro não pode ser capturado em um único instante. Isso deve ser construído com paciência, de forma coletiva e consciente. O tempo cria o espaço para a luta, a organização lhe dá forma, a disciplina lhe dá resistência e o internacionalismo lhe dá amplitude. Contra o futuro de exploração e exclusão planejado pela classe dominante, essas ferramentas permitem que os oprimidos planejem o seu próprio futuro — um futuro baseado na dignidade, na igualdade e na própria vida.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_142753" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-142753" class="size-full wp-image-142753 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_B-25-Varios-Argentina.jpg" alt="" width="950" height="256" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_B-25-Varios-Argentina.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_B-25-Varios-Argentina-300x81.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Web_B-25-Varios-Argentina-768x207.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-142753" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Alfredo Plank, Ignacio Colombres, Carlos Sessano, Juan Manuel Sánchez, e Nani Capurro (Argentina), <em>Che</em> (séries coletivas), 1968. Óleo sobre tela, 195 x 150 cm cada.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Parte 2: Construindo o futuro</h2>
<p><strong> </strong>O que deve ser construído para substituir o que existe atualmente? O futuro não pode limitar-se apenas à luta, à organização e à disciplina; ele também deve assumir uma forma concreta, institucional e internacional. Isso significa abordar questões como propriedade, planejamento, soberania e as formas de coordenação por meio das quais uma ordem social diferente pode ser sustentada.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Propriedade pública e planejamento</h3>
<p><strong> </strong>A questão do futuro é indissociável da questão da propriedade e da coordenação. No capitalismo, a propriedade privada dos meios de produção confere a uma pequena classe o poder de determinar o que é produzido, como é produzido e para quem é produzido. Esse poder não é exercido em benefício da sociedade como um todo, mas de acordo com os imperativos do lucro, da concorrência e da acumulação a curto prazo. O resultado é uma contradição profunda: as forças produtivas tornaram-se profundamente socializadas, enquanto o controle sobre elas continua sendo estritamente privado. O trabalho hoje já é coletivo e internacional, mas a base tecnológica e os excedentes econômicos desse esforço coletivo são apropriados por uma minoria. Qualquer discussão séria sobre um futuro socialista deve, portanto, enfrentar essa contradição por meio da transformação das relações de propriedade.</p>
<p>A propriedade pública não é simplesmente uma reorganização jurídica dos ativos, transferindo-os das mãos privadas para o Estado. O próprio Estado é um campo de luta de classes e deve ser reivindicado como uma ferramenta para orientar o rumo do desenvolvimento. Quando setores estratégicos como energia, transporte, finanças, terra, comunicações e indústria pesada são de propriedade pública, a sociedade ganha a capacidade de orientar a produção e a inovação para as necessidades coletivas, em vez de para a acumulação privada. O capitalismo distribui os recursos de forma sistematicamente inadequada, produzindo em excesso bens de luxo e indústrias destrutivas, enquanto se retira de serviços de assistência social, educação, saúde e habitação popular. A propriedade pública cria a base material para reorientar a produção para a reprodução social, o investimento de longo prazo e a prosperidade compartilhada.</p>
<p>O argumento a favor da propriedade pública também está relacionado à tecnologia. Sob a propriedade privada, o desenvolvimento tecnológico está subordinado à rentabilidade, aos monopólios de propriedade intelectual e à disciplina no trabalho. A inovação está voltada para reduzir custos, promover vigilância, militarização e apropriação do conhecimento, em vez de se concentrar na redução do tempo de trabalho socialmente necessário ou na melhoria do bem-estar coletivo. O controle democrático sobre as forças de produção permite que a tecnologia seja utilizada em prol do bem-estar social: para reduzir a jornada de trabalho, gerar empregos, ampliar os serviços públicos, aprimorar as competências humanas e diminuir os danos ecológicos. Os mesmos sistemas digitais e logísticos que o capitalismo utiliza para intensificar a exploração contêm em si o potencial para uma produção e distribuição racionais e humanas.</p>
<p>A ideologia capitalista apresenta o planejamento como algo inerentemente autoritário e ineficiente, ao mesmo tempo que exalta o mercado como um mecanismo neutro e democrático de coordenação. O capitalismo já é altamente planejado – mas é planejado para o interesse dos capitalistas. As empresas multinacionais, as instituições financeiras e as alianças militares realizam um extenso trabalho de planejamento interno, previsões de longo prazo e coordenação estratégica. O mercado não substitui o planejamento: ele fragmenta a tomada de decisões sociais, obscurece a responsabilidade e submete a vida coletiva à lógica estreita da acumulação. Os preços só transmitem sinais depois que os danos sociais e ecológicos já ocorreram. Os mercados recompensam a rentabilidade a curto prazo, e não a racionalidade social a longo prazo.</p>
<p>O planejamento socialista não se resume a uma imposição burocrática alheia à vida popular: trata-se de uma coordenação consciente e democrática do trabalho social ao longo do tempo. O planejamento é uma arma temporal contra o curto-prazismo capitalista. Isso permite que a sociedade estabeleça prioridades coletivas — como a descarbonização, a diversificação industrial, a soberania alimentar e a assistência universal — e mobilize recursos de acordo com elas. Isso permite equilibrar as regiões, os setores e as necessidades sociais, em vez de deixar o desenvolvimento à mercê dos resultados desiguais e destrutivos da concorrência de mercado. O planejamento é o meio pelo qual a sociedade pode agir com base no entendimento de que o futuro não é automático, mas deve ser construído de forma consciente.</p>
<p>É fundamental ressaltar que o planejamento não nega a democracia; ao contrário, exige a sua ampliação. Para que o planejamento seja emancipatório, ele deve estar enraizado na participação popular, sob o controle dos trabalhadores e em organizações de massa capazes de articular as necessidades sociais. A socialização do trabalho no capitalismo já exige coordenação em vastas redes; o socialismo busca tornar essa coordenação transparente, responsável e voltada para o desenvolvimento humano. Quando os trabalhadores, as comunidades e as instituições públicas participam da definição de metas e do acompanhamento dos resultados, o planejamento torna-se um processo de aprendizagem coletiva, em vez de uma imposição tecnocrática. É por meio desses processos que o excedente social pode ser conscientemente direcionado para a educação, a saúde, a habitação, a cultura e a restauração ecológica (Instituto Tricontinental, 2025c).</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Rumo a um novo internacionalismo</h3>
<p>Após a Segunda Guerra Mundial, a ascensão de um poderoso bloco socialista e as sucessivas ondas de descolonização prepararam o terreno para um internacionalismo enraizado na rejeição do imperialismo e do neocolonialismo. Foi marcado por uma tentativa de construir novos modelos econômicos e sociais, bem como uma nova arquitetura global (Instituto Tricontinental, 2025d, 2025h).</p>
<p>Esse internacionalismo entrou em colapso devido à crise da dívida, ao avanço do neoliberalismo e à queda da União Soviética e do bloco socialista. Em seu lugar, surgiu a falsa globalização imposta pelo FMI — a abertura dos mercados, a retirada do Estado dos setores produtivos, a eliminação dos controles de câmbio, a entrega de recursos e a subordinação acadêmica e cultural —, uma erosão generalizada da soberania.</p>
<p>Décadas após a queda da União Soviética, estão surgindo as condições objetivas para o surgimento de um novo internacionalismo. O Norte Global está passando por uma crise profunda, marcada pela desindustrialização e pela erosão da capacidade produtiva, ao mesmo tempo que a China e outros países do Sul Global emergem como os motores da economia global. A ascensão do BRICS, da Organização de Cooperação de Xangai e de outros fóruns bilaterais reflete essas mudanças nas condições objetivas.</p>
<p>No entanto, o Norte Global mantém o controle sobre a arquitetura global. A ONU e suas agências foram neutralizadas pelos EUA e seus aliados, como demonstrado pela escalada de ataques por todo o mundo, desde Gaza, Venezuela e Cuba até a República Democrática do Congo e o Irã. O FMI e o Banco Mundial continuam com a tirania do ajuste estrutural. As propostas climáticas deixaram a população na mão. A pandemia trouxe consigo o “<em>apartheid</em> vacinal”. Para piorar, muitas organizações multilaterais do Sul Global estão inertes ou contaminadas pela lógica neoliberal.</p>
<p>Os debates em torno de uma nova arquitetura global têm-se centrado na multipolaridade, que é limitada e limitante, pois reproduz o espírito da rivalidade da Guerra Fria. Em vez disso, o novo internacionalismo deve caracterizar-se pelo multilateralismo. Recuperar as Nações Unidas e defender a Carta das Nações Unidas como patrimônio comum dos povos do mundo são pontos fundamentais nessa questão. Tanto o Conselho de Segurança quanto a Assembleia Geral precisam de reformas, e os países do Sul Global devem trabalhar em prol de uma agenda comum para uma série de agências da ONU, desde a Organização Mundial da Saúde e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas até a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Há uma necessidade urgente de renovar a luta intelectual e política para definir e defender um programa popular para cada uma dessas organizações que reflita as aspirações do Sul Global.</p>
<p>A par de um multilateralismo renovado, as forças de esquerda e patrióticas devem apoiar e fortalecer as organizações regionais que perderam o rumo nos últimos 30 anos e, nos casos em que isso não for possível, defender a criação de novas organizações. As alianças econômicas, sociais e políticas que se formaram na América Latina durante a Onda Rosa da década de 2000 e início da década de 2010 continuam sendo um modelo do que é possível alcançar. Nos dias de hoje, a Aliança dos Estados do Sahel tem refletido um forte anseio em toda a África por uma integração mais sólida, ao mesmo tempo que resiste à lógica neocolonial da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao) (Instituto Tricontinental, 2025f). Os processos lançados pelo BRICS em diversas áreas — desde finanças, comércio e infraestrutura até ciência, tecnologia, saúde, educação, agricultura, cooperação climática e pesquisa — oferecem outro modelo para essas organizações regionais.</p>
<p>O novo internacionalismo começa com a defesa da soberania, mas não se limita a isso. Deve também incorporar uma visão internacionalista de um futuro baseado em relações sociais transformadas. Essa visão não pode ser concretizada por um único país – nem pode ser defendida apenas pelos Estados. É necessária a mobilização de movimentos em todo o mundo para transcender o capitalismo. Os socialistas devem construir pontes para o futuro, valorizando, aprendendo com e aproveitando projetos que tenham o potencial de alterar o equilíbrio de forças.</p>
<p>No entanto, nenhum programa, por mais necessário que seja, pode se sustentar sem uma força social capaz de levá-lo adiante e sem um horizonte capaz de animar a luta. Se o futuro deve ser construído por meio de instituições, senso de pertencimento, planejamento e coordenação internacional, ele também deve ser vivido como uma sensibilidade política. Essa sensibilidade é a esperança.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_142764" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-142764" class="size-full wp-image-142764 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/B-23-Lui%CC%81s-Gonza%CC%81lez-Palma-Guatemala.jpg" alt="" width="767" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/B-23-Luís-González-Palma-Guatemala.jpg 767w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/B-23-Luís-González-Palma-Guatemala-295x300.jpg 295w" sizes="auto, (max-width: 767px) 100vw, 767px"><p id="caption-attachment-142764" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Luis González Palma (Guatemala), <em>La Rosa</em> (A rosa), 1991. Impressão em gelatina de prata com tonalização e aplicação de cor, 47 x 48.5 cm.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Parte 3: Esperança</h2>
<p>Hoje, o capitalismo atravessa uma crise de legitimidade, uma vez que as suas ideias e os seus valores — individualismo, empreendedorismo, consumismo — já não proporcionam a mobilidade social e a prosperidade material há muito prometidas pelo neoliberalismo. Ao mesmo tempo, à medida que o bloco imperialista liderado pelos EUA vê o seu poder declinar – tanto econômica quanto politicamente —, ele redobra os seus esforços nas duas áreas em que esse poder permanece praticamente incontestado: a produção cultural e o poder militar. Embora sejam muito diferentes em suas formas de expressão, ambas têm o mesmo objetivo: preservar o presente e barrar o futuro. Por meio da agressão militar, o bloco liderado pelos EUA busca disciplinar qualquer país que se recuse a se submeter ao Consenso de Washington e aos interesses do capital privado, fechando qualquer horizonte político que rejeite a subordinação. Por meio de seu monopólio sobre os meios de produção cultural, ela busca não apenas controlar a informação — o que é aceito como verdade —, mas também moldar a cultura e os valores das massas dominadas. Ao fazer isso, limita o horizonte do que ousamos imaginar e, em última análise, do que ousamos esperar. Na ausência de esperança, a classe trabalhadora é assim empurrada para uma de duas posições políticas: ou é levada ao pessimismo implacável da extrema direita e condicionada a encarar com escárnio a própria ideia de um futuro diferente, ou é dominada por um derrotismo escapista que acredita que o futuro já está perdido.</p>
<p>Dois conceitos chineses de “futuro” ajudam a esclarecer o que está em jogo aqui. “未来” (wèilái), a palavra para futuro ou, literalmente, “o que ainda não chegou”, é composta por duas palavras: “未” (wèi) significa “ainda não” ou “não tem” e “来” (lái) significa “vir” ou “chegar”. Juntos, eles destacam a característica essencial do futuro, que é a incompletude, e o pessimismo e a esperança giram em torno dessa diferença: o futuro não está predeterminado. É uma possibilidade, e é aí que entra a ação humana.</p>
<p>Nesse contexto, a esperança torna-se um campo de batalha na luta entre ideias e emoções. É por isso que a esperança deve ser mais do que um sentimento, mas sim uma prática — uma prática construída por meio da educação popular e da cultura, enraizada na história e vivida ativamente em nosso dia a dia.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"> A batalha de ideias</h3>
<p><strong> </strong>A classe dominante se empenha em obscurecer as relações de classe e os interesses comuns das classes por meio da promoção de seus valores (individualismo, impiedade e conservadorismo). Essa lógica leva as classes dominadas a rejeitar, por reflexo, formas de atividade política, consideradas perda de tempo, irrealistas ou utópicas, e a considerar a ação coletiva como algo ingênuo ou perigoso. Nessas condições, não se pode esperar que a esperança surja de forma individual. Deve ser construída como uma prática que reabra o horizonte das possibilidades e conteste o “senso comum” cotidiano do presente capitalista.</p>
<p>A esperança deve, portanto, ser construída por meio de práticas políticas concretas que reabram o horizonte de possibilidades. Isso exige de nós:</p>
<p><strong>Estimular a imaginação política.</strong> As forças de esquerda devem tornar o futuro tangível, construindo formas alternativas de organização do trabalho e de relações sociais. A esperança no futuro pode ser mobilizada quando está ligada a ações concretas que transformam as condições materiais das pessoas no presente e quando a classe trabalhadora consegue se reconhecer como protagonista da história, em vez de espectadora das crises capitalistas.</p>
<p><strong>Ler para aprender, aprender para fazer.</strong> Ho Chi Minh disse: “Você pode ler mil livros, mas se não colocar em prática o que leu, não passa de uma estante de livros” (Minh, 1961, p. 496). A leitura torna-se uma prática de esperança quando está ligada à ação. O estudo deve ser coletivo e voltado para os problemas que as pessoas enfrentam em seus locais de trabalho, bairros e organizações. O importante não é a acumulação de conhecimento, mas o desenvolvimento de uma linguagem comum, de uma capacidade de análise e de uma confiança que possam ser postas à prova na prática.</p>
<p><strong>Desenvolver uma contracultura popular.</strong> Não é possível construir uma contraideologia sem uma contracultura. Isso significa criar formas de expressão cultural populares que quebrem o feitiço do individualismo e do pessimismo, que promovam a dignidade e tornem a solidariedade atraente, ao mesmo tempo que valorizam a cultura da classe trabalhadora.</p>
<p><strong>Comunicar o futuro.</strong> A esquerda deve traduzir seu programa para que possa ser transmitido de maneira didática. Didático não significa falar com superioridade; significa ser estratégico e comunicar com clareza propostas que estejam ligadas às experiências das pessoas e sejam transmitidas por meio de exemplos práticos. O objetivo é passar da abstração para a orientação, para que as pessoas possam compreender o que pode ser feito, por quem e com quais recursos (Instituto Tricontinental, 2025c).</p>
<p><strong>Voltar à origem.</strong> Resgatar a história e a cultura revolucionárias, bem como a história e a cultura em geral. A história é uma prática de esperança, pois rompe com a ideia de que o presente é eterno. Ao relembrar momentos de ruptura, de luta coletiva e de transformação, as pessoas recuperam a certeza de que a mudança é possível e aprendem como ela foi alcançada. A história não é nostalgia — é uma escola de estratégia, sacrifício e confiança (Instituto Tricontinental, 2024f).</p>
<p><strong>Tornar-se persuasores permanentes.</strong> A esquerda deve disputar todos os espaços coletivos para divulgar as ideias da classe trabalhadora. Deve estar presente onde quer que as pessoas se reúnam, não como um palestrante convidado, mas como uma força organizadora. O “novo intelectual” de Gramsci é um “construtor” e um “organizador”, um “persuasor permanente” enraizado na vida prática, e não na eloquência ocasional.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">A Batalha das Emoções</h3>
<p><strong> </strong>A classe dominante precisa trabalhar continuamente para canalizar o descontentamento generalizado que constitui a resposta racional à exploração e às privações inerentes à sociedade capitalista. O descontentamento é perigoso quando passa a ser organizado, quando conhece seu inimigo e quando responde com solidariedade. Por isso, é constantemente desviado da luta coletiva e direcionado para o medo, o ressentimento, o cinismo e a resignação. Hoje, essa luta é intensificada por um panorama de comunicação no qual a juventude da classe trabalhadora é atraída para espaços virtuais que promovem o individualismo, são projetados para capturar e monetizar sua atenção e esgotar sua capacidade cognitiva, e são controlados por forças da extrema direita (Assange, 2014; Foer, 2017). Nesses espaços, o descontentamento é captado e encontra um alívio temporário por meio de uma participação afetiva efêmera. O resultado não é o desaparecimento do descontentamento, mas sim sua gestão (lucrativa), fragmentando a classe trabalhadora em espectadores isolados e ensinando-os a confundir reação com política.</p>
<p>Neste contexto, precisamos transformar a raiva e a confusão em clareza, a clareza em esperança e a esperança em ação coletiva. Para isso, é necessário:</p>
<p><strong>Alfabetização midiática.</strong> A esquerda deve esclarecer a classe trabalhadora sobre a infraestrutura, os objetivos (intencionais e não intencionais) e a economia política dos espaços virtuais e das tecnologias. Isso significa tornar visível a diferença entre a participação controlada e o poder — entre publicar e organizar — e ensinar a classe trabalhadora a reconhecer como a classe dominante usa o seu monopólio sobre os espaços virtuais para controlar a informação, amplificar a indignação e normalizar o isolamento. O objetivo não é se afastar dos espaços virtuais, mas sim proporcionar às pessoas as ferramentas necessárias para interpretá-los, utilizá-los e reconhecer seus limites.</p>
<p><strong>A política tal como ela é.</strong> Ao mesmo tempo que aproveita os espaços virtuais para a educação e a mobilização, a esquerda deve criar canais de participação política em que as pessoas possam perceber a possibilidade real de transformar o presente para construir um futuro melhor. Isso requer momentos organizados de interação sem a mediação de algoritmos, nos quais as pessoas possam se encontrar, trocar ideias, organizar-se, tomar decisões, realizar tarefas coletivas e ver os resultados. O objetivo é passar de interações efêmeras baseadas em interesses limitados para uma organização de longo prazo baseada em interesses de classe comuns.</p>
<p><strong>Contravalores.</strong> A esquerda deve desenvolver valores socialistas e concretizá-los por meio da ação política. Isso significa transformar a solidariedade, o cuidado, a disciplina e o companheirismo em realidades no mundo, em vez de apenas palavras de ordem. Os valores ganham credibilidade quando se refletem na forma como nos organizamos: na maneira como tratamos uns aos outros, como trabalhamos juntos, como resolvemos divergências e como nos relacionamos com as comunidades que afirmamos servir. Em uma cultura que promove o individualismo impiedoso e o pessimismo, a promoção dos valores socialistas constitui, por si só, uma estratégia na batalha das emoções: ela oferece um vislumbre de uma forma diferente de convívio social e, portanto, uma noção clara de como será uma sociedade futura organizada em torno de valores distintos.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">A esperança como prática</h3>
<p>Se o futuro é 未来(<em>wèilái</em>) — o “ainda não” que está “por vir” —, então a esperança é a sensibilidade que mantém esse “ainda não” aberto e a prática que impede que ele seja selado pelo pessimismo, pelo espetáculo e pela resignação. A classe dominante trabalha para transformar <em>o futuro</em> em uma prisão, para eternizar o presente e para transformar o descontentamento capitalista em cinismo ou crueldade. Em contrapartida, nossa tradição insiste que a esperança não é um otimismo passivo ou uma mera expectativa, mas uma orientação militante em relação ao caráter inacabado do mundo, forjada nas lutas pela dignidade em todo o Sul Global. É perigoso precisamente por sua materialidade: desperta a consciência e leva as pessoas da mera resistência à ação.</p>
<p>É por isso que a esperança exige estrutura, disciplina e organização. Quando a cultura e as ideias de um povo em movimento impedem a reprodução do senso comum capitalista, elas podem se tornar fundamentais e decisivas, não como uma negação do materialismo, mas como a sua realização dialética. Nesse sentido, 大同 (dàtóng) – o estado utópico caracterizado pela “harmonia universal” – não é um ideal meramente simbólico, mas um horizonte que orienta a estratégia, enquanto 小康 (<em>xiǎokāng</em>, “sociedade moderadamente próspera”) designa as medidas concretas que permitem às pessoas se desenvolverem com recursos limitados, mas em condições de dignidade. A esperança se torna realidade quando transforma o 将来 (<em>jiānglái</em>, “o futuro”), o “que está por vir”, de uma promessa em um plano. A tarefa não é sonhar de forma abstrata, mas construir uma utopia concreta, enraizada em tendências reais e fortalecida pela prática, até que o “Ainda Não” se torne um futuro tangível que está sendo construído no presente.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_142775" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-142775" class="size-full wp-image-142775 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/B-10-Alfonso-Soteno-Me%CC%81xico..jpg" alt="" width="461" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/B-10-Alfonso-Soteno-México..jpg 461w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/B-10-Alfonso-Soteno-México.-177x300.jpg 177w" sizes="auto, (max-width: 461px) 100vw, 461px"><p id="caption-attachment-142775" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Alfonso Soteno Fernández (Metepec, Estado de México, México), <em>Árbol de la vida</em> (Árvore da Vida), 1975. Barro cozido em forno aberto, pintado com tinta vinílica envernizada, 6 m.</small></p></div>
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<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><strong> </strong>Assange, Julian. <em>When Google Met Wikileaks.</em> New York: OR Books, 2014.</p>
<p>Bloch, Ernst. <em>The Principle of Hope.</em> v. 1. Cambridge: MIT Press, 1986.</p>
<p>Bloch, Ernst. <em>The Spirit of Utopia.</em> Palo Alto: Stanford University Press, 2000.</p>
<p>Fischer, Mark. <em>Capitalist Realism: Is There No Alternative? </em>Winchester: Zero Books, 2009.</p>
<p>Foer, Franklin. <em>“World Without Mind”:</em> The Existential Threat of Big Tech. New York: Penguin Press, 2017.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, “A Arte da Revolução será Internacionalista”, dossiê n. 15, 8 abr. 2019a. Disponível em: <u>https://thetricontinental.org/the-art-of-the-revolution-will-be-internationalist/</u>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “O novo intelectual”, dossiê n. 12, 11 fev. 2019b. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/o-novo-intelectual/">https://thetricontinental.org/the-new-intellectual/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “A serviço do povo: a erradicação da pobreza extrema na China”. <em>Estudos sobre a Construção Socialista n. 1</em>, 23 jul. 2021a. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/estudos-1-socialismo-em-construcao/">https://thetricontinental.org/studies-1-socialist-construction/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Big Techs e os desafios atuais para a luta de classes”, dossiê n. 46, 1 nov. 2021b. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossier-46-big-tech/">https://thetricontinental.org/dossier-46-big-tech/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Amanhecer: marxismo e libertação nacional”, dossiê n. 37, 8 fev. 2021c. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossier-37-marxismo-e-libertacao-nacional/">https://thetricontinental.org/dossier-37-marxism-and-national-liberation/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Vida ou dívida: o limiar estrangulador do neocolonialismo e a busca por alternativas na África”, dossiê n. 63, 9 jun. 2023. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-63-crise-da-divida-africana/">https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-63-crise-da-divida-africana/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Dez teses sobre uma extrema direita de um tipo especial”. Carta semanal 33 (2024), 15 ago. 2024a. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/dez-teses-sobre-a-extrema-direita-de-um-tipo-especial/">https://thetricontinental.org/newsletterissue/ten-theses-on-the-far-right-of-a-special-type/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “A organização política do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)”, dossiê n. 75, 16 abr. 2024b. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-75-movimento-dos-trabalhadores-rurais-sem-terra-brasil/">https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-75-movimento-dos-trabalhadores-rurais-sem-terra-brasil/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Como o neoliberalismo usou a ‘corrupção’ para privatizar a vida na África”, dossiê n. 82, 24 nov. 2024c. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-como-o-neoliberalismo-usou-a-corrupcao-para-privatizar-a-africa/">https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-como-o-neoliberalismo-usou-a-corrupcao-para-privatizar-a-africa/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “O falso conceito de populismo e os desafios para a esquerda: Uma análise conjuntural da política no Atlântico Norte”, dossiê n. 83, 17 dez. 2024d. Disponível em:<a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-falso-conceito-de-populismo/">https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-falso-conceito-de-populismo/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Os congoleses lutam pela sua própria riqueza”, dossiê n. 77, 25 jun. 2024e. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-77-congoleses-lutam-por-sua-propria-riqueza/">https://thetricontinental.org/dossier-77-the-congolese-fight-for-their-own-wealth/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Cabral: A Revolutionary of Double Belonging: The Ninth Pan-Africa Newsletter (2024)”. 27 set. 2024f. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pan-africa/newsletterissue-cabral-centenary/">https://thetricontinental.org/pan-africa/newsletterissue-cabral-centenary/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Hiperimperialismo: um novo estágio decadente e perigoso”. <em>Estudos sobre dilemas contemporâneos n. 4</em>, 23 jan. 2024g. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo/">https://thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Guerra imperialista e resistência feminista no Sul Global”, dossiê n. 86, 5 mar. 2025a, <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-guerra-imperialista-resistencias-feministas/">https://thetricontinental.org/dossier-imperialist-war-and-feminist-resistance-in-the-global-south/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “O 80º Aniversário da vitória na Guerra Mundial Antifascista, compreendendo quem salvou a humanidade: Uma história Restauracionista”. <em>Dilemas Contemporâneos n. 5</em>, 12 nov. 2025b. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/estudos-em-dilemas-contemporaneos-5-guerra-antifascista/">https://thetricontinental.org/the-80th-anniversary-of-the-victory-in-the-world-anti-fascist-war/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Rumo a uma nova teoria do desenvolvimento para o Sul Global”, dossiê n. 84, 14 jan. 2025c. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-nova-teoria-marxista-desenvolvimento/">https://thetricontinental.org/towards-a-new-development-theory-for-the-global-south/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “O espírito de Bandung”. Dossiê n. 87, 8 abr. 2025d. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-bandung-conferencia/">https://thetricontinental.org/dossier-the-bandung-spirit/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.  “Otan: A Organização Mais Perigosa do Mundo”. Dossiê n. 89, 10 jun. 2025e. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-otan-a-organizacao-mais-perigosa/">https://thetricontinental.org/dossier-nato-the-most-dangerous-organisation/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “O Sahel em busca de soberania”. Dossiê n. 91, 12 ago. 2025f. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-sahel-alianca-soberania/">https://thetricontinental.org/dossier-sahel-alliance-sovereignty/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “A crise ambiental como parte da crise do capital”. Dossiê n. 93, 14 out. 2025g. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-crise-ambiental/">https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-crise-ambiental/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “O imperialismo será inevitavelmente derrotado: o ressurgimento do Espírito Tricontinental”. Dossiê n. 95, 9 dez. 2025h. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-tricontinental-conferencia-60/">https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-tricontinental-conferencia-60/</a>.</p>
<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “A agenda antifeminista da extrema direita latino-americana”. Dossiê n. 98, 3 mar. 2026. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-agenda-direita-contra-mulheres/">https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-agenda-direita-contra-mulheres/</a>.</p>
<p>Marx, Karl. <em>O capital. Crítica da Economia Política</em>, v. 1, trad. Ben Fowkes. Londres: Penguin Books, 1976.</p>
<p>Minh, Ho Chi. “Modifying Working Methods”. <em>Selected Works</em>, v. 2. Hanoi: Foreign Languages Publishing House, 1961.</p>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Luta de classes e catástrofe climática no Sahel</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-luta-classes-clima-sahel/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Amilcar]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Apr 2026 08:00:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
		<category><![CDATA[Alliance of Sahel States]]></category>
		<category><![CDATA[Imperialism]]></category>
		<category><![CDATA[Mali]]></category>
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		<category><![CDATA[Aliança dos Estados do Sahel]]></category>
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					<description><![CDATA[O futuro não é o que virá amanhã, o tempo do calendário. É quando nossa jornada humana rompe com o realismo capitalista e entra em uma estrutura que nos permite resolver plenamente os dilemas humanos.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="single-post--content--text-small">As imagens deste dossiê, fotografadas por Pedro Stropasolas em 2025 para a reportagem do <em>Brasil de Fato</em> “<a href="https://www.brasildefato.com.br/2025/11/08/entenda-como-a-agroecologia-e-um-dos-pilares-da-revolucao-agricola-em-burkina-faso/">Como Burkina Faso está vencendo o deserto com agroecologia</a>”, retratam trabalhadoras da Associação de Mulheres Watinoma, em Burkina Faso.<a href="#_prol_ftn1" name="_prol_ftnref1"><sup>1</sup></a></p>
<p class="single-post--content--text-small">Por meio dessas imagens, com as paisagens editadas, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social evidencia os esforços coletivos dessas trabalhadoras para recuperar e regenerar a terra. Essas fotografias testemunham não apenas o trabalho cotidiano, mas também a solidariedade, o conhecimento e a esperança obstinada que o tornam possível.</p>
<hr class="single-post--content--separator-narrow">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image-framed single-post--content--image-framed-v" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138845" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138845" class="size-full wp-image-138845 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Women-singing.jpg" alt="" width="950" height="534" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Women-singing.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Women-singing-300x169.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Women-singing-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-138845" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Em Koubri, cerca de 40 quilômetros de Uagadugu, capital de Burkina Faso, o canto marca o início do trabalho diário das 30 mulheres da Associação Feminina de Watinoma.</small></p></div>
</div>
<p>Desde a era colonial, os conflitos na África têm sido explicados por todas as categorias imagináveis — antagonismo tribal, ódio étnico, extremismo religioso, falhas de governança, pressão populacional e escassez de recursos, para citar algumas —, exceto por aquela que está na base de todas elas: classe. Embora essas categorias, sem dúvida, moldem as contradições da África, elas não podem ser explicadas sem uma avaliação das relações de produção. Cada período da história pós-colonial da África produziu novas explicações que compartilham uma característica em comum: o apagamento sistemático de como a extração imperial e a exploração de classe organizam a violência e reproduzem a instabilidade.</p>
<p>Muitos, incluindo setores no interior das lutas anticoloniais, insistiram que as categorias de análise de classe e luta de classes não se aplicam à África porque uma sociedade baseada em classes não teria se formado no continente. Há cinquenta anos, o livro <em>Class Struggles in Tanzania,</em> de Issa Shivji, apresentou dois argumentos principais que contestaram essa tese:</p>
<ol>
<li>As relações capitalistas de produção no continente africano dividiram as populações em classes, remodelando outras relações sociais — étnicas, de parentesco, comunitárias — por meio das pressões da formação de classes.</li>
<li>Portanto, classe social, enquanto categoria, é analiticamente necessária para compreender a realidade africana (Shivji, 2025).</li>
</ol>
<p>Em <em>Salvadores e Sobreviventes</em>, Mahmood Mamdani (2009) argumentou que a guerra em Darfur não pode ser compreendida sem considerar a reorganização colonial da terra e da identidade política, particularmente a divisão entre tribos com pátrias reconhecidas (<em>dars</em>) e aquelas sem. Ele mostrou como essas divisões, combinadas com a desertificação e a intensificação da competição por recursos, exacerbaram as tensões de classe e a violência, especialmente à medida que a região do Sahel se tornava cada vez mais árida.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>2</sup></a></p>
<p>Embora as mudanças climáticas desempenhem um papel inegável nas transformações da região, a estrutura dominante de “conflito climático” rotineiramente — e de maneira falsa — enquadra a escassez de recursos impulsionada pelo clima como a raiz da violência e da instabilidade no Sahel.</p>
<p>A arquitetura institucional da estrutura do “conflito climático” consolidou-se na década de 2010. O relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente <em>Segurança de subsistência: mudanças climáticas, migração e conflito no Sahel </em>identificou as mudanças climáticas como um “multiplicador de ameaças” que impulsiona o conflito entre agricultores e pastores, enquanto o debate do Conselho de Segurança da ONU em 2018 sobre os riscos de segurança relacionados ao clima o posicionou como uma ameaça que exige resposta militar (Pnuma, 2011; Conselho de Segurança da ONU, 2018). Esse discurso sobre o “nexo clima-segurança” emergiu durante um período marcado pela crise financeira global de 2008, pela destruição da Líbia pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em 2011 e pela subsequente militarização do Sahel por meio da expansão da presença militar dos EUA e da França — <em>contexto que a própria estrutura omite sistematicamente</em>.</p>
<p><em>Luta de classes e catástrofe climática no Sahel</em> argumenta que os conflitos crescentes na região só podem ser compreendidos se forem analisados com base na luta de classes, visto que operam dentro da economia política da extração imperialista: a catástrofe climática é um <em>acelerador </em>que intensifica contradições preexistentes — e não a sua <em>causa raiz</em>. A segunda parte do dossiê analisa detalhadamente os casos do Mali e do Sudão como exemplos dessas mudanças no Sahel.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<h2 style="margin:3em 0;">Parte I: A dessecação do Sahel e seu impacto político</h2>
<h3 style="margin:2em 0;">A catástrofe climática</h3>
<p>A palavra árabe <em>ṣaḥrāʾ </em>significa “deserto”, ou seja, um lugar árido com pouca chuva. No entanto, esse é um termo enganoso. Houve longos períodos, influenciados por mudanças na órbita da Terra e pela insolação solar,<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><sup>3</sup></a> em que o Saara experimentou fases pluviais. Um desses períodos, conhecido como “Saara Verde” ou “Período Úmido Africano”, abrangeu o final da última Era Glacial e o início do Holoceno, entre 14.800 e 5.500 anos atrás, quando lagos, rios, pastagens e savanas, bem como vegetação densa, estavam presentes no Saara e ao longo da borda sul do Sahel (termo oriundo da palavra árabe sāḥil, para “costa” ou “margem”). Nessa época, as sociedades se organizavam em torno do pastoralismo comunitário (rebanho nômade com acesso compartilhado à água e pastagens), adaptando-se às oscilações climáticas por meio da coordenação coletiva de movimentos, em vez de depender do controle privatizado de recursos (Adkins <em>et al</em>., 2000). Do século XVI ao XVIII, partes da franja do Sahel-Saara voltaram a experimentar condições úmidas, antes de entrarem em um longo ciclo de aridez no século XX (Spinage, 2012).</p>
<p>Embora essas “mudanças de regime”, como denominam os cientistas climáticos, tenham uma tendência de ocorrer de forma relativamente abrupta, seu ritmo nas últimas décadas acelerou muito mais rapidamente do que qualquer situação que o planeta tenha experimentado em períodos anteriores (Foley <em>et al</em>., 2003). De acordo com a avaliação das terras secas do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Ifad, na sigla em inglês) das Nações Unidas, nos últimos 30 anos a zona ecológica do Sahel deslocou-se de 50 a 200 quilômetros para o sul, levando a grandes perdas de biodiversidade e terras aráveis (Ifad, 2024). Embora o Período Úmido Africano seja geralmente considerado como tendo terminado “rapidamente” em termos paleoclimáticos, biomarcadores de cera vegetal de alta resolução e reconstruções do nível de lagos (registros de núcleos de sedimentos de granulação fina sobre mudanças passadas na precipitação e no balanço hídrico) mostram que a principal transição de condições úmidas para áridas abrangeu vários séculos, não décadas (Collins <em>et al</em>., 2017). “O passado”, como argumenta um artigo científico, “não é o futuro” (Claussen <em>et al</em>., 2003).<a href="#_ftn3" name="_ftnref3"><sup>4</sup></a></p>
<p>No Sahel, o recente aquecimento antropogênico (induzido pelo ser humano) e as consequentes alterações nos padrões de precipitação ao longo de várias décadas estão ocorrendo em taxas sem precedentes claros no registro do Holoceno.<a href="#_ftn4" name="_ftnref4"><sup>5</sup></a> Estudos recentes mostram que o Sahel aqueceu cerca de 1,5 vez mais rápido que a média global nas últimas décadas, apesar de contribuir com menos de 1% das emissões globais de gases de efeito estufa (por exemplo, a África foi responsável por menos de 3% das emissões globais cumulativas de CO₂ entre 1750 e 2021, enquanto a África Subsaariana, excluindo a África do Sul, contribuiu com apenas 0,6%). Em contraste, os Estados Unidos, que estão aquecendo a uma taxa semelhante (1,6 vez mais rápido que a média global), são responsáveis por 25% das emissões globais (Eboreime <em>et al</em>., 2025; Ritchie, 2023). O sexto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (2023) confirma com “alta confiança” que: 1) a temperatura da África aumentou mais rapidamente do que a de qualquer outra região do mundo; 2) o aquecimento contínuo acelerará as temperaturas extremas e, principalmente; 3) que “as mudanças climáticas induzidas pelo ser humano [têm sido] o principal fator” (IPCC, 2021).</p>
<p>Essas descobertas não são novas. Um artigo científico de 2001, por exemplo, mostrou que o Sahel “fornece o exemplo mais dramático em todo o mundo de variabilidade climática medida direta e quantitativamente” (Hulme, 2001). Entre o início da década de 1980 e o final da década de 1990, a região do Sahel registrou um aumento nas chuvas e na vegetação, recuperando-se da severa seca das duas décadas anteriores. No entanto, a partir de 1999, as tendências de crescimento se estabilizaram (Chen <em>et al</em>., 2020). Embora estudos anteriores tenham sugerido que as severas secas que ocorreram do final da década de 1960 até a década de 1980 foram causadas pelo desmatamento — o que ainda é uma preocupação —, dados e análises mais precisos mostram que a variabilidade das chuvas no Sahel é causada pelo aumento da temperatura da superfície do mar no Mediterrâneo, no Atlântico Norte e nos oceanos tropicais. Em outras palavras, essa variabilidade se deve às tendências gerais do aquecimento antropogênico, em grande parte resultado das emissões industriais de gases de efeito estufa do Ocidente (Park <em>et al</em>., 2016). Futuras mudanças climáticas, incluindo aquelas influenciadas por alterações oceânicas, podem facilmente reverter ou desestabilizar ainda mais esse frágil equilíbrio no Sahel.<a href="#_ftn5" name="_ftnref5"><sup>6</sup></a></p>
<p>Os padrões climáticos oscilantes no Sahel também causaram problemas no lençol freático, alimentando conflitos entre diferentes comunidades. Análises estatísticas de longo prazo dos padrões climáticos mostraram uma forte recuperação após as secas, seguida de uma estabilização, indicando que não houve uma recuperação permanente. Essa estabilização também é amplamente atribuída ao aumento da temperatura da superfície do mar, impulsionado pelas emissões industriais globais concentradas no Norte Global (Chen, 2019; Saley &amp; Salack, 2023; Salack <em>et al</em>., 2018). Utilizando o Índice de Precipitação do Sahel, derivado de observações pluviométricas, esses estudos mostram que o que mudou foi a <em>natureza </em>da precipitação: as chuvas agora são mais intensas, porém intermitentes, resultando em padrões climáticos mais extremos, incluindo tanto inundações quanto secas.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image-framed single-post--content--image-framed-v" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138864" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138864" class="size-full wp-image-138864 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Mother.jpg" alt="" width="950" height="627" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Mother.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Mother-300x198.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Mother-768x507.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-138864" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Em um terreno de mais de dois hectares, cerca de 30 mulheres cultivam alimentos com práticas agroecológicas que abastecem suas famílias, além de escolas e mercados locais da região de Koubri.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">A catástrofe social e econômica</h3>
<p>Com as temperaturas no Sahel subindo 1,5 vez mais rápido que a média global, a agricultura e o pastoralismo têm sofrido forte pressão (Doblas-Reyes <em>et al</em>., 2021). Uma alta correlação foi documentada entre a disponibilidade de chuvas no Sahel e a produtividade de culturas básicas de que contam exclusivamente com a água da chuva, como o milheto e o sorgo (Sultan &amp; Gaetani, 2016). Há fortes evidências científicas de que os pastores no Sahel enfrentam uma diminuição na disponibilidade de pastagens devido ao aquecimento global e ao atraso das chuvas. Como resultado, eles precisam migrar por distâncias maiores, muitas vezes para territórios de pastagem desconhecidos. Pesquisas recentes sobre o pastoralismo no Sahel mostram que o aumento das temperaturas, as chuvas irregulares e a degradação do solo estão reduzindo as áreas de pastagem acessíveis e forçando os pastores a estender sua mobilidade sazonal. Uma síntese de 2025 sobre clima e meios de subsistência pastoris observa que, no Sahel, a redução da disponibilidade de pastagens devido ao aquecimento global e às chuvas irregulares está estimulando os pastores a migrações forçadas mais longas por territórios desconhecidos em busca de pastagens e fontes de água cada vez mais escassas, remodelando assim os calendários e rotas tradicionais de transumância (os corredores habituais ou demarcados usados para os movimentos sazonais de gado entre áreas de pastagem e pontos de água) (Awazi, 2025, p. 85). Estudos anteriores da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) documentaram de forma semelhante que a redução da disponibilidade de pastagens exigiu deslocamentos de maior distância e duração, com as rotas dos rebanhos se movendo para o sul, em direção a zonas mais úmidas e frequentemente desconhecidas (Ickowicz <em>et al</em>., 2012, p. 269).</p>
<p>Essa intensificação da mobilidade torna-se catastrófica não porque a mobilidade em si seja inerentemente prejudicial, mas porque os regimes de posse de terras coloniais e pós-coloniais desmantelaram as proteções legais para os corredores de transumância, o desenvolvimento pós-independência priorizou a agricultura sedentária e, a partir da década de 1980, décadas de ajuste estrutural corroeram a regulamentação pública da terra e da água (Instituto Tricontinental, 2023). Nessas condições, a mobilidade induzida pelo clima expõe cada vez mais os pastores mais pobres ao cercamento de terras, à extração de rendas, à criminalização e à violência, convertendo um estresse ecológico em uma crise de reprodução mediada por classes sociais.</p>
<p>Essas dinâmicas não são abstratas; suas consequências foram sentidas com maior intensidade nos corpos dos jovens. As secas do final da década de 1960 até a década de 1980, e os choques climáticos e ambientais que elas produziram, resultaram em graves crises alimentares e fome (Mortimore, 2010; Assaf <em>et al</em>., 2014). Pesquisas sobre clima e sistemas alimentares mostram que, mesmo quando as chuvas e as colheitas se recuperam, a deterioração da saúde das crianças a longo prazo tem sido drástica. Um estudo, por exemplo, relaciona o aumento das temperaturas, a diminuição das chuvas — bem como sua maior variabilidade — e a quebra das estações do ano ao baixo peso ao nascer e ao atraso no crescimento infantil, impulsionados por uma combinação de estresse térmico intrauterino e desnutrição resultante de repetidas perdas de colheitas e criações de animais. Onde predominam a agricultura de subsistência e a agricultura familiar, as perdas sazonais crônicas se traduzem diretamente em <em>déficits </em>de saúde duradouros (Davenport <em>et al</em>., 2017; Grace <em>et al</em>., 2015, 2018). Essa correlação entre a variabilidade climática e a saúde infantil reflete como os programas de ajuste estrutural (PAEs) do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) eliminaram as reservas de grãos, os insumos subsidiados e os serviços de extensão rural que antes protegiam contra as quebras de safra, ao mesmo tempo que impuseram uma agricultura de exportação que prioriza os mercados europeus em detrimento da segurança alimentar local.</p>
<p>Com a intensificação das mudanças climáticas, a crise da fome tem sido gradualmente acompanhada pela crise das doenças, levando a uma catástrofe política na região. Por exemplo, o foco epidêmico da malária deslocou-se para o norte, em direção à zona de transição entre o Sahel e o Sudão, com aumento das taxas de mortalidade entre crianças que não possuem imunidade à malária e outras doenças associadas (Caminade <em>et al</em>., 2014). Enquanto isso, houve uma intensificação das rebeliões tuaregues (<em>Amazigh</em>) no norte do Mali e do Níger, enraizadas em antigas queixas contra o Estado; das rebeliões islamistas resultantes da destruição da Líbia pelas mãos da Otan; e das tensões entre pastores e agricultores sedentários. Da insegurança alimentar aos surtos de doenças, a região mergulhou em conflitos violentos, provocando migração interna e transfronteiriça, bem como deslocamento em massa e rápida urbanização (Cattaneo &amp; Massetti, 2015; Conte, 2023; Henderson <em>et al</em>., 2015).</p>
<h3 style="margin:2em 0;">A catástrofe política</h3>
<p>Com a intensificação das secas, a irregularidade das chuvas e o colapso dos meios de subsistência agrários e pastoris, toda a ordem social e política passa a ser remodelada. O rareamento das pastagens e a redução das fontes de água têm levado agricultores e pastores a confrontos cada vez mais violentos. À medida que as rotas de pastoreio secam e os poços falham, os pastores são forçados a avançar cada vez mais sobre as terras agrícolas, enquanto os agricultores — enfrentando o declínio de suas próprias colheitas — tornam-se menos dispostos a acomodar rebanhos nômades na ausência de uma mediação eficaz. Essa intensificação da competição não ocorre isoladamente: as mudanças nos padrões climáticos tornam os recursos vitais mais escassos em regimes fundiários moldados pela desapropriação colonial, pela tendência do Estado pós-colonial de favorecer a agricultura sedentária e pela erosão da regulamentação pública (Benjaminsen, 2016).</p>
<p>Essas tensões localizadas se intensificam em crises nacionais precisamente porque os Estados do Sahel — enfraquecidos por décadas de marginalização, desenvolvimento desigual e reestruturação econômica imposta externamente — não têm capacidade para lidar com essas pressões. Em regiões periféricas como o norte do Mali, Níger e Chade — onde a presença do Estado tem sido mínima há muito tempo —, os choques climáticos interagem com o subinvestimento crônico, corroendo ainda mais a já frágil capacidade estatal. A incapacidade do Estado de fornecer acesso à água, gerir pastagens e proteger a população da violência durante períodos de seca mina sua legitimidade, aprofunda o ressentimento e acelera a fragmentação política, instrumentalizando identidades religiosas e étnicas (Buhaug &amp; Uexkull, 2021). Esse vácuo de autoridade, moldado pelo recuo do Estado e pela negligência política, oferece terreno fértil para grupos armados, particularmente sob as condições criadas pelo estresse ecológico. Movimentos insurgentes, desde redes jihadistas do Sahel até o Boko Haram, aprenderam a explorar a crise ecológica como uma oportunidade para expansão política. Quando as pessoas perdem gado, plantações ou renda devido à seca, tornam-se mais vulneráveis ao recrutamento — não porque essa ideologia se torne repentinamente irresistível, mas porque os grupos armados oferecem uma aparência de sustento, proteção e resolução de conflitos. Estudos realizados no Quênia, Mali e norte da Nigéria mostram que o colapso dos meios de subsistência induzido pelas mudanças climáticas aumenta a probabilidade de jovens se juntarem a grupos armados, com evidências da Nigéria demonstrando picos de recrutamento em regiões afetadas pela seca (Zougmoré <em>et al</em>., 2011). A crise climática, portanto, remodela o campo de batalha político: grupos armados entram em cena onde o Estado recua, muitas vezes fornecendo acesso à água, arbitrando conflitos locais ou distribuindo os espólios — funções que podem mimetizar a governança.</p>
<p>Contudo, o colapso de mecanismos de adaptação de longa data não é apenas institucional, mas também cultural e político. Os povos do Sahel desenvolveram, ao longo de muito tempo, sistemas complexos de conhecimento para interpretar os ciclos ecológicos, prever as chuvas e coordenar os movimentos dos rebanhos em vastos e inóspitos territórios. Esses não eram meros costumes; eram formas de governança enraizadas em rituais, obrigações sociais e acordos intercomunitários. A volatilidade climática desestabilizou esses sistemas de conhecimento, cujo funcionamento dependia de ritmos ecológicos relativamente previsíveis. As chuvas irregulares tornam os calendários agrícolas autóctones pouco confiáveis, enquanto os ciclos de pastoreio interrompidos forçam os pastores a abandonar rotas migratórias ancestrais (Carney, 1993; Nébié <em>et al</em>., 2024). À medida que essas tecnologias culturais se desfazem, as comunidades perdem a capacidade de autorregular o uso de recursos, criando mais oportunidades para conflitos e deslegitimando ainda mais tanto as autoridades tradicionais quanto as instituições estatais.</p>
<p>Mulheres e meninas estão no centro desta crise climática e política interligada, embora suas experiências sejam frequentemente classificadas erroneamente como sociais em vez de políticas. À medida que a água e a lenha se tornam mais escassas, as mulheres precisam caminhar distâncias maiores diariamente, reduzindo o tempo disponível para participação econômica ou cívica (Cools &amp; Kotsdam, 2017). Os impactos climáticos podem levar as famílias a tirar as meninas da escola ou a forçá-las a casamentos precoces — um retrocesso que enfraquece ainda mais os alicerces sociais da participação democrática e da igualdade de gênero. Há também evidências de que o estresse econômico causado pela seca está correlacionado ao aumento da violência doméstica (Benjaminsen &amp; Ba, 2021). Essas pressões restringem a atuação política das mulheres e sua capacidade de participar da tomada de decisões comunitárias, da construção da paz ou da governança local. As mudanças climáticas, portanto, não estão apenas remodelando as paisagens físicas, mas também reduzindo o espaço político para metade da população.</p>
<p>Em conjunto, as dinâmicas descritas acima — conflitos por recursos, erosão da autoridade estatal, expansão de grupos armados, colapso de sistemas de governança não estatais e redução da capacidade política das mulheres — formam uma crise política interligada, na qual o estresse climático intensifica contradições enraizadas na intervenção imperialista, no desenvolvimento desigual e no enfraquecimento das instituições públicas e comunitárias. As mudanças climáticas não operam como um choque externo, mas como uma força que reorganiza o poder, remodelando as lutas por terra, mobilidade e autoridade em todo o Sahel. Esses processos não se desenrolam uniformemente em toda a região; são mediados por histórias nacionais, trajetórias estatais e escolhas políticas. Para entender como a crise climática se torna uma crise política na prática, é necessário, portanto, examinar essas dinâmicas no contexto de países específicos. A menos que a justiça climática, a adaptação equitativa e o fortalecimento das instituições sociais sejam colocados no centro da estratégia política da região, a espiral descendente continuará, transformando o choque climático em convulsão política e a degradação ambiental em colapso estatal.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image-framed single-post--content--image-framed-v" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138875" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138875" class="size-full wp-image-138875 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Jewelry.jpg" alt="" width="950" height="534" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Jewelry.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Jewelry-300x169.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Jewelry-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-138875" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>O cultivo de milho orgânico tornou-se parte da resistência camponesa à expansão das sementes geneticamente modificadas em Burkina Faso, um movimento impulsionado em defesa da soberania alimentar.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Parte II: Mali e Sudão</h2>
<h3 style="margin:2em 0;">Mali</h3>
<p>Antes da invasão francesa da região da Curva do Rio Níger na década de 1890, as sociedades da África Ocidental já haviam desenvolvido sistemas para governar a terra, a água e a mobilidade pastoral. No Mali, manuscritos de Timbuktu, produzidos entre os séculos XV e XIX, vinculavam a legitimidade política à proteção dos meios de subsistência, combinando o raciocínio jurídico com a observação astronômica para antecipar as chuvas e inundações sazonais.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6"><sup>7</sup></a> O <sup> </sup>Império Macina (1818-1862) formalizou posteriormente essa abordagem por meio do <em>dina </em>(um código legal abrangente que regulamentava o uso da vasta planície aluvial sazonal do Rio Níger — o Delta Interior do Níger — entre pastores fulani, agricultores dogon e bambara e pescadores bozo). Esse sistema era supervisionado por uma hierarquia de autoridades, incluindo chefes pastoris conhecidos como <em>jowros, </em>que coordenavam a entrada sazonal de gado, mantinham corredores de pastoreio e mediavam conflitos de recursos com base nos padrões de inundação observados (Benjaminsen &amp; Ba, 2021).</p>
<p>Esses manuscritos e sistemas de governança mostram que a gestão de recursos e do meio ambiente no Mali era inseparável da legitimidade política, da obrigação social e do trabalho produtivo, em vez de ser tratada como um problema técnico de segurança. O estresse ambiental era entendido como fracasso político quando os governantes não protegiam os meios de subsistência. O que hoje é descrito como “conflito climático” é, na verdade, o resultado da destruição sistemática da capacidade estatal necessária para administrar os sistemas regulatórios — primeiro pelo colonialismo francês, depois pela formação do Estado neocolonial e, hoje, intensificada pelas mudanças climáticas antropogênicas que operam dentro de estruturas de desenvolvimento estagnado.</p>
<p>O colonialismo francês desmantelou a capacidade regulatória das instituições existentes, preservando, ao mesmo tempo, suas funções extrativistas. No Mali, a legislação fundiária estatutária retirou o reconhecimento legal dos chefes pastoris, embora continuasse a utilizá-los para controlar o acesso às terras pastoris e cobrar taxas, criando uma situação de dupla ilegitimidade, uma vez que perderam tanto a autoridade consuetudinária quanto a legal. Ao reconhecer apenas títulos de propriedade individuais, a legislação fundiária colonial subordinou os direitos consuetudinários e pastoris de uso da terra, privilegiando a agricultura sedentária e tornando o pastoralismo nômade juridicamente precário.</p>
<p>O primeiro presidente do Mali, Modibo Keïta (1960-1968), desafiou essa herança. Inspirado pelo socialismo do Terceiro Mundo, seu governo retirou-se da Comunidade Francesa,<a href="#_ftn7" name="_ftnref7"><sup>8</sup></a> abandonou o sistema monetário apoiado pela França, conhecido como zona do franco CFA, nacionalizou indústrias-chave e buscou o desenvolvimento liderado pelo Estado. Visava, assim, restaurar a autoridade pública sobre a terra e os recursos em um contexto de crescente variabilidade ambiental, incluindo esforços para restringir o poder político das elites pastoris intermediárias. Isso incluiu a rejeição de projetos apoiados pela França para externalizar o controle de recursos nas regiões desérticas do Mali — principalmente a <em>Organisation Commune des Régions</em><em> Sahariennes</em> [Organização Conjunta das Regiões do Saara], um projeto francês do final do período colonial que buscava manter o controle sobre o território e os recursos do Saara além das fronteiras coloniais, fomentando divisões entre grupos étnicos.</p>
<p>O governo militar de Moussa Traoré (1968-1991), que depôs Keïta em um golpe de Estado em 1968, reverteu essas medidas e restaurou o papel privilegiado das empresas e do setor financeiro francês no comércio, na área bancária e nas licitações públicas na década de 1980. Essa restauração do privilégio comercial francês revelou a função do regime de Traoré dentro do sistema da Françafrique (uma matriz informal de mecanismos políticos e econômicos franceses de controle em suas antigas colônias africanas). Assim como ocorreu com outros líderes nacionalistas radicais na África francófona, o desafio de Keïta ao controle neocolonial foi abruptamente interrompido.</p>
<p>Sob o governo de Traoré, os chefes pastoris foram gradualmente reabilitados, mas dentro de estruturas legais e administrativas que haviam perdido sua função de coordenação justamente quando a variabilidade ambiental se intensificou. Os códigos fundiários reconheciam apenas títulos de propriedade individuais, reduzindo os direitos consuetudinários a direitos de uso frágeis e transformando os chefes pastoris de gestores de recursos em agentes de extração de renda. À medida que as chuvas se tornaram cada vez mais irregulares após as secas do final da década de 1960 até a década de 1980 e a “recuperação” parcial na década de 1990, que se estabilizou em 1999, o acesso a corredores de pastoreio e pastagens de várzea tornou-se mais disputado, permitindo que os políticos redefinissem a entrada de gado como uma fonte de receita. Embora os chefes pastoris permanecessem responsáveis pela gestão desses corredores, eles não tinham autoridade legal sobre eles e tornaram-se dependentes de funcionários do governo local que controlavam o acesso e extraíam rendas. O aumento das taxas de acesso às pastagens de várzea, impulsionado pela necessidade de financiar subornos a funcionários locais, onerou desproporcionalmente os pastores de terras secas. Ao contrário dos agropecuaristas, eles não tinham terras agrícolas para recorrer, e seus rebanhos dependiam do acesso sazonal aos pastos aluviais do delta. Enquanto isso, agências estatais como o Escritório de Desenvolvimento do Arroz de Mopti (Office Riz Mopti Rice) confiscaram pastagens ricas em nutrientes sem fornecer compensação significativa pela perda do acesso ao pasto. Às comunidades pastoris que nominalmente serviam, os tribunais emitiam decisões deliberadamente ambíguas em meio a subornos generalizados, perpetuando conflitos para garantir a extração contínua. Embora as instituições de governança pastoril formalmente permanecessem, sua capacidade de coordenar terra, água e mobilidade sob crescente pressão climática foi sistematicamente desmantelada (Benjaminsen &amp; Ba, 2021).</p>
<p>Os programas de ajustamento estrutural (PAE) foram implementados a partir de 1988 e aprofundados ao longo da década de 1990. A crise foi agravada pelo desmantelamento da capacidade do Estado de regular a terra, a água e a mobilidade, precisamente quando a variabilidade das chuvas se intensificou. As condicionalidades do Banco Mundial e do FMI reduziram o número de funcionários de extensão rural e veterinária, eliminaram os subsídios aos insumos (com aumentos acentuados nos preços dos fertilizantes), privatizaram a manutenção dos pontos de água e impuseram uma desvalorização cambial de 50% em 1994, levando ao colapso da infraestrutura rural e à imposição de uma comercialização voltada para a exportação (Banco Mundial, 1996; FMI, 1998; Inter-réseaux, 2020). Com o desaparecimento da capacidade de mediação, a competição pela terra se intensificou e a mobilidade pastoral foi criminalizada, gerando uma extração contínua de rendas das economias pastoris. Os pastores fulani de classe baixa foram sistematicamente desapropriados, enquanto funcionários do Estado e elites pastoris acumulavam riquezas. A governança pastoral foi convertida em um mecanismo de extração. As mudanças climáticas intensificaram essas condições, reduzindo as pastagens disponíveis, aumentando a importância do controle de acesso e forçando migrações mais longas para territórios desconhecidos, onde a extração predatória era mais facilmente imposta (Benjaminsen &amp; Ba, 2019).</p>
<p>Com o afastamento do Estado de suas funções de governança, grupos armados — atuando não como movimentos de libertação, mas como atores que exploravam o vácuo deixado pelo colapso institucional — passaram a abordar as queixas materiais que nenhuma autoridade política se dispunha a enfrentar. Entre 2015 e 2018, a Katiba Macina (Frente de Libertação de Macina) — um grupo jihadista armado formado em 2015, cuja base era composta principalmente por pastores fulani marginalizados e que, a partir de 2017, operava sob a égide do Jama’at Nusrat ul- Islam wa al-Muslimin (Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos, JNIM), afiliado à Al-Qaeda — aboliu todas as taxas de pastoreio. Essas taxas eram impostas pelos chefes pastoris para obter acesso a pastagens aluviais ricas em nutrientes e consumiam uma parcela substancial da renda em dinheiro dos pastores (Benjaminsen, 2024). A abolição das taxas eliminou uma importante fonte de extração de renda, aliviando o fardo financeiro e melhorando o acesso às pastagens para os pastores de terras áridas. Para as famílias mais pobres, isso significou ajuda material imediata — muitas vezes a diferença entre a viabilidade e o desapossamento (Benjaminsen &amp; Ba, 2019).</p>
<p>Nesse contexto, a divisão de classes dentro das comunidades fulani e dogon moldou os padrões de mobilização armada. Entre os fulani, chefes pastoris ricos e proprietários de gado se opunham aos pastores pobres das terras áridas. As comunidades agrícolas dogon eram igualmente estratificadas entre proprietários de terras vinculados a programas estatais e agricultores com pouca terra que enfrentavam insegurança alimentar. As políticas estatais instrumentalizaram essas divisões de classe. No Escritório de Arroz de Mopti, as mudanças nos corredores pastoris e no acesso ao pasto favoreceram os fazendeiros ricos, muitas vezes sem uma compensação significativa para os pastores. Com a retirada das forças estatais das áreas rurais após 2015, as autoridades do país delegaram a segurança local às milícias de caçadores dozo (fraternidades tradicionais reaproveitadas como grupos armados), fornecendo-lhes treinamento, armas e apoio financeiro. A mais estruturada delas, a Dan Na Ambassagou, recrutava principalmente jovens dogon pobres, cuja desapropriação foi canalizada para a hostilidade étnica contra as comunidades fulani, em vez de contra as elites que desapropriavam ambas. As consequências foram devastadoras: no massacre de Ogossagou, em março de 2019, combatentes da Dan Na Ambassagou mataram aproximadamente 160 civis fulani — uma atrocidade que forçou a renúncia do primeiro-ministro, mas não resultou em responsabilização duradoura (Nsaibia, 2025).</p>
<p><strong> </strong>Embora o estresse climático não tenha criado essa divisão de classes, ele multiplicou seus efeitos: chuvas irregulares e pastagens degradadas tornaram o acesso oportuno ao delta ainda mais crucial, transformando taxas de exploração em barreiras existenciais. Foi essa intensificação da extração preexistente, e não a escassez em si, que levou os pastores à resistência armada.</p>
<p>Apesar de impor códigos sociais coercitivos — incluindo restrições à circulação de mulheres e violência contra dissidentes —, a Katiba Macina conseguiu resolver disputas de terras, regular o acesso ao pasto e exigir indenização por danos às plantações, exercendo funções de governança que o Estado neocolonial havia abandonado. O impacto econômico concreto da abolição das taxas ajuda a explicar por que os pastores de terras áridas apoiaram a Katiba Macina e, posteriormente, o JNIM de forma mais ampla, já que este atendia a reivindicações que nenhuma outra força política enfrentava. Depois que a Katiba Macina restabeleceu taxas menores em 2018, sob pressão dos <em>jowros </em>(governadores tradicionais), muitos pastores de terras áridas transferiram sua lealdade para o Dawlat <em>al-Islamiyah</em> (Estado Islâmico no Grande Saara, ISGS), uma nova facção alinhada ao Estado Islâmico formada no final de 2019, cujo apelo pela coletivização da terra e pelo fim dos pagamentos pelo acesso ao pasto atraiu diretamente os fulanis de classe baixa (Benjaminsen &amp; Ba, 2019).</p>
<p>A cisão entre o JNIM e o ISGS não se baseava em doutrina religiosa ou estratégias de adaptação climática — tratava-se da possibilidade de as elites fulani continuarem a extrair rendas dos pastores pobres. O apelo do ISGS pela coletivização da terra desafiou diretamente o poder de classe dos chefes pastoris, atraindo o apoio dos fulani de classe baixa que enfrentavam tanto o estresse ambiental quanto a exploração sistemática de classe. O estresse climático amplificou essas dinâmicas, tornando o acesso aos recursos mais crítico, mas a luta em si era uma disputa sobre quem definiria as regras de mobilidade, acesso a pastagens e compensação no delta. A narrativa de “conflito étnico” patrocinada pelo Estado serviu para obscurecer essas dinâmicas de classe. Ao apresentar a violência como um antagonismo primordial entre fulani e dogon, ela impede a solidariedade entre os agricultores e pastores pobres que sofrem com a exploração pelas mãos da elite e justifica as operações militares como uma forma de “contraterrorismo”.</p>
<p>Nesse contexto, a Aliança dos Estados do Sahel (AES) — formada em setembro de 2023 por Mali, Burkina Faso e Níger e formalizada como confederação em julho de 2024 — representa uma tentativa de romper com a dependência neocolonial e retomar o controle dos recursos, abrindo espaço para uma adaptação climática abrangente. Os documentos de planejamento do Mali – que incluem <em>a Estratégia Nacional para Emergência e Desenvolvimento Sustentável,</em> <em>2024-2033 </em>e o <em>Mali Kura ɲɛtaasira ka bɛn san 2063</em> <em>ma </em>(Um Novo Mali: Uma Visão para 2063) – enquadram explicitamente a soberania como um pré-requisito para a restauração ambiental e promovem políticas como o investimento público em infraestrutura pastoril e de irrigação, a restauração de corredores de pastagem e a priorização da soberania alimentar em detrimento da agricultura voltada para a exportação.</p>
<p>No entanto, a AES enfrenta desafios profundos, como dívidas herdadas, capacidade industrial limitada, conflitos armados em curso e a pressão francesa e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao). A dependência do Mali em relação a investidores estrangeiros levanta questões cruciais sobre se a AES será capaz de alcançar uma soberania genuína ou se cederá aos interesses do imperialismo francês. Não obstante, esta aliança ecoa o reconhecimento de Keïta de que as crises ambientais não podem ser enfrentadas sem confrontar o imperialismo.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image-framed single-post--content--image-framed-v" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138886" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138886" class="size-full wp-image-138886 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Water-structure.jpg" alt="" width="950" height="534" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Water-structure.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Water-structure-300x169.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Water-structure-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-138886" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Uma das conquistas da Associação de Mulheres Watinoma foi a instalação de um poço e de um reservatório de 15 m³ abastecido por painéis solares, garantindo acesso à água mesmo durante a estação seca.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Sudão</h3>
<p>Darfur, do árabe <em>Dār Fūr</em>, significa “terra natal do povo Fur”. No entanto, hoje, a palavra frequentemente evoca uma sensação de crises naturais persistentes. Rotulado como “o primeiro conflito climático do mundo” por organizações humanitárias, funcionários da ONU e analistas de política externa, essa designação apaga tanto quanto explica (Kamen, 2021). Quando o ex-secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou em 2007 que “o conflito de Darfur começou como uma crise ecológica, decorrente, pelo menos em parte, das mudanças climáticas”, ele realizou um truque de mágica familiar: reconheceu o estresse ambiental enquanto deixava de lado sistematicamente a economia política que transformou a seca em genocídio. A narrativa (Ki-moon, 2007) segue de maneira previsível: à medida que o Deserto do Saara avança um quilômetro e meio por ano e as chuvas diminuem entre 15% e 30%, pastores árabes e agricultores negros africanos competem por recursos cada vez mais escassos e antigos ódios étnicos se reacendem. O clima se torna o principal fator; a questão de classe desaparece por completo.</p>
<p>A violência que irrompeu em Darfur em 2003 e posteriormente se espalhou para Kordofan e o Nilo Azul não foi um surto repentino de conflito étnico, nem uma combustão espontânea da escassez. Foi precipitada por uma convergência estrutural na qual a aceleração das mudanças climáticas se cruzou com uma economia política forjada por uma reestruturação neoliberal de longo prazo e pela predação estatal. O conflito é, em essência, uma guerra de classes ecológica. O Estado desmantelou sistematicamente os meios de subsistência tradicionais, privatizou os recursos comunitários e criou uma população despossuída dependente de uma economia militarizada — todos fatores que amplificaram a precariedade ambiental. O resultado é mais do que uma crise humanitária; é a reestruturação violenta da sociedade para a acumulação de capital.</p>
<p>A deterioração física do meio ambiente no Sudão é aguda, com 40% dos anos registrados (entre 1943 e 2017) no sul de Darfur classificados como anos de seca, acompanhado do avanço da desertificação em direção ao sul (Pnuma, 2007; Atiem <em>et al</em>., 2022). Isso não é uma “escassez” neutra: é uma consequência geograficamente desigual da ordem econômica global, que externalizou seus custos ecológicos para a periferia. No Sudão, a aceleração do aquecimento antropogênico atua como um amplificador brutal das vulnerabilidades existentes.</p>
<p>O estresse ecológico só se torna uma catástrofe quando encontra um sistema político que prioriza o lucro em detrimento das pessoas. No Sudão, a virada crucial ocorreu com o golpe de 1989 e a reestruturação neoliberal sob o governo de Omar al-Bashir, imposta pelos Programas de Ajuste Estrutural (PAE) do FMI e do Banco Mundial, que determinaram a remoção dos subsídios agrícolas, a privatização de terras comunitárias e o desmantelamento dos serviços de apoio estatal (Bush, 2007). Essa retirada estratégica do Estado destruiu o contrato social no Sudão rural. O regime de Bashir instrumentalizou ativamente essa nova ecologia política, transformando a terra de um recurso comunitário em moeda de troca para as elites alinhadas ao regime, que mecanizaram a agricultura, bloquearam os corredores pastoris e desapropriaram os agricultores (Waal, 2005). Para suprimir a agitação resultante, o Estado terceirizou a violência para milícias pastoris — os <em>Janja’wid </em>[demônios a cavalo] — dando-lhes carta branca para confiscar gado, colheitas e terras (Instituto Tricontinental, 2025). Nesse processo, os bens foram transferidos violentamente de mãos comunitárias para mãos privadas, criando uma nova classe de acumuladores militarizados.</p>
<p>A corrida do ouro do século XXI, impulsionada pelos mercados globais, adicionou uma lógica extrativista frenética a esse sistema. Milícias, notadamente as Forças de Apoio Rápido (RSF), evoluíram para empresas capitalistas que controlavam minas e rotas de contrabando (Craze, 2025). O deslocamento populacional provocado pelas mudanças climáticas criou uma reserva de mão de obra desesperada e abriu novos territórios para a captura de recursos, monetizando efetivamente o deslocamento humano e ecológico (Romankiewicz &amp; Doevenspeck, 2015).</p>
<p>A narrativa “árabe <em>versus </em>africano negro” é uma poderosa ferramenta política que é ativamente cultivada e instrumentalizada pelo regime para conter um crescente conflito de classes. Essa estratégia etnicizou o que era fundamentalmente uma crise sobre os meios de produção — sobretudo terras férteis e água — em um contexto de escassez artificial. Também impediu a formação de uma frente unificada dos despossuídos e permitiu que grupos armados recrutassem membros com base em identidades fragmentadas, capitalizando-se sobre a angústia de um povo cuja esperança de uma vida digna foi aniquilada.</p>
<p>O caminho para a radicalização segue um claro circuito de desapropriação. Jovens, separados de seus meios de subsistência agrários ou pastoris por choques ecológicos e econômicos combinados, veem sua força de trabalho mercantilizada em sua forma mais brutal: como combatentes armados. As RSF, portanto, não são meramente uma milícia; elas operam como uma organização governamental que oferece salários, resolução de conflitos e proteção em zonas onde o Estado oferece apenas negligência ou violência. Unir-se a elas torna-se uma estratégia racional de sobrevivência em uma economia em colapso, transformando o estresse ecológico em mão de obra militar (Verhoeven, 2011).</p>
<p>Nesse contexto, os atores internacionais são componentes integrais do sistema que molda e explora a crise — e não salvadores externos. Entre esses atores estão:</p>
<ul>
<li>Os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita financiaram as Forças de Apoio Rápido (RSF) como uma força mercenária para ter acesso ao ouro do Sudão. Isso representa uma nova modalidade imperial, na qual o capital do Golfo utiliza a acumulação militarizada para garantir recursos e projetar poder (Kebede, 2025).</li>
<li>A União Europeia, cujo financiamento, canalizado por meio do Processo de Cartum para agências estatais sudanesas de controle de fronteiras, efetivamente forneceu recursos e legitimou forças — incluindo unidades ligadas às RSF — encarregadas de conter a migração. Essa política militarizou diretamente a resposta às populações deslocadas pelas mudanças climáticas, tratando as vítimas dessa crise político-ecológica como uma ameaça à segurança (Andersson, 2014).</li>
<li>As instituições financeiras ocidentais, que criaram as condições para o colapso do Estado e a vulnerabilidade social — por meio de dívidas e Programas de Ajuste Estrutural (PAE) —, tornaram o Sudão um terreno fértil para as ondas subsequentes de crise (Kadri, 2016).</li>
</ul>
<p>A revolução sudanesa de 2019 e os comitês de resistência persistentes – órgãos de nível comunitário que coordenaram a revolta e continuam a organizar a governança civil em meio à guerra – representam um profundo desafio a toda essa estrutura (Salih, 2021). Suas demandas por democracia, justiça e paz são tanto anti-imperialistas quanto ecológicas, visto que um projeto progressista e soberano no Sudão exigiria o desmantelamento da economia de guerra, a renacionalização e a democratização do controle sobre a terra e a riqueza mineral, e o lançamento de uma restauração agroecológica massiva para reconstruir a resiliência comunitária. Isso confrontaria diretamente os interesses da elite militarizada local e de seus apoiadores internacionais — interesses que ambos os atores domésticos na guerra atual (as Forças Armadas Sudanesas e as RSF) buscam proteger. Esta guerra é, tragicamente, uma batalha entre facções rivais dessa elite pelos despojos do sistema, garantindo que as massas permaneçam presas na ecologia da desapropriação. Uma verdadeira resolução não será alcançada por um cessar-fogo entre generais que representam essa elite, mas por uma transformação revolucionária das relações político-ecológicas que definem a vida sudanesa.</p>
<h2 style="margin:3em 0;"><strong> </strong>Conclusão</h2>
<p>Em todo o Sahel, as condições de vida são definidas pelo deserto há muito tempo. Artistas como o Tinariwen, uma banda tuaregue considerada pioneira do “blues do deserto”, cantaram sobre exílio, desapropriação e sede no norte do Mali. A canção “Tenere” é um exemplo disso. Maloulat [O deserto branco] descreve uma condição familiar à maioria na região: “perdido na noite, minha sede, meu desejo por água me acordou”. Longe de ser uma metáfora ou uma mera constatação da realidade, essa canção denuncia as condições políticas vividas pelo povo do Sahel. Quando cantam sobre a água negada, sobre a terra perdida, sobre a vida marginalizada, expressam o que este dossiê argumenta: a catástrofe climática no Sahel não é vivenciada como uma mudança ambiental abstrata, mas como a intensificação de uma economia política já violenta. A seca, o calor e as chuvas irregulares tornam-se catastróficos onde o imperialismo, a reestruturação neoliberal e a predação estatal desmantelaram as proteções coletivas e transformaram a terra, a água e o trabalho em locais de extração. A sede, no Sahel, é criada pelo capitalismo.</p>
<p>O que está em jogo é uma luta pela soberania, pelo poder de classe e pela própria organização social da natureza. Qualquer caminho a ser seguido deve, portanto, romper com a securitização climática e, em vez disso, priorizar a soberania alimentar, o controle democrático sobre a terra e a água e a reconstrução de instituições públicas e comunitárias capazes de gerir a variabilidade ambiental. O futuro do Sahel não será assegurado por muros de fronteira, bases militares ou mercados, mas sim pelo confronto com as estruturas capitalistas e imperialistas que convertem o estresse climático em desapropriação e guerra. Nesse sentido, a luta que se desenrola no Sahel não é periférica à luta global contra o capitalismo — é uma de suas linhas de frente mais cruéis.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image-framed single-post--content--image-framed-v" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138897" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138897" class="size-full wp-image-138897 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Fertilizer.jpg" alt="" width="950" height="633" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Fertilizer.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Fertilizer-300x200.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Web_Fertilizer-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-138897" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Entre as práticas agroecológicas da associação está o uso de um biopesticida feito com folhas de nim, gengibre pilado, alho e pimenta, cuja acidez e amargor afastam insetos reduzindo os danos na plantação.</small></p></div>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_prol_ftnref1" name="_prol_ftn1"><sup>1</sup></a> A matéria completa com as fotografias originais está disponível em: <a href="https://www.brasildefato.com.br/2025/11/08/entenda-como-a-agroecologia-e-um-dos-pilares-da-revolucao-agricola-em-burkina-faso/">https://www.brasildefato.com.br/2025/11/08/entenda-como-a-agroecologia-e-um-dos-pilares-da-revolucao-agricola-em-burkina-faso/</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>2</sup></a> Para um ensaio excelente que critica o uso do tribalismo como marco para entender a política queniana, ver Nyong’o &amp; Karugu (2023). A crítica clássica pode ser encontrada em Mafeje (1971).</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2"><sup>3</sup></a> A insolação solar refere-se à quantidade de energia solar recebida por uma região, que varia devido à inclinação axial da Terra e às variações orbitais, influenciando os padrões de temperatura e precipitação.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3"><sup>4</sup></a> Ver também: Lézine, 2011.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4"><sup>5</sup></a> O Grupo de Trabalho 1 do AR6 do IPCC (2021) conclui que as taxas de aquecimento atuais não têm precedentes nos últimos 2 mil anos pelo menos. Especificamente no Sahel, as secas que começaram no final da década de 1960 e persistiram até a década de 1980 foram “o exemplo mais dramático em todo o mundo de variabilidade climática que foi medida direta e quantitativamente”. Em comparação, o fim do Período Úmido Africano — a mudança de regime mais significativa do Holoceno na região — ocorreu ao longo de centenas a milhares de anos, embora tenha incluído subepisódios abruptos de décadas. Ver Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, 2021; Hulme, 2011; Collins <em>et al</em>., 2017); Foley <em>et al</em>., 2003; Trauth <em>et al</em>., 2024.</p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5"><sup>6</sup></a> No entanto, uma crença não científica na dessecação permanente é igualmente prejudicial. Ver Gangeron et al., 2022.</p>
<p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6"><sup>7</sup></a> O Tratado <em>de Maghili sobre Política </em>(c. 1450-1504) articula princípios que vinculam a legitimidade política à proteção dos meios de subsistência agrários e pastoris, bem como proíbem a apropriação arbitrária de terras e a monopolização de poços. <em>Méritos Benditos do Artesanato e da Agricultura </em>(c. 1500-1900) exalta o trabalho produtivo e condena a especulação imobiliária<em>. Conhecimento do Movimento das Estrelas </em>(c. 1733) documenta observações astronômicas utilizadas para prever padrões de chuva, inundações e doenças. Veja Muhammad ibn Abd al-Karim al- Maghili, <em>As’ilat. Askiyah wa-Ajwibat al- Maghili </em>[Tratado sobre Política de Maghili], exibido na Biblioteca do Congresso, “Manuscritos Antigos das Bibliotecas do Deserto de Tombuctu” (<a href="https://www.loc.gov/exhibits/mali/mali-exhibit.html">https://www.loc.gov/exhibits/mali/mali-exhibit.html</a><u>)</u>; Anônimo, <em>Kitab al-Barakah fi Fadl al- Hiraf wa -al- Zar </em>[O livro que descreve os méritos abençoados do artesanato e da agricultura], Biblioteca Comemorativa Mamma Haidara, Tombuctu; Nasir al-Din Abu al-Abbas Ahmad ibn al-Hajj al-Amin al-Tawathi al-Ghalawi, <em>Kashf al-Ghummah fi Nafa al-Ummah </em>[As estrelas importantes entre a multidão dos céus], copiado em 1733, Biblioteca Comemorativa Mamma Haidara, Timbuktu.</p>
<p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7"><sup>8</sup></a> A Comunidade Francesa foi um quadro constitucional de curta duração criado pela França em 1958, durante o processo de descolonização.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências</h3>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A agenda antifeminista da extrema direita latino-americana</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-agenda-direita-contra-mulheres/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 08:00:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
		<category><![CDATA[gender ideology]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[El Salvador]]></category>
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		<category><![CDATA[Chile]]></category>
		<category><![CDATA[#ConMisHijosNoTeMetas ideología de género]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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		<category><![CDATA[cuidados]]></category>
		<category><![CDATA[familia tradicional]]></category>
		<category><![CDATA[Argentina]]></category>
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					<description><![CDATA[No Sahel, o crescente conflito tem raízes na luta de classes, é moldado pela exploração imperialista e intensificado pela catástrofe climática.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="single-post--content--text-small">As obras que acompanham este dossiê são ilustrações ou fragmentos de quadrinhos mais extensos. Instantâneas de cenas de luta, cuidados, trabalho invisível, militância e “colocar o corpo”. Xs autorxs são mulheres e integrantes da comunidade LGBTIQA+ que buscam defender e contar suas próprias narrativas, diante dos múltiplos braços da agenda das ultradireitas na região.</p>
<p class="single-post--content--text-small">A seleção foi realizada em colaboração com o <b>Feminismo Gráfico</b>, um coletivo dedicado a coletar, recuperar e exibir o trabalho de autoras de quadrinhos e humoristas gráficas argentinas, do início do século XX até os dias atuais. O Feminismo Gráfico constrói uma genealogia crítica da linguagem dos quadrinhos a partir de uma perspectiva feminista, desafiando significados estabelecidos dentro de uma linguagem popular historicamente desvalorizada e dando destaque às experiências de mulheres e pessoas não binárias. O acervo pode ser acessado em: <b>feminismografico.com</b>.</p>
<hr class="single-post--content--separator-narrow">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_136526" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136526" class="size-full wp-image-136526 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/Dani-Ruggeri.jpg" alt="" width="543" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/Dani-Ruggeri.jpg 543w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/Dani-Ruggeri-209x300.jpg 209w" sizes="auto, (max-width: 543px) 100vw, 543px"><p id="caption-attachment-136526" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Dani Ruggeri (Argentina), <em>Colectivo [Coletivo]</em>, 2026.</small></p></div></div>
<h2 style="margin:3em 0;">Introdução</h2>
<p>Desde 2016, manifestações de mulheres vestidas de rosa e homens de azul — como forma de marcar os papéis sociais tradicionais de gênero — percorrem a América Latina, trazendo a rejeição à diversidade sexual e de gênero como estandarte. Elas têm sido acompanhadas de uma forte presença nas redes sociais, com <i>hashtags</i> como #NoALaIdeologiaDeGenero, #ConMisHijosNoTeMetas, #AMisHijosLosEducoYo e #ConLosNiñosNo.</p>
<p>Essas investidas, que têm sua origem na década de 1970 nos Estados Unidos e reemergem no século XXI, fazem parte de uma onda antigênero e antifeminista amparada pelo fundamentalismo religioso cristão. Tal onda incluiu países católicos da Europa Ocidental, como Espanha e Itália; da Europa Oriental, como Croácia, Hungria, Polônia e Eslovênia; e chegou também à Austrália e à África Subsaariana. Nesta última, onde mais da metade dos Estados criminaliza as diversidades de sexo e gênero, campanhas de sabotagem à educação sexual integral, restrição ao acesso a anticoncepcionais e obstrução do aborto seguro estão presentes em muitos países (Chela, 2023; Corrêa, 2018).</p>
<p>Em paralelo à irrupção dessa nova onda conservadora, a América Latina viveu um intenso ciclo de mobilização social feminista de caráter internacional (2015-2019), que além de questionar o avanço do neoliberalismo sobre corpos e territórios e esse “novo” discurso antidireitos, tensionou, ampliou e muitas vezes transbordou os marcos estatais e as agendas dos governos progressistas da região.</p>
<p>A extrema direita atual é transnacional e ganhou força em todo o mundo, das Filipinas à Hungria, passando pela Índia e Argentina. Neste dossiê, abordamos como, na América Latina, seus tentáculos se entrelaçam aos de organizações ultraconservadoras globais, regionais e locais, tanto religiosas quanto seculares, para promover uma agenda contra os direitos das mulheres e das diversidades sexo-genéricas. A campanha “Con Mis Hijos No Te Metas” (CMHNTM), com presença em quase toda a região, serve-nos como eixo principal para analisar como essa agenda ultraconservadora incide em diferentes países. Descrevemos essa agenda com mais detalhes na seção três.</p>
<p>Analisamos seis países da América Latina, procurando abordar diversos tipos de implementação da CMHNTM no período de 2016 a 2025. Incluímos o Peru, onde a campanha foi criada; o Equador, para onde foi exportada primeiro e começou a operar durante um governo progressista na economia e na política; a Argentina, com o movimento feminista mais forte da região e grandes avanços legais e institucionais em direitos das mulheres e diversidades; o Chile, onde o enorme levante popular de 2019 não conseguiu consolidar muitos avanços para o conjunto da população, embora o movimento feminista tenha obtido conquistas pontuais; e El Salvador, um dos países mais conservadores em relação aos direitos sexuais e reprodutivos. Este último compartilha com o Brasil — que também analisamos — um fundamentalismo evangélico muito forte e o fato de que, embora a campanha CMHNTM praticamente não tenha operado formalmente, outros dispositivos e campanhas similares o fizeram.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<h2 style="margin:3em 0;">1. A questão das mulheres na América Latina: entre a transição democrática e a consolidação neoliberal</h2>
<p>A agenda das mulheres na América Latina emergiu entre as décadas de 1970 e 1980 como parte das lutas contra as ditaduras, as desigualdades estruturais e o neoliberalismo. Articulou demandas sobre violência de gênero, direitos reprodutivos, reconhecimento do trabalho de cuidado e participação política, mantendo interlocução com a agenda internacional da ONU e diálogos — por vezes tensos — com movimentos sindicais, camponeses e de direitos humanos. Embora tenha se institucionalizado parcialmente nas décadas de 1980 e 1990 por meio de organismos estatais e políticas de gênero, essa agenda desenvolveu-se em contradição com a hegemonia neoliberal. Este modelo impôs ajustes estruturais, a desvalorização do Estado como promotor do bem-estar e a exaltação do mercado como esfera organizadora da vida social — mudanças que afetaram desproporcionalmente as mulheres, especialmente as pobres e racializadas (Anzorena, 2013).</p>
<p>As políticas de austeridade e a redução do financiamento do bem-estar social reforçaram a transferência dos custos da reprodução da vida para os lares (Safa, 1992). O resultado foi a intensificação da exploração invisível do trabalho doméstico e de cuidados, realizado majoritariamente por mulheres<a href="#_edn1" name="_ednref1"><sup>1</sup></a>, configurando o que Nancy Fraser (2023) denomina “crise do cuidado”: a crescente demanda por assistência em condições sociais e institucionais cada vez mais deterioradas. Essa sobrecarga funciona como um mecanismo funcional ao capital, garantindo a reprodução cotidiana da força de trabalho sem custo direto para o Estado ou para o empregador (Vogel, 2022; Federici, 2019), aprofundando os mecanismos de exploração orientados à acumulação.</p>
<p>Em paralelo a esse processo, a flexibilização, a precariedade, a ampliação da informalidade e o aumento do trabalho autônomo inerentes ao neoliberalismo atingiram as mulheres com maior intensidade, uma vez que a ausência de apoio estatal limita tanto suas condições de acesso aos mercados de trabalho<a href="#_edn2" name="_ednref2"><sup>2</sup></a> quanto a permanência em empregos estáveis. Na América Latina e no Caribe, as mulheres inserem-se principalmente em setores de baixa remuneração e alta rotatividade, sem garantias, enquanto seguem realizando o trabalho doméstico e de cuidado de forma invisível e não remunerada (Safa, 1992). Em 2023, 26% das mulheres não possuíam qualquer tipo de renda própria, em contraste com apenas 10% dos homens (Cepal, 2024).</p>
<p>Nesse cenário, em que o lar se tornou um amortecedor das crises, discursos sobre “valores familiares”, “resiliência” e “responsabilidade individual” legitimaram o retrocesso do Estado e naturalizaram a expectativa de que as famílias absorvam sozinhas as consequências do desemprego e da precariedade (Biroli, 2014).</p>
<p>A reconfiguração do papel do Estado neoliberal implicou também a reorganização das relações sociais em torno de iniciativas da sociedade civil e comunidades auto-organizadas. Junto aos lares, os processos sociocomunitários absorveram parte das tarefas reprodutivas, o que resultou em uma ampliação do conceito de “doméstico” para além do lar e na expansão da feminização da reprodução comunitária da vida (Bascuas &amp; Barón, 2025).</p>
<p>Essas narrativas sobre a retração do Estado seguiram trajetórias não lineares. Por um lado, articularam-se à ideia do “empreendedorismo feminino” como símbolo de autonomia, mascarando desigualdades estruturais. Por outro, a politização das mulheres de bairros populares e a construção de estratégias coletivas autogestionadas frente à crise criaram um campo de disputa e confronto com o neoliberalismo (Andújar, 2005). Como mostram Fraser (2023) e Hirata &amp; Kergoat (2007), essa retórica deslocou o debate para o plano do esforço individual, ocultando as condições materiais da exploração; contudo, também encontrou seu próprio transbordamento na prática comunitária das mulheres voltada à sobrevivência e reprodução da vida.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">A ampliação de direitos após a crise neoliberal</h3>
<p>Desde a primeira década do século XXI, experimentou-se um declínio da legitimidade neoliberal, impulsionado por processos de mobilização que deram origem a um ciclo de impugnação ao modelo (Ouviña &amp; Thwaites Rey, 2019) — com maior impacto entre os anos 2000 e 2013 — e à ascensão de governos progressistas amparados por movimentos sociais organizados (Gago 2019; Ouviña, 2022).</p>
<p>Durante o auge desses governos (2000-2015), o Estado ampliou o reconhecimento institucional dos direitos das mulheres e das diversidades sexo-genéricas. Foram criados ministérios especializados, leis contra a violência de gênero, reformas previdenciárias redistributivas, programas de saúde reprodutiva e educação sexual integral. Em alguns casos, avançou-se no reconhecimento de identidades de gênero e casamento igualitário; em outros, como o argentino, instituiu-se a cota de trabalho trans.<a href="#_edn3" name="_ednref3"><sup>3</sup></a> Tais políticas sustentaram-se em marcos internacionais como a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW, na sigla em inglês), a Convenção de Belém do Pará e o processo Beijing+10, em diálogo com a agenda global feminista que ganhou força na região.</p>
<p>Apesar dos avanços do ciclo progressista latino-americano, a igualdade de gênero enfrentou obstáculos persistentes: enfoques assistencialistas, informalidade laboral, financiamento insuficiente e bloqueios de alianças conservadoras e religiosas. A lacuna entre a ampliação formal de programas e seu impacto restrito evidencia que os poderes econômicos e patriarcais limitaram o alcance estatal. Os dados de 2023 confirmam o desafio: apenas 35,8% de representação feminina nos parlamentos e 3.897 feminicídios na região (Cepal, 2024).</p>
<h3 style="margin:2em 0;">As revoltas feministas contra o neoliberalismo</h3>
<p>Por volta de meados da década de 2010, o esgotamento do ciclo progressista abriu uma nova etapa de reconfiguração política. As limitações estruturais dos projetos pós-neoliberais – dependência de rendas extrativas, persistência de regimes fiscais regressivos e dificuldade para transformar as bases produtivas – enfraqueceram sua capacidade redistributiva e sua legitimidade social. Esse processo foi acompanhado por uma ofensiva neoliberal renovada, voltada a restaurar o poder do capital financeiro e reinstalar a lógica de mercado como princípio organizador da vida social.</p>
<p>Desde o final da primeira década do século, e com maior força na seguinte, feminismos populares, comunitários e sindicais — junto aos movimentos pela diversidade sexual e os direitos reprodutivos — protagonizaram uma renovação do repertório político. Articularam lutas contra a violência machista, a precarização do trabalho, o racismo e o extrativismo. Mobilizações massivas pelo direito ao aborto e as greves feministas internacionais tornaram visível a conexão indissociável entre a exploração do trabalho das mulheres e as violências estruturais do capitalismo e do patriarcado.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136518" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136518" class="size-full wp-image-136518 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/NC_72.jpg" alt="" width="552" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/NC_72.jpg 552w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/NC_72-212x300.jpg 212w" sizes="auto, (max-width: 552px) 100vw, 552px"><p id="caption-attachment-136518" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Valeria Reynoso (Argentina), trecho do fanzine <em>Se vos</em>, Editora Bocca al Lupo, 2017.<br>A frase é uma citação direta de Lohana Berkins: “Em um mundo de vermes capitalistas, é preciso ter coragem para ser uma borboleta”. Lohana foi uma líder transgênero na Argentina, fundadora da ATTTA (Associação de Travestis, Transexuais e Pessoas Transgênero da Argentina) e uma das principais figuras por trás da Lei de Identidade de Gênero (Lei 26.743).</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">2. A extrema direita atual e seu pânico moral</h2>
<p>Na última década, uma onda de terror assola a América Latina. Os corpos das mulheres e das pessoas das diversidades sexo-genéricas — especialmente se forem pobres e/ou racializadas — têm sido alvos fundamentais de discursos de ódio e práticas violentas. Com o avanço do neoliberalismo e a crise das direitas tradicionais, incapazes de responder às insatisfações das classes trabalhadoras do continente (Katz, 2024), surge uma nova face da direita que captou corações e mentes. A extrema direita atual, aliada aos fundamentalismos cristãos, chegou aos lares da classe trabalhadora, mesmo aos mais empobrecidos, por meio de um discurso didático centrado na defesa da família e na construção de um inimigo: tudo o que não se enquadra na heteronormatividade é visto como uma força do mal que deve ser combatida para garantir a prosperidade do único modelo considerado válido: marido, mulher e filhos.</p>
<p>Há precedentes regionais no uso da família tradicional para disciplinar corpos, fragmentar setores populares e construir “inimigos internos” que desviem a atenção das causas estruturais da desigualdade. O integrismo católico das décadas de 1920 e 1930, especialmente presente na Argentina e no Brasil, defendia a religião católica como guia do Estado contra o divórcio, o aborto e a eutanásia. Na década de 1960, enquanto a Teologia da Libertação envolvia fiéis na luta por justiça social e de gênero, surgiam movimentos ultraconservadores como a Tradição, Família e Propriedade (TFP, 1960) e o Sodalício de Vida Cristã (1971), que promoviam famílias e papéis de gênero tradicionais. Posteriormente, as ditaduras militares das décadas de 1970 e 1980 baseavam-se na doutrina de segurança nacional estadunidense, que utilizou a moralidade tradicional e os valores católicos como base para o controle social, a imposição da ordem e a justificativa da repressão contra o inimigo identificado historicamente com o comunismo. Nessa lógica, a estabilidade familiar era sinônimo de estabilidade nacional.</p>
<p>A agenda atual contra os direitos das mulheres e diversidades faz parte da batalha de ideias empreendida pela extrema direita em sua reorganização pós-governos progressistas, visando legitimar a exploração imposta pelo hiperimperialismo diante da crise do capitalismo. Essa ofensiva é liderada por organizações religiosas e seculares, ONGs, partidos e grupos empresariais. O fundamento ideológico de suas propostas provém de duas fontes principais: a Igreja Católica, que sistematizou o conceito de “ideologia de gênero”, e os fundamentalismos cristãos, especialmente os neopentecostais.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">A “ideologia de gênero”</h3>
<p>A elaboração teológica da Igreja Católica, que busca transformar o gênero — um conceito analítico — em uma ofuscação da realidade denominada “ideologia”, articulou-se na década de 1990. A abordagem parte da ideia do Vaticano de “complementaridade perfeita” entre dois sexos que seriam, por natureza, exclusivamente homem e mulher (Bracke &amp; Paternotte, 2018). Sob essa perspectiva, tratar o gênero como uma categoria múltipla, com dimensões sociais, seria romper com a ordem binária natural e atentar contra a sobrevivência da humanidade. Nessa lógica, os casamentos entre pessoas do mesmo sexo também constituiriam uma ameaça contra a espécie.</p>
<p>Politicamente, o Vaticano operou resistindo à incorporação da categoria gênero nas cúpulas de direitos humanos da ONU na década de 1990. Essa rejeição articulou-se inicialmente em aliança com governos conservadores da América Latina (Honduras, El Salvador e Nicarágua) e, posteriormente, com países de maioria islâmica como Egito, Paquistão, Irã, Argélia, Marrocos e Sudão (Corrêa, 2018).</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Os fundamentalismos cristãos evangélicos</h3>
<p>Os fundamentalismos evangélicos do século XXI continuam reativos aos avanços sociais, políticos e científicos, tratando-os como inimigos em uma “guerra do bem contra o mal”, tal como em sua origem no final do século XIX nos Estados Unidos (Instituto Tricontinental, 2022). Contudo, agora avançam contra o corpo das mulheres e diversidades a partir do pânico moral e de estratégias que transcendem o âmbito religioso. Esse fenômeno é sustentado pela Teologia do Domínio, que busca romper o secularismo e ocupar espaços de poder, e pela Teologia da Prosperidade, que reforça o individualismo.</p>
<p>A Teologia do Domínio, desenvolvida por fundamentalistas estadunidenses na década de 1970 (Instituto Tricontinental, 2022), aspira ao estabelecimento de uma teocracia na sociedade contemporânea. Seu propósito é cumprir uma suposta predestinação de cristãos para ocupar postos de liderança — incluindo presidências, ministérios, parlamentos e tribunais superiores — visando influenciar os assuntos públicos por meio do domínio cristão.<a href="#_edn4" name="_ednref4"><sup>4</sup></a></p>
<p>Já a Teologia da Prosperidade baseia-se na ideia de que “ter sucesso na vida” e o acúmulo de bens são símbolos da bênção divina alcançada individualmente. Esse postulado desempenha um papel fundamental na legitimação do neoliberalismo ao “idealizar e consagrar religiosamente as diferenças socioeconômicas entre as pessoas” (Motta &amp; Amat y León, 2018, p. 75).</p>
<p>Ambas as correntes integram as estratégias do imperialismo estadunidense para conter movimentos revolucionários, feminismos e vertentes progressistas dentro das igrejas regionais — especialmente a Teologia da Libertação, que busca a justiça social por meio da ação coletiva (Instituto Tricontinental, 2022; Bermúdez, 2018; Barrera Rivera, 2024).</p>
<h3 style="margin:2em 0;">A extrema direita atual</h3>
<p>A extrema direita contemporânea busca construir uma força social de massas enraizada em identidades majoritárias (religiosas, étnicas e de gênero), demonizando sistematicamente aqueles que define como minorias (Instituto Tricontinental, 2024b). Enquanto aplica políticas de austeridade fiscal, culpa esses grupos pelos efeitos dos ajustes estruturais. Assim, o desemprego é atribuído à imigração, e não ao uso de recursos públicos para subsidiar corporações em detrimento da educação ou infraestrutura, dois fatores-chave para a geração de empregos.</p>
<p>Da mesma forma, a extrema direita atribui ao feminismo a desarticulação da família, omitindo os reais desafios impostos pelo cerco capitalista e pelo saque extrativista: o desemprego que gera emigração, os conflitos e a violência que expulsam populações e, cada vez mais, os impactos climáticos e a degradação ecológica produzidos pelo capitalismo industrial.</p>
<p>Além disso, o “comunismo” — termo sob o qual a extrema direita aglutina a esquerda, o progressismo, os movimentos sociais, o feminismo e as dissidências sexuais — é construído como o inimigo que “adoece” a sociedade. Por meio de um discurso belicoso e persecutório, essa vertente conseguiu apropriar-se de conceitos historicamente caros ao campo progressista, como liberdade e democracia, voltando setores populares contra aqueles que efetivamente os defendem na prática.</p>
<p>Este cenário é fruto de volumoso financiamento, trabalho de base e inserção midiática coordenada que povoou a vida das pessoas de forma cotidiana e extremamente articulada. As igrejas neopentecostais estadunidenses, em particular, receberam recursos massivos para se implantar e manter na região, com foco estratégico nos setores populares (Instituto Tricontinental, 2022; Nascimento, 2025).</p>
<h3 style="margin:2em 0;">TIC, redes sociais e <em>fake news</em></h3>
<p>As plataformas digitais, dependentes de métricas de atenção e receitas publicitárias, favorecem conteúdos polêmicos e emocionalmente apelativos — o ambiente ideal para a mobilização de narrativas falsas sobre gênero. Como observa Cunha (2020), a disputa em torno desse tema abrange não apenas a interpretação religiosa, mas a conformação do imaginário social e das políticas públicas, especialmente educacionais. Enquanto isso, contrapesos como a regulação estatal das plataformas e a verificação de dados enfrentam sérias limitações de alcance e disputas sobre autoridade e verdade.</p>
<p>As notícias falsas e a pós-verdade nas redes sociais não são meras mentiras, mas práticas com fins específicos: interferir em decisões públicas, mobilizar afetos e delinear identidades políticas. No amplo espectro da extrema direita atual, grupos cristãos conservadores, especialmente evangélicos,<a href="#_edn5" name="_ednref5"><sup>5</sup></a> tendem a assimilar e propagar desinformação sobre o alcance e os objetivos das políticas de gênero e da educação sexual integral. O televangelismo – potencializado pelas TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação), transmissões ao vivo e WhatsApp – facilita a “evangelização da desinformação”,<a href="#_edn6" name="_ednref6"><sup>6</sup></a> em que líderes e membros comunitários que difundem narrativas sem verificação são percebidos como fontes confiáveis.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136510" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136510" class="size-full wp-image-136510 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/NC_14.jpg" alt="" width="552" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/NC_14.jpg 552w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/NC_14-212x300.jpg 212w" sizes="auto, (max-width: 552px) 100vw, 552px"><p id="caption-attachment-136510" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Paula Socolovsky (Argentina), trecho do quadrinho “Os Vingadores de Alicia”, por volta de 1988.<br>Esta obra faz parte de uma série criada em razão do feminicídio de Alicia Muñiz, assassinada pelo campeão de boxe Carlos Monzón, e o impacto que este ato teve na artista.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">3. A campanha “Con Mis Hijos No Te Metas”</h2>
<p><i>Con Mis Hijos No Te Metas</i> (CMHNTM) [Não se meta com meus filhos] é uma campanha ultraconservadora que se expandiu rapidamente pela América Latina por meio de um “uso livre” do <i>slogan</i>. Isso permitiu que qualquer grupo contrário à soberania das mulheres sobre seus corpos, à educação sexual integral e aos direitos da diversidade sexo-genérica utilizasse a marca CMHNTM. A campanha funciona como uma rede descentralizada: organiza marchas e plantões, mantém um <i>lobby</i> ativo com atores da direita em parlamentos e instituições estatais, e sustenta uma presença massiva nas redes sociais.</p>
<p>Desde o início, somaram-se ao CMHNTM uma multiplicidade de grupos — especialmente igrejas católicas e evangélicas conservadoras — com pautas variadas. Ao mesmo tempo que rejeitam a educação laica e científica sobre direitos reprodutivos, se opõem aos direitos das pessoas das diversidades sexo-genéricas, especialmente ao casamento homoafetivo, rejeitam a interrupção da gravidez, acusam de um suposto “marxismo cultural” os avanços nesses direitos e demonizam o comunismo. Na campanha CMHNTM cabe muito, muito mais do que seus defensores denominam direitos das e dos progenitores de educar sua prole.</p>
<p>O <i>slogan</i> #ConMisHijosNoTeMetas foi ouvido pela primeira vez na Colômbia, em agosto de 2016, no contexto de protestos contra “cartilhas de educação sexual que buscavam incluir a perspectiva da igualdade de gênero para, de acordo com a Corte Constitucional, promover uma educação não discriminatória e respeitosa da identidade e orientação sexual dos estudantes”  (Martínez Osorio, 2017). Esses protestos inspiraram-se em movimentos ocorridos no México, meses antes, contra o casamento igualitário.</p>
<p>A campanha, como estrutura organizada, surgiu em Lima, Peru, em novembro de 2016 (Castro, 2019), em resposta a uma reforma do Currículo Nacional de Educação Básica do governo Kuczynski. Amplificado por figuras políticas de direita, tanto seculares quanto religiosas, o <i>slogan </i>tornou-se viral nas redes sociais, transladou-se primeiro para o Equador e, logo em seguida, já operava em pelo menos uma dezena de países da região (Pina, 2017).</p>
<p>O argumento central da campanha para se opor às políticas de igualdade de gênero reside na premissa de que o Estado, ao promover tais conceitos e a Educação Sexual Integral (ESI), busca “doutrinar” as crianças. Segundo essa narrativa, a “ideologia de gênero” negaria a diferença biológica entre homens e mulheres e corromperia a inocência infantil ao tentar converter crianças em homossexuais ou transgêneros — termos entendidos por esses grupos como “anormalidades” ou “aberrações”.</p>
<p>Essa retórica, amparada em desinformação e mensagens alarmistas via redes sociais, ressoa profundamente em setores tradicionais. Os argumentos baseiam-se em um determinismo biológico que naturaliza diferenças e patologiza a diversidade, considerada “antinatural” (Motta &amp; Amat y León, 2018, p. 100; p. 119-120). Além disso, o movimento rejeita a secularização do Estado, exigindo que este não intervenha na regulação da vida privada ou na educação. Quanto a esta última, promovem a privatização, o desinvestimento público e a reificação do lar como o âmbito privilegiado de provisão educacional.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Caráter transnacional</h3>
<p>A CMHNTM possui uma natureza transnacional desde sua origem. Em 2016, no contexto da oposição ao casamento igualitário, ocorreu na Cidade do México a primeira reunião regional de ONGs para criar a Frente Latino-Americana pelo Direito à Vida e à Família, tendo como eixo a rejeição à “ideologia de gênero” (Semana, 2016; López Pacheco, 2021). Participaram organizações da Colômbia, México, El Salvador, Peru e Brasil. Entre as figuras centrais estava a então deputada colombiana Ángela Hernández, do Partido da União pelo Povo, que, após organizar as primeiras marchas com o <i>slogan</i> CMHNTM na Colômbia, transmitiu a experiência ao Peru, servindo como um dos detonantes para a criação da campanha naquele país (Martínez Osorio, Castro, 2019).</p>
<p>Como desdobramento, conformou-se em 2017 o Congresso Ibero-Americano pela Vida e pela Família (CIVF), plataforma criada no México por iniciativa dos pastores Aarón Lara e Gilberto Rocha Margaín. Christian Rosas — evangélico peruano, lobista da mineração ilegal (Sarmiento, 2024) e fundador da CMHNTM no Peru — integrou seu comitê consultivo, enquanto sua compatriota Milagros Aguayo, pastora e deputada, assumiu a vice-presidência (Castro, 2019).</p>
<p>O Quarto Congresso do CIVF buscou articular estratégias locais em uma ofensiva continental do movimento conservador e evangélico para disputar a agenda de direitos, combinando incidência em organismos internacionais, construção de uma plataforma política e parlamentar comum e redes de assistência social cristã, especialmente movimentos juvenis e ONGs. O objetivo era consolidar uma força política regional capaz de contrabalançar a agenda de gênero e os projetos progressistas. Em 2018, o Equador sediou a “Primeira Convenção Internacional pela Família”, que contou com a participação dos argentinos Nicolás Márquez e Agustín Laje (autores de <i>O Livro Negro da Nova Esquerda</i>), hoje reconhecidos como ideólogos da “batalha cultural” do governo de Javier Milei (Viteri, 2020, p. 40).</p>
<p>A Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) é um evento anual, surgido na década de 1970 como parte dos esforços de articulação e construção de uma identidade coletiva do movimento conservador nos Estados Unidos (Parker, 2015), que reúne ativistas e funcionários conservadores, principalmente dos Estados Unidos — frequentado por Donald Trump, Steve Bannon e Ted Cruz. Trata-se de um dos encontros mais importantes do movimento conservador transnacional. Desde 2017, a CPAC impulsionou uma regionalização global, com filiais em países governados por direitas conservadoras e extremas: começou no Japão e, desde 2019, se expandiu para o Brasil, Austrália e Coreia do Sul. Em 2022, teve sede na Hungria, promovida por Viktor Orbán, primeiro-ministro húngaro e referência do ultranacionalismo europeu, junto a Santiago Abascal, líder do partido espanhol de extrema direita Vox.</p>
<p>Na América Latina, durante os últimos anos, a CPAC se consolidou como uma plataforma de articulação da extrema direita e de grupos conservadores, onde circulam presidentes ultradireitistas, representantes das finanças globais, ultracatólicos e líderes evangélicos. Costumam ter um papel destacado pessoas como Eduardo Bolsonaro, Javier Milei, José Antonio Kast e Nayib Bukele. Com uma agenda abertamente contrária às ideias progressistas, à intervenção estatal, à igualdade e à justiça social, esses espaços funcionam como vitrines regionais para a difusão de discursos que apresentam o feminismo e a chamada “ideologia de gênero” como ameaças à ordem social (Abbott, 2022). Por exemplo, durante a CPAC 2024, o presidente Bukele, de El Salvador, afirmou que “é importante que o currículo escolar não incorpore esta ideologia de gênero”, reforçando uma narrativa que associa esses enfoques a um ataque aos valores tradicionais da família e da religião (Revelo-Imery, 2024; UOL Notícias, 2024).</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Financiamento</h3>
<p>Em toda a região, fundos provenientes de setores ultraconservadores dos Estados Unidos e da Europa permitiram que organizações vinculadas à CMHNTM e afins organizassem congressos, capacitações e campanhas midiáticas que fortaleçam sua presença pública.</p>
<p>Entre os financiadores internacionais rastreados, sem pretender uma avaliação exaustiva, está o Population Research Institute (<a href="https://www.pop.org/simple/research/">PRI</a>), de inspiração católica, que proclama que sua rede global de grupos “Pro-vida” se encontra presente em 80 países no mundo. Segundo uma reportagem, em 2014 o PRI destinou 174 mil dólares para financiar “atividades de pesquisa e educação” na América do Sul, 75% do total mundial financiado. A mesma reportagem aponta uma série de ONGs e universidades católicas chilenas que têm relações com lobistas internacionais como Alliance Defending Freedom [Aliança para a Defesa da Liberdade] (ADF), Political Networks for Values, Population Research Institute e Advocates International (Ramírez, 2019). Assim, no Chile, as porta-vozes da CMHNTM e o Ônibus da Liberdade que chegou da Espanha foram financiadas pela organização espanhola HazteOir.org, que coordena a plataforma global de mobilização online CitizenGO (Barrios, 2018), operando em vários países do continente (Datta, 2021, p. 37; <a href="https://help.citizengo.org/article/906-about-us#second">CitizenGO</a>).</p>
<p>A ADF atua por meio de financiamento, capacitação, orientação e apoio jurídico a organizações “pró-vida”, tendo investido cerca de 146 milhões de dólares em 2014 na América Latina, Europa e Ásia para a formação de advogados cristãos alinhados ao fundamentalismo (Loza &amp; López, 2020, p. 62; Morán &amp; Defago, 2020, p. 254-255). Christian Rosas (Peru) confirma ter sido capacitado pela ADF (Castro, 2019), e programas como o Blackstone Legal Fellowship, um programa de três meses para jovens advogados cristãos, operam na mesma direção (Sohr <i>et al.</i>, 2023).</p>
<p>No Equador, se documentam apoios locais de médias e grandes empresas à CMHNTM: Corporación Favorita, Tía, Centro Comercial Iñaquito (dedicadas ao comércio varejista), Junta de Beneficência de Guayaquil (loteria), Pronaca (alimentos), Novacero (aço para a construção), Guitarras Vogel, HCJB (radiodifusora evangélica) (Burneo Salazar, 2018, p. 65; Viteri, 2020, p. 56-57). Em termos de apoio internacional, contam com o Sodalício de Vida Cristã, também presente na Argentina, Chile e Colômbia, em processo de dissolução desde 2025 (Maher, 2019; Ponce Ycaza &amp; León Cabrera, 2018).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_136494" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136494" class="size-full wp-image-136494 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/Crying4.jpg" alt="" width="779" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/Crying4.jpg 779w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/Crying4-300x300.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/Crying4-150x150.jpg 150w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/Crying4-768x769.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 779px) 100vw, 779px"><p id="caption-attachment-136494" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Powerpaola (Ecuador), <em>Crying [Chorando]</em>, 2022.</small></p></div></div>
<h2 style="margin:3em 0;">4. Projeto de poder</h2>
<p>A campanha CMHNTM foi o vetor da politização social que nutriu a “terceira onda de ativismo neoconservador” (Morán Faúndes, 2023) na região contra as agendas feministas e LGBTTIQ+. Apesar da heterogeneidade desses “ativismos heteropatriarcais”, compartilham a organização em torno de projetos político-partidários, a articulação com a extrema direita e neoliberais que buscam reduzir o público (Biroli, 2018; Kalil, 2020) e a ampliação da articulação internacional.</p>
<p>As redes fundamentalistas articuladas em torno da campanha Con Mis Hijos No Te Metas (CMHNTM) se inscrevem em uma trajetória de longa duração de incidência religiosa e conservadora na arena pública latino-americana. Em países como Brasil e Peru, desde a década de 1980, congressistas vinculados ao fundamentalismo religioso têm promovido iniciativas voltadas a restringir direitos sexuais e reprodutivos e reforçar concepções tradicionais de família, empregando capacidade de <i>lobby</i> e intervenção legislativa, particularmente nos campos da educação, saúde e regulação da sexualidade, influenciando de maneira marginal as agendas parlamentares. Essa capacidade de incidência legislativa que vemos se desdobrar atualmente constitui um processo acumulativo que se aprofunda e reconfigura ao longo do tempo.</p>
<p>Na última década, esses ativismos neoconservadores conseguiram não apenas ocupar espaços institucionais, mas também gerar uma maior articulação das estratégias de incidência em torno de uma agenda comum, claramente identificável e transnacional, na qual a CMHNTM operou como um dos dispositivos de coordenação política e simbólica. Nesse novo ciclo, a ação legislativa se orienta prioritariamente para frear ou reverter os avanços na legalização do aborto, rejeitar os direitos das pessoas das diversidades sexuais, assim como deslegitimar os conteúdos de educação sexual integral e a intervenção estatal em matéria educativa, apresentando-a como uma forma de “doutrinação” estatal e uma ameaça à autoridade parental. Em países como Peru, Equador, Chile e Argentina, a campanha tem sido utilizada para impugnar leis vigentes ou bloquear novas normativas mediante o uso estratégico da linguagem jurídica e dos direitos, especialmente a apelação ao “direito preferencial dos pais” e à defesa da família como núcleo moral da sociedade. Esse discurso teve particular eficácia entre setores populares precarizados, para quem a família aparece como o principal — e às vezes único — espaço de proteção material e simbólica frente à incerteza social (Teixeira, 2016; Pochmann, 2021, 2024). Essa defesa da família heteropatriarcal significou até mesmo a rejeição das políticas estatais para prevenir a violência intrafamiliar.</p>
<p>No Peru, grupos conservadores e a campanha CMHNTM rejeitaram um decreto sobre prevenção de violência familiar porque promovia “famílias democráticas”, criticaram a intervenção estatal no privado e defenderam em seu lugar “a verdadeira família”, argumentando que o termo “democrático” ampliava demais o conceito tradicional de família (Araujo, 2020). No Chile, em 2024, Ingrid Bohn, porta-voz da CMHNTM, se opôs à prevenção da violência de gênero na educação, incluída na lei integral contra a violência às mulheres. Bohn afirmou que “temos visto uma obsessão do Estado […] por querer introduzir a matéria de educação sexual desde a mais tenra infância” (León, 2024). No Brasil, o Movimento Escola Sem Partido (ESP) — surgido em 2004 e de características similares à CMHNTM — avançou em 2014 para a institucionalização de sua agenda e desde então apresentou vários projetos de lei para conter a “ideologia de gênero”, acusando escolas e docentes de doutrinação ideológica. Esses projetos de lei previam uma supervisão dos e das professoras das escolas públicas do país para censurar qualquer manifestação expressa sobre preferências ideológicas, políticas e religiosas. Os dois primeiros projetos foram propostos por filhos do ex-presidente ultradireitista Jair Bolsonaro (Garcia &amp; Dias, 2024).</p>
<p>Medidas coercitivas semelhantes às brasileiras ocorrem em El Salvador sob o governo de Nayib Bukele, com a intensificação do combate à “ideologia de gênero”. Em 2022, após protestos conservadores nas redes sociais, o governo determinou a retirada de todos os materiais de Educação Sexual Integral (ESI) e de prevenção à violência de gênero. A censura estendeu-se ao sistema de saúde, com a eliminação de conteúdos sobre diversidade sexual e a modificação de formulários que registravam orientação sexual e identidade de gênero (Revelo-Imery, 2024; AFP, 2024).</p>
<p>Na Argentina, o governo de Javier Milei anunciou, durante 2025, o projeto de Lei de Liberdade Educativa, que será enviado ao Congresso para discussão. Nele, se estabelece o “papel preferencial da família, como agente natural e primário, que possui o direito e o dever de orientar a formação de seus filhos menores” (Art. 4)<a href="#_edn7" name="_ednref7"><sup>7</sup></a> e autoriza o ensino em casa — modelo conhecido nos Estados Unidos como <i>homeschooling</i>. A família e o mercado assumem um lugar preferencial sobre o Estado em matéria educativa, ficando este relegado a uma função subsidiária: a promoção financeira da demanda e a competição entre instituições para conseguir alunos e recursos. Em vez de financiar as instituições educativas, os fundos públicos seriam direcionados para financiar as famílias dos estudantes para que elas escolham o destino do orçamento.</p>
<p>Outro traço característico desse ciclo – ao lado da radicalização de sua agenda legislativa em direção à reconfiguração da sociedade com base em valores neoconservadores – é a vocação explícita de intervenção político-eleitoral e sua incorporação aos projetos de poder das extremas direitas atuais na América Latina. As estratégias eleitorais desses grupos conservadores e religiosos parecem ter sido mais eficazes quando decidiram construir identidades políticas híbridas — às vezes religiosas, às vezes antigênero — que possam confluir com as diversas expressões políticas de direita do que quando formaram instrumentos próprios para intervir de maneira autônoma na cena eleitoral. Por sua vez, o crescimento da incidência social e ideológica dessas expressões fundamentalistas nutre os projetos neoliberais de uma renovada missão messiânica, agora associado à proteção moral e à restituição da autoridade — e da família — patriarcal.</p>
<p>O caso de Bolsonaro ilustra essa construção identitária: sua conexão com as agendas morais, de gênero e sexualidade, que não apareciam em sua longa trajetória política anterior, o vinculou ao ideário evangélico e foi determinante para conquistar uma parte significativa do voto evangélico em 2018, que tem um rosto específico: o de uma mulher negra de classe trabalhadora (Balloussier, 2020). Em contraste, no Peru, embora o CMHNTM tenha tido muita força nas ruas e redes sociais, não conseguiu se traduzir em força política nas disputas eleitorais (Cunha, 2020). E na Argentina, resultou infrutífera a incursão eleitoral em 2019 com um instrumento político eleitoral próprio.<a href="#_edn8" name="_ednref8"><sup>8</sup></a></p>
<p>Desde 2018, observam-se dinâmicas semelhantes às do Brasil, embora com resultados desiguais, na Argentina, Chile, Equador, Peru e El Salvador, onde essas redes negociam apoios eleitorais, ocupam espaços em listas legislativas, influenciam programas de governo e participam de atos oficiais. No Peru, alguns líderes da campanha CMHNTM negociam com partidos políticos para apoiar candidatos presidenciais em troca de espaço nas listas de candidatos ao parlamento (Motta &amp; Amat y León, 2018, p. 112).</p>
<p>Na Argentina, mesmo que não tenha havido uma estratégia unificada por parte das expressões fundamentalistas nas eleições presidenciais de 2023, a vitória de Javier Milei contou com o apoio e pregação de pastores evangélicos em bairros populares e assumiu como própria a narrativa messiânica típica do campo dos fundamentalismos religiosos. O governo libertário chegou ao poder com um discurso homofóbico, negacionista dos direitos humanos e da desigualdade social. Assim que assumiu o poder, eliminou o Ministério das Mulheres, Gêneros e Diversidades e o Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (INADI); retirou peso e financiamento das áreas específicas destinadas à promoção dos direitos humanos, igualdade de gênero e atenção a pessoas com deficiência. Nas eleições de 2025, as forças evangélicas fundamentalistas ampliaram sua representação parlamentar, na maioria dos casos como parte da força de La Libertad Avanza, o partido de Milei. Após as eleições, o governo apresentou o projeto libertário de reforma neoliberal do sistema educacional, com uma forte influência das ideias fundamentalistas, como já descrevemos.</p>
<p>Algo semelhante acontece no Chile. Nas eleições presidenciais de 2025, os candidatos de direita articularam programas conservadores com agendas antigênero. José Antonio Kast, agora presidente do Chile, defende a família como núcleo fundamental da sociedade e o “direito preferencial dos pais” de educar seus filhos e escolher sua instituição educacional (Kast, 2025, p. 33). Prometeu também fechar o Ministério da Mulher e da Equidade de Gênero (proposta de 2021). Johannes Kaiser, o outro candidato ultraconservador, dedicou uma seção em seu programa: Batalha Cultural para combater a “ideologia de gênero” (Kaiser, 2025, p. 14). Por sua vez, Evelyn Matthei, única candidata mulher de direita, apresentou uma versão menos radical, mas semelhante: devolver às famílias a escolha de projetos educacionais de acordo com seus valores, considerando a família como “núcleo de coesão social” (Matthei, 2025, p. 10), em sintonia com o que foi dito anteriormente. O ativismo neoconservador permeou os diferentes candidatos de direita nos países da região, embora em alguns países também tenham permeado forças políticas progressistas.</p>
<p>Portanto, a CMHNTM não pode ser compreendida apenas como uma campanha cultural ou moral, mas como um nó de um processo político e da batalha cultural das forças neoconservadoras na busca pela disputa de hegemonia, pela redefinição do papel do Estado — especialmente na educação e nas políticas de gênero — e pela consolidação de uma articulação política entre vários fundamentalismos religiosos e extremas direitas na região. Sua capacidade de adaptação a diferentes contextos nacionais, sua inserção no campo institucional e seu crescente protagonismo eleitoral evidenciam uma ofensiva conservadora que já não se limita a resistir a transformações progressistas, mas que aspira a governar e reordenar estruturalmente o campo político latino-americano.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_136534" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136534" class="size-full wp-image-136534 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/NC_67.jpg" alt="" width="552" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/NC_67.jpg 552w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/NC_67-212x300.jpg 212w" sizes="auto, (max-width: 552px) 100vw, 552px"><p id="caption-attachment-136534" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Maelitha (Argentina), trecho da história em quadrinhos <em>Mi cuerpo, un bosque [Meu Corpo, uma Floresta]</em>, Barro Editora, 2019.<br>Nesta obra, a autora aborda temas como a escolha de gestar, a decisão de dar à luz, a maternidade e a socialização do cuidado.</small></p></div></div>
<h2 style="margin:3em 0;">Conclusões</h2>
<p>Em suma, o ressurgimento das forças conservadoras e da ultradireita não é apenas uma mudança eleitoral, mas uma reconfiguração profunda das disputas pela ordem social. A ofensiva contra as mulheres, as dissidências sexo-genéricas e os feminismos constituem um dispositivo estratégico para restaurar as hierarquias de gênero, raça e classe que sustentam a reorganização autoritária do capitalismo.  Longe de ser um conjunto de posições “culturais”, a cruzada antigênero opera como uma tecnologia política de massas, capaz de articular frustrações sociais e ansiedades identitárias produzidas por décadas de neoliberalismo. Ela funciona como o “cimento ideológico” das novas direitas radicalizadas, estabelecendo inimigos internos, deslegitimando conquistas democratizadoras e erodindo as bases institucionais da igualdade.</p>
<p>Após uma década de estagnação econômica na América Latina, o projeto político neoliberal se relança articulado ao ressurgimento das forças conservadoras, e deslinda a responsabilidade de seu próprio fracasso sobre os feminismos e as dissidências sexuais, enquanto atores mobilizados internacionalmente que expressam posições antissistema e que demonstraram eficácia na convocação das novas gerações. Essa renovada cumplicidade do capitalismo em crise e do patriarcado conta com os esforços de organizações transnacionais e constitui um ponto de unidade com um claro protagonismo dos fundamentalismos religiosos que coincidem no objetivo de reclamar o campo da moral e da família conservadoras para si.</p>
<p>Sua ação consegue instalar um clima de polarização social — especialmente via redes sociais — que dificulta a ampliação de direitos, apelando ao medo e à desinformação como ferramentas de mobilização. Dessa forma, une-se aos atores transnacionais na batalha de ideias que não apenas disputam o terreno cultural e religioso, mas também configuram dinâmicas políticas em escala continental contra a igualdade de gênero e os direitos das pessoas das diversidades sexo-genéricas.</p>
<p>O impacto político da agenda antidireitos se manifesta na capacidade de influenciar debates legislativos, em retrocessos institucionais e em processos eleitorais. Conseguiram frear ou desacelerar projetos de lei sobre educação sexual, aborto legal e cotas de gênero. Também dificultaram ou paralisaram políticas educativas inclusivas e obstruíram a ampliação dos direitos sexuais e reprodutivos em diferentes países, incluindo todos os analisados aqui. Influenciaram o desaparecimento ou redução dos orçamentos dos órgãos dedicados aos direitos das mulheres e à igualdade de gênero. Tiveram incidência na escolha de presidentes, como no caso do Brasil, Argentina, Equador e Costa Rica.</p>
<p>No entanto, a expansão dessas direitas não avança sobre um terreno vazio:  encontra uma sociedade atravessada por um ciclo de mobilização feminista que elaborou imaginários políticos construídos em processos de mobilização nas ruas, ampliou linguagens de direitos e instalou uma crítica radical da violência estrutural. A reação conservadora expressa, portanto, o reconhecimento tácito do poder político desses movimentos. Os ataques ao financiamento às políticas de igualdade,  a criminalização de identidades e a desarticulação de redes comunitárias buscam desmontar as infraestruturas sociais da reprodução da vida que os feminismos visibilizaram e fortaleceram.</p>
<p>Assim, a disputa atual joga-se em um terreno mais profundo: a definição do próprio projeto civilizatório. Enquanto as extremas direitas impulsionam uma restauração autoritária — que recentra a família heterossexual, a subordinação de gênero, a destruição do Estado garantista e uma ordem produtiva excludente —, os feminismos do Sul Global — com sua ênfase na reprodução social, na justiça material e na autonomia coletiva — propõem uma reorganização da vida social centrada na vida em oposição à acumulação capitalista. O desfecho dessa confrontação terá efeitos duradouros sobre a capacidade das maiorias de imaginar e construir futuros emancipatórios frente à crise múltipla que atravessamos.</p>
<p>A experiência da campanha <i>Con Mis Hijos No Te Metas</i> revela como o controle da educação, da família e dos corpos é funcional ao modelo econômico do hiperimperialismo, que exige individualismo, competição e a naturalização de hierarquias. Esse padrão transcende a América Latina e demanda estudos em todo o Sul Global: como operam essas redes na África, onde leis anti-LGBTIQ+ avançam paralelamente a projetos extrativistas? Como se replicam na Ásia, onde retrocessos em direitos reprodutivos dialogam com a precarização laboral e roubo territorial? Que estratégias empregam as juventudes do Sul Global que crescem em contextos de promessas não cumpridas e crise climática, para resistir a essa captura de seus futuros?</p>
<p>Mapear essas interseções é fundamental: a batalha pelos direitos das mulheres e das dissidências sexo-genéricas é inseparável das lutas anti-imperialistas, anticapitalistas e anticoloniais. Este dossiê é um convite para aprofundar essas conexões globais, a investigar como o capitalismo contemporâneo insiste nessas cruzadas morais em diferentes geografias e a construir respostas coletivas a partir dos movimentos populares em defesa da dignidade, da autonomia e da vida plena.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136502" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136502" class="size-full wp-image-136502 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/Patricio-Oliver.jpg" alt="" width="551" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/Patricio-Oliver.jpg 551w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/Patricio-Oliver-212x300.jpg 212w" sizes="auto, (max-width: 551px) 100vw, 551px"><p id="caption-attachment-136502" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Patricio Oliver (Argentina), cartaz da Marcha Federal do Orgulho Antifascista, Antirracista, LGTBIQA+, 2025.</small></p></div>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ednref1" name="_edn1"><sup>1</sup></a> As mulheres dedicam entre 12% e 24% de seu tempo ao trabalho de cuidado não remunerado; entre os homens, essa proporção varia de 3% a 12% (Cepal, 2024). O trabalho de cuidado não remunerado na região é estimado entre 15,9% e 25,3% do PIB, sendo que aproximadamente 75% dessa contribuição econômica provém das mulheres (Cepal/ONU Mulheres, 2021).</p>
<p><a href="#_ednref2" name="_edn2"><sup>2</sup></a>Embora as mulheres possuam níveis educacionais semelhantes ou superiores aos dos homens (CEPALSTAT, 2025), sua participação no mercado de trabalho (51,6%) permanece muito inferior à masculina (76,9%) (Cepal, 2024).</p>
<p><a href="#_ednref3" name="_edn3"><sup>3</sup></a>Devido à discriminação, há pouca informação agregada sobre a população de diversidade de sexo e gênero na região. Sabe-se, porém, que a América Latina e o Caribe detêm o recorde de assassinatos de pessoas trans, com 73% dos casos mundiais reportados em 2024 (93% contra pessoas racializadas). Pelo 17º ano consecutivo, o Brasil lidera essa classificação, com 30% do total de casos (Trans Murder Monitoring, 2025).</p>
<p><a href="#_ednref4" name="_edn4"><sup>4</sup></a>Por exemplo, a “Doutrina das Sete Montanhas” (ou Colinas), de Cunningham e Bright, afirma a necessidade de conquistar o “Reino de Deus” na Terra a partir da hegemonização de sete esferas da sociedade: 1) família, 2) igreja, 3) educação, 4) mídia, 5) artes e esportes, 6) economia e ciência, 7) governo (Cunningham, 2007).</p>
<p><a href="#_ednref5" name="_edn5"><sup>5</sup></a>Entre 1995 e 2023, a América Latina viveu uma mudança religiosa significativa: o catolicismo caiu de 80% para 54%, enquanto os evangélicos cresceram de 6% para 23% e as pessoas sem religião subiram de 4% para 19% (Latinobarómetro, 2024).</p>
<p><a href="#_ednref6" name="_edn6"><sup>6</sup></a>Um estudo no Brasil revelou que cerca de 49% das pessoas evangélicas entrevistadas relataram ter recebido conteúdo falso, e 77,6% afirmaram que tais conteúdos circularam em grupos de WhatsApp relacionados à sua comunidade de fé (Cunha, 2021).</p>
<p><a href="#_ednref7" name="_edn7"><sup>7</sup></a><a href="https://www.argentina.gob.ar/sites/default/files/le_de_libertad_educativa.pdf">https://www.argentina.gob.ar/sites/default/files/le_de_libertad_educativa.pdf</a>.</p>
<p><a href="#_ednref8" name="_edn8"><sup>8</sup></a>Em 2019, na Argentina, setores religiosos evangélicos e católicos, organizações seculares “provida”, ex-militares antidemocráticos e ultraconservadores criaram o Frente NOS para competir nas eleições nacionais e provinciais. Apresentou-se como uma alternativa centrada na oposição ao aborto e na defesa da família tradicional frente à “ideologia de gênero” (Ferrucci, 2021). Após um mau desempenho eleitoral — 1,71% dos votos —, seguido por problemas judiciais e disputas internas, dissolveu-se em 2023 (Poder Judicial de la Nación, 2023). <a href="https://drive.google.com/file/d/1sMA5QDRlpda5taVHuNFpWXV2JFCqEHLL/view">https://drive.google.com/file/d/1sMA5QDRlpda5taVHuNFpWXV2JFCqEHLL/view</a>.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p>ABBOTT, Jeff. “The Other Americans: CPAC Comes to Latin America”. <i>The Progressive Magazine</i>, 2022, 23 nov.   Disponível em: <a href="https://progressive.org/latest/other-americans-cpac-comes-to-latin-america-abbott-231122/">https://progressive.org/latest/other-americans-cpac-comes-to-latin-america-abbott-231122/</a>.</p>
<p>AGENCE FRANCE-PRESSE. “Organizações LGBTQIA+ exigem lei de identidade de gênero em El Salvador”. 2024, 17 maio. Disponível em: <a href="https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2024/05/17/organizacoes-lgbtqia-exigem-lei-de-identidade-de-genero-em-el-salvador.htm?cmpid=copiaecola">https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2024/05/17/organizacoes-lgbtqia-exigem-lei-de-identidade-de-genero-em-el-salvador.htm?cmpid=copiaecola</a>.</p>
<p>ANDÚJAR, Andrea. <i>Mujeres piqueteras: la repolitización de los espacios de resistencia en la Argentina (1996-2001)</i>. Clacso, 2005.  Disponível em: <a href="https://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/becas/semi/2005/poder/andujar.pdf">https://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/becas/semi/2005/poder/andujar.pdf</a>.</p>
<p>ANZORENA, Claudia. <i>Mujeres en la trama del estado.</i> Una lectura feminista de las políticas públicas. Mendoza: Ediunc, 2013.</p>
<p>ARAUJO, Viviane. “Não se meta com meus filhos: gênero, família e discurso conservador na crise democrática latino-americana”. <i>Revista Transversos</i>, Universidade Estadual do Rio de Janeiro. 2020. Disponível em: <a href="https://www.e-publicacoes.uerj.br/transversos/article/view/50331/33221">https://www.e-publicacoes.uerj.br/transversos/article/view/50331/33221</a>.</p>
<p>BALLOUSSIER, Anna Virginia. “Cara típica do evangélico brasileiro é feminina e negra, aponta Datafolha”. <i>Folha de S.Paulo</i>, 13 jan. 2020.  Disponível em: <a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/01/cara-tipica-do-evangelico-brasileiro-e-feminina-e-negra-aponta-datafolha.shtml">https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/01/cara-tipica-do-evangelico-brasileiro-e-feminina-e-negra-aponta-datafolha.shtml</a>.</p>
<p>BANGO, Julio; Patricia COSANI; Viviana PIÑEIRO. <i>Rumo à construção de sistemas integrais de cuidados na América Latina e no Caribe:</i> elementos para sua implementação. CEPAL, ONU Mujeres. 2021. Disponível em: <a href="https://lac.unwomen.org/sites/default/files/2023-01/rumo_construcao_sistemas_integrais_cuidados.pdf">https://lac.unwomen.org/sites/default/files/2023-01/rumo_construcao_sistemas_integrais_cuidados.pdf</a>.</p>
<p>BARRERA RIVERA, Dan Abner. “Apuntes del surgimiento del fundamentalismo religioso en Centroamérica y su relación con los derechos humanos”. <i>Revista Latinoamericana de Derechos Humanos,</i> San José, v. 35, n. 1, 2024, p. 19-33. Disponível em: <a href="https://www.revistas.una.ac.cr/index.php/derechoshumanos/article/view/19256">https://www.revistas.una.ac.cr/index.php/derechoshumanos/article/view/19256</a>.</p>
<p>BARRIOS, Alondra. “CitizenGo: Cuál es el rol de la ONG del ‘Bus de la Libertad’ que ahora protestará ante la OEA”. <i>EMOL</i>, 2 jun.  2018. Disponível em: <a href="https://www.emol.com/noticias/Internacional/2018/06/02/908416/CitizenGo-Cual-es-el-rol-de-la-organizacion-responsable-del-Bus-de-la-Libertad.html">https://www.emol.com/noticias/Internacional/2018/06/02/908416/CitizenGo-Cual-es-el-rol-de-la-organizacion-responsable-del-Bus-de-la-Libertad.html</a>.</p>
<p>BASCUAS, Maisa; BARÓN, Camila. “Nexos entre demandas, definiciones y financiamiento: un análisis comparado de las propuestas de sistemas de cuidados en Argentina, Colombia y Chile”. Ciudad Autónoma de Buenos Aires/ Panamá: CLACSO/ONU MUJERES, 2025. Disponível em: <a href="https://biblioteca-repositorio.clacso.edu.ar/bitstream/CLACSO/253213/1/InformeONU-Nexos.pdf">https://biblioteca-repositorio.clacso.edu.ar/bitstream/CLACSO/253213/1/InformeONU-Nexos.pdf</a>.</p>
<p>BBC. “Elecciones en Costa Rica: el candidato oficialista Carlos Alvarado Quesada gana la presidencia en comicios marcados por debates sobre la religión y el matrimonio igualitario”. 2 abr. 2018.  Disponível em: <a href="https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-43609207">https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-43609207</a>.</p>
<p>BERMÚDEZ, Álvaro. “El Salvador: Religión e Identidad Política”. <i>In:</i> José Luis Pérez Guadalupe y Sebastián Grundberger (eds.) Evangélicos y poder en América Latina. Lima: Konrad Adenauer Stiftung e Instituto de Estudios Social Cristianos. 2018, p. 283-316. Disponível em: <a href="https://www.kas.de/documents/269552/0/Evang%C3%A9licos+y+Poder+en+Am%C3%A9rica+Latina%2C+1era.+Edici%C3%B3n.pdf/e6c0dfac-bbe0-ca5c-8552-6ea4d4971183?version=1.0&amp;t=1614902171236">https://www.kas.de/documents/269552/0/Evang%C3%A9licos+y+Poder+en+Am%C3%A9rica+Latina%2C+1era.+Edici%C3%B3n.pdf/e6c0dfac-bbe0-ca5c-8552-6ea4d4971183?version=1.0&amp;t=1614902171236</a>.</p>
<p>BIROLI, Flávia. <i>Família: Novos Conceitos</i>. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2014. Disponível em: <a href="https://redept.org/uploads/biblioteca/colecaooquesaber-05-com-capa.pdf">https://redept.org/uploads/biblioteca/colecaooquesaber-05-com-capa.pdf</a>.</p>
<p>BIROLI, Flávia. “Reação conservadora, democracia e conhecimento”, <i>Revista de Antropologia</i>, v. 61, n. 1, 2018, p. 83-94.</p>
<p>BRACKE, Sarah; PATERNOTTE, David. <i>¡Habemus género! La Iglesia Católica y ideología de género. </i>Textos seleccionados. Rio de Janeiro: Observatorio de Sexualidad y Política, 2018.  Disponível em: <a href="https://sxpolitics.org/spwprojects/gpal/uploads/ebook-2018-17122018.pdf">https://sxpolitics.org/spwprojects/gpal/uploads/ebook-2018-17122018.pdf</a>.</p>
<p>BURNEO SALAZAR, Cristina. “Ecuador: La fabricación de la ‘ideología de géneroʼ”. <i>In:</i> GONZÁLEZ VÉLEZ, Ana Cristina <i>et al.</i> Develando la retórica del miedo de los fundamentalismos. La Campaña “Con Mis Hijos No Te Metas” en Colombia, Ecuador y Perú. Lima: Centro de la Mujer Peruana Flora Tristán, 2018.</p>
<p>CARREÑO, Víctor H.; RIVAS, Diego. “Elecciones 2023: Las propuestas LGBTIQ+, relegadas de los discursos de campaña”. <i>Edición Ciento Once</i>. 12 out. 2023. Disponível em: <a href="https://edicion111.com/2023/10/12/elecciones-2023-las-propuestas-lgbtiq-relegadas-de-los-discursos-de-Campa%C3%B1a/">https://edicion111.com/2023/10/12/elecciones-2023-las-propuestas-lgbtiq-relegadas-de-los-discursos-de-Campaña/</a>.</p>
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<p>CAVALCANTE, David. El Salvador refém do bukelismo: a nova extrema direita centro-americana. <i>Esquerda Online.</i> 10 mar. 2024.  Disponível em: <a href="https://esquerdaonline.com.br/2024/03/10/el-salvador-refem-do-bukelismo-a-nova-extrema-direita-centro-americana/">https://esquerdaonline.com.br/2024/03/10/el-salvador-refem-do-bukelismo-a-nova-extrema-direita-centro-americana/</a>.</p>
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<p>SARMIENTO, Jair. “El profeta de los mineros”, <i>Wayka,</i> 30 abr. 2024.  Disponível em: <a href="https://wayka.pe/christian-rosas-asesor-de-mineros-contacto-a-congresistas-que-impulsaron-ley-a-favor-de-mineria-ilegal/">https://wayka.pe/christian-rosas-asesor-de-mineros-contacto-a-congresistas-que-impulsaron-ley-a-favor-de-mineria-ilegal/</a>.</p>
<p>SEMANA. “Proponen frente latinoamericano contra la ideología de género”. 13 set. 2016.  Disponível em: <a href="https://www.semana.com/nacion/articulo/frente-latinoamericano-a-favor-de-la-familia-y-contra-la-ideologia-de-genero/493623/">https://www.semana.com/nacion/articulo/frente-latinoamericano-a-favor-de-la-familia-y-contra-la-ideologia-de-genero/493623/</a>.</p>
<p>SOHR, Olivia; Paula Martinetti; FERNÁNDEZ, Pablo. (Chequeado — Argentina); CHITIVA, María José; ARBÉLAEZ, Natalia (La Silla Vacía — Colombia); DINIZ, Iara (Lupa — Brasil); LONGO María José; QUINTELA, Carmen (Ocote — Guatemala); DÍAZ, Carla (OjoPúblico — Peru). “Como grupos internacionais se articulam para disseminar desinformação sobre gênero na América Latina”. <i>Lupa Jornalismo (UOL).</i> 29 jun. 2023,   Disponível em: <a href="https://lupa.uol.com.br/jornalismo/2023/06/29/como-grupos-internacionais-se-articulam-para-disseminar-desinformacao-sobre-genero-na-america-latina">https://lupa.uol.com.br/jornalismo/2023/06/29/como-grupos-internacionais-se-articulam-para-disseminar-desinformacao-sobre-genero-na-america-latina</a>.</p>
<p>TEIXEIRA, Jacqueline Moraes. <i>A Mulher Universal: corpo gênero e a pedagogia da prosperidade</i>. Rio de Janeiro: Mar de ideias — Navegação Cultural, 2016.</p>
<p>TRANS MURDER MONITORING 2024. Disponível em: <a href="https://www.tgeu.org/trans-murder-monitoring/">https://www.tgeu.org/trans-murder-monitoring/</a>.</p>
<p>UOL NOTÍCIAS. “Cruzada de Bukele contra ideologia de gênero ameaça aumentar intolerância em El Salvador”. 1 mar. 2024. Disponível em: <a href="https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2024/03/01/cruzada-de-bukele-contra-ideologia-de-genero-ameaca-aumentar-intolerancia-en-el-salvador.htm">https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2024/03/01/cruzada-de-bukele-contra-ideologia-de-genero-ameaca-aumentar-intolerancia-en-el-salvador.htm</a>.</p>
<p>VEGA, Cristina. “¿Quién teme al feminismo? A propósito de la ‘ideología de género’ y otras monstruosidades sexuales en Ecuador y América Latina”. Sin Permiso, 8 dez. 2017.  Disponível em: <a href="https://www.sinpermiso.info/textos/quien-teme-al-feminismo-a-proposito-de-la-ideologia-de-genero-y-otras-monstruosidades-sexuales-en">https://www.sinpermiso.info/textos/quien-teme-al-feminismo-a-proposito-de-la-ideologia-de-genero-y-otras-monstruosidades-sexuales-en</a>.</p>
<p>VEGA, Cristina. “Neoconservadurismo, progresismo y reinvención de las derechas mediante la ofensiva antigénero. Notas desde Ecuador”. <i>Revista Común</i>, 4 dez. 2020.</p>
<p>VEGA, Cristina. <i>Vida, familia y libertad. La reacción patriarcal contra el género en Ecuador</i>. Quito: FLACSO Ecuador y Ediciones Abya-Yala, 2025.</p>
<p>VISTAZO. “Segunda vuelta Ecuador 2025: Daniel Noboa y Luisa González meten la ‘ideología de género’ en la Campaña”. 11 mar. 2025. Disponível em: <a href="https://www.vistazo.com/politica/elecciones-ecuador-2025/2025-03-11-segunda-vuelta-ecuador-daniel-noboa-luisa-gonzalez-rechazan-ideologia-genero-FM8943016">https://www.vistazo.com/politica/elecciones-ecuador-2025/2025-03-11-segunda-vuelta-ecuador-daniel-noboa-luisa-gonzalez-rechazan-ideologia-genero-FM8943016</a>.</p>
<p>VITERI, María Amelia. <i>Políticas antigénero en América Latina: Ecuador — La instrumentalización de la ideología de género</i>. Rio de Janeiro: Observatorio de Sexualidad y Política, 2020.  Disponível em: <a href="https://sxpolitics.org/spwprojects/gpal/uploads/Ebook-Ecuador-20200204.pdf">https://sxpolitics.org/spwprojects/gpal/uploads/Ebook-Ecuador-20200204.pdf</a>.</p>
<p>VIVEROS VIGOYA, Mara; RONDÓN, Manuel Rodríguez.  Dossier “Hacer y deshacer la ideología de género<i>”. Sexualidad, Salud y Sociedad – Revista Latinoamericana</i>. n. 27, dez. 2017, p. 118-127.</p>
<p>VOGEL, Lise. <i>Marxismo e a opressão às mulheres: rumo a uma teoria unitária</i>. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2022.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Páginas na internet e redes sociais</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p>Blackstone Legal Fellowship – <a href="https://blackstonelegalfellowship.org/what-is-blackstone/">https://blackstonelegalfellowship.org/what-is-blackstone/</a></p>
<p>CitizenGo – <a href="https://help.citizengo.org/article/906-about-us#second">https://help.citizengo.org/article/906-about-us#second</a></p>
<p>Con mis hijos no te metas (Argentina) – <a href="https://www.facebook.com/ConMisHijosNoTeMetasArgentinaOK">https://www.facebook.com/ConMisHijosNoTeMetasArgentinaOK</a></p>
<p>Con mis hijos no te metas (Chile) – <a href="https://www.conmishijosnotemetas.cl/nosotros-nueva">https://www.conmishijosnotemetas.cl/nosotros-nueva</a></p>
<p>Consejo de Resistencia Fe, Vida y Familia (Equador) – <a href="https://www.facebook.com/ConsejoFEVIDAYFAMILIA">https://www.facebook.com/ConsejoFEVIDAYFAMILIA</a></p>
<p>Frente Nacional por la Familia (Equador) – <a href="https://www.facebook.com/FrentePorLaFamiliaEC">https://www.facebook.com/FrentePorLaFamiliaEC</a></p>
<p>Con Mis Hijos No Te Metas (Equador) – <a href="https://www.facebook.com/conmishijosnotemetasec/?locale=he_IL">https://www.facebook.com/conmishijosnotemetasec/?locale=he_IL</a></p>
<p>Con Mis Hijos No Te Metas (El Salvador) – <a href="https://www.facebook.com/Conmishijosnotemetaselsalvadorsv">https://www.facebook.com/Conmishijosnotemetaselsalvadorsv</a></p>
<p>Perfiles de Cristian Rosas (Peru) – <a href="https://www.facebook.com/crosas89">https://www.facebook.com/crosas89; </a><a href="https://christianrosas.pe/quien-soy/">https://christianrosas.pe/quien-soy/</a></p>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A guerra contra os pobres: narcóticos, camponeses e capitalismo</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-guerra-contra-os-pobres/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 08:00:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
		<category><![CDATA[War on Drugs]]></category>
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		<category><![CDATA[Drug Trafficking]]></category>
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		<category><![CDATA[Capitalism]]></category>
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		<category><![CDATA[guerra contra las drogas]]></category>
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					<description><![CDATA[Uma cruzada antigênero recorre a América Latina: extrema direita, fundamentalismos religiosos e redes transnacionais buscam desmontar os avanços feministas como ferramenta de poder político.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="single-post--content--text-small">As ilustrações deste dossiê são intervenções artísticas que combinam fotografias da Comissão de Comunicações do Processo de Unidade Popular do Sudoeste Colombiano (Pupsoc). O Pupsoc articula organizações que defendem os territórios e direitos de comunidades do sul-ocidente colombiano, uma região fortemente golpeada pela “Guerra às Drogas” imposta pelo imperialismo estadunidense em aliança com os interesses do capital. Esta política tem servido para militarizar territórios, criminalizar o campesinato e aprofundar a espoliação, afetando a soberania alimentar e a autonomia rural. As intervenções artísticas feitas pelo Instituto Tricontinental representam como o imperialismo e o capital orquestram essa violência através de diagramas, mapas e números, enquanto as fotografias retratam um povo que permanece em resistência organizada, em defesa da vida, da terra e da dignidade.</p>
<hr class="single-post--content--separator-narrow">
<h3 style="margin:2em 0;">Agradecimentos</h3>
<p>Este dossiê está baseado parcialmente no nosso projeto <i>Viciados em imperialismo</i>, no qual publicamos vários textos em espanhol.<a href="#_edn1" name="_ednref1"><sup>1</sup></a></p>
<p>Gostaríamos também de agradecer:</p>
<ul>
<li aria-level="1">À Coordenação Nacional de Cultivadores e Cultivadoras de Coca, Amapola e Maconha (Coccam) que, com sua história de luta e resistência, continua defendendo os direitos dos camponeses e a construção de alternativas diante da criminalização daqueles que se dedicam a essas culturas na Colômbia.</li>
<li aria-level="1">Ao Centro de Pensamento e Diálogo Político, que realizou parte da pesquisa para o nosso projeto <i>Viciados em imperialismo</i> e reuniu depoimentos dos territórios que refletem a realidade vivida pelos camponeses da Colômbia.</li>
<li aria-level="1">À Comissão de Comunicações do Processo de Unidade Popular do Sudoeste Colombiano (Pupsoc) pelo material fotográfico que acompanha este dossiê. Seu trabalho, enraizado na luta e na organização junto às comunidades, nos permitiu ilustrar a realidade cotidiana da vida camponesa e da resistência com imagens de seus territórios.</li>
<li aria-level="1">Ao Instituto Transnacional, pelo seu projeto de longa data de pesquisa e análise do tráfico de drogas desde a década de 1990, como a divulgação do relatório suprimido da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a cocaína (Transnational Institute, <i>The WHO Cocaine Project</i>, Amsterdã: TNI, 1995). Também recomendamos os relatórios Transnational Institute, <i>10 Years Review: TNI Drugs and Democracy Programme, 1998-2008</i>, Amsterdã: TNI, 2008; Transnational Institute, <i>Global Commission on Drug Policy Report</i>, Amsterdã: TNI, 2011; e Ernestien Jensema, Martin Jelsma &amp; Tom Blickman, <i>Bouncing Back: Relapse in the Golden Triangle</i>, Amsterdã: TNI, 2014.</li>
</ul>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<p>Há centenas de anos, os saqueadores dos primórdios do capitalismo alegavam ter vindo a terras “selvagens” para trazer a “civilização”. Mas o que vieram fazer foi pilhar: tomar terras, explorar a mão de obra e extrair ouro e prata da África, Ásia e Américas. Ao longo das gerações, esse banditismo se tornou estrutural, incorporado às plantações, minas e companhias comerciais que drenavam essa riqueza para a “glória eterna” da Europa. Com o tempo, os descendentes desses primeiros bandidos vestiram ternos impecáveis e sugeriram que aquele desagradável passado não era sua herança, e que suas fortunas eram fruto de seu dedicado empreendedorismo. Mas, abaixo deles, nos esgotos da atividade comercial, estavam os outros ramos organizados dos negócios – a máfia, os traficantes de narcóticos e armas, os contrabandistas, os traficantes de pessoas e órgãos, os cibercriminosos, os agiotas, os caçadores furtivos de animais e aqueles que administram as fazendas de golpes e os complexos de crimes cibernéticos (Feinstein, 2011; Naim, 2006; Ramos, 2018; Botte, 2000; Franceschini <i>et al</i>., 2025). Os capitalistas da superfície e os do subterrâneo estão ligados pela circulação de recursos volumosos, líquidos e sujos. Esses fundos ilícitos fluem de baixo para cima para serem lavados, desodorizados, as notas são esticadas, agrupadas e então postas em movimento – com um pequeno desconto – como o volume necessário de dinheiro que se torna capital limpo para uso lícito.</p>
<p>Este dossiê busca desconstruir a narrativa dominante que apresenta a “Guerra às Drogas” como uma genuína cruzada moral dos Estados capitalistas para proibir a circulação de narcóticos ilícitos. Essa narrativa se baseia na alegação de que o tráfico de drogas está de alguma forma separado do capitalismo “legal”. Argumentamos, em vez disso, que a Guerra às Drogas é meramente uma tentativa dos Estados capitalistas de garantir que esses circuitos de narcotráfico permaneçam na clandestinidade, para que o dinheiro desviado do comércio ilegal possa continuar a inflar um sistema bancário que não funcionaria sem ele. Para além da lavagem de dinheiro proveniente do crime e da guerra de classes contra os camponeses, a Guerra às Drogas tornou-se uma ferramenta imperial flexível para disciplinar governos rebeldes, promover agendas contrarrevolucionárias e abrir territórios ao capital. Embora a guerra seja um regime global, este dossiê se concentra na economia da cocaína na Colômbia como uma lente por meio da qual se pode examinar sua economia política.</p>
<p>Nosso texto se baseia em pesquisas históricas sobre as últimas décadas da Guerra às Drogas, em documentos-chave das Nações Unidas (ONU) e em nosso próprio trabalho com organizações camponesas na Colômbia. A partir de sua posição na base da cadeia de valor, os camponeses têm uma compreensão clara das estruturas que sustentam o comércio ilícito. Suas organizações mapearam o capitalismo paralelo que explora os produtores rurais e suas famílias, bem como as comunidades da classe trabalhadora nos países mais ricos, em que o desemprego estrutural empurra muitos para essa economia como vendedores ou consumidores de baixo nível.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135576" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135576" class="size-full wp-image-135576 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_2.jpg" alt="" width="950" height="726" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_2.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_2-300x229.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_2-768x587.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-135576" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Foto: Uma participante da Minga Social e Comunitária em Defesa da Vida, do Território, da Democracia e da Paz ao lado de um muro com os dizeres “Não à violência; sou humano”. Como parte da minga (uma prática ancestral de trabalho coletivo que se tornou uma poderosa ferramenta de mobilização na região), milhares marcharam de Cali a Bogotá, realizando grandes manifestações em cidades ao longo do caminho. Outubro de 2020.<br>Créditos: Intervenção do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></p></div>
</div>
<blockquote class="single-post--content--quote-outlined-block"><p>Não podemos abordar esse aspecto sem destacar uma flagrante autocontradição do governo britânico, que reivindica e promove o cristianismo e a civilização. Em sua condição imperial, finge desconhecer completamente o comércio ilegal de ópio, chegando até a firmar tratados que o proíbem. Contudo, em sua condição de governante da Índia, impõe o cultivo de ópio em Bengala, causando grandes prejuízos aos recursos produtivos daquele país; obriga parte dos camponeses indianos a cultivar papoula; incentiva outra parte a fazer o mesmo por meio de adiantamentos em dinheiro; mantém o monopólio da produção em larga escala da droga nociva em suas mãos […]. O baú, que custou ao governo britânico cerca de 250 rúpias, é vendido no mercado de leilões de Calcutá por um preço que varia de 1.210 a 1.600 rúpias. Mas, não satisfeito com essa cumplicidade pragmática, o mesmo governo, até hoje, estabelece acordos explícitos de lucros e prejuízos com os comerciantes e transportadores que se lançam na perigosa operação de envenenar um império.</p>
<p>As finanças indianas do governo britânico, na verdade, passaram a depender não apenas do comércio de ópio com a China, mas também do caráter contrabandeado desse comércio […] Enquanto prega abertamente o livre comércio de veneno, secretamente defende o monopólio de sua fabricação. Sempre que analisamos de perto a natureza do livre comércio britânico, o monopólio geralmente se encontra na base de sua “liberdade”.</p>
<p style="text-align: right;">Karl Marx, “Livre Comércio e Monopólio”, 25 set. 1858.</p>
</blockquote>
<h2 style="margin:3em 0;">Parte 1: A economia política das drogas ilícitas</h2>
<p>A partir da década de 1830, o ópio cultivado na Índia passou a ser contrabandeado para a China da dinastia Qing em quantidades cada vez maiores. Produzido sob o monopólio da Companhia Britânica das Índias Orientais na Índia e vendido em leilão a comerciantes privados, o produto circulava por redes de contrabando ao longo da costa chinesa. Após as duas Guerras do Ópio travadas entre a Grã-Bretanha e o Império Qing (1839-1842 e 1856-1860, com a França juntando-se à Grã-Bretanha na segunda), o comércio se consolidou e seu alcance se expandiu, inundando o mercado chinês com ópio.<a href="#_edn2" name="_ednref2"><sup>2</sup></a> Isso permitiu que a Grã-Bretanha utilizasse a prata recebida com a venda de ópio na China para financiar suas compras de chá, revertendo a saída de metais preciosos e tornando o comércio com a China lucrativo. O vício generalizado – inclusive entre funcionários e tropas imperiais – aprofundou a corrupção e enfraqueceu o Estado Qing. A entrada do ópio na China gerou fortunas fabulosas para novas famílias ricas, muitas das quais são hoje nomes lendários no capitalismo, como os Astor, os Forbes, os Delano (de quem descende o presidente americano Franklin Delano Roosevelt), os Jardine, os Matheson e os Sassoon (Downs, 1972). Essas fortunas também ajudaram a estabelecer bancos poderosos, como o Hong Kong and Shanghai Banking Company (HSBC), fundado em 1865. Os lucros do ópio contribuíram para o capital acumulado para a construção da infraestrutura dos centros imperiais, incluindo as ferrovias nos Estados Unidos, construídas em meados e no final do século XIX e fortemente dependentes da mão de obra migrante chinesa. O capital acumulado no comércio com a China também fluiu para empresas americanas por meio de investimentos de grandes comerciantes chineses, como Wu Bingjian (Houqua) (Wong, 2016).</p>
<p>No final do século XIX, as consequências do ópio, altamente lucrativo e facilmente disponível, já não se restringiam à China. A droga havia chegado aos centros imperiais, com taxas de dependência crescentes nos estados do Atlântico Norte. Reformadores sociais nessas partes do mundo intensificaram as campanhas para proibir a entrada do ópio, mas tudo o que conseguiram foi empurrar toda a indústria para os braços de organizações criminosas cada vez mais poderosas. O período da Lei Seca nos EUA, entre 1920 e 1933, marcou uma profunda mudança na economia política das drogas. A proibição do álcool – acompanhada do endurecimento dos controles sobre os narcóticos – alimentou o crescimento exponencial da economia ilícita, dotando as organizações criminosas de recursos e de uma influência sem precedentes. Gangues locais se transformaram em sindicatos nacionais, estendendo seu alcance às instituições políticas. Quando a Lei Seca foi revogada em 1933, a heroína e outros narcóticos permaneceram a principal fonte de renda para essa crescente infraestrutura criminosa e uma importante fonte de liquidez para o sistema bancário legal. Os lucros das atividades ilegais, por mais vastos que fossem, tornaram-se a fonte de um fluxo constante de dinheiro para a economia legal.</p>
<p>A pilhagem colonial de moedas, terras e trabalho, aliada ao cercamento das terras comuns na Inglaterra entre 1750 e 1860, formou a base do que Marx chamou de <i>ursprüngliche Akkumulation, </i>ou acumulação “originária”, em <i>O capital</i>, volume 1. Não havia preocupação com a legalidade. Todo o processo de acumulação era banhado em sangue – a conquista de vastos territórios, a captura de povos inteiros e o comércio de tudo o que pudesse ser comprado e vendido, incluindo seres humanos e as drogas mais letais. Foi assim que o capitalismo nasceu, certamente, mas também é assim que ele sobrevive. A acumulação originária não é um prelúdio único que estabelece uma máquina de movimento perpétuo. Ela pode ser entendida como periódica: a acumulação originária recomeça sempre que o capital, carente de liquidez, busca novas reservas para satisfazer sua necessidade – assim como um vampiro busca sangue fresco para se alimentar.</p>
<p>A economia das mercadorias ilícitas – seja o tráfico de drogas, seja o de pessoas – possui uma lógica peculiar que a diferencia da economia das mercadorias lícitas. Uma vez que uma mercadoria é designada como ilegal pelo Estado, ela sai de todo o aparato regulatório. Aqueles que trabalham para produzir a mercadoria, desde sua etapa primária (os camponeses que cultivam a folha de coca, por exemplo) até sua etapa final (os traficantes que vendem cocaína em suas diversas formas), ficam sem qualquer proteção legal e, portanto, vulneráveis à superexploração em níveis inimagináveis.<a href="#_edn3" name="_ednref3"><sup>3</sup></a> Os produtos primários são precificados tão abaixo de seu valor de mercado que geram enormes quantias de dinheiro para aqueles que controlam a cadeia de distribuição, da compra na origem à venda nas ruas. A cadeia de produção da cocaína é ilustrada abaixo:<a href="#_edn4" name="_ednref4"><sup>4</sup></a></p>
<ol>
<li aria-level="1">Cultivo da folha de coca
<ol style="list-style-type: lower-alpha;">
<li aria-level="2"><b>Processo: </b>a folha de coca é cultivada principalmente na região andina (Bolívia, Colômbia e Peru). A colheita é realizada diversas vezes ao ano por <i>raspachines </i>(colhedores de folha de coca contratados) e a venda é feita diretamente pelo produtor, antes do transporte ou processamento, para intermediários. Uma parte da folha de coca é utilizada legalmente (para mascar, ou <i>mambeo</i>, e para fazer chá). O restante é destinado ao processamento ilícito para a produção de cocaína.</li>
<li aria-level="2"><b>Preços: </b>na Colômbia, que tem sido o maior produtor mundial de coca nos últimos anos, o preço da folha de coca na fazenda despencou em muitas regiões. Um relatório recente mostra que, entre 2022 e 2023, o preço de uma arroba caiu de 20 dólares para 7 dólares em Nariño e de 17 para 9 dólares em Argélia (Cauca) (Isacson, 2023).</li>
<li aria-level="2"><b>Objetivo: </b>os camponeses vendem na base de uma cadeia que não controlam; a ilegalidade elimina as proteções e cria um mercado favorável ao comprador na porteira da fazenda.</li>
</ol>
</li>
<li aria-level="1">Pasta base (pasta de coca)
<ol style="list-style-type: lower-alpha;">
<li aria-level="2"><b>Processo: </b>em pequenos laboratórios clandestinos, os trabalhadores maceram a folha de coca manualmente, utilizando destilados de petróleo para extrair os alcalóides. Esse material é então secado para produzir a pasta de coca.</li>
<li aria-level="2"><b>Preços: </b>os preços da pasta de coca variam em toda a região, mas um valor indicativo é que, na Colômbia, um quilo de pasta de coca podia ser vendido na porta do laboratório por 450 a 600 dólares nos últimos cinco anos.</li>
<li aria-level="2"><b>Objetivo: </b>os intermediários transformam a folha em concentrado, e assim vem a primeira grande margem de lucro – valor que não retorna aos agricultores.</li>
</ol>
</li>
<li aria-level="1">Pasta de coca para cloridrato de cocaína (cocaína em pó)
<ol style="list-style-type: lower-alpha;">
<li aria-level="2"><b>Processo: </b>alguns processos utilizam ácidos minerais para alterar a forma química dos alcalóides extraídos. Em seguida, os trabalhadores usam substâncias alcalinas para alterar a solubilidade dos alcalóides durante o processamento. Etapas adicionais podem envolver agentes oxidantes ou solventes para purificar o produto. Esses produtos químicos – muitas vezes facilmente disponíveis devido ao seu uso na agricultura e na indústria – são manuseados e misturados por trabalhadores utilizando métodos extremamente inseguros, incluindo o uso de mãos desprotegidas.</li>
<li aria-level="2"><b>Preços: </b>na entrada desse local de processamento, o preço sobe para mais de mil dólares por quilo, embora hoje possa chegar a vários milhares de dólares, dependendo da qualidade do cloridrato de cocaína.</li>
<li aria-level="2"><b>Objetivo: </b>o refino padroniza a droga para os mercados atacadistas, transformando-a em uma mercadoria de alto valor que pode ser negociada como dinheiro.</li>
</ol>
</li>
<li aria-level="1">Comércio atacadista e varejista
<ol style="list-style-type: lower-alpha;">
<li aria-level="2"><b>Processo: </b>a cocaína em pó é então transportada dos países andinos para centros de trânsito – especialmente na América Central, Caribe, Brasil e África Ocidental – por grupos armados e organizações criminosas. O produto de alta pureza é vendido a granel entre as organizações de tráfico (UNODC, 2023a). Os traficantes então levam a droga para os países consumidores (principalmente os EUA e a Europa Ocidental), onde o produto é diluído, reembalado e distribuído para pequenos atacadistas (principalmente gangues) antes de chegar às ruas por meio de revendedores.</li>
<li aria-level="2"><b>Preços: </b>dados recentes do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) sobre os preços na última década no México sugerem que o preço de trânsito é de aproximadamente 12 mil dólares por quilo. No Panamá, o preço registrado foi de 30 mil por quilo. O preço de varejo no Quênia varia bastante, com uma estimativa de 90 dólares por grama com pureza em torno de 56% e um preço de atacado de 44.580 dólares por quilo com pureza entre 40% e 50% (UNODC, 2004).</li>
<li aria-level="2"><b>Objetivo: </b>as vendas por atacado e varejo geram a maior parte dos lucros em dinheiro, que é então lavado e reinvestido, fornecendo liquidez à economia formal.</li>
</ol>
</li>
</ol>
<p>Em conjunto, os números acima mostram como o valor aumenta em várias ordens de magnitude, desde a folha de coca diretamente da fazenda na Colômbia, com preço entre 0,56 e 0,72 dólares por quilo, até a cocaína no atacado no Quênia, por exemplo, a 44.580 dólares o quilo – um aumento de preço de aproximadamente 62 mil a 80 mil vezes (cerca de 6,2 a 8,0 milhões por cento).</p>
<p>A natureza de produtos ilícitos como a cocaína é tal que a demanda é em grande parte inelástica em relação ao preço (o que significa que o consumo muda pouco mesmo quando os preços sobem), especialmente entre usuários dependentes, já que o vício os mantém consumindo independentemente do preço. Em alguns casos, o aumento do preço leva o usuário a pequenos furtos ou outras formas de obtenção de renda informal para arcar com esses custos. A violência no transporte da droga das fazendas para as ruas e as overdoses raramente interrompem a produção ou o mercado, já que o desemprego e a precariedade garantem uma reserva de mão de obra que pode ser recrutada para o tráfico quando outros são mortos, presos ou forçados a sair. Dessa forma, vidas podem ser perdidas sem que o processo de acumulação de capital na economia formal se interrompa. Cidades desindustrializadas com altas taxas de desemprego fornecem convenientemente um contingente de recrutas e consumidores para uma economia das drogas que emprega parcelas da população, vicia muitos e permite a repressão coercitiva por forças estatais em nome da Guerra às Drogas.<a href="#_edn5" name="_ednref5"><sup>5</sup></a> A economia de mercadorias ilícitas, portanto, explora ao máximo os trabalhadores, produz enormes volumes de dinheiro que são lavados e, assim, lubrificam o sistema financeiro, e permite que comunidades marginalizadas sejam controladas por meio da desmoralização social e da intervenção policial.</p>
<p>A ligação entre narcóticos e capitalismo não se restringe ao submundo: as mesmas plantas e moléculas que circulam por rotas ilícitas também abastecem indústrias perfeitamente legais. A papoula do ópio alimenta o mercado farmacêutico global com analgésicos e sedativos. As folhas de coca são processadas para a produção de aromatizantes e medicamentos sem a substância cocaína. Opioides sintéticos, como o fentanil, são fabricados sob licença por grandes empresas farmacêuticas. Em cada caso, os Estados criam regimes regulatórios e comerciais que protegem os lucros corporativos, ao mesmo tempo que criminalizam as rotas informais paralelas. A fronteira entre drogas “legais” e “ilegais”, portanto, não é química, mas política, traçada de forma a favorecer a acumulação de capital nos centros imperiais e expor camponeses e consumidores pobres nas periferias à criminalização e à violência.</p>
<p>Os vastos volumes de dinheiro líquido que circulam pelas mãos de cartéis criminosos e são lavados em bancos representam uma enorme tentação para os governos usarem esse dinheiro em operações secretas não declaradas. Na prática, isso frequentemente assume a forma de alianças secretas com forças por procuração – incluindo proteção, treinamento, armas e logística – que operam dentro das economias do narcotráfico e se financiam por meio da tributação do cultivo, processamento e transporte. Dessa forma, a receita ilícita pode subsidiar a guerra por procuração, ao mesmo tempo que protege o governo patrocinador da fiscalização pública. Tais circuitos foram utilizados pelos Estados Unidos no financiamento de forças contrarrevolucionárias, visando suprimir movimentos de esquerda ou comunistas após a Segunda Guerra Mundial. Exemplos incluem remanescentes do Kuomintang (KMT) na Birmânia e no norte da Tailândia (início das décadas de 1950 e 1960), mobilizados contra a República Popular da China e as forças comunistas ao longo da fronteira no norte de Mianmar e da Tailândia; o Exército Secreto Hmong, sob o comando do General Vang Pao, no Laos (c. 1960-1973), mobilizado contra o Pathet Lao e as forças do Vietnã do Norte; as forças armadas do Vietnã do Sul (1955-1975), mobilizadas contra a Frente Nacional de Libertação (Viet Cong) e o Vietnã do Norte; os <i>mujahidin </i>afegãos (final da década de 1970 e década de 1980), mobilizados contra o governo do PDPA no Afeganistão, apoiado pelos soviéticos, e, após a intervenção soviética, contra essas forças; os Contras nicaraguenses (década de 1980), mobilizados contra o governo sandinista; e os paramilitares colombianos, notadamente as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC, 1997-2006), mobilizados contra as FARC-EP<a href="#_edn6" name="_ednref6"><sup>6</sup></a> e a esquerda em geral (McCoy, 1972; Webb, 1998; Grillo, 2016).<a href="#_edn7" name="_ednref7"><sup>7</sup></a> Um Estado de segurança que trata o mundo das drogas ilegais como um banco para suas próprias operações secretas tem poucos incentivos para desmantelar esses circuitos. Há ampla evidência de que os próprios cartéis usam seus contatos dentro dos serviços de segurança para eliminar rivais, de modo a expandir suas operações para novos territórios. A relação simbiótica entre gangues ilegais e as agências secretas paralegais do Estado está bem documentada (Valentine, 2017; CIA, 1998; Cockburn &amp; St. Clair, 1999).</p>
<p>O paradigma da Guerra às Drogas permitiu aos Estados Unidos, o principal arquiteto dessa campanha, retratar qualquer um de seus adversários como narcotraficantes e usar seu imenso poderio militar e financeiro contra eles. A base do Plano Colômbia (lançado em 2000 como uma iniciativa EUA-Colômbia) era usar o financiamento do combate às drogas para armar as Forças Armadas colombianas, cujo foco principal <i>não eram </i>os narcotraficantes, que haviam se infiltrado no Estado e no aparato de segurança, nem os paramilitares de direita, que trabalhavam em estreita colaboração com os narcotraficantes, mas sim grupos revolucionários como as FARC-EP e o Exército de Libertação Nacional (ELN) (Rivera, 2015). Na prática, a estrutura de combate às drogas do Plano Colômbia também funcionou como um projeto de contrainsurgência e recuperação territorial, visando reafirmar o controle estatal nas regiões produtoras de coca (as próprias FARC-EP surgiram de comunidades de autodefesa camponesa e obtiveram grande parte de sua base social da Colômbia rural). Mais recentemente, a retórica da Guerra às Drogas tem sido usada para intensificar a pressão sobre países da região cujos governos se recusam a se submeter aos Estados Unidos (principalmente Venezuela, Colômbia e México). Em agosto de 2025, Washington começou a intensificar essa narrativa contra a Venezuela, designando o suposto Cartel de los Soles como um “grupo terrorista transnacional” com hipotéticos laços com o presidente Nicolás Maduro. Apesar de não apresentar nenhuma prova da ligação (ou mesmo da existência desse “cartel”), os EUA têm se engajado em uma violenta campanha contra a Revolução Bolivariana que inclui, mais recentemente, ataques extrajudiciais contra pequenas embarcações no Caribe (matando mais de cem pessoas até o final de 2025), um bloqueio naval a petroleiros venezuelanos sancionados e o atentado de 3 de janeiro em Caracas, seguido do sequestro do presidente Maduro e da deputada da Assembleia Nacional Cilia Flores, que estão sendo julgados em um tribunal de Nova York sob acusações infundadas, relacionadas a “narcoterrorismo” (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2025; Arlacchi, 2025). Vale ressaltar que, poucos dias após o sequestro de Maduro e Flores, o Departamento de Justiça abandonou “a alegação de que o ‘Cartel de los Soles’ da Venezuela seja um grupo real”, como afirmou um artigo do <i>The New York Times </i>(Savage, 2026).</p>
<p>Essa narrativa se baseia em uma guerra de informação fundamentada em exageros, desinformação e mentiras descaradas. De acordo com a própria Drug Enforcement Administration (DEA), a Colômbia continua sendo o principal local de cultivo de coca e o principal país de origem da cocaína apreendida nos Estados Unidos. Além disso, a maior parte da cocaína destinada ao mercado estadunidense sai da Colômbia pelo Pacífico e passa pela América Central e pelo México, sendo que a Venezuela responde por apenas 5% das drogas transportadas pela Colômbia (DEA, 2026; Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2026). Embora a Venezuela seja responsável por uma parcela insignificante do tráfico global de drogas, ela permanece, atualmente, um dos principais alvos da guerra às drogas dos EUA. Isso não só demonstra um flagrante desrespeito aos fatos como também viola o direito internacional e exemplifica claramente como a narrativa da Guerra às Drogas é utilizada para disciplinar as forças de esquerda na região e drenar a riqueza do Sul para o Norte.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135568" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135568" class="size-full wp-image-135568 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_4.jpg" alt="" width="950" height="820" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_4.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_4-300x259.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_4-768x663.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-135568" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Foto: Uma criança participa de uma homenagem em Popayán, Cauca, em 2020, em memória dos manifestantes que foram feridos e mortos pela repressão policial durante a revolta social de 2019 – muitos deles ficaram permanentemente cegos.<br>Créditos: Intervenção do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></p></div>
</div>
<p>Segundo uma estimativa, em 2015, a troca desigual de bens e serviços entre o Norte Global e o Sul Global totalizou entre 10,8 e 14,1 trilhões de dólares (o suficiente para acabar com a pobreza extrema 70 vezes) (Hickel <i>et al</i>., 2022). Esse é um número imenso que não foi totalmente assimilado por aqueles que formulam políticas. Significa que, a cada ano, mais de 10 trilhões de dólares em riqueza são drenados do Sul para o Norte, na maioria das vezes de forma legal. A fuga ilícita de capitais não é tão expressiva, embora as cinco principais áreas de ilegalidade sejam impressionantes, mesmo considerando estimativas conservadoras: o comércio ilegal de armas leves (3,5 bilhões de dólares), o tráfico de drogas (32 bilhões de dólares), a mineração ilegal (48 bilhões de dólares), o tráfico de pessoas (150 bilhões de dólares) e a falsificação (467 bilhões de dólares) somam cerca de 700,5 bilhões por ano (Del Mercado <i>et al</i>., 2025; UNODC, 2012, 2025; Grupo de Ação Financeira Internacional, 2021; OIT, 2014; OCDE, 2025). O que chama a atenção no comércio ilegal é o enorme volume de dinheiro em espécie que ele gera. Em 2011, o UNODC publicou um importante relatório sobre os fluxos financeiros ilícitos provenientes do narcotráfico (UNODC, 2011). As principais conclusões merecem reflexão, visto que não existem dados globais atualizados sobre essas questões.</p>
<ol>
<li aria-level="1">Estima-se (com alto grau de incerteza) que uma grande parte – até 70% – dos lucros do crime organizado transnacional seja lavado por meio do sistema financeiro.</li>
<li aria-level="1">A melhor estimativa do relatório sobre o total de recursos ilícitos disponíveis para lavagem de dinheiro é de 2,7% do PIB global, ou 1,6 trilhão de dólares em 2009.</li>
<li aria-level="1">Estima-se que o tráfico ilícito de drogas seja o maior mercado transnacional do crime organizado, representando cerca de 20% de todos os lucros do crime internacional.</li>
<li aria-level="1">A taxa de interceptação é surpreendentemente baixa: apenas cerca de 1% (provavelmente em torno de 0,2%) dos lucros do tráfico de drogas são apreendidos ou bloqueados.</li>
</ol>
<p>Um relatório mais recente do UNODC, de 2023, argumenta que, em diversos países, os fluxos financeiros ilícitos (FFI) relacionados ao dinheiro do narcotráfico são comparáveis – e, em alguns casos, maiores – aos fluxos transfronteiriços legais (UNODC, 2023b). Na Colômbia, por exemplo, o relatório estima (por meio de modelagem) que os FFI anuais relacionados ao tráfico de cocaína variaram entre 1,2 bilhão e 8,6 bilhões de dólares de 2015 a 2019. Em comparação, segundo dados preliminares do governo, os fluxos de investimento estrangeiro direto na Colômbia em 2024 foram de cerca de 14,2 bilhões de dólares (Presidência da Colômbia, 2025). No México, os FFI relacionados ao tráfico de heroína, cocaína e metanfetamina totalizaram entre 8 bilhões e 17 bilhões de dólares por ano, de 2015 a 2018, valor comparável à média das receitas de exportação agrícola no mesmo período (12,6 bilhões de dólares). Esses números devem ser interpretados como indicativos, uma vez que a maioria dos países não coleta estatísticas nacionais confiáveis sobre fluxos financeiros ilícitos.</p>
<p>As redes de lavagem de dinheiro e os intermediários financeiros utilizam diversos meios para movimentar o capital. Entre eles, estão os sistemas informais de transferência de dinheiro (como <i>o hawala </i>e <i>o hundi</i>), os criptoativos e os serviços digitais, além da exploração dos canais de migração e remessas para movimentar dinheiro fora do alcance regulatório do Estado. Embora a ONU tenha desenvolvido uma nova metodologia para mensurar as finanças ilícitas, ela não compensa o mundo obscuro do mercado clandestino (UNODC, 2020). Por essa razão, o relatório do UNODC de 2011 observou que “as estimativas monetárias finais devem ser tratadas com cautela” (UNODC, 2011).</p>
<p>Ocasionalmente, surgem escândalos envolvendo bancos na lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico. O caso mais notório envolveu o HSBC, que surgiu do comércio de ópio e se tornou um dos maiores bancos do mundo, com mais de 3 trilhões de dólares em ativos totais em 2025 (HSBC, 2025). Em 2012, uma investigação do Departamento de Justiça dos EUA constatou que o HSBC havia lavado cerca de 881 milhões de dólares para cartéis de drogas colombianos e mexicanos entre 1996 e 2006. O banco concordou em pagar 1,9 bilhão em multas sob um acordo de suspensão condicional do processo, e a instituição ficou isenta de qualquer outra retaliação e nenhum executivo do HSBC foi processado criminalmente (Blackhurst, 2023). Como apenas uma pequena parcela desses crimes é detectada, pode-se presumir que a multa foi modesta em relação aos lucros.</p>
<p>Enquanto isso, bancos menores foram fechados quando investigações semelhantes (embora raras) foram realizadas. Em outubro de 2015, o Banco Continental, em Honduras, foi colocado em liquidação depois que o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA (OFAC) o designou como um “traficante de narcóticos especialmente designado” (o valor supostamente lavado nunca foi divulgado). Tais ações equivalem ostensivamente a julgamentos de fachada para demonstrar a ira dos órgãos reguladores, que, de outra forma, são lenientes quando o alvo é um banco estadunidense ou transnacional. O sistema é intocável e não pode haver reforma de todo o sistema bancário corrupto (incluindo paraísos fiscais ilícitos que abrigam trilhões de dólares). O Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI), criado em 1989 pelo G7, deveria fornecer uma estrutura contra a lavagem de dinheiro (GAFI, s.d.). Mas, como observa um estudo recente, seu fracasso “em reduzir tanto os crimes subjacentes que geram grandes receitas criminosas quanto o volume de lavagem de dinheiro é incontestável” (Nazzari &amp; Tonry, 2025). As estimativas da ONU sugerem que, a cada ano, tanto os valores lavados quanto a atividade ilegal que os gera continuam a aumentar (UNODC, 2026).</p>
<p>Seja a droga narcótica de origem vegetal (cocaína), seja a sintética (metanfetamina), sua produção é concentrada em áreas rurais e periféricas, onde as pessoas vivem em situação de pobreza ou quase pobreza. A droga é então transportada por cartéis por vastas distâncias até os mercados consumidores, onde jovens empobrecidos a vendem por salários que excedem o que poderiam ganhar na economia precarizada e supervalorizada, mas que ainda são modestos em comparação com o valor movimentado. Os chefes dos cartéis, por sua vez, acumulam enormes riquezas com o comércio, mas suas vidas são frequentemente curtas e violentas. O sistema bancário formal, que recebe volumes de dinheiro desviados da cadeia de valor, acaba lucrando consideravelmente, permanecendo em grande parte imune às consequências. A longo prazo, os riscos – violência, prisão, desapropriação – se concentram entre os camponeses e os pobres urbanos, enquanto o excedente é absorvido e reinvestido por meio das instituições do capitalismo “legítimo”.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135584" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135584" class="size-full wp-image-135584 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_3.jpg" alt="" width="950" height="853" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_3.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_3-300x269.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_3-768x690.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-135584" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Foto: Membros da Ecovila Estrella Roja (Estrela Vermelha) e do Comitê Ambiental do Humedal La Orquídea (Pântano das Orquídeas) participam de um projeto de reflorestamento na bacia do rio Cauca.<br>Créditos: Intervenção do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></p></div>
</div>
<blockquote class="single-post--content--quote-outlined-block"><p>Meu país é lindo porque tem a floresta amazônica, a floresta do Chocó, as águas, a Cordilheira dos Andes e os oceanos. Ali, nessas florestas tropicais, o oxigênio do planeta é liberado e o CO₂ da atmosfera é absorvido. Uma dessas plantas que absorvem CO₂, entre milhões de espécies, é uma das mais perseguidas na Terra. Onde quer que cresça, busca-se sua destruição. É uma planta amazônica. É a planta de coca, a planta sagrada dos Incas.</p>
<p>Como em uma encruzilhada paradoxal, a selva que estamos tentando salvar está, ao mesmo tempo, sendo destruída.</p>
<p>Para destruir a planta de coca, pulverizam-se venenos, quantidades massivas de glifosato que se espalham pelas águas, prendem-se os seus cultivadores e encarceram-nos. Para destruir ou possuir a folha de coca, um milhão de latino-americanos são assassinados e dois milhões de afro-americanos são presos na América do Norte.</p>
<p>“Destruam a planta que mata”, vocês gritam do Norte; “destruam-na”. Mas a planta é apenas mais uma planta entre as milhões de espécies que perecem quando se lança fogo na floresta tropical.</p>
<p>“Destruir a floresta tropical”, “destruir a Amazônia” tornaram-se os <i>slogans</i> seguidos por Estados e empresários. O clamor dos cientistas que consideram a floresta tropical um dos grandes pilares do clima não importa. Para os poderosos do mundo, a floresta tropical e seus habitantes são os culpados pela praga que os atormenta. Os poderosos são assolados pelo vício em dinheiro, na perpetuação do poder, no petróleo, na cocaína e nas drogas mais pesadas, para que possam se anestesiar ainda mais.</p>
<p>Nada é mais hipócrita do que o discurso sobre salvar a floresta tropical. A floresta tropical está queimando, distintos delegados, enquanto vocês travam guerras e brincam com ela. A floresta tropical, pilar climático do mundo, desaparece com toda a sua vida. A enorme esponja que absorve o CO₂ do planeta evapora. A floresta tropical – nossa salvadora – é vista em meu país como inimiga a ser derrotada, como erva daninha a ser erradicada.</p>
<p>O espaço da coca e dos camponeses que a cultivam, por não terem mais nada para cultivar, é demonizado. Meu país não lhes interessa a não ser para envenenar suas florestas tropicais, prender seus homens e relegar suas mulheres à exclusão.</p>
<p>Vocês não estão interessados em educar as crianças, mas sim em destruir a floresta tropical e extrair carvão e petróleo de suas entranhas. A esponja que absorve o veneno é inútil; vocês preferem espalhar ainda mais veneno na atmosfera.</p>
<p>Servimos para justificar o vazio e a solidão da sua própria sociedade, que os leva a viver na sua bolha de drogas. Ocultamos de vocês os seus próprios problemas, que se recusam a resolver. É melhor declarar guerra à floresta tropical, às suas plantas, ao seu povo.</p>
<p style="text-align: right;">Gustavo Petro, presidente da Colômbia, discurso na Assembleia Geral da ONU (Debate Geral, 77ª sessão), 20 de setembro de 2022. (Eljuri, 2022)</p>
</blockquote>
<h2 style="margin:3em 0;">Parte 2: Como os camponeses veem a “Guerra às Drogas”</h2>
<p>A acusação de Petro revela o que meio século de políticas antidrogas tentou esconder: esta “guerra” foi travada não contra os narcóticos, mas contra as pessoas e a natureza. A arquitetura moderna dessa “guerra” remonta a 17 de junho de 1971, quando o presidente dos EUA, Richard Nixon, declarou à imprensa que “o inimigo público número um nos Estados Unidos é o abuso de drogas” (Nixon, 1971/2016). “Para combater e derrotar este inimigo”, continuou ele, “é necessário lançar uma nova ofensiva total”. O anúncio levou a mídia estadunidense a cunhar o termo “Guerra às Drogas”. Inicialmente, Nixon afirmou que o alvo da guerra seria o “traficante”, ou seja, o vendedor de drogas. Havia pouca preocupação, na linguagem da “guerra”, em lidar com o vício em drogas gerado pela guerra dos EUA no Vietnã — uma guerra que contribuiu para a própria crise que a Guerra às Drogas pretendia enfrentar. Em vez de se concentrar no vício e na indústria que se aproveita do dependente químico, os Estados Unidos logo passaram a usar a Guerra às Drogas para perseguir não apenas os pobres dentro de suas próprias fronteiras, mas também os camponeses empobrecidos da América Latina e da Ásia, que não tinham outra escolha senão produzir drogas, condições que os próprios EUA haviam ajudado a criar. Não haveria uma verdadeira guerra contra o vício ou o sistema que o produz – apenas uma guerra contra o campesinato e contra as organizações revolucionárias que atuavam entre eles.</p>
<p>O instrumento jurídico de que a Europa e os EUA precisavam para travar essa guerra já estava disponível: a Convenção Única das Nações Unidas sobre Entorpecentes de 1961 (ONU, 1961). Apresentada como uma estrutura internacional de saúde pública, ela colocou plantas como a coca, a <i>cannabis</i> e a papoula sob controle internacional e obrigou os Estados a limitarem sua produção e uso a fins médicos e científicos. A convenção também exigia a abolição da mastigação da folha de coca após um período “transitório”, criminalizando, na prática, uma prática indígena milenar em nome da “ordem” global. Essa não era uma classificação neutra: tratava-se de uma decisão política tomada em um sistema internacional dominado pelo Norte, que transformou certas plantas – e os povos cujas vidas e culturas estão intrinsecamente ligadas a elas – em objetos de controle.</p>
<p>O caso colombiano é paradigmático para a compreensão dos efeitos concretos da longa Guerra às Drogas, precisamente porque torna visíveis as ligações entre as plantações, o subdesenvolvimento rural e o conflito armado – um quadro político que hoje está sendo republicado e reciclado mais uma vez. Como discutimos no caderno n. 1 do nosso projeto de pesquisa <i>Viciados em Imperialismo</i>, “a produção de folha de coca na Colômbia apresenta algumas características únicas que se relacionam com a ligação entre as plantações, a falta de desenvolvimento rural e o conflito armado” (Alfonso, 2024). Longe do que a mídia nos faz acreditar, e longe de ser o resultado de uma “associação criminosa” entre grandes cartéis de drogas e comunidades camponesas, a economia da coca na Colômbia está enraizada no desenvolvimento histórico do país e na evolução do seu conflito armado. Esse conflito – que envolve forças estatais, guerrilhas de esquerda (incluindo as FARC-EP e o ELN) e paramilitares de direita – tem raízes profundas na desigualdade fundiária e na exclusão política, nas quais os Estados Unidos, previsivelmente, desempenharam um papel de liderança.</p>
<p>Apesar de sua importância inicial como um relevante entreposto para o comércio colonial e como sede do vice-reinado espanhol de Nova Granada, a Colômbia permaneceu, durante grande parte de sua história, um país predominantemente rural com uma economia agrária. Do século XIX ao início do século XX, as exportações de tabaco, cana-de-açúcar, bananas e café tornaram o país lucrativo, assim como a extração de ouro e esmeraldas. Embora a balança comercial tenha mudado, a Colômbia continua sendo exportadora de produtos agrícolas (como café, abacate, óleo de palma, além de coca e cocaína) e energia (principalmente petróleo e carvão). Essa ordem exportadora-extrativista se baseia na concentração de terras e na força coercitiva, gerando conflitos rurais recorrentes. A intensa luta de classes no campo se repete geração após geração, desde o <i>Masacre de las Bananeras,</i> quando capangas da United Fruit Company abriram fogo contra trabalhadores em greve e seus apoiadores em Ciénaga, em dezembro de 1928 (matando cerca de mil pessoas), até o massacre de Mapiripán em Meta, em 1997, quando paramilitares das AUC assassinaram e “desapareceram” com aproximadamente 49 civis em uma campanha de contrainsurgência para tomar território e garantir rotas de tráfico de drogas (Comisión de la Verdad, 2025).</p>
<p>Nos últimos anos, a violência tem sido em grande parte motivada pelo desenvolvimento de novas formas de investimento de capital e extração de <i>commodities</i> no campo. Exércitos paraestatais são mobilizados para expropriar grandes extensões de terra para a produção pecuária, para o cultivo em larga escala de sorgo, soja, trigo, palma, algodão, milho e arroz, e para projetos puramente extrativos de mineração e agroindústria. Atreladas às elites nacionais e ao capital transnacional, a própria existência do campesinato representa um problema para essas operações. Os camponeses são atacados diretamente pelo processo de desapropriação violenta, mas também pelas condições estruturais que lhes são impostas: a deflação dos preços das pequenas colheitas (impulsionada pela liberalização do comércio, pelo poder de compra dos compradores e pela ausência de subsídios aos preços) e o enfraquecimento dos sistemas de bem-estar social – ambos fatores que aprofundam a pobreza (Le Grand, 1988; Machado, 2017; Posada, 2010). Quando essa desapropriação é bem-sucedida, os camponeses se concentram nas periferias das áreas urbanas ou se tornam matéria-prima para as vastas redes de tráfico de drogas e outras mercadorias ilegais controladas pelos mesmos grupos que os expulsam da terra. Essas organizações criminosas estabelecem novas dinâmicas rurais e urbanas de controle territorial, ao mesmo tempo que oferecem oportunidades econômicas precárias para os trabalhadores rurais (Castiblanco, 2021).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_135552" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135552" class="size-full wp-image-135552 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_5.jpg" alt="" width="950" height="798" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_5.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_5-300x252.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_5-768x645.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-135552" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Foto: Um <em>campesino anfibio</em> [camponês anfíbio] — que produz na terra, rios e mares, pesca em Santa Marta, Colômbia.<br>Créditos: Intervenção do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></p></div></div>
<p>O que se observa na Colômbia também está acontecendo em toda a América Latina: o aprofundamento do modelo neoliberal na agricultura acelerou a extinção do pequeno agricultor. Os camponeses enfrentam a falta de acesso e posse da terra, além da exclusão social e econômica, desemprego, opressão e marginalização, situações agravadas por políticas públicas frágeis, saúde e educação rural inadequadas e a impossibilidade de acesso a moradias dignas. Na Colômbia, a crise é ainda mais intensificada pela grilagem de terras, usurpação e legalização – a “regularização” de terras ilegalmente desapropriadas – realizada por meio de um modelo paramilitar com financiamento e consentimento do Estado a serviço de grandes corporações transnacionais. A concentração de terras é extrema: grandes proprietários de terras controlam a maior parte das áreas produtivas; 1% das maiores propriedades (fazendas com mais de 100 hectares) representam 81% das terras agrícolas (Dane, 2014).</p>
<p>Em conjunto, essas dinâmicas reproduzem uma longa história de desapropriação que remonta à chegada dos conquistadores espanhóis às Américas. Na Colômbia, setores do aparato estatal em conluio com narcotraficantes e grupos paramilitares tomam violentamente as terras dos camponeses e os privam dos meios de reprodução. Ao mesmo tempo, acordos de livre comércio e a concorrência das importações prejudicam as culturas lícitas, levando os agricultores a optarem por culturas ilícitas mais lucrativas. Embora a coca seja nativa dos Andes e tenha profundo significado espiritual e cultural para os povos indígenas que a utilizam há milhares de anos, a maioria dos agricultores é agora forçada a cultivá-la sob o mesmo sistema neoliberal que, posteriormente, tenta erradicar a planta em nome da Guerra às Drogas.</p>
<p>A produção de coca prende as famílias em uma dependência econômica e em um trabalho altamente informal durante todo o ano, já que a folha de coca madura é colhida a cada dois meses. Além disso, permite uma produção rápida a baixo custo, comercialização imediata e uma renda líquida mensal média estimada em cerca de 56% do salário mínimo colombiano (em 2018) por hectare cultivado (UNODC, 2018). No entanto, esse número mascara uma grande variação e não reflete como a coerção, os intermediários, os gargalos no transporte e a volatilidade dos preços podem reduzir ainda mais o que os produtores levam para casa. Nossa pesquisa conjunta com a Coordenação Nacional de Produtores de Coca, Papoula e Maconha (COCCAM) constatou que a produção não só exige muita mão de obra e tempo, como também a taxa de retorno para os pequenos agricultores é insignificante. Segundo um dos líderes da COCCAM:</p>
<blockquote><p>Quando terminamos todo o processo, estamos praticamente prontos para começar tudo de novo. Então, é constante… A coca é plantada e, após seis meses, está pronta para a primeira colheita, e depois é colhida a cada dois meses, o que significa que a cada dois meses há um produto.</p></blockquote>
<p>Outro membro da COCCAM, um produtor de 26 anos, disse:</p>
<blockquote><p>Você pode precisar de seis a dez trabalhadores por hectare. É importante ressaltar que a folha de coca gera muitos empregos. Existem fazendas onde a colheita nunca para e há de 60 a 80 trabalhadores todos os dias. Isso significa que, ao longo do ano, eles descansam por um mês. (Alfonso, 2024, p. 68)</p></blockquote>
<p>Além disso, as áreas de cultivo de coca estão entre as mais pobres e isoladas da Colômbia, com acesso significativamente menor a bens e serviços públicos do que o resto do país. Uma pesquisa domiciliar do UNODC, de 2018, com 6.350 famílias em 29 municípios participantes do Programa Nacional Integral de Substituição de Cultivos da Colômbia, constatou que 57% dos domicílios estavam em situação de pobreza monetária e 47% eram multidimensionalmente pobres (Oxford Poverty and Human Development Initiative, s.d.). O UNODC calcula seu índice de pobreza multidimensional em quatro esferas – educação, saúde, infância e adolescência e condições de moradia – e classifica uma família como multidimensionalmente pobre quando apresenta privação em pelo menos um terço dos indicadores ponderados. A mesma pesquisa aponta para o trabalho infantil generalizado (92% das crianças de 6 a 9 anos trabalham), baixa frequência escolar (68% da população em idade escolar não frequenta a escola) e graves deficiências em serviços (apenas 3% relatam acesso a um hospital ou centro de saúde, enquanto apenas 63% relatam acesso à eletricidade) (UNODC, 2018). Os efeitos na saúde associados às tarefas realizadas no cultivo de plantações ilícitas vão além daqueles associados ao trabalho agrícola. Somam-se a isso os danos causados pelos produtos utilizados no tratamento das plantações e pelas medidas institucionais de erradicação (como a pulverização indiscriminada de glifosato em territórios camponeses), bem como os impactos do desmatamento para expandir a fronteira agrícola. Nesses territórios, a informalidade laboral é quase universal e a superlotação é generalizada. Além disso, as taxas de natalidade são elevadas e a migração de adultos é comum – dinâmicas que a substituição de culturas e os programas alternativos de desenvolvimento raramente levam em consideração (Alfonso, 2024). Essas são condições de abandono estatal que sustentam e são reforçadas pela economia da coca e pelas estruturas coercitivas que a cercam.</p>
<p>Essas condições são fundamentais para entender por que os camponeses vendem sua força de trabalho na economia ilícita da coca – é uma das poucas fontes viáveis de renda em dinheiro. Como disse um líder da COCCAM:</p>
<blockquote><p>O campesinato tem sido julgado e rotulado como se tivéssemos <i>escolhido </i>cultivar a folha de coca, quando, na verdade, foram as circunstâncias, a falta de envolvimento dos governos locais e nacionais no território […]. A ausência dessa institucionalidade levou as pessoas a buscarem alternativas em economias ilegais para alimentar, sustentar e manter suas famílias. Isso se deve à falta de boas estradas de acesso, mercados de produtos [e centros de coleta] e iniciativas para promover a produção. (Alfonso, 2024, p. 70)</p></blockquote>
<p>Embora as atividades ilícitas relacionadas à folha de coca tenham começado décadas antes, a ascensão da Colômbia como um nó central no comércio global de cocaína tomou forma na década de 1970, quando a crescente demanda internacional levou o país ao processamento e exportação em larga escala (Gootenberg &amp; Dávalos, 2021). Ao final da década, a Colômbia era um dos principais exportadores mundiais de cocaína e maconha, gerando um influxo de capital que remodelou a economia e a política do país – uma transformação que continua até hoje. Na década de 1980, o tráfico de cocaína se consolidou em detrimento de outras drogas e o cultivo se expandiu para mais regiões do país, mesmo com seu declínio no Peru e na Bolívia. Essa trajetória se acelerou na década de 1990: entre 1995 e 2000, a área cultivada com coca na Colômbia aumentou de cerca de 50.900 hectares para 136.200 hectares, representando aproximadamente 0,1% a 0,3% das terras agrícolas do país (UNODC, 2001).<a href="#_edn9" name="_ednref9"><sup>9</sup></a></p>
<p>Entre 1994 e 2005, a expansão da produção de coca intensificou os conflitos internos, levou à expansão da fronteira agrícola, alterou os padrões de crescimento populacional e aprofundou a desigualdade. Também impulsionou mudanças culturais ligadas à transformação das relações rurais-urbanas, à migração interna e a alterações no plantio e na produção agrícola. Ao longo desse período, adolescentes foram cada vez mais atraídos para o conflito armado entre grupos insurgentes e os exércitos legais e ilegais do Estado colombiano, por meio de recrutamento e coerção por atores armados, tanto como combatentes quanto em funções de apoio. A expansão da coca também remodelou os padrões de assentamento, atraindo migrantes internos (incluindo famílias deslocadas) para as zonas de fronteira e transformando os centros urbanos existentes em polos de comércio e serviços (Alfonso, 2024).</p>
<p>Durante as décadas de 1980 e 1990, grandes cartéis de drogas emergiram em Medellín e Cali, construindo vastos impérios de riqueza e poder territorial. Embora esses impérios estivessem sediados nessas capitais departamentais, a produção e o processamento do narcotráfico ocorriam em outras partes do país, particularmente no sul, sudoeste, leste e nordeste. Na prática, a perseguição aos cartéis pelos governos colombiano e estadunidense se transformou em uma caça às bruxas para criminalizar pequenos agricultores e organizações políticas armadas presentes nessas regiões do país, criando o cenário ideal para o desenvolvimento do Plano Colômbia. Esse plano levou a uma intensificação da violência política no país, com financiamento direto dos EUA para a Guerra às Drogas, o que acabou resultando em maior militarização e abriu caminho para uma sucessão de presidentes de direita que instrumentalizaram a Guerra às Drogas para consolidar seu controle sobre a sociedade: Álvaro Uribe Vélez (2002-2010), Juan Manuel Santos (2010-2018) e Iván Duque Márquez (2018-2022).</p>
<p>A economia da coca na Colômbia está profundamente enraizada em regiões onde a presença do Estado é militarizada há muito tempo, enquanto as instituições civis e os serviços públicos permanecem frágeis. Nesses territórios, o conflito pela terra é exacerbado pela insegurança fundiária e pelas reivindicações sobrepostas, além da atuação de grupos armados – legais e ilegais – que extraem recursos de famílias camponesas, cuja subsistência depende da coca como principal cultura comercial. Como explicou um líder regional da COCCAM:</p>
<blockquote><p>Atualmente, não há garantias para aqueles envolvidos no cultivo de folhas de coca. Ao longo dos anos, a concentração [de terras] se tornou mais crítica nas regiões […]. Além disso, atores armados, legais e ilegais, aproveitam-se da situação dos camponeses: mais de um exigiu recursos, que o camponês concorda em entregar para evitar o arranque da planta […], seu único meio de subsistência (Alfonso, 2024).</p></blockquote>
<p>Contudo, essas mesmas condições alimentaram gerações de luta organizada. O campesinato na Colômbia possui uma longa tradição de organização política em torno dos direitos camponeses, da terra, da produção e da defesa do território. Não é coincidência que os camponeses tenham historicamente estado na vanguarda das lutas contra a expansão dos latifúndios e contra as práticas predatórias do capital nacional e estrangeiro, desde a criação de organizações guerrilheiras na década de 1960 até formas mais recentes de organização em torno do trabalho agrícola. Essas lutas têm se deslocado repetidamente do campo para as ruas e estradas, apesar da repressão policial, da criminalização, dos assassinatos e do abandono pelo Estado.</p>
<p>O movimento camponês na Colômbia também desenvolveu ferramentas de organização em territórios produtores de coca. Destacam-se as marchas camponesas de 1994, durante o governo de Ernesto Samper Pizano (1994-1998), lideradas por produtores de coca nos departamentos de Caquetá, Putumayo e Guaviare, contra as políticas governamentais de pulverização de glifosato. Quando o Estado não cumpriu os acordos firmados, camponeses, <i>raspachines </i>[trabalhadores sazonais], colhedores, comerciantes, agricultores assentados e trabalhadores por jornada iniciaram uma nova onda de mobilizações em 1996, que se tornou uma característica marcante das lutas sociais da década.</p>
<p>As negociações de paz de San Vicente del Caguán (1998-2002) – entre o governo colombiano e as FARC-EP – colocaram os territórios produtores de coca no centro do debate nacional, não apenas como locais de narcotráfico e conflito armado, mas também como áreas nas quais grandes populações civis dependiam da economia da coca para sobreviver. Em territórios como Guaviare, Putumayo, Caquetá, Meta, Catatumbo e Cauca, essa economia sustentava uma população de cerca de um milhão de cultivadores, <i>raspachines</i>, coletores, cozinheiros e outros que sobreviviam em meio a constantes disputas entre grupos armados e condições de vida precárias. Essas comunidades não eram novas, mas passaram a ser tratadas cada vez mais como um sujeito político distinto – o campesinato produtor de coca –, moldado em parte pela migração interna para zonas agrícolas de fronteira. Como o cultivo da coca era tratado como uma economia inimiga, essas comunidades enfrentaram repressão crescente à medida que o conflito armado entre as FARC-EP e o governo colombiano se intensificava, acompanhado por disputas territoriais e a tomada do poder político por narcotraficantes. Para piorar a situação, o Estado há muito tempo aborda isso como uma questão de ordem pública – erradicação e militarização – em vez de políticas públicas como a garantia do direito à terra, investimento rural e meios de subsistência dos camponeses.</p>
<p>Com a assinatura do Acordo de Paz Final entre o governo colombiano e as FARC-EP em 2016, o Estado reconheceu formalmente a necessidade de uma solução definitiva e abrangente para o problema das drogas ilícitas – uma solução que trate o campesinato como sujeito de direitos e promova políticas públicas por meio de abordagens diferenciadas. No início de 2017, foi criado o COCCAM, reunindo comunidades camponesas, indígenas e afrodescendentes de toda a Colômbia para discutir a situação dos agricultores e colhedores e reivindicar participação na erradicação e substituição (Instituto Kroc de Estudos Internacionais para a Paz, 2016).</p>
<p>As manifestações em massa de 2019, incluindo a greve nacional de novembro, ajudaram a consolidar um amplo bloco popular que mais tarde se uniu na coligação eleitoral Pacto Histórico, reunindo forças como a Colômbia Humana e a União Patriótica, entre outras. Esse bloco quebrou a espinha dorsal do consenso de direita e levou Gustavo Francisco Petro Urrego à presidência em 2022.</p>
<p>Petro argumentou que a Guerra às Drogas liderada pelos EUA fracassou e defendeu uma mudança de política, deixando de lado a criminalização dos pequenos produtores de coca e passando a abordar toda a estrutura da economia ilícita. Essa mudança marca o início de uma ruptura. Uma ruptura mais profunda exigiria um ataque a todo o sistema bancário, alimentado pela acumulação originária da economia ilícita – um confronto que atingiria o âmago do próprio capitalismo.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<h2 style="margin:3em 0;">Conclusão</h2>
<p>Ao longo dos últimos anos, nosso trabalho com organizações camponesas em todo o mundo – particularmente com a COCCAM na Colômbia – nos permitiu examinar a economia das drogas não como uma questão de crime e segurança, mas como uma janela para as estruturas mais profundas do capitalismo contemporâneo. Os camponeses sabem que a economia ilícita da coca não é a causa da crise colombiana, mas um de seus sintomas. Esses agricultores entram na economia ilícita não por escolha, mas porque todas as outras vias de subsistência digna foram bloqueadas pela expropriação de terras, pelo colapso dos preços agrícolas, pelo recuo do Estado e pela expansão do poder paramilitar e corporativo.</p>
<p>Do ponto de vista dessas comunidades, a narrativa dominante da Guerra às Drogas revela-se um profundo diagnóstico equivocado. O problema não é a planta de coca, mas o sistema econômico que criminaliza os pobres do campo enquanto absorve e recicla a enorme liquidez gerada pelos mercados ilícitos. O setor financeiro depende desses fluxos. Os bancos globais os acolhem. E as nações mais ricas que promovem a erradicação dependem, simultaneamente, da estabilidade que esse capital oculto proporciona. Tratar o camponês como inimigo é ocultar a verdadeira arquitetura do narcotráfico, que se estende até os circuitos das finanças legais, das <i>commodities</i> globais e do poder estatal.</p>
<p>Se o objetivo é acabar com a violência e a dependência econômica do cultivo de coca, o ponto de partida não deve ser a militarização nem a erradicação, mas sim a reconstrução da vida rural: reforma agrária, preços garantidos para as culturas lícitas, infraestrutura, serviços públicos e direitos políticos para aqueles que cultivam a terra. Sem transformar as condições sociais e econômicas que levam as famílias à agricultura ilícita, o ciclo simplesmente se reproduzirá. Sem confrontar as instituições financeiras que lavam o dinheiro, a economia global das drogas continuará a funcionar como um pilar não oficial da liquidez capitalista.</p>
<p>Este texto não se propõe a interferir em políticas públicas sob a perspectiva da segurança ou da dependência química. Nosso ponto de partida é o bem-estar dos milhões de trabalhadores que são forçados a cultivar coca, processá-la para produzir cocaína e transportar e vender o produto. Nenhum desses trabalhadores se beneficia dos bilhões de dólares que circulam no narcotráfico e liquefazem o sistema bancário internacional. Tratar o narcotráfico como algo externo à economia lícita é um erro categórico, pois obscurece a função do dinheiro do narcotráfico dentro do próprio sistema capitalista. Erradicação, criminalização e militarização não acabarão com a produção de coca nem com a economia ilícita.</p>
<p>O campesinato conhece essa verdade intimamente. Sua experiência demonstra que a economia das drogas persiste não por causa da folha de coca em si, mas porque o capitalismo exige o reabastecimento constante de novas reservas de riqueza – lícitas ou ilícitas – para se sustentar. Qualquer solução genuína deve, portanto, começar com os camponeses e com o reconhecimento de que a fronteira entre o capitalismo legal e o ilegal é muito mais tênue, e muito mais útil politicamente, do que os arquitetos da Guerra às Drogas admitem.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135560" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135560" class="size-full wp-image-135560 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_6.jpg" alt="" width="950" height="770" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_6.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_6-300x243.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/Web_D97_6-768x622.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-135560" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Foto: Camponeses viajam para Monterredondo (Miranda, Cauca) para receber ex-combatentes das FARC em um Espaço Territorial de Treinamento e Reincorporação (ETCR) após o acordo de paz de 2016.<br>Créditos: Intervenção do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></p></div>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" align="left" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ednref1" name="_edn1"><sup>1</sup></a>Ver: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. <i>Adictos ao Imperialismo</i>. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/es/argentina/investigaciones/adictos-al-imperialismo/">https://thetricontinental.org/es/argentina/investigaciones/adictos-al-imperialismo/</a>.</p>
<p><a href="#_ednref2" name="_edn2"><sup>2</sup></a>A história definitiva em chinês é a de Mao, 2005. Uma excelente síntese em inglês é a de Lovell, 2011.</p>
<p><a href="#_ednref3" name="_edn3"><sup>3</sup></a>Para saber mais sobre o conceito de “superexploração”, ver Marini, 1973, p. 91-99.</p>
<p><a href="#_ednref4" name="_edn4"><sup>4</sup></a>Salvo indicação em contrário, os dados são compilados a partir de relatórios do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) dos últimos 20 anos, abrangendo diversos países e níveis de mercado. Trata-se de retratos do momento, e não de preços atuais.</p>
<p><a href="#_ednref5" name="_edn5"><sup>5</sup></a>Para mais detalhes sobre este ponto, ver González, 2014; Labate &amp; Rodrigues, 2018; Reding, 2009.</p>
<p><a href="#_ednref6" name="_edn6"><sup>6</sup></a>As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) surgiram em meados da década de 1960 como uma organização guerrilheira marxista-leninista com raízes na autodefesa camponesa e nas lutas pela terra. Seu programa centrava-se na reforma agrária e em um projeto mais amplo de transformação política e social em um país marcado pela extrema concentração de terras e exclusão política. Tornou-se uma das principais forças insurgentes no conflito armado interno da Colômbia, que também envolveu as forças de segurança do Estado e grupos paramilitares de direita.</p>
<p><a href="#_ednref7" name="_edn7"><sup>7</sup></a>Para documentação desclassificada sobre a interligação entre os cartéis e o estado de guerra, veja Kornbluh &amp; Malcolm, 1993.</p>
<p><a href="#_ednref8" name="_edn8"><sup>8</sup></a>Hawala e hundi referem-se a sistemas informais de transferência de valores nos quais intermediários (<i>hawaladars</i>) movimentam dinheiro nas fronteiras por meio de redes de contrapartes, em vez de transferências bancárias formais. Um remetente entrega fundos a um intermediário em um local, e um intermediário parceiro paga o destinatário em outro; os intermediários posteriormente liquidam as contas por meio de transações de compensação (faturas comerciais, correios de dinheiro ou outros mecanismos de balanceamento). Esses sistemas são amplamente utilizados para remessas legítimas em que o sistema bancário formal é limitado, mas também podem ser explorados para burlar os controles de capital e a fiscalização contra lavagem de dinheiro.</p>
<p><a href="#_ednref9" name="_edn9"><sup>9</sup></a>Utilizando a definição de terras agrícolas do WDI (terras aráveis + culturas permanentes + pastagens permanentes) do Banco Mundial, a Colômbia possuía cerca de 448.590 km² de terras agrícolas em 2000 (ou seja, 44.859.000 hectares).</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p align="justify">ALFONSO, Karen Jessenia Gutiérrez. “La criminalización de los cultivadores como coartada imperialista: economía política de las drogas en Colombia”. <i>Adictos al imperialismo: Estados Unidos y la política de ‘guerra’ contra las drogas n. 1</i>. Buenos Aires/Bogotá: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Centro de Pensamiento y Diálogo Político (Cepdipo), 2024.  Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/10/Adictos-al-Imperialismo_Cuaderno-1_Web-1.pdf">https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/10/Adictos-al-Imperialismo_Cuaderno-1_Web-1.pdf</a>.</p>
<p align="justify">ARLACCHI, Pino. “The Great Hoax Against Venezuela: Oil Geopolitics Disguised as ‘War on Drugs’”, <i>Venezuela Analysis</i>. 2 set. 2025.  Disponível em: <a href="https://venezuelanalysis.com/opinion/the-great-hoax-against-venezuela-oil-geopolitics-disguised-as-war-on-drugs/">https://venezuelanalysis.com/opinion/the-great-hoax-against-venezuela-oil-geopolitics-disguised-as-war-on-drugs/</a>.</p>
<p align="justify">BLACKHURST, Chris. <i>Too Big to Jail: Inside HSBC, the Mexican Drug Cartels and the Greatest Banking Scandal of the Century</i>. Londres: MacMillian, 2023.</p>
<p align="justify">BOTTE, Roger. <i>Esclavages et traite des êtres humains au Sahel</i>. Paris: Karthala, 2000.</p>
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<p align="justify">CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY. Office of Inspector General, Report of Investigation: Allegations of Connections Between CIA and the Contras in Cocaine Trafficking to the United States, v. I e II. Washington, DC: Central Intelligence Agency, Office of Inspector General, 1998.</p>
<p align="justify">Centro Nacional de Memoria Histórica (CNMH), ‘21 años de la masacre de Mapiripán’. Noticias CNMH, 11 July 2018. Disponível em: <a href="https://centrodememoriahistorica.gov.co/21-anos-de-la-masacre-de-mapiripan/">https://centrodememoriahistorica.gov.co/21-anos-de-la-masacre-de-mapiripan/</a>.</p>
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<p align="justify">COMISIÓN DE LA VERDAD. “La masacre de las bananeras”. <i>No Matarás. </i>(s.d.).</p>
<p align="justify">DANE — DEPARTAMENTO ADMINISTRATIVO NACIONAL DE ESTATÍSTICAS. Tercer Censo Nacional Agropecuario 2014: Hay Campo para Todos: La mayor operación estadística del campo colombiano en los últimos 45 años. Bogotá. 2014.  Disponível em: <a href="https://www.dane.gov.co/index.php/estadisticas-por-tema/agropecuario/censo-nacional-agropecuario-2014">https://www.dane.gov.co/index.php/estadisticas-por-tema/agropecuario/censo-nacional-agropecuario-2014</a>.</p>
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<p align="justify">DOWNS, Jacques M. “Fair Game: Exploitative Role-Myths and the American Opium Trade”, <i>Pacific Historical Review</i>, v. 41, n. 2, 1972.</p>
<p align="justify">ELJURI, Ariadna. ‘Gustavo Petro en la ONU: “La guerra contra las drogas ha fracasado”’ [‘Gustavo Petro at the UN: “The War on Drugs Has Failed”’], Últimas Noticias, 20 September 2022. Disponível em: <a href="https://ultimasnoticias.com.ve/general/gustavo-petro-en-la-onu-la-guerra-contra-las-drogas-ha-fracasado/">https://ultimasnoticias.com.ve/general/gustavo-petro-en-la-onu-la-guerra-contra-las-drogas-ha-fracasado/</a>; our translation.</p>
<p align="justify">FEINSTEIN, Andrew. <i>The Shadow World: Inside the Global Arms Trade</i>. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2011.</p>
<p align="justify">FINANCIAL ACTION TASK FORCE. “Money Laundering from Environmental Crimes. Paris: Financial Action Task Force”, n. 10, 2021. Disponível em: <a href="https://www.fatf-gafi.org/publications/methodsandtrends/documents/money-laundering-environmental-crime.html">https://www.fatf-gafi.org/publications/methodsandtrends/documents/money-laundering-environmental-crime.html</a>.</p>
<p align="justify">FINANCIAL ACTION TASK FORCE “International Standards on Combating Money Laundering and the Financing of Terrorism and Proliferation”. Paris: Financial Action Task Force, 2012-2025. (s. d.)  Disponível em: <a href="https://www.fatf-gafi.org/en/publications/Fatfrecommendations/Fatf-recommendations.html">https://www.fatf-gafi.org/en/publications/Fatfrecommendations/Fatf-recommendations.html</a>.</p>
<p align="justify">FRANCESCHINI, Ivan; Ling Li; BO, Mark. <i>Scam: Inside Southeast Asia’s Cybercrime Compounds</i>. Londres: Verso, 2025.</p>
<p align="justify">GONZÁLEZ, Cecilia. <i>Narcosur: La sombra del narcotráfico mexicano en la Argentina</i>. Buenos Aires: Marea Editorial, 2014.</p>
<p align="justify">GOOTENBERG, Paul; DÁVALOS, Liliana (orgs.). <i>Los orígenes de la cocaína: Colonización y desarrollo fallido en los Andes amazónicos</i>. Bogotá: Universidad de los Andes-Facultad de Economía, Centro de Estudios sobre Seguridad y Drogas (CESED) e Ediciones Uniandes, 2021.</p>
<p align="justify">GRILLO, Ioan. <i>Gangster Warlords: Drug Dollars, Killing Fields, and the New Politics of Latin America</i>. Londres: Bloomsbury Press, 2016.</p>
<p align="justify">HICKEL, Jason <i>et al.</i> “Imperialist Appropriation in the World Economy: Drain from the Global South Through Unequal Exchange, 1990-2015”. <i>Global Environmental Change 73</i>, n. 113823, 2022.  Disponível em: <a href="https://eprints.lse.ac.uk/113823/1/1_s2.0_S095937802200005X_main_1_.pdf">https://eprints.lse.ac.uk/113823/1/1_s2.0_S095937802200005X_main_1_.pdf</a>.</p>
<p align="justify">HSBC HOLDINGS PLC. Interim Report 2025. 2025.  Disponível em: <a href="https://www.hkexnews.hk/listedco/listconews/sehk/2025/0822/2025082200025.pdf">https://www.hkexnews.hk/listedco/listconews/sehk/2025/0822/2025082200025.pdf</a>.</p>
<p align="justify">INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. Adictos al Imperialismo, <a href="https://thetricontinental.org/es/argentina/investigaciones/adictos-al-imperialismo/">https://thetricontinental.org/es/argentina/investigaciones/adictos-al-imperialismo/</a>.</p>
<p align="justify">INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. “Os cães do império latem para a Venezuela”, Alerta Vermelho n. 20, 6 nov. 2025.  Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/alerta-vermelho-20-venezuela/">https://thetricontinental.org/red-alert-20-venezuela</a>.</p>
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<p align="justify">RAMOS, María José. <i>El tráfico ilegal de fauna en América Latina</i>. Buenos Aires: Mágicas Naranjas, 2018.</p>
<p align="justify">REDING, Nick. <i>Methland: The Death and Life of an American Small Town</i>. New York: Bloomsbury, 2009.</p>
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<p align="justify">RIVERA, Diana Marcela Rojas. <i>El Plan Colombia. La intervención de Estados Unidos en el conflicto armado colombiano (1998-2012)</i>. Bogotá: IEPRI-Universidad Nacional de Colombia, 2015.</p>
<p align="justify">SAVAGE, Charlie. “Justice Dept. Drops Claim That Venezuela’s ‘Cartel de los Soles’ Is an Actual Group”, <i>The New York Times</i>. 5 jan. 2026.  Disponível em: <a href="https://www.nytimes.com/2026/01/05/us/trump-venezuela-drug-cartel-de-los-soles.html">https://www.nytimes.com/2026/01/05/us/trump-venezuela-drug-cartel-de-los-soles.html</a>.</p>
<p align="justify">UNODC AND FUNDACIÓN IDEAS PARA LA PAZ.¿Quiénes Son las Familias que Viven en las Zonas con Cultivos de Coca? Caracterización de las Familias Beneficiarias del Programa Nacional Integral de Sustitución de Cultivos Ilícitos (PNIS), 2018.  Bogotá. Disponível em: <a href="https://www.unodc.org/documents/colombia/2018/Agosto/Quienes_son_las_familias_que_viven_en_las_zonas_con_cultivos_de_coca_N.1.pdf">https://www.unodc.org/documents/colombia/2018/Agosto/Quienes_son_las_familias_que_viven_en_las_zonas_con_cultivos_de_coca_N.1.pdf</a>.</p>
<p align="justify">UNODC,‘Drug Trafficking: a $32 billion Business Affecting Communities Globally’, UNODC South Asia, 2012. Disponível em: <a href="https://www.unodc.org/southasia/frontpage/2012/August/drug-trafficking-a-business-affecting-communities-globally.html">https://www.unodc.org/southasia/frontpage/2012/August/drug-trafficking-a-business-affecting-communities-globally.html</a>.</p>
<p align="justify">UNODC. “Tendencias Mundiales de las Drogas Ilícitas”. Viena: United Nations Office for Drug Control and Crime Prevention, 2001. Disponível em: <a href="https://www.unodc.org/pdf/report_2001-06-26_1_es/report_2001-06-26_1_es.pdf">https://www.unodc.org/pdf/report_2001-06-26_1_es/report_2001-06-26_1_es.pdf</a>.</p>
<p align="justify">UNODC. “World Drug Report 2004, v. 2: Statistics, United Nations”, 2004. Disponível em: <a href="https://www.unodc.org/pdf/WDR_2004/Chap5_coca.pdf">https://www.unodc.org/pdf/WDR_2004/Chap5_coca.pdf</a>.</p>
<p align="justify">UNODC. Estimating Illicit Financial Flows from Drug Trafficking and Other Transnational Organised Crimes. Viena, 2011. Disponível em: <a href="https://info.publicintelligence.net/UNODC-IllicitFlows.pdf">https://info.publicintelligence.net/UNODC-IllicitFlows.pdf</a>.</p>
<p align="justify">UNODC. “Drug Trafficking: A $32 Billion Business Affecting Communities Globally”. 2012. Disponível em: <a href="https://www.unodc.org/southasia/frontpage/2012/August/drug-trafficking-a-business-affecting-communities-globally.html">https://www.unodc.org/southasia/frontpage/2012/August/drug-trafficking-a-business-affecting-communities-globally.html</a>.</p>
<p align="justify">UNODC. “Research and Trend Analysis Branch and United Nations Conference on Trade and Development, Development Statistics and Information Branch, Conceptual Framework for the Statistical Measurement of Illicit Financial Flows”. Viena/Geneva, 2020. Disponível em: <a href="https://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/statistics/IFF/IFF_Conceptual_Framework_for_publication_15Oct.pdf">https://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/statistics/IFF/IFF_Conceptual_Framework_for_publication_15Oct.pdf</a>.</p>
<p align="justify">UNODC. “Global Report on Cocaine 2023: Local Dynamics, Global Challenges, United Nations. 2023a. Disponível em: <a href="https://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/cocaine/Global_cocaine_report_2023.pdf">https://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/cocaine/Global_cocaine_report_2023.pdf</a>.</p>
<p align="justify">UNODC. Crime-related Illicit Financial Flows: Latest Progress. Viena, 2023b.  Disponível em: <a href="https://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/IFF/2023/IFFs_Estimates_Report_2023-final-11dec2023.pdf">https://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/IFF/2023/IFFs_Estimates_Report_2023-final-11dec2023.pdf</a>.</p>
<p align="justify">UNODC. “Improving regional investigations on money laundering and asset recovery”, 2024. Disponível em: <a href="https://www.unodc.org/roca/en/NEWS/news_2024/november/improving-regional-investigations-on-money-laundering-and-asset-recovery.html">https://www.unodc.org/roca/en/NEWS/news_2024/november/improving-regional-investigations-on-money-laundering-and-asset-recovery.html</a>.</p>
<p align="justify">UNODC. “Colombia: Monitoreo de los territorios afectados por cultivos ilícitos 2017”. Bogotá: UNODC-SIMCI, 2018. Disponível em: <a href="https://www.unodc.org/documents/crop-monitoring/Colombia/Colombia_Monitoreo_territorios_afectados_cultivos_ilicitos_2017_Resumen.pdf">https://www.unodc.org/documents/crop-monitoring/Colombia/Colombia_Monitoreo_territorios_afectados_cultivos_ilicitos_2017_Resumen.pdf</a>.</p>
<p align="justify">VALENTINE, Douglas. <i>The CIA as Organised Crime: How Illegal Operations Corrupt America and the World</i>. Atlanta: Clarity Press, 2017.</p>
<p align="justify">WEBB, Gary. <i>Dark Alliance: The CIA, the Contras, and the Crack Cocaine Explosion</i>. New York: Seven Stories Press, 1998.</p>
<p align="justify">WONG, John D. <i>Global Trade in the Nineteenth Century: The House of Houqua and the Canton System</i>, Cambridge: Cambridge University Press, 2016.</p>
<p>YANJIU, Zai. <i>Beijing: Shenghuo·Dushu·Xinzhi Sanlian</i>. Shudian, 2005.</p>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A turbulência da economia indiana</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-india-desindustrializacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Amilcar]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Jan 2026 08:00:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
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					<description><![CDATA[Longe de combater o tráfico, a Guerra às Drogas tornou-se uma ferramenta imperial para disciplinar governos rebeldes e promover agendas contrarrevolucionárias. Os camponeses e a classe trabalhadora pagam o preço, enquanto o capital colhe os lucros.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="single-post--content--text-small">Este dossiê apresenta obras do artista indiano Gigi Scaria. Por meio de uma ampla gama de suportes – pintura, fotografia, instalação, escultura e vídeo – o trabalho de Scaria reflete as transformações urbanas e rurais em curso na Índia e seu impacto nas classes sociais e em outras camadas da sociedade. As esculturas e instalações apresentadas servem como memoriais à experiência vivida pelo povo indiano em meio às contradições, à crescente desigualdade e às aspirações não realizadas, frutos do subdesenvolvimento do país.</p>
<hr class="single-post--content--separator-narrow">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_134128" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-134128" class="size-full wp-image-134128 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_2.jpeg" alt="" width="1095" height="736" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_2.jpeg 1095w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_2-300x202.jpeg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_2-1024x688.jpeg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_2-768x516.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 1095px) 100vw, 1095px"><p id="caption-attachment-134128" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Gigi Scaria, <em>Wheel</em> [Roda], 2009.</small></p></div></div>
<h2 style="margin:3em 0;">Introdução</h2>
<p>A ordem econômica global está em transformação e a globalização vive em uma crise prolongada. Na década de 1990, o capital ocidental sob a hegemonia dos EUA promoveu a liberalização do comércio e a disseminação de cadeias de suprimentos globais que exploravam as diferenças de custo de mão de obra entre o Sul e o Norte Global. Agora, esses mesmos processos antes promovidos estão sendo minados pela mesma hegemonia, sob a liderança do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para reverter a consequência não intencional da globalização: a erosão de seu domínio econômico e tecnológico por uma potência do Sul Global em ascensão.</p>
<p>Mesmo com a ordem econômica global sendo remodelada, a economia indiana continua sobrecarregada pela inércia de 35 anos de liberalização. Seus problemas estruturais, enraizados em desigualdades profundas e agravados pelas políticas neoliberais, sufocaram o desenvolvimento de uma base industrial doméstica ampla e tecnologicamente avançada. Devido ao estado desanimador da indústria indiana, a maior parte da força de trabalho permanece excluída desse setor, confinada a empregos inseguros, com baixos salários e baixa produtividade, sustentados por puro desespero para sobreviver. Como resultado, grande parte da população continua presa em vários níveis de pobreza, mesmo quando as alegações oficiais de um declínio acentuado na privação são conjuradas por meio de truques metodológicos (Misra, 2025).</p>
<p>O persistente subdesenvolvimento da indústria, especialmente da manufatura, está no centro da tentativa de globalização da Índia. As promessas de liberalização – para destravar o suposto potencial da Índia – produziram uma tendência central à desindustrialização, esvaziando o emprego formal, enfraquecendo a capacidade produtiva e aprofundando as desigualdades sociais.</p>
<p>Apesar da avaliação bombástica do atual governo sobre a importância da Índia no cenário mundial como <em>Vishwaguru</em> – literalmente “professor do mundo”, um termo popular na retórica Hindutva [forma predominante de nacionalismo hindu], de Narendra Modi – e das alegações de altas taxas de crescimento que muitas vezes estão atoladas em controvérsias estatísticas, o governo foi forçado a enfrentar esses fracassos, o que faz com apagamentos e acusações. Desde que Modi chegou ao poder como primeiro-ministro da Índia em 2014, sua estratégia política tem sido culpar a oposição e os governos anteriores por todos os fatos desagradáveis, ainda que seu mandato já se estenda por mais de uma década. Não há dúvida de que as políticas neoliberais iniciadas pelo Congresso Nacional Indiano na década de 1990 e adotadas por todos os governos posteriores – incluindo o Partido Bharatiya Janata (Partido do Povo Indiano, BJP) de Modi, seu mais zeloso adepto – levaram a economia indiana a esse estado lamentável. O longo mandato de Modi como ministro-chefe do estado de Gujarat, no oeste da Índia, de 2001 a 2014, aprimorou suas credenciais neoliberais aos olhos do capital indiano e estrangeiro.</p>
<p>Mas a resposta de Modi foi repetir as mesmas políticas – pior, agora com esteroides – exacerbando, assim, os problemas estruturais, aprofundando as desigualdades e consolidando ainda mais a crise. Desde que se tornou primeiro-ministro, anunciou uma série de grandes iniciativas políticas, como Make in India, Startup India, Skill India, Design in India e Design for the World. Essas iniciativas deveriam atrair capital estrangeiro para a área de criação e para a indústria de manufaturas indianas, voltada para os mercados globais, incentivar as <em>start-ups</em> a entrarem em novos setores de tecnologia e atualizar os níveis de qualificação da força de trabalho do país para se alinharem aos padrões de classe mundial – tudo com o objetivo ostensivo de revitalizar a indústria de manufaturas e, ao mesmo tempo, atender aos mercados ocidentais. Na prática, essas iniciativas não conseguiram fortalecer o setor manufatureiro ou reverter a tendência de desindustrialização. A maioria simplesmente ofereceu subsídios e reduções de impostos às empresas, na esperança de que a expansão industrial ocorresse automaticamente, com resultados previsivelmente escassos.</p>
<p>Nesse sentido, uma iniciativa muito divulgada foi o esquema de Incentivo Vinculado à Produção para 14 setores, o principal deles o de eletrônicos, com o governo concedendo grandes subsídios para a produção a empresas estrangeiras e nacionais. No entanto, esse esquema se resumiu, em grande parte, a subsidiar a montagem de componentes importados, com impacto insignificante sobre a conta geral de importação ou a capacidade tecnológica da Índia. A maior parte do valor agregado dos produtos fabricados na Índia, como os <em>smartphones</em>, ainda é acumulada no exterior, enquanto o ônus desses subsídios acaba recaindo sobre a população por meio de cortes nos investimentos públicos e nos gastos sociais do governo. As restrições estruturais que dificultam o desenvolvimento da economia e do setor industrial da Índia não podem ser resolvidas simplesmente por meio de subsídios às empresas ou de fluxos indiscriminados de investimento estrangeiro; na verdade, essas políticas apenas reforçam o mal-estar estrutural que a Índia herdou na independência e que foi agravado após a liberalização.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<h2 style="margin:3em 0;">Desigualdades arraigadas: as restrições pós-independência à industrialização</h2>
<p>Quando a Índia conquistou a independência em 1947, obter a autossuficiência tecnológica e industrial era amplamente visto como essencial, não apenas para sustentar a independência política e romper com o padrão colonial de relações econômicas com o Ocidente, mas também para absorver a vasta força de trabalho agrícola subempregada na indústria e elevar os padrões de vida. Por meio de um sistema de planos quinquenais – planos de desenvolvimento nacional liderados pelo Estado que definem as prioridades de investimento e produção –, a Índia embarcou em um rápido programa de industrialização centrado no desenvolvimento da indústria pesada sob propriedade do Estado. Enquanto isso, o capital privado, a partir dessa base criada pelo Estado, produzia bens de consumo. Como resultado desse impulso, a primeira década e meia após a independência (aproximadamente 1947-1962) testemunhou uma fase sem precedentes de industrialização liderada pelo setor público, com a participação da manufatura no PIB aumentando de cerca de 7% para 15,9%, um ritmo de crescimento industrial sem igual desde então.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>1</sup></a> No entanto, a busca pela industrialização logo encontrou obstáculos na forma das profundas desigualdades agrárias e de classe na sociedade indiana.</p>
<p>A propriedade da terra estava concentrada em uma restrita elite rural, enquanto as massas famintas por terra lutavam para conquistar até mesmo as necessidades básicas de subsistência. Na ausência de reformas agrárias igualitárias, a pobreza generalizada reduziu a demanda doméstica, criando uma restrição interna que impediu a indústria indiana de atingir a escala necessária para o crescimento sustentado. Ao mesmo tempo, os padrões de consumo da elite, que dependem muito das importações e seguem o estilo ocidental, levaram à escassez recorrente de divisas, impondo restrições externas ao crescimento.</p>
<p>No entanto, a estratégia indiana de industrialização por substituição de importações, embora não tenha conseguido criar um setor industrial dinâmico e de base ampla, fortaleceu uma classe capitalista doméstica dominada por um punhado de grandes empresas, que expandiu sua presença econômica e consolidou sua influência sobre a política estatal.</p>
<p>O Estado funcionava como mediador entre um bloco dominante de proprietários de terras e capitalistas, de um lado, e uma massa de camponeses empobrecidos, trabalhadores sem terra e uma pequena classe trabalhadora industrial, do outro. O regime evitou políticas que pudessem ameaçar os interesses da elite, como uma reforma agrária genuína ou uma tributação substancial das classes proprietárias. Consequentemente, a industrialização liderada pelo Estado dependia de <em>déficits </em>fiscais em vez de tributação progressiva. Cada rodada de expansão fiscal transferia excedentes maiores para a grande burguesia, aprofundando as desigualdades. Seu desejo de acumulação aumentou, enquanto o mercado doméstico estreito impôs limites ao seu potencial de acumulação. Assim, partes significativas do excedente investível nas mãos da burguesia indiana encontraram outras saídas além da expansão industrial.</p>
<p>Como resultado, a industrialização progrediu aos trancos e barrancos, já que todas as tentativas de expansão conjunta do Estado logo se depararam com as mesmas restrições estruturais. Essas restrições não resolvidas, que se precipitaram em uma grave crise de balanço de pagamentos, ao lado da perda da União Soviética como um importante parceiro comercial e financeiro (em que o comércio de rublo-rúpia havia isolado a Índia dos choques cambiais globais), acabaram por deixar a Índia exposta à virada neoliberal de 1991, impulsionada pelas instituições de Bretton Woods (o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial).</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Após a liberalização</h2>
<p>A liberalização da economia indiana, adotada formalmente em 1991, pouco fez para remover as restrições que pesavam sobre o desenvolvimento industrial. O que ela fez, no entanto, foi reduzir as restrições à acumulação para a burguesia indiana e eliminar completamente as restrições ao consumo da elite que haviam sido impostas anteriormente pelos controles de importação. Tudo isso foi alcançado sem o esforço de desenvolver uma base sólida de manufatura doméstica.</p>
<p>Mesmo com a redução das capacidades existentes, a elite indiana podia consumir produtos produzidos em outros lugares e desfrutar de estilos de vida de classe mundial em uma economia subdesenvolvida. Esse processo permitiu uma acumulação de capital mais rápida e ininterrupta por parte do capital indiano, seja pela invasão de ativos do setor público e de recursos naturais, seja pela expansão da produção intensiva em importações para um mercado doméstico ou pelo deslocamento de pequenos produtores, comerciantes e industriais de pequena escala.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_134139" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-134139" class="wp-image-134139 size-large img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_3-683x1024.jpeg" alt="" width="683" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_3-683x1024.jpeg 683w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_3-200x300.jpeg 200w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_3-768x1152.jpeg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_3-1024x1536.jpeg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_3.jpeg 1067w" sizes="auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px"><p id="caption-attachment-134139" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Gigi Scaria, <em>Sem título</em>, 2020.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Os quatro princípios do neoliberalismo indiano</h2>
<p>A trajetória neoliberal da Índia se baseia em quatro princípios que prejudicaram diretamente a manufatura indiana: a remoção das barreiras comerciais; a privatização e o enfraquecimento do setor público; o conservadorismo fiscal que reduziu o investimento público; e a abertura da economia ao capital estrangeiro, tanto produtivo (investimento estrangeiro direto, ou IED) quanto financeiro (carteiras). Juntos, esses princípios sustentaram um padrão de crescimento dependente de crédito e fluxos financeiros, mas desvinculado da industrialização robusta e do desenvolvimento tecnológico autônomo.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Liberalização do comércio</h3>
<p>A Índia começou a derrubar suas barreiras tarifárias no início da década de 1990, o que levou à sua adesão à Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1995. Nos primeiros anos, os cortes agressivos nas tarifas dos produtos agrícolas desencadearam uma crise agrária prolongada, provocando uma grave reação política.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><sup>2</sup></a> Como resultado, após 1996, os cortes tarifários na agricultura tiveram que ser interrompidos. No entanto, a liberalização continuou no setor de manufatura.</p>
<p>A partir de 2000, a liberalização do comércio tornou-se ainda mais rápida.<a href="#_ftn3" name="_ftnref3"><sup>3</sup></a> Sob pressão do Mecanismo de Solução de Controvérsias da OMC, impulsionado pelos Estados Unidos e pela União Europeia, a Índia removeu a maioria de suas restrições quantitativas remanescentes, que protegiam segmentos da indústria indiana (especialmente a indústria de pequena escala).</p>
<p>A decisão da Índia de subordinar o desenvolvimento industrial ao comércio “livre” prejudicou a fabricação nacional, especialmente nos setores de bens de capital e intermediários. Mesmo com a redução das tarifas médias, as tarifas sobre bens de capital e intermediários eram muito menores do que as tarifas sobre bens de consumo. Isso significa que, enquanto os fabricantes de bens de consumo indianos desfrutavam de uma proteção moderada do regime tarifário, os fabricantes de bens intermediários e de capital não tinham essa proteção.</p>
<p>O novo regime tarifário beneficiou tanto as empresas nacionais quanto as estrangeiras que operavam no setor de bens de consumo duráveis da Índia. As grandes corporações indianas, que historicamente se concentravam na produção de bens de consumo para o mercado doméstico, optaram por importar maquinário e bens intermediários mais baratos em vez de desenvolver uma cadeia de suprimentos doméstica. As empresas multinacionais estrangeiras foram além, tratando a Índia principalmente como uma base de montagem. Consequentemente, a intensidade de importação da manufatura indiana aumentou drasticamente.<a href="#_ftn4" name="_ftnref4"><sup>4</sup></a> No setor farmacêutico, por exemplo, a Índia era amplamente autossuficiente na produção de ingredientes farmacêuticos ativos (IFA). Porém, após a liberalização, a Índia se tornou dependente da importação de intermediários farmacêuticos (os ingredientes químicos usados para fabricar medicamentos acabados). O setor farmacêutico indiano agora importa 70% dos IFA da China, sendo que alguns medicamentos, como a penicilina, dependem totalmente das importações chinesas (ANI, 2020).</p>
<p>A forte dependência de importações corroeu a produção nacional de bens de capital e intermediários.<a href="#_ftn5" name="_ftnref5"><sup>5</sup></a> O encolhimento do setor nacional de bens de capital, que atua como uma incubadora de inovações tecnológicas, por sua vez, prejudicou a capacidade tecnológica da indústria do país. Esse enfraquecimento reduziu ainda mais a capacidade de resistência da indústria indiana à concorrência global.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Privatização do setor público imposta pelo FMI</h3>
<p>O enfraquecimento sistemático do setor público após 1991, por meio de privatizações agressivas e negligência crônica, desempenhou um papel importante no desgaste da indústria. O setor de bens de capital da Índia, dominado por empresas públicas que produziam maquinário elétrico, máquinas-ferramentas, equipamentos de processamento, equipamentos de terraplenagem e eletrônicos industriais, entrou em declínio com a liberalização do comércio e a retirada do apoio do Estado. As pequenas e médias empresas auxiliares que forneciam componentes para essas indústrias pesadas entraram em colapso devido à concorrência das importações e à perda de apoio institucional que se seguiu.</p>
<p>Em uma época em que a fabricação de produtos eletrônicos ocupa o centro das discussões globais sobre indústria e tecnologia, o destino do nascente setor de produtos eletrônicos da Índia na década de 1990 é um testemunho dos danos causados pela liquidação do setor público, ao lado da liberalização do comércio.</p>
<p>Na década de 1970, o Estado indiano tomou medidas importantes para criar uma indústria nacional de <em>hardware</em> eletrônico por meio de empresas do setor público. Essas empresas – a Electronics Corporation of India Limited e a Bharat Electronics Limited – desenvolveram sistemas de controle nacionais para aplicações nucleares e de defesa. Na década de 1980, o Estado havia estabelecido a Semiconductor Complex Limited (SCL) e a Hindustan Computers Limited para desenvolver recursos em semicondutores, circuitos integrados e computação. A Índia fundou a SCL em 1984, três anos antes da criação da Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, líder mundial em semicondutores.</p>
<p>O governo abandonou esses esforços após a liberalização e procurou liquidar o setor de eletrônicos em ascensão por meio da remoção da proteção tarifária e da retirada do apoio estatal. A Índia aderiu ao Acordo de Tecnologia da Informação da OMC em 1997, que eliminou as tarifas sobre uma série de produtos eletrônicos, removendo o espaço político necessário para desenvolver um setor local competitivo. Em vez de investir em recursos de fabricação no setor de eletrônicos, os sucessivos governos promoveram um modelo voltado para a exportação, centrado em serviços de TI e de <em>back-office</em> de baixa e média qualificação para empresas ocidentais. Essa abordagem prejudicou o desenvolvimento tecnológico de longo prazo no setor de eletrônicos. As consequências são graves: atualmente, a Índia importa 80% de seu <em>hardware</em> de TI, 70% de seus componentes eletrônicos (62% da China) e 90% de seus equipamentos de telecomunicações (IANS, 2023). Mesmo os eletrônicos montados internamente dependem de componentes importados, com pequena agregação de valor local. A iniciativa inicial do país em eletrônicos do setor público foi desperdiçada, e a Índia agora é amplamente dependente da tecnologia.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6"><sup>6</sup></a></p>
<p>O que foi feito com o setor de eletrônicos da Índia se repetiu em outros setores, com o governo negligenciando ou liquidando bens de capital e indústrias pesadas no setor público — áreas nas quais o grande capital indiano continua sem vontade de investir, mas que, no entanto, são essenciais para o avanço tecnológico.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_134150" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-134150" class="size-full wp-image-134150 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_4.jpeg" alt="" width="900" height="736" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_4.jpeg 900w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_4-300x245.jpeg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_4-768x628.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px"><p id="caption-attachment-134150" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Gigi Scaria, <em>Post Land</em> [Terra de postes], 2008.</small></p></div></div>
<h3 style="margin:2em 0;">Conservadorismo fiscal</h3>
<p>Um fator fundamental da crise que envolve a economia indiana – seja na base instável de seu crescimento ou nos problemas da manufatura – é o conservadorismo fiscal introduzido pela era neoliberal. A busca da Índia por capital financeiro internacional e os fluxos de investimento associados fizeram com que os governos indianos não pudessem expandir significativamente os gastos com infraestrutura ou fornecer apoio adequado ao setor sem correr o risco de que esses fluxos se esgotassem. Em 2003, para apaziguar as finanças internacionais, a Índia promulgou a Lei de Responsabilidade Fiscal e Gestão Orçamentária, limitando o <em>déficit </em>fiscal a 3% do PIB (Testbook, 2025). Embora esse limite fosse rotineiramente violado, ele funcionava como um ponto de referência usado para repelir qualquer gasto liderado pelo Estado em apoio à indústria nacional, ao setor público ou à agricultura. Os governos têm vendido rotineiramente participações em empresas lucrativas do setor público e desviado seus fundos investíveis para atender às despesas orçamentárias, mesmo com a redução constante dos impostos sobre os lucros das empresas. Isso deixou as empresas do setor público com uma grave escassez de fundos para expansão e modernização tecnológica. Apesar de estarem repletas de fundos, as empresas privadas indianas demonstraram pouco interesse em investir em pesquisa e desenvolvimento, enquanto as empresas do setor público foram privadas dos meios para fazê-lo. Como resultado, a manufatura indiana continua muito dependente de tecnologias importadas.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Investimento estrangeiro direto</h3>
<p>Desde a liberalização em 1991, o governo indiano vem eliminando progressivamente as barreiras ao capital estrangeiro, tanto no setor industrial quanto no financeiro. Hoje, com exceção de setores como jogos de azar, energia atômica e ferrovias, onde até mesmo as empresas privadas indianas são proibidas, o investimento estrangeiro direto (IED) é permitido em quase todas as áreas, muitas vezes com total participação estrangeira. A Índia também diminuiu as restrições às contas de capital, facilitando grandes fluxos de financiamento especulativo de curto prazo. Os dados oficiais mostram que, em média, cerca de 30% do total de influxos de investimento estrangeiro desde 2000 foram provenientes de investimento em carteira estrangeira (<em>foreign portfolio investment</em> – FPI) volátil. Mesmo dentro do que é classificado como IED, uma parcela considerável consiste em capital especulativo, já que a ampla definição de IED pós-2000 da Índia inclui participações em carteiras que excedem 10% de participação acionária em uma empresa indiana.<a href="#_ftn7" name="_ftnref7"><sup>7</sup></a></p>
<p>Embora o investimento estrangeiro tenha sido oficialmente promovido como um meio de proporcionar a industrialização, a atualização tecnológica e o crescimento das exportações, essas promessas permaneceram em grande parte não cumpridas. Na prática, o capital estrangeiro serviu principalmente para financiar o padrão de crescimento pós-liberalização com uso intensivo de importações, reforçando assim a erosão da indústria nacional.</p>
<p>Essa remoção de barreiras veio com poucos regulamentos ou diretrizes. O estado indiano não garantiu, por exemplo, que o IED em empresas nacionais viesse acompanhado de transferências de tecnologia e vínculos, não incentivou o fornecimento local e o desenvolvimento industrial<em> downstream</em>, não investiu em pesquisa e desenvolvimento (P&amp;D) nacional, tampouco enfrentou limites na repatriação de<em> royalties</em>. Tentativas tímidas de introduzir algumas dessas diretrizes foram abandonadas sob a menor pressão do capital estrangeiro.</p>
<p>Consequentemente, o IED contribuiu pouco para o avanço tecnológico no setor indiano, com as empresas estrangeiras estabelecendo poucas instalações de P&amp;D no país. Sua produção continua fortemente dependente de importações, sendo que as importações de empresas de propriedade estrangeira que operam na Índia excedem suas exportações, enfraquecendo assim os vínculos industriais domésticos e reforçando o processo de desindustrialização na economia indiana.</p>
<p>Embora o investimento estrangeiro não tenha conseguido proporcionar os benefícios prometidos, os grandes influxos de moeda estrangeira injetaram uma liquidez substancial no sistema financeiro indiano, expandindo os passivos dos bancos e obrigando-os a buscar novos caminhos para a expansão do crédito. Isso resultou em um crescimento orientado pelo crédito e intensivo em importações, marcado pelo consumo orientado pela elite e pela concentração de capital nas mãos de grupos monopolistas domésticos, às custas dos bancos do setor público.</p>
<p>Ao mesmo tempo, o próprio investimento estrangeiro aumentava cada vez mais o ônus externo, pois as empresas estrangeiras importavam mais do que exportavam e remetiam quantias cada vez maiores para o exterior por meio de pagamentos de<em> royalties</em> e repatriação de lucros. Em 2024, para cada 100 dólares de entrada bruta de investimento (FDI e FPI combinados), 50 dólares foram retirados na forma de renda de investimento. Excluindo os lucros reinvestidos – que não geram novas divisas –, o desequilíbrio é ainda maior: 66 dólares foram retirados para cada 100 dólares de entrada líquida. Nos últimos anos, essas saídas de renda muitas vezes excederam o <em>déficit </em>total da conta corrente. Em 2024, a renda de investimento repatriada era três vezes maior do que o <em>déficit </em>da conta corrente. Com o aumento das repatriações, a conta externa da Índia se torna cada vez mais frágil, preparando o terreno para um estresse mais profundo no balanço de pagamentos nos próximos anos. Em um vislumbre desse futuro, em 2023, 116 dólares foram retirados da economia da Índia na forma de renda de investimento para cada 100 dólares de entrada de investimento estrangeiro no país (Reserve Bank of India, 2025a).</p>
<p>A liquidez gerada pelos fluxos de capital alimentou a expansão impulsionada pelo crédito e pelas importações, além de grandes <em>déficits </em>comerciais. Esses <em>déficits</em>, por sua vez, exigiram mais influxos estrangeiros, o que aprofundou a drenagem de divisas, criando um ciclo autossustentável de dependência cada vez maior dos fluxos financeiros externos para administrar a balança de pagamentos da Índia.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Um modelo em que o crescimento industrial é acidental</h2>
<p>Sob a trajetória de crescimento neoliberal da Índia, com seus quatro princípios centrais, o crescimento industrial tem sido incidental, e não central, para o modelo de crescimento. Em vez de se basear no planejamento industrial, os sucessivos governos dependeram do crédito bancário (com as exportações de serviços) como um impulsionador do crescimento, tanto para aumentar a demanda quanto para financiar a infraestrutura industrial. Em contraste, da independência até 1991, os empréstimos institucionais na Índia foram amplamente canalizados para a agricultura, a indústria e o comércio dentro da estrutura mais ampla do planejamento econômico, com apenas um papel marginal para o crédito ao consumidor.</p>
<p>Desde 1991, o crédito ao consumidor tem apresentado uma clara tendência de alta, com o setor bancário – especialmente os bancos privados – redirecionando progressivamente os empréstimos para financiamentos imobiliários, empréstimos para veículos, bens de consumo duráveis e cartões de crédito. A participação dos empréstimos pessoais no crédito bancário aumentou de 9,4% em 1990 para 25,2% em 2005, chegando a 32,4% em 2024 (Mujumdar, 2007).</p>
<p>Consequentemente, o crédito, especialmente para compras de imóveis e automóveis, tem sido um importante impulsionador do crescimento. A expansão do crédito imobiliário resultou em um aumento da participação da construção no PIB.</p>
<p>Da mesma forma, a expansão do crédito ao consumidor para compra de carros distorceu a estrutura da produção de manufaturas em favor dos automóveis e gerou padrões de transporte cada vez mais dependentes do modelo individual, agravando os problemas de infraestrutura da Índia.</p>
<p>O financiamento de veículos, ao lado da forte presença do grande capital na produção de automóveis, aprofundou a tendência do Estado em relação ao transporte privado e à construção de estradas, resultando no desenvolvimento pela Índia da segunda maior rede rodoviária do mundo, que em breve ultrapassará a dos Estados Unidos (IANS, 2025). Apesar de ter um terço da área terrestre da China, a Índia tem uma rede rodoviária que já é 2 milhões de quilômetros maior. A construção de estradas se acelerou na última década, principalmente para rodovias e vias expressas. Um dos problemas com essa expansão é que ela é limitada por questões fundiárias. A alta densidade populacional e a forte dependência da agricultura tornam a aquisição de terras politicamente sensível e socialmente problemática. Os camponeses, que dependem da terra como seu principal ativo, geralmente resistem à desapropriação. Como resultado, a aquisição de terras é lenta, cara e frequentemente contestada, criando gargalos no sistema de logística da Índia, dominado por estradas.</p>
<p>Em contrapartida, a dependência do sistema de fabricação de transporte em automóveis (incluindo caminhões) aumentou as importações de combustível, com mais de 40% dos produtos de petróleo sendo consumidos pelo setor de transporte (Governo da Índia, 2014). Isso teve um impacto negativo no <em>déficit </em>comercial e não contribuiu para a industrialização.</p>
<p>A mudança para o caminho de desenvolvimento de estradas enfraqueceu o ecossistema de manufatura mais amplo. Estima-se que os custos logísticos da Índia sejam duas ou três vezes mais altos do que os da China, em grande parte devido ao grave subinvestimento em infraestrutura ferroviária. O transporte ferroviário – que é mais barato, menos intensivo em terra, mais eficiente em termos de energia e mais adequado às condições da Índia – foi deliberadamente prejudicado em favor do transporte rodoviário.</p>
<p>O subinvestimento em ferrovias significou uma deterioração na qualidade e na velocidade do transporte ferroviário: os trens convencionais na Índia têm uma velocidade média de 43 km/h, enquanto na China eles operam a 90 km/h (os trens de alta velocidade na Índia podem atingir 180 km/h, enquanto os trens de alta velocidade chineses podem atingir 430 km/h).</p>
<p>O sistema de transporte financiado por crédito e impulsionado por automóveis resultou em altos custos de logística e tempos de transporte lentos, aumentando os custos de produção e minando a competitividade da manufatura indiana sob o comércio liberalizado.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_134161" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-134161" class="size-large wp-image-134161 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_5-682x1024.jpeg" alt="" width="682" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_5-682x1024.jpeg 682w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_5-200x300.jpeg 200w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_5-768x1153.jpeg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_5-1023x1536.jpeg 1023w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_5.jpeg 1066w" sizes="auto, (max-width: 682px) 100vw, 682px"><p id="caption-attachment-134161" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Gigi Scaria, <em>Hesitant Attempt</em> [Tentativa vacilante], 2018.</small></p></div></div>
<h2 style="margin:3em 0;">Investimento impulsionado pelo crédito e ativos inadimplentes</h2>
<p>Nem todo o crescimento neoliberal na Índia foi impulsionado pelo consumo. Entre 2004 e 2010, quando o país registrou um alto crescimento do PIB, a expansão foi sustentada não apenas pelo consumo, mas também pelo investimento impulsionado pelo crédito bancário, alimentado por um excesso de liquidez criado pelos influxos de capital estrangeiro. Com o sistema bancário repleto de liquidez, os bancos privados expandiram o crédito de varejo, enquanto os bancos do setor público canalizaram grandes empréstimos a empresas para projetos de infraestrutura nos setores imobiliário, de energia e de aço, impulsionando o crescimento liderado por investimentos.</p>
<p>Esse <em>boom</em> de crédito apoiou de fato o crescimento impulsionado pelo investimento, mas incubou uma grave crise. O descompasso entre os longos períodos de gestação desses projetos e a natureza de curto prazo dos passivos bancários, combinados com a impunidade corporativa e a supervisão deficiente, mostraram-se desastrosos. Os bancos comerciais, mal equipados para avaliar e gerenciar esses projetos, que deveriam ter sido financiados por bancos de desenvolvimento, foram induzidos pelo governo a conceder empréstimos a projetos de infraestrutura de propriedade privada. O resultado foi um acúmulo maciço de ativos não produtivos (ANP), que atingiu o pico de 82,3 bilhões de dólares nos bancos do setor público, enquanto os ativos físicos criados por meio desses empréstimos passaram para as mãos do grande capital da Índia a um custo mínimo para eles por meio do processo de resolução da crise dos ANP (Economic Times Bureau, 2018).</p>
<p>A natureza do crescimento neoliberal nesse período significava que a anarquia do mercado determinava tanto a direção quanto a estrutura da manufatura indiana. A interação entre os interesses do capital doméstico, as preferências de crédito do sistema bancário e os padrões de consumo da elite – operando em um regime de livre comércio global e fluxos financeiros irrestritos – veio a moldar a trajetória da indústria indiana, em direção ao crescimento ou ao declínio.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Déficits comerciais e desindustrialização: dois lados da mesma moeda</h2>
<p>A dependência de importações – como manufaturados, combustível e financiamento – fez com que a Índia apresentasse um <em>déficit </em>em conta corrente em quase todos os anos, exceto durante o colapso temporário do comércio global durante a pandemia da covid-19. Os únicos períodos em que o <em>déficit </em>em conta corrente diminui são durante períodos de contração econômica. O <em>déficit </em>comercial de mercadorias era de 2% do PIB em 1991 e, desde então, aumentou para 7%, atingindo um pico de 10% em 2011 (Reserve Bank of India, 2022a). Os produtos petrolíferos respondem por metade do <em>déficit </em>de mercadorias. O <em>déficit </em>da conta corrente permaneceu menor do que o <em>déficit </em>do comércio de mercadorias somente devido ao excedente na exportação de serviços e ao influxo de remessas dos trabalhadores indianos. Essas remessas forneceram o amortecedor para os <em>déficits </em>comerciais perigosamente altos que o modelo de crescimento neoliberal da Índia gera. Entretanto, nem a exportação de serviços nem as remessas podem neutralizar a erosão da capacidade industrial interna da Índia.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Desindustrialização</h2>
<p>Durante muito tempo, nas discussões sobre a economia política da Índia, usou-se o termo “desindustrialização” para descrever o declínio do artesanato não agrícola e das indústrias tradicionais sob o domínio britânico, o que deslocou milhões de pessoas de suas ocupações habituais e as levou à pobreza e à fome.</p>
<p>Quase oito décadas após a independência, o termo desindustrialização voltou a ser usado, desta vez para descrever a trajetória da economia indiana sob a liberalização, cujos efeitos se tornaram inconfundíveis na última década. A tendência subjacente à desindustrialização, ocultada durante os períodos de alto crescimento impulsionado pelo crédito, manifestou-se plenamente nos últimos anos, coincidindo com o mandato do governo Modi.</p>
<p>A participação da manufatura no PIB caiu de 18,9% em 2008 para 14,3% em 2023, um nível visto pela última vez há mais de 60 anos, no estágio inicial da industrialização da Índia. Dada a provável superestimação da produção industrial na nova série do PIB com o novo ano-base, a participação real pode ser ainda menor do que os números oficiais sugerem. O Índice de Produção Industrial (IPI) reforça esse quadro: a taxa média de crescimento anual da produção industrial, medida pelo IPI, foi de apenas 3,3% de 2011-2012 a 2024-2025, e de 10,1% de 2003-2004 a 2010-2011. Essa desaceleração no setor manufatureiro é evidente quando analisada em longo prazo. A taxa de crescimento médio anual do componente manufatureiro do IPI foi de 7,5% de 1981-1982 a 1989-1990, 8% de 1991-1992 a 1996-1997 e 5,4% de 1997-1998 a 2002-2003 (Reserve Bank of India, 2025b; Mazumdar, 2025). De fato, desde 2011, o crescimento tem sido menor do que em qualquer período comparável nas últimas três décadas. Atualmente, a Índia parece estar correndo o risco de uma maior desindustrialização.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">O setor de serviços: um mal substituto</h2>
<p>O declínio relativo da indústria manufatureira nos últimos 15 anos reforçou os profundos desequilíbrios estruturais da economia indiana. Atualmente, a maior parte do PIB da Índia tem origem no setor de serviços.</p>
<p>Após 1947, a recém-independente república indiana iniciou um caminho de desenvolvimento centrado na construção de uma forte base industrial. Em 1951, no início do Primeiro Plano Quinquenal, a manufatura era responsável por 12% do PIB, enquanto os serviços representavam 36%. Em 1990, essas participações haviam aumentado para 19% no setor industrial e 41% no setor de serviços. Esse caminho de desenvolvimento para a industrialização foi abandonado em 1991, quando o governo indiano decidiu liberalizar – ou, mais corretamente, neoliberalizar – a economia indiana e torná-la mais voltada para os serviços. Desde 1991, a participação da manufatura caiu para 14%, enquanto os serviços aumentaram para 48% em 2008 e depois para 55% em 2024. Embora o governo do BJP sob Modi tenha exacerbado os problemas da indústria indiana, a base para seu enfraquecimento foi estabelecida por sucessivos governos que seguiram o caminho neoliberal iniciado em 1991.</p>
<p>Ao contrário do setor manufatureiro, que fortalece a base tecnológica e apoia o crescimento dos salários reais, a expansão dos serviços não gera necessariamente efeitos semelhantes. Um setor manufatureiro forte pode aumentar as capacidades de serviços em áreas como transporte, telecomunicações e tecnologia da informação, mas quando os serviços predominam ao lado de uma base industrial fraca, eles dependem muito de máquinas importadas e tecnologias estrangeiras, como é o caso da Índia.</p>
<p>O setor de serviços na Índia, obviamente, é uma categoria ampla, que não permite uma generalização fácil. No entanto, há uma dicotomia clara. De um lado, há uma série de serviços – de natureza muito variada, mas semelhantes em sua informalidade – que oferecem empregos com baixos salários, inseguros e, em grande parte, não regulamentados, marcados pela baixa produtividade. Os trabalhadores dessas atividades geralmente se deslocam entre áreas rurais e urbanas e entre empregos agrícolas e de serviços, dependendo da disponibilidade de trabalho. Esses setores atuam efetivamente como um refúgio para a mão de obra excedente da agricultura, expulsa pela estagnação do emprego agrário e atraída para os serviços devido à incapacidade do setor manufatureiro – especialmente no contexto da desindustrialização – de absorver a crescente força de trabalho. Desde 2017-2018, a participação da indústria manufatureira no total de empregos tem, de fato, diminuído.</p>
<p>O comércio varejista e o transporte são dois desses setores. Mas, mesmo nessas áreas, o emprego abrange um amplo espectro: por exemplo, no varejo, incluirá pequenos lojistas, vendedores ambulantes, trabalhadores em lojas <em>kirana</em> (de bairro) e ajudantes em mercados atacadistas, enquanto no transporte incluirá motoristas de automóveis, táxis e caminhão, carregadores, condutores de ônibus e trabalhadores no manuseio de cargas e logística. O comércio varejista é responsável por 12,2% do total de empregos, e o transporte por cerca de 5,6%, que contribuem com parcelas aproximadamente semelhantes do PIB (Governo da Índia, 2024, p. 15-16).</p>
<p>Essas atividades são frequentemente descritas como parte do “setor informal” em vez do “setor de serviços”, um termo normalmente reservado para TI, finanças e outros serviços modernos que formam o outro lado dessa dicotomia. Ambos os segmentos da economia de serviços registraram taxas de crescimento consistentemente altas nas últimas três décadas e meia. Os setores de TI e financeiro respondem por parcelas significativas do PIB, apesar de serem altamente intensivos em capital e oferecerem poucos empregos. No início da década de 1990, a contribuição do setor de TI para a renda nacional era insignificante (cerca de 0,1% do PIB), e sua participação no mercado de trabalho era ainda menor. Até 2024, esse setor predominantemente orientado para a exportação se expandiu rapidamente, representando 7,5% do PIB e empregando apenas 1% da força de trabalho (India Brand Equity Foundation, 2025). Os serviços financeiros seguiram uma trajetória semelhante, com sua participação no PIB dobrando de 3% em 1990 para 6% em 2004, e sua participação no emprego permanecendo abaixo de 1%.<a href="#_ftn8" name="_ftnref8"><sup>8</sup></a></p>
<p>Juntos, os setores de serviços financeiros e de TI respondem por 13,5% do PIB, o que é comparável ao do setor manufatureiro, mas contribuem com menos de 2% dos empregos, enquanto o setor manufatureiro contribui com 11,4% (Governo da Índia, 2024). Na economia não agrícola, a manufatura responde por 17% do PIB e 20% do emprego, enquanto os setores de serviços financeiros e de TI (ambos altamente intensivos em capital) contribuem com 16,5% do PIB não agrícola e apenas 3,5% do emprego. O pequeno número de empregos de alta remuneração que esses dois setores geram tem efeitos multiplicadores fracos na economia doméstica, dados os padrões de consumo intensivo de importação desse segmento da força de trabalho.</p>
<p>Essa divergência acentuada destaca a fraca absorção de mão de obra de TI e finanças, os setores mais dinâmicos da Índia, e ilustra as consequências do desenvolvimento de um setor de serviços de alta tecnologia em detrimento da manufatura. Um dos motivos pelos quais a Índia liberalizou totalmente o comércio de produtos eletrônicos – um dos ramos mais dinâmicos e estratégicos da manufatura na economia global contemporânea, ao contrário do setor automobilístico, que ainda conta com uma considerável proteção tarifária – é que essa liberalização apoia ostensivamente os setores de serviços de alta tecnologia que exportam principalmente para o Ocidente, principalmente para os Estados Unidos. A consequência foi a desindustrialização, ao lado da dependência contínua de quase metade da força de trabalho da Índia em relação à agricultura.</p>
<p>Com 18% de participação no PIB, a agricultura emprega atualmente 46% da força de trabalho da Índia. Apesar de responder por mais de 50% do PIB da Índia, o setor de serviços empregou apenas cerca de 30% da força de trabalho em 2023-2024, destacando seu baixo nível de absorção de mão de obra. A manufatura, que na época da independência esperava-se que tiraria uma grande parte da força de trabalho da agricultura, agora contribui com cerca de 14% da produção e fornece apenas 11% do total de empregos (Governo da Índia, 2024).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_134172" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-134172" class="size-large wp-image-134172 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_6-1024x689.jpeg" alt="" width="1024" height="689" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_6-1024x689.jpeg 1024w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_6-300x202.jpeg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_6-768x517.jpeg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_6.jpeg 1094w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-134172" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Gigi Scaria, <em>Settlement</em> [Assentamento], 2010.</small></p></div></div>
<p>Na versão indiana do desenvolvimento neoliberal, a manufatura foi sacrificada para permitir a exportação de mão de obra qualificada e serviços para os mercados ocidentais, com a esperança de que esses ganhos compensassem o aumento das importações e o fato de não haver um setor manufatureiro robusto. Isso significou sacrificar as capacidades industriais e tecnológicas de longo prazo da Índia em troca de fontes de divisas frágeis e dependentes externamente, o que acabou minando a soberania econômica e tecnológica do país, para a qual um setor manufatureiro forte é essencial.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">As consequências humanas da desindustrialização</h2>
<p>A Índia tem uma população jovem, o chamado “dividendo demográfico”, que poderia ter sido a base para a construção de uma economia industrial moderna e o compartilhamento dos ganhos do progresso tecnológico. Eles devem ter melhores padrões de vida e emprego seguro, permitindo uma vida equilibrada de trabalho, descanso e lazer. Apesar de todo o alarde de que a Índia é uma grande economia, ela continua sendo uma economia subdesenvolvida, em que grande parte da renda dos trabalhadores é gasta em consumo básico, como alimentos, e em que os jovens têm empregos inseguros com futuro incerto.</p>
<p>A Índia está desperdiçando os jovens de sua força de trabalho em empregos improvisados com salários estagnados. A Índia registrou um declínio acentuado no número de dependentes – crianças e idosos – para a população em idade ativa: de 83% em 1966 para 47% em 2024 (Banco Mundial, 2025). Isso permitiu alguma redução na pobreza extrema, mas com um impacto limitado. No entanto, com a expectativa de que a proporção comece a aumentar novamente após 2041, o espaço para a transformação estrutural da Índia deverá se estreitar (Kapil, 2021). O crescimento industrial – que deveria ter absorvido o excedente de mão de obra e impulsionado a produtividade e o avanço tecnológico – parece ter chegado a um beco sem saída no modelo atual de crescimento econômico.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Um caminho a seguir</h2>
<p>Trazer a industrialização para o centro da política econômica é de extrema necessidade se a Índia quiser sair decisivamente da armadilha do subdesenvolvimento em que se encontra atualmente. Não há muito o que discutir sobre isso. A importância da industrialização e os limites de uma expansão econômica liderada por serviços tornaram-se evidentes até mesmo para os adeptos do neoliberalismo na Índia. Isso se reflete na constante invocação de Modi de esquemas para promover a manufatura, mesmo quando seu governo adere aos princípios neoliberais com mais ardor do que qualquer um de seus antecessores – por meio da liquidação do setor público, do desmantelamento das barreiras remanescentes ao capital estrangeiro, da promoção da infraestrutura liderada por automóveis e de generosos incentivos fiscais e subsídios ao setor corporativo sob o pretexto de estimular o investimento. Embora o governo Modi tenha aumentado moderadamente as tarifas de alguns produtos manufaturados, a estrutura mais ampla da liberalização do comércio permanece intacta. Como era de se esperar, essas medidas produziram poucas consequências em termos de expansão da manufatura. A desindustrialização da economia indiana parece estar nos trilhos.</p>
<p>É evidente que uma ruptura decisiva com os princípios neoliberais que atualmente orientam a política econômica é essencial para qualquer revitalização do programa industrial indiano. No entanto, o longo período de liberalização criou uma dinâmica estrutural que torna qualquer afastamento do neoliberalismo um desafio político formidável.</p>
<p>Essa era agravou as restrições pré-existentes discutidas anteriormente – aquelas que limitavam a industrialização mesmo antes da liberalização – e aprofundou o processo de desindustrialização. As desigualdades que restringem o mercado doméstico se multiplicaram, enquanto a estatura da grande burguesia indiana cresceu enormemente, ao lado de sua influência sobre o Estado e sua capacidade de moldar políticas. Essa classe está atualmente no auge do seu poder desde a independência da Índia. Eles acumularam uma riqueza significativa durante esse período, enquanto a maioria da população teve apenas ganhos marginais.</p>
<p>Os vastos complexos industriais desses conglomerados indianos em setores como automóveis, petroquímicos, energia, aço e telecomunicações foram largamente construídos e operados com maquinário e tecnologia importados, aproveitando a liberalização do comércio. Sua expansão foi financiada por capital barato disponibilizado por meio de altas avaliações de ações e sustentada por grandes fluxos de investimento de portfólio nos mercados acionários indianos. A grande burguesia indiana estabeleceu uma relação funcional com o capital estrangeiro, preservando seus interesses imediatos e administrando quaisquer conflitos por meio de uma combinação de acomodação e repulsão. Mesmo quando as empresas estrangeiras deslocaram o setor público e marginalizaram os produtores nacionais menores em setores importantes, os grandes conglomerados da Índia mantiveram e expandiram sua posição; eles aproveitaram sua escala, seu poder financeiro e sua capacidade de moldar a política estatal e consolidar seu domínio.</p>
<p>Consequentemente, já se foram os dias em que negociavam com a classe dos proprietários como um parceiro igualitário. Embora a antiga classe de proprietários fundiários hoje se encontre entre o rural e o urbano, o agrícola e o não agrícola, ela continua fazendo parte da elite indiana, compartilhando interesses de classe comuns com a grande burguesia. A direção da política estatal está agora muito mais firmemente nas mãos da grande burguesia indiana, formada por poderosas empresas familiares, apesar de contratempos ocasionais, como a oposição bem-sucedida dos camponeses e das classes proprietárias às leis agrícolas do governo Modi.</p>
<p>Hoje, a grande burguesia está menos alinhada com a classe dos proprietários de terras e mais com o capital estrangeiro. A aliança entre a burguesia indiana e o capital estrangeiro, em grande parte ocidental, acelerou a erosão da independência econômica da Índia e aprofundou sua dependência do Ocidente tanto para investimentos quanto para alinhamento político.</p>
<p>Desinteressadas em desenvolver tecnologias por meio de investimentos domésticos em P&amp;D, essas empresas buscam parcerias com o capital ocidental, principalmente dos EUA, para expandir sua presença em novas áreas de fabricação. Eles esperam aproveitar as oportunidades criadas pela determinação do Estado norte-americano de reorientar as cadeias de suprimentos globais para longe da China.</p>
<p>Cada vez mais, as empresas indianas estão tentando colaborar com empresas ocidentais em áreas como produção de defesa, eletrônica e sistemas de pagamento.</p>
<p>Apesar de seus planos, os interesses dessa classe são contrários à industrialização da Índia. O espetáculo que envolveu as negociações comerciais entre a Índia e os EUA sob o comando de Trump expôs os limites da dependência da colaboração com o Ocidente para o desenvolvimento industrial. Mesmo que um acordo comercial favorável com os EUA se concretizasse, o resultado não seria muito diferente: se a primeira fase do neoliberalismo fracassou, sua segunda iteração – o “neoliberalismo 2.0” – tampouco deve ter êxito.</p>
<p>É improvável que essa estratégia seja bem-sucedida pelos mesmos motivos que prejudicaram a industrialização no período pré-liberalização: profunda desigualdade e falta de poder de compra em massa. O mesmo problema só se intensificou com a liberalização, agora em uma escala exponencialmente maior. Atualmente, a desigualdade chegou a tal extremo que um indivíduo precisa estar entre os 11% mais ricos da distribuição de renda da Índia para obter a renda média nacional. Em outras palavras, 89% dos adultos ganham menos do que essa média nacional. A desigualdade de riqueza é ainda mais acentuada: o 1% do topo detém 40,1% da riqueza total – a maior concentração global. Dentro desse grupo, a desigualdade é ainda mais acentuada, com apenas 162 indivíduos possuindo 24,6% da riqueza do país em 2022 (Bharti, 2024, p. 77).</p>
<p>Já se foi o tempo em que a reforma agrária, por si só, poderia ter criado um mercado de massa ao colocar o poder de compra nas mãos da população de forma mais ampla. Embora a grave desigualdade na propriedade da terra continue sendo uma realidade, o enorme crescimento da população e a fragmentação generalizada da terra significam que, embora a reforma agrária ainda tenha escopo, ela não pode mais colocar terras suficientes nas mãos da força de trabalho da Índia.</p>
<p>O período após a independência, quando a grande burguesia compartilhava um interesse comum com a classe trabalhadora e o campesinato no desenvolvimento industrial e tecnológico liderado pelo Estado, já passou há muito tempo. Não há mais nenhum ponto em comum. A burguesia indiana, que antes desconfiava do capital internacional, agora se aproxima de uma parceria com ele.</p>
<p>Assim, qualquer mudança na trajetória neoliberal – no sentido de expandir o mercado indiano e reduzir a desigualdade – exige um acerto de contas das classes trabalhadoras com a grande burguesia do país e seus parceiros, independentemente da forma que essa aliança assuma. No entanto, atualmente, sob o estupor da hiper-  e o domínio da política religiosa fascista – financiada pela mesma grande burguesia – o povo indiano tem um longo caminho a percorrer antes de poder enfrentar essa classe poderosa.</p>
<p>No entanto, o fluxo atual na ordem econômica global e as incertezas que ele gera para o capital indiano criam aberturas para a esquerda na Índia reenergizar sua presença política e orientar o discurso da política econômica para o desenvolvimento nacional autônomo.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_134183" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-134183" class="wp-image-134183 size-large img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_7-682x1024.jpeg" alt="" width="682" height="1024" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_7-682x1024.jpeg 682w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_7-200x300.jpeg 200w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_7-768x1153.jpeg 768w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_7-1023x1536.jpeg 1023w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/20251218_D96_EN_7.jpeg 1066w" sizes="auto, (max-width: 682px) 100vw, 682px"><p id="caption-attachment-134183" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Gigi Scaria, <em>Human Pull</em> [Impulso humano], 2018.</small></p></div></div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup></a> Salvo indicação em contrário, todos os números do PIB deste dossiê, inclusive as participações setoriais, são cálculos dos autores com base nas <em>Estatísticas de Contas Nacionais </em>[NAS, na sigla em inglês] da Índia, séries 2011-2012 e séries anteriores correspondentes (preços atuais). Ver: Governo da Índia, 2025b.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2"><sup>2</sup></a> Entre 1990 e 1996, as tarifas médias sobre produtos agrícolas caíram de 82% para 39%, enquanto as tarifas sobre produtos manufaturados caíram de 51% para 40%. Ver Pillai, 2007; Athreya, 2013; Sainath, 1996.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3"><sup>3</sup></a> O governo reduziu as tarifas de fabricação de 33,3% em 2000 para 9% em 2008. Esses números são cálculos dos autores com base no Banco Mundial, 2000 e 2008.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4"><sup>4</sup></a> Por exemplo, a intensidade de importação das exportações de produtos manufaturados da Índia aumentou de 12,89%, em 1993-1994, para 24,04%, em 2003-2004, e para 51%, em 2013-2014. Ver Ramaa Arun Kumar; Biswajit Dhar, 2006.</p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5"><sup>5</sup></a> Essa erosão se reflete na diminuição do peso dos bens de capital e bens intermediários no Índice de Produção Industrial (IIP) de 35,5%, em 1993-1994, para 29,63%, em 2011-2012. Esses números são cálculos dos autores com base no Reserve Bank of India, 2025b.</p>
<p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6"><sup>6</sup></a> Atualmente, as exportações representam 79% da receita do setor de TI indiano, enquanto o setor continua totalmente dependente de <em>hardware</em> importado. Ver Governo da Índia, 2019.</p>
<p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7"><sup>7</sup></a> Sobre a adoção pela Índia do limite de 10% de direitos de voto e a consequente indefinição entre investimento direto e de carteira, consulte Rao; Dhar, 2011; para obter a definição oficial atual de IED, ver Governo da Índia, 2020.</p>
<p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8"><sup>8</sup></a> Usando o emprego no setor bancário e de seguros como um indicador do setor financeiro, uma análise da Business Standard de 34 empresas BFSI no índice S&amp;P BSE 200 estima que sua força de trabalho combinada será de quase 2 milhões de funcionários em 2023-2024. Mesmo um generoso ajuste para cima desse número manteria o total de empregos no setor financeiro bem abaixo de 1% da força de trabalho da Índia. Ver Kant, 2024.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências bibliográficas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p>ANI – Asian News International. “India to Boost Drug Ingredient Output to Pare China Reliance”, <em>Mint</em>. 13 abr. 2020. Disponível em: <a href="https://www.livemint.com/industry/manufacturing/india-to-boost-drug-ingredient-output-to-pare-china-reliance-11586787116741.html">https://www.livemint.com/industry/manufacturing/india-to-boost-drug-ingredient-output-to-pare-china-reliance-11586787116741.html</a>.</p>
<p>ANI – Asian News International. “Personal Loans and Services Sector are Key Drivers of Banks Credit Growth: RBI”, <em>Mint</em>. 27 dez. 2024. Disponível em: <a href="https://www.livemint.com/economy/personal-loans-and-services-sector-are-key-drivers-of-banks-credit-growth-rbi-11735287126663.html">https://www.livemint.com/economy/personal-loans-and-services-sector-are-key-drivers-of-banks-credit-growth-rbi-11735287126663.html</a>.</p>
<p>Athreya, Venkatesh. “The Current Agrarian Crisis in India: An Overview”, <em>The Marxist</em> 29, n. 3 (jul./set.), 2013.</p>
<p>Banco Mundial. “Age dependency ratio (% of Working-Age Population) – India”, <em>World Development Indicators</em>, based on data from United Nations, <em>World Population Prospects</em> (UN Population Division), and World Bank staff estimates, 2025. Acesso em: 10 out. 2025. Disponível em: <a href="https://data.worldbank.org/indicator/SP.POP.DPND?locations=IN">https://data.worldbank.org/indicator/SP.POP.DPND?locations=IN</a>.</p>
<p>Banco Mundial. <em>World Integrated Trade Solution (WITS)</em>, ‘India Trade Summary 2000’. 2000. Disponível em: <a href="https://wits.worldbank.org/CountryProfile/en/Country/IND/Year/2000/Summarytext">https://wits.worldbank.org/CountryProfile/en/Country/IND/Year/2000/Summarytext</a>.</p>
<p>Banco Mundial. <em>World Integrated Trade Solution (WITS)</em>. “India Trade Summary 2008”. Disponível em: <a href="https://wits.worldbank.org/CountryProfile/en/Country/IND/Year/2008/Summarytext">https://wits.worldbank.org/CountryProfile/en/Country/IND/Year/2008/Summarytext</a>.</p>
<p>Barik, Soumyarendra. “China Dominates Supply of Electronic Components for ‘Made in India’ Products”, <em>The Indian Express</em>. 18 ago. 2024. Disponível em: <a href="https://indianexpress.com/article/business/market/china-dominates-supply-of-electronic-components-for-made-in-india-products-9519844/">https://indianexpress.com/article/business/market/china-dominates-supply-of-electronic-components-for-made-in-india-products-9519844/</a>.</p>
<p>Bharti, Nitin Kumar; Chancel, Lucas; Piketty, Thomas; Somanchi, Anmol. <em>Income and Wealth Inequality in India, 1922–2023: The Rise of the Billionaire Raj</em>. Working Paper n. 2024/09, World Inequality Lab. 2024.</p>
<p>Das Gupta, Surajeet. “Over 90% of Telecom Gear in India’s Rs 50,000-Cr Market Is Imported”, <em>Business Standard</em>. 2014, 28 abr. Disponível em: <a href="https://www.business-standard.com/article/companies/over-90-of-telecom-gear-in-india-s-rs-50-000-cr-market-is-imported-114042900254_1.html">https://www.business-standard.com/article/companies/over-90-of-telecom-gear-in-india-s-rs-50-000-cr-market-is-imported-114042900254_1.html</a>.</p>
<p>Economic Times Bureau. “NPAs of 26 Banks Rise to Rs 7.3 Lakh Crore”. <em>Economic Times</em>, 22 mar. 2018. Disponível em: <a href="https://economictimes.indiatimes.com/markets/stocks/news/npas-of-26-banks-rise-to-rs-7-3-lakh-crore/articleshow/64298127.cms">https://economictimes.indiatimes.com/markets/stocks/news/npas-of-26-banks-rise-to-rs-7-3-lakh-crore/articleshow/64298127.cms</a>.</p>
<p>Governo da Índia. Ministry of Petroleum and Natural Gas, Press Information Bureau, “70% of Diesel, 99.6% of Petrol Consumed by Transport Sector”. 2014. Disponível em: <a href="https://www.pib.gov.in/newsite/printrelease.aspx?relid=102799">https://www.pib.gov.in/newsite/printrelease.aspx?relid=102799</a>.</p>
<p>Governo da Índia. Ministry of Commerce and Industry, Department of Commerce, “Commerce and Industry Minister Holds Discussions with CEOs of Indian IT Companies; Urges Them to Explore New Markets, Government to Support Global Growth of India’s IT Industry: Piyush Goyal”. 2019, 1 ago. Disponível em: <a href="https://www.commerce.gov.in/press-releases/commerce-industry-minister-holds-discussions-with-ceos-of-indian-it-companies-urges-them-to-explore-new-markets-government-to-support-global-growth-of-indias-it-industry-piyush-goyal/">https://www.commerce.gov.in/press-releases/commerce-industry-minister-holds-discussions-with-ceos-of-indian-it-companies-urges-them-to-explore-new-markets-government-to-support-global-growth-of-indias-it-industry-piyush-goyal/</a>.</p>
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<p>Governo da Índia. Ministry of Statistics and Programme Implementation, <em>National Accounts Statistics,</em> 2011–2012 series and corresponding back series (current prices). New Delhi: MoSPI. 29 ago. 2025b. Disponível em: <a href="https://esankhyiki.mospi.gov.in/catalogue-main/catalogue?page=0&amp;product=NAS">https://esankhyiki.mospi.gov.in/catalogue-main/catalogue?page=0&amp;product=NAS</a>.</p>
<p>IANS – Indo-Asian News Service. “Centre Aims to Meet 70% of India’s IT Hardware Demand through Domestic Production” <em>The Economic Times</em>. 22 set. 2023. Disponível em: <a href="https://economictimes.indiatimes.com/tech/technology/centre-aims-to-meet-70-of-indias-it-hardware-demand-through-domestic-production/articleshow/103862494.cms?from=mdr">https://economictimes.indiatimes.com/tech/technology/centre-aims-to-meet-70-of-indias-it-hardware-demand-through-domestic-production/articleshow/103862494.cms?from=mdr</a>.</p>
<p>IANS – Indo-Asian News Service. “India’s National Highways Record 60% Growth in Last 10 Years to Become 2nd Largest Network in World” <em>DD News</em>. 9 jan. 2025. Disponível em: <a href="https://ddnews.gov.in/en/indias-national-highways-record-60-growth-in-last-10-years-to-become-2nd-largest-network-in-world/">https://ddnews.gov.in/en/indias-national-highways-record-60-growth-in-last-10-years-to-become-2nd-largest-network-in-world/</a>.</p>
<p>India Brand Equity Foundation. <em>Electronic and Computer Software Industry in India</em>. abr. 2025. Disponível em: <a href="https://ibef.org/exports/electronic-and-computer-software-industry-in-india">https://ibef.org/exports/electronic-and-computer-software-industry-in-india</a>.</p>
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<p>Kapil, Shagun. “India’s Growing and Aging Populations Require Investments Across All Sectors”, <em>Down To Earth</em>, 27 nov. 2021. Disponível em: <a href="https://www.downtoearth.org.in/health/-india-s-growing-and-aging-populations-require-investments-across-all-sectors--80411">https://www.downtoearth.org.in/health/-india-s-growing-and-aging-populations-require-investments-across-all-sectors–80411</a>.</p>
<p>Kumar, Ramaa Arun; Dhar, Biswajit. <em>Trade Liberalisation and Export Competitiveness of Indian Manufacturing Industries</em>, Working Paper 230, New Delhi: Institute for Studies in Industrial Development, 2006.</p>
<p>Mallick, Subhrojit; Aryan, Aashish. “India’s Electronics Industry Poised for Transformation with New Incentives for Component Makers”. <em>The Economic Times</em>. 15 dez. 2024. Disponível em: <a href="https://economictimes.indiatimes.com/tech/technology/indias-power-surge/articleshow/116322851.cms?from=mdr">https://economictimes.indiatimes.com/tech/technology/indias-power-surge/articleshow/116322851.cms?from=mdr</a>.</p>
<p>Mazumdar, Surajit. “Industrial Development in India under Liberalisation”, <em>MPRA</em> paper no. 123214. 9 jan. 2025. Disponível em: <a href="https://mpra.ub.uni-muenchen.de/123214/1/MPRA_paper_123214.pdf">https://mpra.ub.uni-muenchen.de/123214/1/MPRA_paper_123214.pdf</a>.</p>
<p>Misra, Udit. “ExplainSpeaking: The Truth about Poverty in India”, <em>The Indian Express</em>. 27 jun. 2025. Disponível em: <a href="https://indianexpress.com/article/explained/explained-economics/explainspeaking-poverty-in-india-world-bank-data-10089567/">https://indianexpress.com/article/explained/explained-economics/explainspeaking-poverty-in-india-world-bank-data-10089567/</a>.</p>
<p>Mujumdar, N. A. “Transformation of the Banking System”, <em>IIBF Monthly Column</em>. ago. 2007. Disponível em: <a href="https://iibf.org.in/monthlycolumn_aug07.asp">https://iibf.org.in/monthlycolumn_aug07.asp</a>.</p>
<p>Pillai, S. Ramachandran. “Agrarian Crisis and the Way Out”. <em>The Marxist</em> 23, n. 3 (jul.-set.), 2007.</p>
<p>Rao, K.S. Chalapati; Dhar, Biswajit. <em>India’s FDI Inflows: Trends and Concepts</em>, ISID Working Paper 138, New Delhi: Institute for Studies in Industrial Development and Research and Information System for Developing Countries. 2011. Disponível em: <a href="https://isid.org.in/wp-content/uploads/2022/09/WP138.pdf">https://isid.org.in/wp-content/uploads/2022/09/WP138.pdf</a>.</p>
<p>Reserve Bank of India. <em>Database on Indian Economy</em>. 2025a.  Acesso em: 13 out. 2025. Disponível em: <a href="https://data.rbi.org.in/DBIE/#/dbie/home">https://data.rbi.org.in/DBIE/#/dbie/home</a>.</p>
<p>Reserve Bank of India. Department of Statistics and Information Management, <em>Handbook of Statistics on Indian Economy, 2024-25</em>. 29 ago. 2025. Disponível em: <a href="https://rbi.org.in/Scripts/AnnualPublications.aspx?head=Handbook%20of%20Statistics%20on%20Indian%20Economy">https://rbi.org.in/Scripts/AnnualPublications.aspx?head=Handbook%20of%20Statistics%20on%20Indian%20Economy</a>.</p>
<p>Reserve Bank of India. <em>Handbook of Statistics on the Indian Economy 2024-25</em>, Mumbai: Reserve Bank of India, Table 29: “Index Numbers of Industrial Production – Use-Based Classification”. 2025b. Disponível em: <a href="https://www.rbi.org.in/Scripts/PublicationsView.aspx?id=23203">https://www.rbi.org.in/Scripts/PublicationsView.aspx?id=23203</a>.</p>
<p>Sainath, P. <em>Everybody Loves a Good Drought</em>, New Delhi: Penguin, 1996.</p>
<p>Testbook. “Fiscal Responsibility and Budget Management Act (FRBM), UPSC Notes”. <em>Testbook</em>, acesso em 26 nov. 2025. 2025. Disponível em: <a href="https://testbook.com/ias-preparation/fiscal-responsibility-budget-management">https://testbook.com/ias-preparation/fiscal-responsibility-budget-management</a>.</p>
</div>
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		<title>O imperialismo será inevitavelmente derrotado: o ressurgimento do Espírito Tricontinental</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-tricontinental-conferencia-60/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2025 08:00:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
		<category><![CDATA[multilateralism]]></category>
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					<description><![CDATA[A guinada neoliberal da Índia desde a década de 1990 acelerou a desindustrialização; à medida que a ordem global se transforma, a esquerda do país deve aproveitar todas as oportunidades para impulsionar o desenvolvimento nacional autônomo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="single-post--content--text-small">Este dossiê apresenta uma seleção de cartazes da Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina (Ospaaal), formada na Conferência Tricontinental de 1966 em Havana, Cuba. Nas décadas seguintes, a Ospaaal produziu mais de trezentos cartazes, que eram dobrados e inseridos nas páginas da revista <i>Tricontinental </i>e enviados para todo o mundo com uma mensagem internacionalista. Leia mais sobre os cartazes da Ospaaal e seu papel na batalha de ideias no dossiê n. 15, <i>A Arte da Revolução Será Internacionalista</i>.</p>
<hr class="single-post--content--separator-narrow">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_132869" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132869" class="size-full wp-image-132869 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/6th-anniversary-La%CC%81zaro-Abreu-Padro%CC%81n-1971-72.jpg" alt="" width="479" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/6th-anniversary-Lázaro-Abreu-Padrón-1971-72.jpg 479w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/6th-anniversary-Lázaro-Abreu-Padrón-1971-72-184x300.jpg 184w" sizes="auto, (max-width: 479px) 100vw, 479px"><p id="caption-attachment-132869" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Lázaro Abreu Padrón (Ospaaal), <em>Sexto Aniversário da Conferência Tricontinental</em>, 1972. Courtesia de The Radical Media Archive.</small></p></div>
</div>
<p>Em 1966, a Primeira Conferência de Solidariedade dos Povos da África, Ásia e América Latina — popularmente conhecida como Conferência Tricontinental — ocorreu em Havana, Cuba. O evento, realizado há sessenta anos, dá nome ao nosso instituto. Para comemorar a conferência e seu legado, dedicamos o dossiê n. 95 a uma avaliação do Espírito Tricontinental. Esse espírito não se manifesta da mesma forma que em 1966, visto que a questão da libertação nacional por meio da luta armada não é o foco de nossa época (embora certas lutas de libertação nacional de nosso tempo tenham sofrido represálias armadas). No entanto, não é a forma, mas a essência do Espírito Tricontinental que nos interessa. Se a essência do Espírito de Bandung, sobre o qual escrevemos no dossiê n. 87 (abril de 2025), foi uma insistência nos ideais de soberania e multilateralismo, este dossiê argumenta que a essência do Espírito Tricontinental se constrói em torno dos ideais de dignidade humana e luta de classes (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2025). O Espírito de Bandung e o Espírito Tricontinental não eram contraditórios em 1966, visto que Cuba — que sediou a Conferência Tricontinental — também foi membro fundador do Movimento dos Países Não Alinhados (MNA) em 1961. O MNA, que Cuba sediou em 1979 e novamente em 2006, foi a materialização institucional do Espírito de Bandung. Hoje, soberania, multilateralismo, dignidade e luta de classes moldam a política de grande parte do Sul Global – unindo esses dois espíritos em um novo contexto.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<h2 style="margin:3em 0;" align="center">Quão jovens eles eram</h2>
<p>Quando Fidel Castro, primeiro-ministro e primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba, subiu ao palco no último dia da Conferência Tricontinental, em 15 de janeiro de 1966, ele tinha apenas 39 anos. A Revolução Cubana, dirigida por ele até a vitória em 1959, quando tinha 32 anos, acabara de comemorar seu sétimo aniversário. Seus camaradas, que chegaram a Havana após dois anos na Sierra Maestra, eram igualmente jovens, entre eles Camilo Cienfuegos (26), Che Guevara (30), Juan Almeida Bosque (31), Asela de los Santos Tamayo (37) e Celia Sánchez (38). Em 1966, Castro já possuía uma gravidade que se manifestava na profundidade de sua voz e em sua compostura. Ele e seus camaradas haviam liderado a vitória da Revolução Cubana sobre os Estados Unidos e sua Agência Central de Inteligência (CIA) na Invasão da Baía dos Porcos, em 1961, e o próprio Castro havia frustrado muitas tentativas de assassinato. “O imperialismo será inevitavelmente derrotado”, disse ele aos mais de quinhentos delegados vindos da Ásia, África e América Latina (De Los Santos, 2026). Ninguém na sala duvidou dele.</p>
<p>Muitos dos participantes da Conferência Tricontinental eram pelo menos tão jovens quanto Fidel. Entre eles estavam Alice Badiangana (27), da União da Juventude Congolesa (UCJ) e da União das Mulheres Africanas do Congo (URFC), e Mário Pinto de Andrade (38), do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Amílcar Cabral, do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), tinha 41 anos, e Eduardo Mondlane, da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), 45 (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2022). Esses jovens estavam à frente de organizações juvenis que haviam sido forçadas à luta armada pela brutalidade do imperialismo português na África. Eles haviam tentado a via civil, reivindicando mais direitos tanto em Portugal quanto na África, mas foram recebidos com balas de 9mm de uma Mauser 98k. Foi por isso que eles deixaram de lado seus livros de Direito e pegaram em fuzis AK-47, provenientes da União Soviética e da República Popular da China. O imperialismo era intolerável para esses jovens. Eles concordavam com a avaliação de Castro de que o imperialismo seria inevitavelmente derrotado.</p>
<p>No Vietnã, a idade média da população, em meados da década de 1960, estava entre 18 e 20 anos – resultado das baixas sofridas durante a guerra revolucionária contra um inimigo implacável (os franceses a partir de 1946 e, posteriormente, os Estados Unidos e seus aliados a partir de 1955). Em 1966, o país havia perdido pelo menos um milhão e meio de pessoas para a violência — cerca de 6% da população (Hirschman <i>et al</i>., 1995). Os representantes vietnamitas que vieram a Havana também eram jovens, como Nguyen Van Tien, da Frente Nacional de Libertação do Vietnã do Sul (Viet Cong), embora o uso de um pseudônimo impossibilite determinar sua idade exata, e Tran Danh Tuyen, da República Democrática do Vietnã, que tinha menos de quarenta anos. A energia juvenil na conferência era palpável.</p>
<h2 style="margin:3em 0;" align="center">Basta!</h2>
<p>Mehdi Ben Barka, da União Nacional das Forças Populares Marroquinas (UNFP), então com mais de quarenta anos, passou mais de dois anos planejando a Conferência Tricontinental. Em 30 de setembro de 1965, em uma coletiva de imprensa em Havana, durante os estágios iniciais de preparação, ele definiu a Tricontinental como a união das duas correntes da revolução mundial: a da revolução socialista e a da libertação nacional (Prensa Latina, 1965). Essa foi uma avaliação precisa da política da Conferência Tricontinental. Foi isso que aterrorizou o bloco imperialista.</p>
<p>Mas a história não segue uma linha reta, ela tem suas reviravoltas. Em 29 de outubro de 1965, Ben Barka “desapareceu” nas mãos de forças obscuras em Paris (muito provavelmente a inteligência francesa e marroquina com a ajuda do Mossad israelense). Muitos outros que compareceram tiveram o mesmo destino — Mondlane foi assassinado em 1969 e Cabral, em 1973.</p>
<p>Nos anos que se seguiram à conferência, surgiram mais oportunidades para a libertação nacional, mas os Estados recém-independentes estavam enfraquecidos por séculos de domínio colonial e pelo escoamento da riqueza social. Em fevereiro de 1966, apenas algumas semanas após a conferência, os serviços de inteligência ocidentais incitaram os militares ganenses a derrubar Kwame Nkrumah, cujo livro <i>Neocolonialismo: a última etapa do imperialismo </i>(1965) delineou claramente a estrutura que continuava a suprimir as ambições articuladas em Havana em 1966 (Nkrumah, 2009). A Conferência Tricontinental acendeu um farol para o mundo poder enxergar: <i>Estamos aqui, aqueles que vocês colonizaram. Lutaremos até que nossa emancipação esteja completa, e essa luta levará o socialismo ao mundo</i>. Como Castro declarou em sua Segunda Declaração de Havana (1962): “Esta grande humanidade disse ‘basta!’ e começou a caminhar para frente”. Embora esse farol ainda não pudesse ofuscar o imperialismo, ele permaneceria como uma luz-guia para as lutas em curso em todo o Sul Global.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_132899" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132899" class="size-full wp-image-132899 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/No-To-Militarism-And-Hunger-Rafael-Morante-Boyerizo-1981.jpg" alt="" width="499" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/No-To-Militarism-And-Hunger-Rafael-Morante-Boyerizo-1981.jpg 499w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/No-To-Militarism-And-Hunger-Rafael-Morante-Boyerizo-1981-192x300.jpg 192w" sizes="auto, (max-width: 499px) 100vw, 499px"><p id="caption-attachment-132899" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Rafael Morante Boyerizo (Ospaaal), <em>Não ao Militarismo e à Fome</em>, 1981. Cortesia do The Radical Media Archive.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;" align="center">Dois, três, muitos Vietnãs</h2>
<p>Cuba fica a menos de 150 quilômetros dos Estados Unidos. Depois de ter sido tomada da Espanha em 1898, tornou-se um refúgio para as elites estadunidenses. Sob o jugo de financistas nova-iorquinos e mafiosos de Las Vegas, os cubanos da classe trabalhadora suportaram condições miseráveis durante as seis décadas seguintes. A revolução de 1959 foi bem recebida pela maioria do povo cubano, que não permitiria um revés de suas conquistas por meio de uma derrubada de seu governo revolucionário. Quaisquer que fossem as privações que os EUA impusessem a Cuba, seu povo permaneceria resoluto. Isso deu a Fidel a confiança de que o adversário de Cuba — o imperialismo — sofreria uma derrota total.</p>
<p>Fidel estava no palanque da Conferência Tricontinental com seu uniforme militar, que usaria até o fim da vida. Em <i>Os condenados da terra </i>(1961), Frantz Fanon refletiu sobre as vestimentas de Fidel:</p>
<blockquote><p>Castro, sentado com uniforme militar na Organização das Nações Unidas [ONU], não escandaliza os países subdesenvolvidos. O que Castro demonstra é a consciência que tem da persistência do regime da violência. O surpreendente é que ele não entrou na ONU com uma metralhadora; mas, se o tivesse feito, alguém se importaria? Todas as <i>jacqueries </i>e atos desesperados, todos esses bandos armados com facões ou machados, encontram sua origem na luta implacável que opõe o socialismo ao capitalismo (Fanon, 1967).</p></blockquote>
<p>Fidel e os cubanos sempre estiveram preparados para a guerra híbrida em curso, o bloqueio, a guerra econômica e outras formas de ataques que continuam até hoje.</p>
<p>No último dia da Conferência Tricontinental, Fidel perguntou: “Quem nos ensinou esta lição” — que “o imperialismo será inevitavelmente derrotado?”. Sem perder o compasso, respondeu: “foram os povos que nos ensinaram. Quem, dentre os povos, nos deu nestes tempos a lição mais extraordinária? O povo do Vietnã”. Embora os Estados Unidos tenham mobilizado todo o seu arsenal, incluindo bombardeios aéreos e armas químicas no sul do Vietnã, Fidel prosseguiu: “Os imperialistas ianques não conseguiram esmagar o povo desta parte do Vietnã” (Prashad, 2026).</p>
<p>Nos anos que antecederam a Conferência Tricontinental, os revolucionários vietnamitas dirigiram sua luta diretamente contra alvos estadunidenses no Sul – incluindo uma base aérea estadunidense em Biên Hòa (1964) e o Campo Holloway perto de Pleiku (1965). Em resposta, Washington intensificou o bombardeio do Norte, incluindo Hanói, enquanto o número de soldados estadunidenses subiu para quase 200 mil no final de 1965. A pressão sobre a Revolução Vietnamita era imensa. A “Mensagem à Conferência Tricontinental”, de Che Guevara, publicada na revista <i>Tricontinental </i>(da Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina, Ospaaal) em abril de 1967, conclamava as forças revolucionárias a “criar dois, três, muitos Vietnãs” – como ele esperava fazer no Congo e, posteriormente, na Bolívia, onde foi assassinado em outubro de 1967 (Guevara, 2020). Para Che, a hidra da revolução tinha que desviar os EUA de seu foco naquela região da Ásia.</p>
<p>Ao longo da década de 1960, as repercussões das lutas anticoloniais em locais como o Vietnã e a Argélia iriam desencadear levantes estudantis contra a guerra em todo o Atlântico Norte, impulsionados igualmente pelas lutas pelos direitos civis dentro das próprias fronteiras desses países. As palavras de ordem do movimento estudantil foram definidas por sentimentos anti guerra e antirracistas. Na França, a faísca foi o massacre, em 1961, de cerca de 200 argelinos que protestavam contra a guerra colonial no Norte da África. Nos Estados Unidos, estudantes pacifistas organizaram a Estudantes por uma Sociedade Democrática (Students for a Democratic Society — SDS) e galvanizaram o sentimento popular contra a guerra em uma série de campanhas a partir de 1965. Esses esforços foram moldados pelo Comitê Nacional de Mobilização para o Fim da Guerra do Vietnã de 1966, que organizou a Marcha sobre o Pentágono em 1967 e o protesto na Convenção Nacional Democrata em Chicago em 1968. Em toda a Europa, o sentimento predominante em 1968 era contra o envolvimento desses governos em guerras coloniais, especialmente a guerra do Vietnã. O ano de 1968 na França começou não na Sorbonne, mas em Nanterre, onde os membros do Comitê Nacional do Vietnã foram presos em 22 de março enquanto protestavam em frente a um escritório da American Express. Esse foi o início do Movimento de 22 de Março, que passou da crítica à guerra à condenação da universidade capitalista e do sistema capitalista em geral.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>1</sup></a></p>
<p>A determinação do Vietnã e sua vitória final sobre o imperialismo inspiraram revolucionários em todo o mundo, com o apelo de Che por “muitos Vietnãs” ainda ecoando em seus ouvidos. Na noite de 31 de dezembro de 1964, com as imagens das revoluções cubana e argelina e da luta vietnamita ainda frescas em suas mentes, os <i>fedayin palestinos </i>(combatentes) do Fatah, o principal movimento nacionalista palestino, lançaram a <i>Al-Asifa </i>[A tempestade], sua primeira operação de guerrilha contra Israel. Os <i>fedayin</i> vincularam diretamente sua luta ao Vietnã. Abu Jihad, que planejou a Al-Asifa, viajou para a Argélia, China, República Popular Democrática da Coreia e Vietnã entre 1963 e 1965 (Abu Amr, 2013). Um dos principais teóricos dos <i>fedayin</i>, Ghassan Kanafani — que havia viajado para a China em 1965 e 1966 — escreveu o principal texto programático da Frente Popular para a Libertação da Palestina, <i>A Estratégia para a Libertação da Palestina </i>(1969), em diálogo direto com os textos do líder vietnamita general Võ Nguyen Giap e de Mao Zedong (Brehony &amp; Hamdi, 2024). Nos anos que se seguiram à conferência, eclodiram lutas armadas na Índia (Naxalbari, 1967), no Iraque (1967-1968), na África Austral (inaugurada pela Campanha Wankie de 1967), na Malásia (1968-1969) e no Sri Lanka (1971). Não é de se admirar que a arte da Ospaaal, que nasceu na conferência de 1966, frequentemente apresentasse imagens das lutas na Palestina, África do Sul e Vietnã (como a arte neste dossiê demonstra) (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2019). Filmes do cubano Santiago Álvarez, como <i>Hanoi, martes 13 </i>(1968) e <i>79 Primaveras </i>(1969), documentaram a luta vietnamita e sua conexão com o mundo. A necessidade de lutas de libertação em todo o Terceiro Mundo forneceu o elo emocional para a solidariedade internacional.</p>
<p>A declaração política geral da Conferência Tricontinental, lida por Maria Amélia Lopes Fonseca, do Movimento das Colônias Portuguesas, afirmou “o direito inalienável de todos os povos à plena independência política e ao recurso a todas as formas de luta que se mostrem necessárias, inclusive a luta armada, para conquistar o seu direito” (De Los Santos, 2026). Seis anos antes, em 14 de dezembro de 1960, a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) aprovou a Resolução 1.514 sobre a Declaração da Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais, que observou “que o processo de libertação é irresistível e irreversível e que, para evitar crises graves, é necessário pôr fim ao colonialismo e a todas as práticas de segregação e discriminação a ele associadas”. A resolução declarou ainda que “todas as ações armadas ou medidas repressivas de qualquer tipo dirigidas contra os povos dependentes devem cessar, a fim de lhes permitir exercer pacífica e livremente o seu direito à plena independência, e a integridade do seu território nacional será respeitada” (Assembleia Geral da ONU, 1960). A ONU não criticou a luta armada dos povos ocupados e colonizados. Em vez disso, a crítica da resolução à força armada se dirigia aos imperialistas, cuja violência impôs o caminho da luta armada aos colonizados. Essa foi a experiência de Cabral e do PAIGC, que foram forçados a pegar em armas devido à repressão punitiva portuguesa contra a sua luta civil. Do palanque em Havana, Cabral disse aos seus companheiros revolucionários:</p>
<blockquote><p>As experiências passadas e presentes de vários povos, a situação atual das lutas de libertação nacional no mundo (especialmente no Vietnã, no Congo e no Zimbábue), bem como a situação de violência permanente, ou pelo menos de contradições e convulsões, em certos países que conquistaram a sua independência pelo chamado caminho pacífico, mostram-nos não só que os compromissos com o imperialismo não funcionam, mas também que o caminho normal de libertação nacional, imposto aos povos pela repressão imperialista, é <i>a luta armada </i>(apud De Los Santos, 2026).</p></blockquote>
<p>A palavra-chave aqui é <i>imposta</i>. A luta armada não é uma escolha, como argumentou Fanon em <i>Os condenados da terra</i>. Essa foi a lição aprendida com o assassinato de Patrice Lumumba em 17 de janeiro de 1961, apenas um mês após a Resolução 1.514 da ONU, quando a tentativa de uma luta pacífica pela liberdade do Congo foi interrompida pela imposição da violência pelo imperialismo.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_132889" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132889" class="size-full wp-image-132889 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Zimbabwe-La%CC%81zaro-Abreu-Padro%CC%81n-1972.jpg" alt="" width="504" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Zimbabwe-Lázaro-Abreu-Padrón-1972.jpg 504w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Zimbabwe-Lázaro-Abreu-Padrón-1972-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 504px) 100vw, 504px"><p id="caption-attachment-132889" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Lázaro Abreu Padrón (Ospaaal), <em>Dia de Solidariedade com o Zimbábue</em>, 1972. Cortesia do The Radical Media Archive.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;" align="center">Zigue-zagues</h2>
<p>Vietnã, Palestina, Guatemala, Congo, Zimbábue — esses e muitos outros países compunham os contornos do Espírito Tricontinental, cuja época começou com a vitória da Revolução Cubana na manhã do ano novo de 1959 e foi parcialmente definida, ao longo das duas décadas seguintes, por uma série de vitórias revolucionárias: Etiópia (1974), Vietnã (1975), Laos (1975), Guiné-Bissau e Cabo Verde (1974-1975), Moçambique (1975), São Tomé e Príncipe (1975), Angola (1975), Afeganistão (1978), Granada (1979), Nicarágua (1979) e Zimbábue (1980). Revolucionários comunistas e forças de libertação nacional travaram batalhas prolongadas — como no Vietnã e na Nicarágua — ou se viram em posição de força quando o sistema estatal entrou em colapso após uma crise política, abrindo caminho para a sua vitória, como na Etiópia e em Granada. O que uniu essas forças foi o desejo por completa independência e soberania — como expressava a Resolução 1.514 da ONU — juntamente com diferentes níveis de comprometimento com a revolução socialista em cada contexto. Em outros lugares, como Palestina, África do Sul e Saara Ocidental, o processo de libertação foi bloqueado nesse período. Contudo, tanto em territórios vitoriosos quanto em territórios ainda subjugados, a energia desses movimentos de libertação nacional ganhou força nos corredores da ONU, levando, em 1974, à aprovação da Resolução 3.201 da Assembleia Geral da ONU sobre a Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), uma visão para um presente mais humano.</p>
<p>A maioria dessas conquistas revolucionárias não teria espaço para respirar. Em 1979, os EUA iniciaram a Operação Ciclone para financiar os Mujahidin e paralisar o governo comunista em Cabul. No início da década de 1980, Washington minou o porto de Manágua e financiou os Contras, a variante nicaraguense dos Mujahidin, para sufocar o governo sandinista. Fidel e seus camaradas na conferência de 1966 estavam bem cientes da política de asfixia adotada pelas potências imperialistas. Em Havana, eles discutiram o arquipélago de bases militares mantidas pelas antigas potências coloniais — da base britânica em Diego Garcia à base francesa em Dakar — e pela potência imperialista mais forte, os Estados Unidos, que, por fim, estabeleceriam 900 bases militares em diversos países ao redor do mundo (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2023). Embora as ameaças imperialistas contra Cuba não tenham tido sucesso, os golpes imperialistas em vários países dificultaram o avanço da humanidade. Os golpes de Estado no Congo (1961), no Brasil (1964), na Indonésia (1965) e em Gana (1966) destruíram a esquerda nesses países-chave por pelo menos uma geração, criando um modelo para golpes contra movimentos de libertação nacional que foi replicado em todo o Terceiro Mundo. Contudo, em 1978, o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Zbigniew Brzezinski, escreveu uma avaliação crítica dos limites do poder estadunidense em um memorando secreto para o presidente Jimmy Carter:</p>
<blockquote><p>Os Estados Unidos estavam em grande desarmonia com o <i>Terceiro Mundo</i>, demonstrando pouca consciência da necessidade de mudanças econômicas, políticas e sociais, ou simpatia pela diversidade ideológica. Havia uma ênfase excessiva na <i>realpolitik </i>e uma preocupação exagerada com a ameaça soviética. Em todo o Terceiro Mundo, havia um sentimento generalizado antiestadunidense (Departamento de Estado dos EUA, 2014).</p></blockquote>
<p>Apesar da diminuição das insurgências e do espírito tricontinental, era evidente que havia uma crescente onda de sentimento contra os Estados Unidos. Embora não tivesse força suficiente para superar a estrutura neocolonial estabelecida após 1945, ela persistia. Por um tempo, guerras secretas e golpes de Estado apoiados pelos EUA varreram a América Central e do Sul, bem como o Sul da Ásia (notadamente no Paquistão, em 1977). A Revolução Iraniana de 1979 perturbaria essa aparente estabilidade por décadas, mas, de resto, os EUA acreditavam ter administrado eficazmente o espírito tricontinental, apesar do persistente sentimento anti-EUA.</p>
<h2 style="margin:3em 0;" align="center">O Espírito de Bandung retorna</h2>
<p>A arrogância do bloco imperialista liderado pelos EUA só aumentou após 1991, com a desintegração da União Soviética e do sistema estatal comunista da Europa Oriental, e o enfraquecimento do Projeto do Terceiro Mundo por uma persistente crise da dívida. Os EUA buscaram, de forma imperiosa, construir um mundo unipolar que pudesse conter suas próprias contradições. Uma coisa foi destruir a Iugoslávia (1999) e criar a Organização Mundial do Comércio (1995), os dois pilares da guerra e do comércio, mas outra bem diferente foi aniquilar os sonhos de emancipação da humanidade. Mesmo no auge dessa ordem unipolar, uma mudança significativa ocorreu na Venezuela em 1998, com a ascensão da Revolução Bolivariana ao poder, liderada por Hugo Chávez. Os EUA foram longe demais ao tentar travar uma Guerra Global contra o Terrorismo mal definida, enquanto esvaziavam sua própria capacidade industrial para construir uma cadeia globalizada de acumulação que beneficiasse o capital privado. As guerras, a desindustrialização, a financeirização e a falta de investimento líquido em capital fixo levaram a um aumento astronômico da desigualdade social no Norte Global, o que desencadeou uma polarização política e uma crise de legitimidade. Ignorando a crise interna de seus países, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e as Forças Armadas dos EUA começaram a pressionar o que consideravam os dois últimos obstáculos sérios ao poder ocidental na nova era: a China e a Rússia. Os Estados Unidos começaram unilateralmente a desmantelar o regime global de controle de armas, retirando-se do Tratado de Mísseis Antibalísticos em 2002 e do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário em 2019. Intervieram nos assuntos internos da Ucrânia em 2014 e fecharam um importante acordo de armas com Taiwan em 2015. Embora o equilíbrio de forças tivesse prevalecido contra a Iugoslávia em 1999, a situação global começara a mudar, e nem a Rússia, nem a China permitiriam que o Norte Global estendesse seu alcance militar até suas fronteiras.</p>
<p>O que parecia ser o fim do Espírito de Bandung foi reacendido nesse período, com o surgimento do termo “Sul Global” nas discussões de alto nível entre países da África, Ásia e América Latina. Líderes de alto escalão falaram em “Cooperação Sul-Sul”, uma expressão que antes aparecia apenas em relatórios menores da ONU e em encontros para comemorar o patrimônio do Terceiro Mundo. Na V Conferência do Brics, realizada em Durban, África do Sul, em 2013, a questão do papel do Sul Global no fortalecimento do multilateralismo voltou à tona e se intensificaria na década seguinte. Isso foi amplamente, embora não totalmente, reconhecido na maioria das discussões como resultado do ressurgimento da China e da Rússia no cenário mundial. A industrialização chinesa permitiu que o país acumulasse grandes superávits comerciais, que foram reinvestidos na Iniciativa Cinturão e Rota e em seu compromisso de industrializar a África. A Rússia recuperou parte de sua indústria pesada das mãos da oligarquia e utilizou esses ativos para reconstruir sua infraestrutura estatal, incluindo as Forças Armadas. Sancionadas pelo Ocidente, a China e a Rússia resolveram sua disputa de fronteira e aumentaram seu comércio, o que levou a um acordo de parceria “sem limites” em 2022. A liderança chinesa e russa no processo do Brics e em outros processos Sul-Sul ajudou a reacender o Espírito de Bandung no Sul Global. Na XVII reunião do Brics, em 2025, no Rio de Janeiro, Lula, presidente do Brasil, afirmou que “o Brics é a manifestação do Movimento Não Alinhado de Bandung. O Brics mantém vivo o Espírito de Bandung” (Brics Brasil, 2025). Mas será que o Espírito de Bandung é o mesmo que o Espírito Tricontinental?</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_132909" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132909" class="size-full wp-image-132909 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Asia-artist-unknown-1968.jpg" alt="" width="481" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Asia-artist-unknown-1968.jpg 481w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Asia-artist-unknown-1968-185x300.jpg 185w" sizes="auto, (max-width: 481px) 100vw, 481px"><p id="caption-attachment-132909" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Artista desconhecido (Ospaaal), <em>Semana de Solidariedade com os Povos da Ásia</em>, 1968. Cortesia do The Radical Media Archive.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;" align="center">O Espírito Tricontinental</h2>
<p>Nos últimos dois anos, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social tem enfatizado a importância de dois conceitos relacionados: soberania e dignidade (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2023b). Pode-se dizer que a soberania, juntamente com o multilateralismo, é o ideal central do Espírito de Bandung, enquanto a dignidade, fundamentada na luta de classes, é a categoria definidora do Espírito Tricontinental.</p>
<p>Tanto a Conferência de Bandung (1955) quanto a fundação do Movimento dos Países Não Alinhados (1961), mencionadas por Lula, foram encontros de chefes de Estado e, portanto, reuniões interestatais. A ampla frente em Bandung e nas reuniões do MNA convergiu em torno do conceito de soberania: a ideia de que um Estado deve ter controle soberano sobre seu território; que pode dispor de suas matérias-primas; e tem permissão para administrar seus assuntos internos à sua maneira, com base em seu desenvolvimento cultural e político. Mas a soberania é um conceito limitado. No direito internacional, por exemplo, a soberania é amplamente reduzida a um princípio negativo de não interferência nos assuntos internos de um Estado (como no Artigo 2 da Carta da ONU de 1945), o que, em termos populares, equivale a “nenhuma intervenção estrangeira”. Contudo, o conceito de soberania permanece uma proposta radical devido ao controle do Norte Global sobre as instituições internacionais e suas intervenções políticas e militares no Sul Global. Ele forneceu a base para uma ampla aliança anti-imperialista que lutaria para criar o multilateralismo e democratizar a ordem internacional. Contudo, a soberania, por si só, não garante o fim da exploração do ser humano pelo ser humano — ela pode apenas  atenuar a violência do imperialismo.</p>
<p>O conceito de soberania, além de limitado, é também anacrônico. Ele reflete uma dinâmica interestatal que surgiu na era pré-moderna, quando os Estados criaram diversos mecanismos para evitar conflitos interestatais insolúveis. Vários tratados e alianças pré-modernos começaram a estabelecer a ideia de soberania em uma época anterior ao reconhecimento de que todas as pessoas devem ser tratadas como fundamentalmente iguais. Alguns exemplos incluem:</p>
<ul>
<li aria-level="1">A Carta Mandé na fundação do Império Mali (1235).</li>
<li aria-level="1">A Tríplice Aliança Asteca, que reuniu os povos de Tenochtitlán, Texcoco e Tlacopan (1428).</li>
<li aria-level="1">A formação da Confederação Iroquesa (1400–1450).</li>
<li aria-level="1">A Paz de Vestfália, que pôs fim à Guerra dos Trinta Anos e à Guerra dos Oitenta Anos na Europa (1648).</li>
<li aria-level="1">O Tratado de Nerchinsk, que pôs fim ao conflito entre a China Qing e a Rússia czarista (1689).</li>
<li aria-level="1">O estabelecimento da Confederação Ashanti (1701).</li>
</ul>
<p>Embora cada uma dessas formações tenha desenvolvido a ideia de soberania, isso foi feito apenas para proteger a paz entre os Estados. Essas ideias seriam, por fim, codificadas nos escritos do jurista francês Jean Bodin (1530–1596) e do filósofo holandês Hugo Grotius (1583–1645), cuja obra formou a ideologia do Congresso de Viena (1814–1815) e a base da ciência política moderna do Atlântico Norte. Bodin e Grotius não tinham conhecimento da Carta Mandé ou da Tríplice Aliança Asteca, mas as ideias que desenvolveram — como as expostas por Grotius em <i>Sobre a lei da guerra e da paz </i>(1625) — teriam encontrado eco nos malianos e nos astecas. Tratavam-se de ideias diretas sobre a não interferência nos assuntos de um Estado vizinho e foram articuladas por diversos contemporâneos, como o intelectual mongol Abu’l Fazl (1551–1602) em seu <i>Akbarnama </i>(1596), cujo conceito de <i>sulh-i Kul </i>[paz com todos] poderia ser comparado de forma proveitosa aos escritos de Grotius. No entanto, esses pensadores pré-modernos não foram além da amizade entre os Estados. Não havia outro propósito nessa não interferência além do desejo de evitar guerras e dominações intermináveis.</p>
<p>Na Era Moderna, porém, quando a ideia de dignidade humana molda os discursos de liberdade, igualdade e direitos sociais, não basta evitar guerras e destruição. É preciso haver uma articulação positiva da obrigação dos Estados para garantir a segurança de seus habitantes e para melhorar suas vidas em termos materiais e culturais. Esse é o resultado de diversas revoltas em massa, desde as revoluções Francesa e Haitiana (1789 e 1804), passando pela Comuna de Paris (1871) e a Revolução de Outubro (1917), até as revoluções Chinesa e Cubana (1949 e 1959). Essa é a unidade, como disse Ben Barka, das duas correntes de libertação nacional e revolução socialista. A expectativa estabelecida por essas revoluções em cascata é que a vida humana deve ser melhorada, superando as misérias do passado, e que o controle sobre os avanços materiais deve ser democratizado entre as massas. Em outras palavras, os Estados devem ser obrigados a lutar pela plena dignidade de seus cidadãos e, de fato — por meio de conceitos como o internacionalismo — de todos os povos do mundo. Com a dignidade emergindo como um conceito-chave, consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, a ideia westfaliana de soberania como conceito fundador das relações interestatais precisava ser atualizada. Ela era insuficiente para evitar guerras e interferências estrangeiras. Era necessário melhorar as condições materiais da humanidade.</p>
<p>A Conferência Tricontinental de 1966 absorveu o Espírito de Bandung e procurou radicalizá-lo. Um Estado pode reivindicar soberania sobre seu território, até mesmo expulsar capital estrangeiro, e ainda assim não conseguir defender a dignidade de seu povo, permitindo que o capital nacional continue a explorá-lo. O Espírito de Bandung, em outras palavras, limita-se à independência nacional e não aprofunda a ideia de emancipação para incluir a libertação das atrocidades básicas do capitalismo. O Espírito Tricontinental, por outro lado, luta para democratizar a ordem mundial e argumenta que essa batalha deve ser travada em conjunto com a luta pela democratização dos projetos de libertação nacional. Reconhece a importância da frente ampla para estabelecer o multilateralismo, mas vai além, reconhecendo a necessidade da luta de classes e do socialismo. Nossas lutas pelo socialismo — diretamente ligadas à Conferência Tricontinental e à sua época — emergem não como um ideal a ser estabelecido no mundo, mas do movimento real que busca abolir o atual estado das coisas (Marx; Engels, 1976). Essa percepção, e o espírito nela contido, permanece tão verdadeira hoje quanto na época em que foi escrita. Foi isso que ressoou em Cabral e Castro na década de 1960. Nosso movimento não nasceu de uma escolha. É uma necessidade.</p>
<p>Enquanto o Espírito de Bandung prevê o futuro feito da emancipação através da luta pela soberania nacional, o Espírito Tricontinental nos convoca a democratizar e radicalizar os projetos de emancipação humana que os movimentos populares já estão construindo hoje. Nossa busca exige que tais princípios não permaneçam meras ideias; eles devem se tornar vitais e reais no mundo. Emancipação — literalmente “tirar da mão” — significa libertar os seres humanos das garras da opressão.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_132879" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132879" class="size-full wp-image-132879 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Namibia-Alberto-Blanco-Gonza%CC%81lez-1981.jpg" alt="" width="527" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Namibia-Alberto-Blanco-González-1981.jpg 527w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Namibia-Alberto-Blanco-González-1981-203x300.jpg 203w" sizes="auto, (max-width: 527px) 100vw, 527px"><p id="caption-attachment-132879" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Alberto Blanco González (OSPAAAL), <em>Namibia: Power to the People</em>, 1981. Courtesy of The Radical Media Archive.</small></p></div>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Nota</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup></a>Existe uma vasta produção acadêmica sobre este tema. Para uma introdução: Kalter, 2016.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" align="justify" style="margin:2em 0;">Referências bibliográficas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p>ABU AMR, Ziad Mahmoud. <i>Khalil Al-Wazir</i>, Cairo: Dar al-Shorouk, 2013.</p>
<p>ASSEMBEIA GERAL DA ONU. “Declaration on the Granting of Independence to Colonial Countries and Peoples”, resolution 1514 (XV), 14 dez. 1960, Office of the United Nations High Commissioner for Human Rights. Disponível em: <a href="https://www.ohchr.org/en/instruments-mechanisms/instruments/declaration-granting-independence-colonial-countries-and-peoples">https://www.ohchr.org/en/instruments-mechanisms/instruments/declaration-granting-independence-colonial-countries-and-peoples</a>.</p>
<p>BARKA, Bachir Ben (ed.) <i>Écrits politiques</i> <i>(1948-1965)</i>. Paris: Syllepse, 2021.</p>
<p>BREHONY Louis &amp; HAMDI, Tahrir (eds.). “Excerpts from PFLP Strategy for the Liberation of Palestine (1969)”. In: <i>Ghassan Kanafani: Political Writings</i>. London: Pluto Books, 2024.</p>
<p>BRICS BRASIL.  “Lula abre Cúpula do Brics com apelo por investimentos para a paz e segurança”, Brics Brasil, 2025. Disponível em:  <a href="https://brics.br/pt-br/noticias/lula-abre-cupula-do-brics-com-apelo-por-investimentos-para-a-paz-e-seguranca">https://brics.br/pt-br/noticias/lula-abre-cupula-do-brics-com-apelo-por-investimentos-para-a-paz-e-seguranca.</a></p>
<p>DE LOS SANTOS, Manolo (ed.). <i>Tricontinental, Havana 1966: </i>Documents of the First Solidarity Conference of the Peoples of Africa, Asia and Latin America. New York: 1804 Books, 2026. (No prelo).</p>
<p>FANON, Frantz. <i>The Wretched of the Earth</i>. Harmondsworth: Penguin Books, 1967.</p>
<p>DEPARTAMENTO DE ESTADO DOS EUA. “NSC Report for 1977: A Critical Self-Appraisal. Memorandum From the President’s Assistant for National Security Affairs (Brzezinski) to President Carter, Washington, 12 January 1978”. In: <i>Foreign Relations of the United States, 1977–1980</i>, v. 1. Washington: United States Government Printing Office, 2014. Disponível em: <a href="https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1977-80v01">https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1977-80v01</a>.</p>
<p>GUEVARA, Ernesto “Che”. <i>On Socialism and Internationalism</i>. New Delhi: LeftWord Books, 2020.</p>
<p>HIRSCHMAN, Charles; preston, Samuel; loi, Vu Manh. “Vietnamese Casualties During the American War: A New Estimate”. <i>Population and Development Review</i>, v. 21, n. 4, dez. 1995.</p>
<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. Hiperimperialismo: um novo estágio decadente perigoso, dilemas contemporâneos, n. 4, 23 jan. 2023a. Disponível em:  <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo/">https://thetricontinental.org/studies-on-contemporary-dilemmas-4-hyper-imperialism/</a>.</p>
<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. <i>Soberania, Dignidade e Regionalismo na Nova Ordem Internacional</i>. Dossiê n. 62, 14 mar. 2023b. Disponível em:  <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-regionalismo-nova-ordem-internacional/">https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-regionalismo-nova-ordem-internacional/</a>.</p>
<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-15-a-arte-da-revolucao-sera-internacionalista/"><i>A Arte da revolução será internacionalista</i></a>. Dossiê n. 15, 8 abr. 2019. Disponível em:  <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-15-a-arte-da-revolucao-sera-internacionalista/">https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-15-a-arte-da-revolucao-sera-internacionalista/</a>.</p>
<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. <i>O espírito de Bandung</i>, dossiê n. 87, 8 abr. 2025. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-bandung-conferencia/">https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-bandung-conferencia/</a>.</p>
<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. The PAIGC’s Political Education for Liberation in Guinea-Bissau, 1963–74, 1 jul. 2022. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/estudos-1-libertacao-nacional-paigc-educacao/">https://thetricontinental.org/studies-1-national-liberation-paigc-education/</a>.</p>
<p>KALTER, Christoph. <i>The Discovery of the Third World: Decolonization and the Rise of the New Left in France</i>, c.1950–1976, Cambridge: Cambridge University Press, 2016.</p>
<p>MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. <i>The German Ideology</i>. Progress Publishers, 1976.</p>
<p>NKRUMAH, Kwame. <i>Neo-Colonialism: The Last Stage of Imperialism</i>. Panaf, 2009.</p>
<p>PRASHAD, Vijay. “Foreword”. In: Tricontinental, Havana 1966: Documents of the First Solidarity Conference of the Peoples of Africa, Asia and Latin America.</p>
<p>PRENSA LATINA, <i>G</i><i>ranma</i>, 3 out. 1965.</p>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Apesar de tudo &#124; Resistência cultural por uma Palestina livre</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-resistencia-cultural-palestina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Nov 2025 08:00:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
		<category><![CDATA[culture]]></category>
		<category><![CDATA[international solidarity]]></category>
		<category><![CDATA[solidariedade internacional]]></category>
		<category><![CDATA[genocide]]></category>
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		<category><![CDATA[Mahmoud Darwish]]></category>
		<category><![CDATA[resistência cultural]]></category>
		<category><![CDATA[Ghassan Kanafani]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[Artists Against Apartheid]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
		<category><![CDATA[cultural resistance]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=130812</guid>

					<description><![CDATA[Sessenta anos após a Conferência Tricontinental, seu espírito ainda nos chama a radicalizar e democratizar nossas lutas por dignidade humana e emancipação coletiva.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="single-post--content--text-small">As obras de arte apresentadas neste dossiê foram criadas por trabalhadores da cultura de todo o mundo como parte de uma colaboração entre a organização Artists Against Apartheid e a Utopix.</p>
<hr class="single-post--content--separator-narrow">
<blockquote><p>Se eu tiver que morrer<br>
você precisa viver<br>
para contar minha história<br>
para vender minhas coisas<br>
e comprar um pedaço de tecido<br>
e alguns barbantes,<br>
(que seja branco e com uma cauda longa)<br>
para que uma criança, em algum lugar de Gaza<br>
enquanto olha o céu nos olhos<br>
à espera de seu pai que partiu em uma chama –<br>
e não se despediu de ninguém<br>
nem mesmo de sua carne<br>
nem mesmo de si mesmo.<br>
veja a pipa, a minha pipa feita por você, voando lá em cima<br>
e pense por um momento que é um anjo que está lá<br>
trazendo o amor de volta<br>
Se eu tiver que morrer<br>
que isso traga esperança<br>
que seja um conto.</p>
<p>– Refaat Alareer, ‘If I Must Die’ (2023)</p></blockquote>
<p>Em 14 de outubro de 2023, dias depois que Israel desencadeou seu genocídio em Gaza, o escritor e educador palestino Refaat Alareer publicou seu poema <i>If I Must Die</i> (Se eu tiver que morrer) nas redes sociais. Pouco mais de um mês depois, Alareer foi morto em um ataque aéreo israelense à casa de sua irmã em Shuja’iyya, no leste da Cidade de Gaza, juntamente com seu irmão, sua irmã e os quatro filhos dela. Embora amigos e colegas tenham pedido a ele que saísse de Gaza, Alareer decidiu ficar. Esse foi seu ato final de <i>sumud </i>[صُمُود], o conceito palestino de resistência e determinação de permanecer na terra.</p>
<p>“Sou o homem que sou por causa das histórias que minha mãe e minha avó me contaram”, disse Alareer em uma palestra em 2015. “As histórias também são importantes em nossas vidas como palestinos, como pessoas sob ocupação, como povos nativos desta terra, não apenas porque (…) elas nos moldam e nos tornam as pessoas que somos, mas também porque nos conectam com nosso passado, nos conectam com nosso presente e nos preparam o futuro” (Alareer, 2015). Além de seus próprios escritos, Alareer editou e publicou vários volumes de outros escritores palestinos. Em 2015, ele fundou o We Are Not Numbers, um projeto que uniu jovens escritores de Gaza a mentores no exterior para que eles pudessem contar suas histórias e combater o apagamento da história, da identidade e da resistência palestina – um exemplo notável de resistência cultural e desafio diante de uma ocupação contínua.</p>
<p>Desde a operação Al Aqsa Flood (quando Hamas atacou Israel em 7 de outubro de 2023), o genocídio em Gaza tem sido transmitido ao vivo para o mundo. Dados de outubro de 2025 mostram que mais de 67 mil palestinos foram mortos, mais de 730 mil foram deslocados e uma quantidade não determinada foi mutilada, ferida e atingida pela fome – tudo com o total apoio dos Estados Unidos (UNRWA, 2025). Somente os três primeiros meses de bombardeio resultaram em um declínio de 11,5 anos na expectativa de vida palestina, de 76,7 anos em 2022 para apenas 65,2 anos em 2023 (Prashad, 2025). Em abril de 2025, a ONU estimou que 92% de todos os edifícios residenciais foram danificados ou destruídos, deixando para trás 50 milhões de toneladas de escombros que levarão décadas para serem removidos (UN Web TV, 2025). A escala impensável de morte, destruição e fome deliberada levou os palestinos a chamar isso de “segunda Nakba” – a “Nakba de Gaza”. A primeira Nakba (Catástrofe), em 1948, foi um ato de limpeza étnica que tomou 78% das terras palestinas, destruiu mais de quinhentas cidades e vilarejos, deslocou mais da metade da população – cerca de 800 mil palestinos – e levou à criação do Estado de Israel (Prashad, 2023). Desde a Nakba de 1948 até o genocídio crescente de hoje, o estabelecimento e a existência contínua do Estado de Israel dependeram da convergência do projeto sionista e do imperialismo ocidental.</p>
<p>No entanto, o patrocínio imperialista não garante, por si só, o consentimento e a impunidade – eles devem ser obtidos por outros meios. Dessa forma, como o sionismo e um projeto colonial de povoamento constrói a legitimidade para realizar um programa de tamanha violência e barbárie? Há quase seis décadas, Ghassan Kanafani, romancista e membro da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), procurou responder a essa mesma pergunta. Em seu livro <i>On Zionist Literature </i>(1967), ele examinou o que definiu como “tudo o que foi escrito para servir ao movimento de colonização judaica da Palestina, seja de forma direta ou não” (Kanafani, 1967, p. 1). Segundo Kanafani, para “conhecer seu inimigo” é preciso examinar sua produção cultural. No livro, ele explora como a ficção sionista falsificou a história para os leitores ocidentais; por que as instituições culturais – incluindo o Comitê do Nobel – premiaram autores reacionários como Shmuel Yosef Agnon em 1966; como os comentários ocidentais passaram a ecoar as narrativas sionistas; e se a cobertura ocidental da guerra de 1967 foi o resultado previsível de uma longa campanha de desinformação cultural (idem, p. 4).</p>
<p>Para Kanafani, o sionismo político – um movimento para criar um Estado colonial judeu na Palestina histórica – exigia uma frente cultural para propagar sua ideologia por meio da produção literária e artística. Não é coincidência que o arquiteto do sionismo, Theodor Herzl, tenha sido primeiramente um romancista: seu livro <i>The Old New Land </i>(1902), diz Kanafani, marcou o início do “caráter literário sionista [marchando] em sintonia com o programa político sionista” (idem, p. 53). Na verdade, uma tarefa central do aparato cultural sionista era desumanizar o povo palestino para justificar seu deslocamento (idem, p. 83). Kanafani documentou como o romance sionista, em particular, foi fundamental para esse trabalho, retratando os árabes como atrasados, bárbaros e desconectados da terra (idem, p. 69). Ele escreveu sobre como a literatura sionista inventou e consolidou narrativas que reverberam até hoje, entre elas a alegação de que o “atraso mental e civilizacional dos árabes é uma doença incurável”, a noção de que “os árabes não merecem um país”, a ideia de que a vida das crianças árabes é “inútil em comparação com a moral das crianças judias” e a “associação ridícula” que transferiu política e emocionalmente os crimes nazistas para os árabes na Palestina (idem, passim). A ideologia e a produção cultural sionista, portanto, colocam este projeto em um “papel civilizatório” contra a suposta “barbárie” dos árabes e palestinos (idem, p. 69 e 91).</p>
<p>Nas décadas seguintes, essas mesmas narrativas desumanizadoras foram recicladas e utilizadas pelo Estado israelense e expelidas pela grande mídia ocidental. Nos meses seguintes ao dia 7 de outubro, a Law for Palestine compilou um banco de dados com mais de 500 casos de incitação israelense ao genocídio (Law for Palestine, 2014; Al-Haq Investigates, 2025). Em 9 de outubro de 2023, o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, deu um depoimento que se tornaria uma declaração definitiva sobre o genocídio: “estamos lutando contra animais humanos e estamos agindo de acordo”. Quatro dias depois, o presidente israelense Isaac Herzog disse: “é uma nação inteira que é responsável”. Galit Distel Atbaryan, membro do Knesset (parlamento israelense), pediu o “apagamento” de “Gaza da face da Terra” e a morte dos “monstros” daquele território. O ministro da Agricultura e do Desenvolvimento Rural de Israel, Avi Dichter, defendeu sem ironia a limpeza étnica ao dizer que “estamos fazendo uma Nakba em Gaza em 2023”. David Azoulay, o prefeito de Metula, evocou explicitamente a recriação do Holocausto ao declarar que “toda a Faixa de Gaza precisa ser esvaziada. Levada a baixo. Assim como em Auschwitz”. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, chamou repetidamente os palestinos de “monstros”. Essa lista interminável de incitações à limpeza étnica é muito anterior ao 7 de outubro; a desumanização dos palestinos é uma narrativa histórico-cultural que, por mais de um século, tem sido usada para justificar seu extermínio com total impunidade moral, política e militar (Law for Palestine, 2014).</p>
<p>O projeto sionista também foi construído com base no apagamento cultural sistemático. Durante a primeira Nakba, a pilhagem e o saque de pinturas, fotografias, filmes, gravações musicais, instrumentos e outros artefatos culturais foram amplamente documentados (Raz, 2024). Estima-se que 70 mil livros tenham sido roubados, muitos dos quais agora estão em arquivos israelenses, incluindo a Biblioteca Nacional de Israel (Hatuqa, 2013). Esse roubo e essa destruição continuaram nas últimas oito décadas. Desde o dia 7 de outubro, Israel também tem como alvo os centros e trabalhadores culturais – um componente essencial do projeto de genocídio cultural. Entre os mortos estão <a href="https://lithub.com/these-are-the-poets-and-writers-who-have-been-killed-in-gaza/">muitos</a> dos pintores, poetas, escritores e escultores palestinos, o que torna a questão da cultura ainda mais urgente para as aspirações inacabadas da libertação palestina (Sheehan, 2023).</p>
<p>Com isso em mente, como resistir ao programa cultural sionista-colonial com uma frente cultural? Qual é o papel dos artistas em tempos de genocídio? A produção cultural pode humanizar um povo, resgatar sua história e promover sua luta? Para explorar essas questões e iluminar a rica cultura de libertação da Palestina e suas raízes históricas, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social entrevistou artistas contemporâneos e trabalhadores culturais na Palestina e na diáspora. Este dossiê não é uma pesquisa abrangente sobre a arte palestina. Em vez disso, abrimos uma conversa sobre o lugar da resistência cultural na libertação palestina. Examinamos como a arte e a cultura têm sido usadas para resistir ao sionismo cultural e à desumanização, resgatando o passado da Palestina, testemunhando seu presente e imaginando seu futuro – um futuro em que seu povo seja livre e possa voltar a seus lares. Como afirmou Ibraheem Mohana, um artista de 18 anos de idade de Gaza que se tornou adulto em meio ao genocídio, “eles começaram a guerra para matar nossas esperanças, mas não deixaremos que isso aconteça” (Chak, 2024).</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_130710" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-130710" class="size-full wp-image-130710 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/2_Nasr.jpg" alt="" width="505" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/2_Nasr.jpg 505w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/2_Nasr-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px"><p id="caption-attachment-130710" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Aude Abou Nasr (Líbano), <em>Gaza</em>, 2023. Cortesia de Artistas Contra o Apartheid.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Cultura de resistência e libertação nacional</h2>
<p>Em todas as lutas anticoloniais e de libertação nacional, a cultura tem sido considerada uma arma integral na batalha de ideias e emoções. Os revolucionários, de Amílcar Cabral a Mao Tsé Tung, emergiram dessas lutas não apenas como estrategistas militares e líderes partidários, mas também como poetas e teóricos culturais. Parte da tradição marxista de libertação nacional, Mao e Cabral – de forma independente, mas convergente – desenvolveram teorias sofisticadas da cultura como uma frente primária e indispensável na luta pela libertação nacional (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2025). Para eles, a cultura era o próprio terreno em que a libertação deveria ser conquistada ou perdida.</p>
<p>Para Cabral, que liderou o Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC), “a libertação nacional é necessariamente um ato de cultura” (Cabral, 1970, p. 6). Sua lógica era clara: como a dominação imperialista não é meramente política e econômica, ela “tem a necessidade vital de praticar a opressão cultural” e busca interromper o desenvolvimento histórico e cultural dos colonizados. Portanto, a resistência à dominação imperialista deve ser um ato cultural, coletivo e não individual. O movimento de libertação, argumentou ele, é nada menos que a “expressão política organizada da cultura das pessoas que estão empreendendo a luta” (ibidem).</p>
<p>Tanto para Cabral quanto para Mao, a resistência cultural não era menos importante do que a resistência armada. No Fórum Yan’an de Arte e Literatura de 1942 (uma conferência de três semanas que reuniu os principais escritores, artistas, intelectuais, soldados e quadros do partido da China), Mao declarou: “em nossa luta pela libertação do povo chinês, há várias frentes, entre elas as frentes da caneta e da arma, as frentes culturais e as frentes militares” (Tse Tung, 1967). Em uma série de palestras ministradas aos membros do PAIGC em 1969 sobre a “análise de diferentes tipos de resistência”, Cabral também destacou a “resistência cultural” como uma das quatro principais frentes de luta, ao lado da resistência política, econômica e armada. Tanto para Cabral quanto para Mao, a cultura era um campo de batalha primário e decisivo, e o exército cultural era tão vital quanto o exército do povo.</p>
<p>Da mesma forma, a teoria e a prática da cultura para a libertação nacional foram parte integrante da luta palestina, especialmente para Kanafani. Em <i>Literatura de Resistência na Palestina Ocupada 1948-1968, </i>uma análise fundamental das obras literárias produzidas pelos árabes palestinos sob ocupação israelense nas duas décadas após a primeira Nakba, Kanafani (2013, p. 9-10) escreve: “A resistência cultural é essencial e não é menos importante do que a própria resistência armada”; ela forma o “terreno fértil” para qualquer luta armada bem-sucedida. No mesmo ano, em <i>Resistance Literature in Occupied Palestine</i> (Literatura de resistência na Palestina ocupada), publicado em <i>Afro-Asian Writings</i>, ele delineou as características da literatura de resistência palestina, que também chamou de “literatura de combate” e literatura da Palestina ocupada. Ele observou que foram necessários cerca de cinco anos após a primeira Nakba para que os palestinos percebessem que “haviam perdido não apenas suas famílias e amigos, mas também seu país” (idem, p. 69). Para recuperar o país perdido, foi necessário travar uma luta nas frentes armada e cultural. Essa bandeira tem sido carregada por gerações de artistas palestinos, tanto em sua terra natal quanto em todo o mundo.</p>
<p>Em <i>Liberation Art of Palestine</i> (2001), a renomada artista e estudiosa palestina-americana Samia A. Halaby documenta meticulosamente o desenvolvimento de uma identidade artística genuinamente palestina no contexto de ocupação, deslocamento e resistência. Ela argumenta que essa “arte da libertação” está intrinsecamente ligada à luta palestina pela autodeterminação, com uma iconografia única que inclui símbolos de sumud, como o cacto e o cavalo, bem como temas de martírio e o direito de retorno. Para ela, toda “boa arte” é “arte política”, e a arte da libertação é “uma arte prática [que] precisa ser clara e útil como pôster, folheto ou faixa” (Halaby, 2001, p. 45). Ela discute o vínculo inexorável entre arte e libertação:</p>
<blockquote><p>A arte da Palestina se baseia na luta palestina pela libertação. Sem essa base, os artistas palestinos seriam uma coleção atomizada de imitadores de estilos internacionais da moda, e muitos são. Os artistas da libertação da Palestina estão cientes de que têm a sorte de ter uma causa e, ao cumprir seu dever de servi-la, sua arte ganha significado histórico como uma escola com características particulares (ibidem).</p></blockquote>
<p>A história da resistência palestina e da cultura de libertação foi marcada por rupturas políticas. Essas rupturas – as seis “declarações de guerra” ao povo palestino, como o historiador Rashid Khalidi as chama em <i>Palestina: um século de guerra e resistência (1917-2017)</i> (2020) – são:</p>
<ol>
<li aria-level="1">Declaração Balfour de 1917, na qual os britânicos prometeram apoiar o estabelecimento de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina, abrindo caminho para o Mandato Britânico e a colonização sionista;</li>
<li aria-level="1">Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU, de 1947, que levou à primeira Nakba;</li>
<li aria-level="1">Guerra dos Seis Dias de 1967, conhecida na Palestina como Naksa (retrocesso), quando Israel ocupou a Península do Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e as Colinas de Golã;</li>
<li aria-level="1">Invasão do Líbano por Israel em 1982, que expulsou a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) de Beirute;</li>
<li aria-level="1">Primeira Intifada (1987-1993), a revolta palestina em massa contra a ocupação israelense; e</li>
<li aria-level="1">Segunda Intifada, que começou em 2000 e preparou o terreno para o genocídio em curso em Gaza.</li>
</ol>
<p>A cada ruptura, os artistas e trabalhadores culturais palestinos respondiam com sua arte e produção. Para Halaby, essa história da arte da libertação “cresceu com o levante e declinou com sua recessão”. Abaixo, esclarecemos algumas expressões da resistência cultural palestina nessas seis rupturas (idem, p. 32).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_130720" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-130720" class="size-full wp-image-130720 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/3_Olfer.jpg" alt="" width="505" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/3_Olfer.jpg 505w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/3_Olfer-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px"><p id="caption-attachment-130720" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Olfer Leonardo (Peru), <em>Sabra e Shatila</em> (Sabra e Shatila), 2021. Cortesia de Utopix.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Lembrar</h2>
<blockquote><p>Minhas raízes foram plantadas antes do nascimento do tempo<br>
Antes do início da história<br>
Diante dos ciprestes e das oliveiras<br>
Antes que a grama brotasse</p>
<p>Mahmoud Darwish, trecho de “Carteira de identidade” (1964/2011)</p></blockquote>
<p>O proeminente ator e cineasta Mohammad Bakri, que atuou em quase cinquenta filmes e dirigiu quatro documentários em seus quarenta anos de carreira, lembra-se de ter conhecido e se apaixonado pelo cinema quando criança em sua cidade natal, al-Bi’neh. Ele recorda que em seu vilarejo podiam estar “sem eletricidade, mas havia cinema”. Bakri faz parte da minoria palestina em Israel, um dos dois milhões de descendentes dos 159 mil palestinos que não foram expulsos na Nakba de 1948. Ele traça as “cinco estações” de sua própria politização e trabalho criativo – semelhante à periodização de Khalidi – voltando à primeira Nakba e descrevendo como esse evento fundamental e as histórias subsequentes que ouviu de seu pai e avô moldaram sua consciência política. Como ele disse, “contar a história do meu povo, na ficção e no documentário (…) é minha maneira de lutar. Para proteger minha cultura, minha identidade e minha humanidade. Nada mais”.</p>
<p>Em <i>The Origins of Palestinian Art</i> (2013), Bashir Makhoul e Gordon Hon descrevem a primeira Nakba não como um momento histórico singular, mas como um evento contínuo de deslocamento, morte e perda – um “tempo presente perpétuo no qual os eventos históricos ainda estão ocorrendo” (Makhoul &amp; Hon, 2013, p. 10-11). Para Bakri e muitos trabalhadores culturais palestinos, localizar a “origem” da resistência cultural palestina na primeira Nakba não é apenas um ato pessoal, mas também um ato altamente político – uma forma de refutar as reivindicações sionistas à “terra prometida”, bem como as políticas de apagamento cultural e histórico.</p>
<p>Em <i>A limpeza étnica na Palestina</i> (2006), o historiador israelense Ilan Pappé usa o termo “memoricídio” para descrever o apagamento sistemático da primeira Nakba da paisagem histórica e física de Israel. Assim, a cultura é usada como arma para solidificar o ato físico de limpeza étnica, negando os crimes cometidos e substituindo a história das vítimas pela dos dominadores. Órgãos patrocinados pelo Estado, especialmente o Fundo Nacional Judaico, têm sido fundamentais na implementação desse programa – desde a renomeação de cidades, vilarejos, ruas e pontos de referência com nomes hebraicos e imposição de mapas da “antiga Israel” até o plantio de florestas que escondem as ruínas de vilarejos palestinos destruídos (Pappé, 2006, p. 226-229). Esses esforços visam a justificar o mito sionista fundamental de “uma terra sem povo e um povo sem terra”.</p>
<p>Contra o pano de fundo do memoricídio, a preservação da arte e da história cultural palestina é uma forma de resistência. Para um povo que foi geograficamente fragmentado e disperso (<i>shatat</i> em árabe), as origens são fundamentais para criar o que o teórico pós-colonial palestino Edward Said chama de “coesão”. De acordo com Said, essa coesão cultural é possível porque os palestinos “foram unidos como um povo em grande parte por causa da <i>ideia</i> palestina (que articulamos a partir de nossa própria experiência de desapropriação e opressão excludente)” (Said, 1992, p. 42).</p>
<p>Em <i>Resistance Literature</i>, Kanafani destaca a política israelense de “ignorância deliberada”, que separou gerações de palestinos de sua herança árabe e identidade nacional (1968/2013, p. 19). Esse programa de alienação cultural foi realizado pela degradação da qualidade da educação que os palestinos poderiam receber – desde a restrição dos recursos disponíveis para os estudantes árabes até a nomeação de professores árabes não qualificados ou “colaboradores” – e da promoção de uma “cultura híbrida e trivial”. Isso deixou os árabes palestinos com duas opções: emigrar ou se deixar assimilar (idem, p. 22-25).</p>
<p>Nascido no Estado de Israel alguns anos após a Nakba e formado em teatro e literatura árabe na Universidade de Tel Aviv, Bakri teve que navegar pelos setores culturais palestino, israelense e internacional para fazer seus filmes e enfrentou severa perseguição política e legal. Desde o lançamento de <i>Jenin, Jenin </i>(2002), um documentário sobre o ataque israelense em larga escala ao campo de refugiados dessa cidade durante a Segunda Intifada, ele tem sido assombrado por batalhas legais. Como ele explicou, “o filme foi proibido em Israel. Pago mil dólares por mês a um soldado israelense que afirmou aparecer em meu filme – por três segundos e meio. E continuarei pagando nos próximos anos… É como na Idade Média, como quando queimavam livros”. Apesar da perseguição que enfrenta, Bakri continua fazendo filmes, desafiando o binário imposto de emigração ou assimilação e insistindo em documentar e testemunhar a resistência contínua do povo palestino e suas aspirações de libertação.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_130730" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-130730" class="size-full wp-image-130730 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/4_Kalaka.jpg" alt="" width="505" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/4_Kalaka.jpg 505w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/4_Kalaka-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px"><p id="caption-attachment-130730" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Pablo Kalaka (Chile e Venezuela), <em>Sob a Oliveira</em>, 2023. Cortesia de Utopix e Artistas Contra o Apartheid.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Testemunha</h2>
<blockquote><p>Nossos poemas não têm cor, não têm sabor, não têm voz<br>
Se eles não levarem a lâmpada de casa em casa</p>
<p>— Mahmud Darwish, sobre a função da poesia (Kanafani, 1968, p. 74)</p></blockquote>
<p>“A segunda temporada [de minha politização] foi em 1967”, lembra Bakri, durante “a Guerra dos Seis Dias entre Israel e o mundo árabe, quando Israel ocupou Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental”. Quando tinha 14 anos, ele se lembra de ver seu pai chorar; mais tarde, entendeu que suas lágrimas eram pela “nova catástrofe do mundo árabe e do povo palestino – [pela] primeira geração de refugiados [que] foi criada em 1948 [e] a segunda [que foi] criada em 1967”.</p>
<p>O conhecido cartunista político Naji al-Ali fazia parte dessa primeira geração, expulso de seu vilarejo de al-Shajara durante a primeira Nakba. Em 1961, Kanafani publicou pela primeira vez o trabalho de al-Ali na revista do movimento nacionalista árabe <i>Al-Hurriya </i>(Liberdade), que ele editava. Alguns anos depois, enquanto trabalhava para um jornal do Kuwait, al-Ali começou a desenhar Handala, um personagem que definiria sua carreira (Totry &amp; Medzini, 2013, p. 25). Eternamente um garoto de dez anos – a idade em que al-Ali foi forçado ao exílio -, descalço e com roupas esfarrapadas, Handala é sempre desenhado de costas para o público. Com os braços cruzados atrás das costas, ele testemunha as atrocidades cometidas contra o povo palestino, mas também sua resistência inabalável, a promessa de retorno e uma Palestina livre. Com o nome de uma planta do deserto com raízes profundas e resistentes, a Handala incorpora o sumud. As mais de 40 mil caricaturas que al-Ali desenhou durante sua vida são um testemunho dessa resistência.</p>
<p>Os eventos de 1967 e o fracasso do nacionalismo burguês pan-árabe em enfrentar o expansionismo sionista inspiraram uma onda de resistência cultural em massa e um renascimento da cultura palestina. Como observa Rashid Khalidi, “escritores e poetas de toda a diáspora palestina e que vivem na Palestina – Ghassan Kanafani, Mahmud Darwish, Emile Habibi, Fadwa Touqan e Tawfiq Zayyad, juntamente com outros artistas e intelectuais talentosos e engajados – desempenharam um papel vital nesse renascimento cultural e político” (Khalidi, 2020, p. 107). A ocupação transformou a cultura em uma frente importante na luta, dando início a uma nova era de teatro militante.</p>
<p>“O teatro na Palestina é novo, em geral”, diz Amer Khalil, cofundador e diretor do El-Hakawati (mais tarde conhecido como Teatro Nacional Palestino) em Jerusalém. Em uma entrevista para o Tricontinental, ele explicou que “nas décadas de 1920, 30 e 40, as pessoas costumavam fazer teatro relacionado ao trabalho social. Mas depois da guerra de 1967, todo um movimento de intelectuais, artistas, educadores e estudantes universitários iniciou um movimento teatral para libertar a Palestina (…) e o movimento teatral realmente se tornou militante”. A partir do final da década de 1960, o teatro palestino também se profissionalizou e desenvolveu a capacidade de treinar diretores e atores, mesmo em meio à extrema repressão. Como um crítico de teatro escreveu em 1976, “nenhum grupo de teatro jamais se apresentou sem ter um ou dois de seus membros na cadeia” (Snir, 2005, p. 11).</p>
<p>No contexto da crescente censura e perturbação por parte das autoridades de ocupação, que estavam determinadas a eliminar tudo o que fosse considerado “nacional” (ou seja, palestino), o teatro assumiu um papel importante. Por meio do uso inteligente de simbolismo e alegoria para permitir múltiplas interpretações, os dramaturgos palestinos desenvolveram uma “linguagem especial [que] serviu como um código artístico entre o teatro e seu público (…) para transmitir mensagens de construção da nação” (idem, p. 7). “A cultura sempre foi alvo”, acrescentou Khalil na entrevista, “espaços de teatro atacados, artistas ameaçados. Por que a cultura é tão perigosa? Porque as palavras mudam as pessoas. As histórias fazem as pessoas pensarem. E quando as pessoas pensam, elas começam a fazer perguntas sobre como vivem, por que vivem dessa maneira, como a vida poderia ser. É por isso que a cultura é perigosa; ela move as pessoas”.</p>
<p>A trupe El-Hakawati, que significa “contador de histórias” em árabe, foi formada em 1977 para fazer exatamente isso: contar histórias, comover as pessoas e mudar a realidade. A trupe reuniu estudantes palestinos dos territórios ocupados em 1948 com artistas e intelectuais da Jerusalém Oriental ocupada, desafiando a fragmentação sionista do povo palestino. Durante seus primeiros seis anos, El-Hakawati levou o teatro ao povo, viajando para escolas, salas de cinema, praças de vilarejos e campos de refugiados antes de encontrar um lar permanente em um cinema abandonado em 1983, onde funciona até hoje. A trupe tem sido essencial para contar as histórias da vida e da resistência palestinas, tornando-se inclusive o primeiro grupo de teatro palestino a se apresentar internacionalmente (El-Hakawati Theatre, 2025).</p>
<p>A década de 1980 foi marcada por duas rupturas importantes: a invasão israelense do Líbano em 1982 e a Primeira Intifada (1987-1993). Essas rupturas, juntamente com a diminuição do apoio à luta armada como o principal caminho para a libertação, tiveram um impacto significativo na resistência cultural. Foi nesse ambiente que a ativista judia israelense Arna Mer-Khamis fundou o Stone Theatre no campo de refugiados de Jenin, em 1987, em referência ao lançamento de pedras por crianças durante a Primeira Intifada. Em 2002, no auge da Segunda Intifada, o Stone Theatre foi destruído durante uma enorme invasão israelense no campo. Dos escombros surgiu o Freedom Theatre (Teatro da Liberdade), fundado pelo filho de Arna, Juliano, que dá continuidade à metodologia do Stone Theatre de usar o teatro para processar traumas, afirmar a identidade e participar da resistência. Hoje, o teatro é dirigido por Mustafa Sheta, que participou do Stone Theatre quando criança. Em uma entrevista ao Tricontinental em julho de 2025, logo após ser libertado de quinze meses de detenção em uma prisão israelense, ele explicou que “a arte não está separada do movimento nacional; nosso trabalho é uma extensão desse movimento, enraizado na dignidade, na narração de histórias e na resistência”. Ele nos disse que o Freedom Theatre vê seu papel como o de formar atores que também são militantes comunitários: “nossos formandos não são apenas artistas, eles são agentes de mudança”.</p>
<p>Em 4 de abril de 2011, Juliano foi baleado cinco vezes por um pistoleiro ainda não identificado. A trupe respondeu com <i>While Waiting </i>(2011), uma remontagem de <i>Waiting for Godot </i>(1953), de Samuel Beckett, que refletia sobre o anseio por liberdade e por um Estado, e sobre nunca desistir (Mee, 2012, p. 174–175). Pouco antes de seu assassinato, Juliano pediu uma “intifada cultural”, que o Freedom Theatre abraçou: “acreditamos que a terceira intifada, a próxima intifada, deve ser cultural, com poesia, música, teatro, câmeras e revistas” (idem, p. 168).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_130740" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-130740" class="size-full wp-image-130740 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/5_Tings.jpg" alt="" width="505" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/5_Tings.jpg 505w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/5_Tings-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px"><p id="caption-attachment-130740" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Tings Chak (China), A Palestina Será Livre, 2024. Cortesia de Utopix e Artistas Contra o Apartheid.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Imagine</h2>
<blockquote><p>Nós, que não temos existência na “terra prometida”, nos tornamos o fantasma do assassinado que assombra o assassino tanto na vigília quanto no sono, e no reino intermediário, deixando-o perturbado e desanimado. O insone grita: Eles ainda não morreram? Não, porque o fantasma atinge a idade de ser desmamado, depois vem a idade adulta, a resistência e o retorno. Os aviões perseguem o fantasma no ar. Os tanques perseguem o fantasma em terra. Os submarinos perseguem o fantasma no mar. O fantasma cresce e ocupa a consciência do assassino.</p>
<p>– Mahmoud Darwish (apud Hamdi, 2023, p. 1)</p></blockquote>
<p>A natureza do trabalho cultural palestino mudou na década de 1990 com os Acordos de Oslo.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>1</sup></a> Como Amer Khalil explicou, com as chamadas soluções políticas apresentadas pelos acordos, o mundo do teatro – assim como outros campos culturais – começou a se afastar da militância que havia marcado o período anterior. Kaleem Hawa, poeta, acadêmico literário e organizador do Movimento da Juventude Palestina, explicou em uma entrevista ao Tricontinental que “após os Acordos de Oslo, muitas instituições sociais e culturais palestinas foram corrompidas pelo sionismo e esvaziadas pela capitulação da burguesia palestina, deixando de ser adequadas ao seu propósito”. Nesse contexto, Hawa enfatizou a necessidade de uma cultura revolucionária como o “vínculo mais importante” entre as gerações. “Os jovens palestinos se voltaram para a produção de vídeos e diários curtos nas redes sociais para narrar sua experiência social coletiva, que inclui alienação e resistência. E nossos idosos tiveram que lutar contra um esforço conjunto, de seus próprios governos árabes, de fazê-los esquecer tudo o que sabem e [aprenderam]”.</p>
<p>Para os artistas e trabalhadores culturais palestinos, o período que se seguiu aos Acordos de Oslo deu início a uma crise em relação ao próprio conceito de cultura de resistência. Com o aumento do reconhecimento global, vieram novos desafios: navegar pela institucionalização; a cooptação da produção cultural por doadores internacionais e a dependência deles; a separação da arte e da cultura palestinas das realidades concretas do povo; e a ilusão de um “processo de paz” no horizonte. A era pós-Oslo também gerou uma profunda desilusão com a liderança política tradicional, levando os artistas e grupos culturais palestinos contemporâneos a uma postura crítica e independente, o que, por sua vez, refletiu uma fragmentação mais ampla do projeto nacional.</p>
<p>Nesse contexto, a sátira e o humor tornam-se ferramentas de resistência. Como Samer Asakleh, compositor e tocador de oud da banda palestina Darbet Shams [Insolação], explicou ao Tricontinental, “às vezes, os tópicos políticos são muito sensíveis – como acordos de paz ou acordos de normalização regional. A sátira se torna uma forma de falar sobre eles sem censura ou repressão imediata e de abrir conversas que, de outra forma, seriam encerradas”. Referindo-se à sua música “Do You Condemn Hamas?” [Você condena o Hamas?], que ele escreveu após o dia 7 de outubro, Asakleh disse: “a letra é sarcástica – [a pergunta retórica] questiona se você tem emoções apenas se condenar o Hamas. O público riu, mas depois refletiu. Alguns vieram até mim mais tarde e disseram: ‘rimos de nós mesmos e começamos a pensar mais profundamente sobre a questão’”.</p>
<p>Como muitos grupos culturais de sua geração, a banda reflete uma conjuntura política muito diferente daquela enfrentada por grupos musicais de uma época anterior. O vocalista, Hanan Wakeem, acrescentou: “houve uma época em que os partidos políticos na Palestina tinham suas próprias bandas. Nas décadas de 60 e 70, grupos como o Fatah tinham alas culturais inteiras com cantores e dançarinos, muitas vezes ligados diretamente ao movimento. Isso quase não existe mais. Alguns artistas ainda são informalmente filiados a partidos, mas não é mais como antes; não há mais uma forte infraestrutura cultural construída por movimentos políticos”.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">O antídoto do internacionalismo</h2>
<p>Em um contexto de despolitização, mercantilização e fragmentação, os artistas dependem cada vez mais do apoio financeiro de organizações internacionais, correndo o risco de maior cooptação política. Um antídoto para essa tendência global é o renascimento do internacionalismo e da imaginação revolucionária; em nenhum lugar o apelo ao internacionalismo é mais claro do que nas respostas culturais ao genocídio em curso em Gaza.</p>
<p>A Artists Against Apartheid [Artistas contra o Apartheid], uma rede de mais de 15 mil artistas de todo o mundo, foi fundada em outubro de 2023 por artistas e trabalhadores culturais que perceberam a profunda necessidade de se mobilizar pela libertação da Palestina. Os membros Hannah Craig e Tahia Islam conta que “inspirados pelos artistas revolucionários que usaram suas práticas na luta contra o sistema do <i>apartheid </i>sul-africano, construímos essa rede sabendo que, como artistas, temos a responsabilidade única de usar nossa voz e nossas práticas artísticas para protestar contra o <i>apartheid </i>e ampliar a causa justa do povo palestino e sua resistência contra a ocupação e a opressão”.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><sup>2</sup></a></p>
<p>Da mesma forma, o Utopix, um coletivo internacionalista de <i>design </i>e comunicação com sede principalmente na América Latina e no Caribe, reuniu mais de oitenta artistas de vinte países para produzir mais de cem cartazes sobre a Palestina no ano passado, que estão disponíveis para <i>download </i>gratuito e exibidos em todo o mundo.<a href="#_ftn3" name="_ftnref3"><sup>3</sup></a> David Jacob Carmona (“Rasan Abu Apara”), <i>designer </i>gráfico chileno-palestino e membro do Utopix, vê a libertação palestina como “representante de uma luta mais ampla dos povos do mundo, desde os povos da África que estão sob o neocolonialismo ocidental, ou os Walmapu no Chile. A arte deve quebrar silêncios e educar com a verdade (…) É uma trincheira, uma arma para a luta. Em outras palavras, a arte deve falar e procurar transformar o mundo real”.</p>
<p>A arte e a cultura revolucionárias fazem mais do que quebrar o silêncio ou testemunhar as atrocidades do imperialismo e do colonialismo: elas têm a responsabilidade – e a capacidade – de imaginar um futuro que ainda não nasceu. As exposições têm desempenhado um papel importante na promoção desse imaginário internacionalista. Em 1978, a Seção de Artes Plásticas do Escritório Unificado de Informações da OLP organizou a <i>Exposição Internacional de Arte da Palestina </i>na Universidade Árabe de Beirute. Conforme documentado por Kristine Khouri e Rasha Salti em <i>Past Disquiet </i>(2018), o ambicioso projeto fazia parte dos esforços da OLP para “encomendar, financiar e promover a produção de cartazes, arte, cinema, teatro, dança, música e publicações; organizar, preservar e exibir folclore e tradições culturais; e galvanizar o apoio internacional à luta palestina no mundo das artes e da cultura” (Khouri &amp; Salti, 2018, p. 28). O objetivo também era forjar um senso de nação entre os palestinos e mobilizar a solidariedade internacional. Como escreveu Khouri e Salti, “se as casas fossem usurpadas, o registro de ter tido um lar permaneceria vivo em um poema e uma canção; se a terra fosse removida da vista pela distância, sua representação manteria sua visibilidade em inúmeras formas” (idem, p. 30).</p>
<p>Com esse espírito, foram solicitadas doações de obras de arte de todo o mundo para a exposição. A ideia era imaginar um museu em um futuro Estado palestino, onde as obras de solidariedade se tornariam os próprios blocos de construção da instituição. Apesar de os tanques israelenses terem entrado no sul do Líbano em uma operação que envolveu cerca de 25 mil soldados, a exposição foi inaugurada em 21 de março de 1978 com contribuições de Claude Lazar (França), Gontran Guanaes Netto (Brasil), Bruno Caruso e Paolo Ganna (Itália), entre outros (idem, p. 31). Em junho de 1982, quando Israel iniciou sua invasão em grande escala do Líbano para expulsar a OLP, os arquivos da organização, incluindo documentos e planos para o museu, foram destruídos (idem, p. 34).</p>
<p>O renomado artista chileno Roberto Matta, que contribuiu para a exposição da OLP, havia feito uma doação para um projeto semelhante no Chile alguns anos antes. Esse projeto, o Museo de la Solidaridad [Museu da Solidariedade], foi iniciado pelo presidente chileno Salvador Allende em 1972 – um ano antes do golpe orquestrado pelos EUA que derrubou seu governo – e convocou artistas internacionais a doarem obras em apoio à “vía chilena al socialismo” [via chilena ao socialismo]. Muitas das 674 obras foram forçadas a migrar a outros países, algumas delas mantidas em Cuba ao lado de artistas, intelectuais e militantes de esquerda. Em 1975, o projeto ressurgiu como o Museo Internacional de la Resistencia Salvador Allende [Museu Internacional da Resistência Salvador Allende], uma rede dispersa que operava na América Latina, Europa, Ásia e África, antes de retornar ao Chile em 1991 como o Museo de la Solidaridad Salvador Allende [Museu da Solidariedade Salvador Allende] (idem, p. 46).</p>
<p>Da Palestina ao Chile, esses museus são alguns dos muitos esforços internacionalistas que desempenharam um papel essencial na resistência cultural, defendendo as lutas socialistas e revolucionárias e imaginando uma nação futura para um povo ao qual foi negada a condição de Estado. A luta por uma Palestina livre não é uma luta apenas dos palestinos; ela faz parte de uma luta mundial contra o imperialismo e o colonialismo. Como Kanafani escreveu em <i>The Revolution of 1936-39 in Palestine</i>, “o imperialismo colocou seu corpo sobre o mundo, a cabeça no leste da Ásia, o coração no Oriente Médio, suas artérias chegando à África e à América Latina. Onde quer que você a atinja, você o danifica e presta um serviço à Revolução Mundial” (Kanafani, 1972/2023, p. xiv).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_130700" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-130700" class="size-full wp-image-130700 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/6_Ilga.jpg" alt="" width="505" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/6_Ilga.jpg 505w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/6_Ilga-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px"><p id="caption-attachment-130700" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Ilga (Palestina e Chile), <em>Palestina resiste</em> (Palestina Resiste), 2016. Cortesia de Utopix.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Cultura é vida</h2>
<p>Mohammad Bakri considera o genocídio em curso em Gaza como a quinta temporada de sua politização. Embora tenha sido transmitido em telefones celulares e telas de computador em todo o mundo, Bakri insiste que “isso não é cinema”. Para ele, “o cinema deve fazer você perguntar, pensar, entender e tirar uma conclusão”. Ele reflete sobre uma pergunta que um morador do campo de refugiados lhe fez em seu documentário <i>Jenin, Jenin</i>: “O que a sua câmera pode fazer quando o mundo inteiro não faz nada para me ajudar?” Pensando nos dias de hoje, ele diz: “o mesmo está acontecendo em Gaza. O que uma câmera pode fazer por pessoas famintas? Minha câmera não consegue trazer pão para eles”. A questão do que a arte pode fazer diante de tais atrocidades confronta todo artista e trabalhador cultural.</p>
<p>Wakeem, de Darbet Shams, relembra o impacto do genocídio sobre os artistas palestinos: “os primeiros meses foram marcados por um choque total. Muitos artistas não conseguiam cantar, se mover ou criar”. Isso não se deveu apenas ao aumento da repressão – muitos não sabiam mais o que a arte poderia ou deveria fazer. “Havia perguntas constantes sobre o papel da arte em uma época de genocídio”, continuou Shams. “É apropriado fazer música? Se a música não for sobre a guerra, ela deveria ser compartilhada?”. Em tais condições, quais são as responsabilidades de um artista, quais são os limites da arte e da cultura e como é a resistência cultural?</p>
<p>Em sua quinta temporada de politização, as palavras sóbrias de Bakri nos lembram que a cultura é uma arma poderosa e necessária para a libertação e uma expressão desafiadora da própria vida. Ela nos convoca a continuar levantando a bandeira da libertação palestina e a humanizar o povo palestino e sua luta com cada música, cada pintura, cada filme, cada dança, cada poema, cada romance e cada arma cultural à nossa disposição; apesar de tudo:</p>
<blockquote><p>Cultura é vida. Cultura é raiz e história. Cultura é humanidade. Se perdermos a cultura, perderemos nossa identidade. Perdemos nossa vida. Não há significado sem cultura. Não há sentido para a vida sem amor. Cultura é amor. Não permitirei que tirem meu amor de mim mesmo. Minha cultura. Este é o meu coração. Este é o meu povo. Estas são minhas lembranças. Esta é a minha infância, quando eu andava sem eletricidade e sem água. As músicas que ouvi. A comida que eu comia. O ar que eu cheirava. A montanha que eu escalei. O mar em que nadei. Essa é minha cultura, minha existência. Ninguém vai tirar isso de mim. Portanto, continuarei fazendo filmes. Apesar de tudo.</p></blockquote>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_130750" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-130750" class="size-full wp-image-130750 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/7_Shenby.jpg" alt="" width="624" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/7_Shenby.jpg 624w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/7_Shenby-240x300.jpg 240w" sizes="auto, (max-width: 624px) 100vw, 624px"><p id="caption-attachment-130750" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>shenby g (Estados Unidos), <em>O mundo apoia a Palestina!</em>, 2023. Cortesia de Utopix e Artistas Contra o Apartheid.</small></p></div>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup></a>Os Acordos de Oslo foram uma série de acordos assinados entre Israel e a OLP em meados da década de 1990 que estabeleceram a Autoridade Nacional Palestina e deram a ela autonomia limitada em partes da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, com Israel mantendo o controle efetivo sobre as fronteiras, o espaço aéreo, o comércio externo, a mobilidade e a segurança, e o controle total sobre mais de 60% da Cisjordânia. Juntamente com o Protocolo de Paris, essa estrutura integrou a economia palestina ao regime alfandegário e fiscal de Israel.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2"><sup>2</sup></a>Para ver a coleção de cartazes produzida pela Artists Against Apartheid, visite: <a href="https://againstapartheid.art/downloads">https://againstapartheid.art/downloads.</a></p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3"><sup>3</sup></a>Para fazer o download dos cartazes, visite: <a href="https://utopix.cc/bitacora/eyes-on-palestine/">https://utopix.cc/bitacora/eyes-on-palestine/.</a></p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências bibliográficas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p>Alareer, Refaat. “If I Must Die”. Instagram, 14 out. 2023. Disponível em: <a href="https://www.instagram.com/p/CyWiTgerMXT/">https://www.instagram.com/p/CyWiTgerMXT/</a>.</p>
<p>Alareer, Refaat. “Stories Make Us”. TEDxShujaiya. 15 nov. 2015. Video, 5.54 min. Disponível em: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=YsbEjldJjOw">https://www.youtube.com/watch?v=YsbEjldJjOw</a>.</p>
<p>Al-Haq Investigates. “A Registry of Israeli Genocidal Statements on Gaza”. Al-Haq Investigates. Acesso: 12 set. 2025. Disponível em: <a href="https://www.alhaq.org/FAI-Unit/26257.html">https://www.alhaq.org/FAI-Unit/26257.html</a>.</p>
<p>Asakleh, Samer. Entrevista concedida a Tings Chak, Zoom, 29 jul. 2025.</p>
<p>Bakri, Mohammad. Entrevista concedida a Tings Chak, Zoom, 31 jul. 2025.</p>
<p>Cabral, Amílcar. “National Liberation and Culture”. Eduardo Mondlane Memorial Lecture, 20 fev. 1970, Syracuse University, United States.</p>
<p>Cabral, Amílcar. “Analysis of Different Types of Resistance”. In <i>Unity and Struggle: Speeches and Writings</i>, edited by Basil Davidson. New York: Monthly Review Press, 1979 [1969].</p>
<p>Carmona, David Jacob. Entrevista concedida a Tings Chak, email, 2 ago. 2025.</p>
<p>Chak, Tings. “They Started the War to Kill Our Hopes, but We Won’t Let That Happen”. Tricontinental: Institute for Social Research, 1 dez. 2024. <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/boletim-de-arte-ibraheem-mohana/">https://thetricontinental.org/triconart-bulletin-ibraheem-mohana/</a>.</p>
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<p>Darwish, Mahmoud. <i>Mahmoud Darwish: Select Poems</i>, edited by Daoud Ya’qoub. Beirut: Al-Manhal, 2011.</p>
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</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A crise ambiental como parte da crise do capital</title>
		<link>https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-crise-ambiental/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Oct 2025 08:00:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
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					<description><![CDATA[Contra uma ofensiva genocida sionista que já dura décadas, o povo palestino utiliza a arte e a cultura para resistir ao apagamento, testemunhar e imaginar um futuro de liberdade.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="single-post--content--text-small">As fotografias que acompanham este dossiê foram registradas por Sebastião Salgado, um dos maiores fotógrafos do Brasil e do mundo, que faleceu em maio de 2025, deixando um legado artístico inseparável de seu compromisso com a humanidade e a preservação do meio ambiente. Salgado percorreu o mundo retratando povos, territórios e trabalhadores com dignidade, revelando tanto a beleza da vida quanto testemunhando uma época marcada pela brutalidade do capitalismo sobre a humanidade e a natureza. Suas fotografias, assim como este dossiê, alertam que não basta permanecermos espectadores diante da destruição: é preciso sermos agentes de mudança.</p>
<p class="single-post--content--text-small">Nosso agradecimento à equipe que zela por seu legado e que, com espírito de solidariedade, autorizou que suas imagens acompanhem e fortaleçam este material.</p>
<hr class="single-post--content--separator-narrow">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129255" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129255" class="wp-image-129255 size-full img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_2_Sebastia%CC%83o-Salgado.jpg" alt="" width="950" height="695" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_2_Sebastião-Salgado.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_2_Sebastião-Salgado-300x219.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_2_Sebastião-Salgado-768x562.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-129255" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Pico da Neblina, Terra Indígena Yanomami, Amazonas, Brasil, 2014. <strong>© Sebastião Salgado</strong></small></p></div>
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<h2 style="margin:3em 0;">A crise ambiental não será resolvida dentro do capitalismo</h2>
<p>Um dos principais desafios que enfrentamos hoje é a crise ambiental, fruto do modo de produção capitalista, que tem colocado em risco a existência da espécie humana na terra. O principal responsável dessa crise é a lógica de acumulação do capital levada à frente pelas classes dominantes dos países do Sul e do Norte Global.</p>
<p>Diversos organismos internacionais têm dedicado sua atenção à crise ambiental procurando encontrar soluções e alternativas, porém sempre nos marcos do capitalismo. Em novembro de 2025 acontecerá a COP-30, da ONU, na cidade de Belém, no estado do Pará, Brasil, região que abriga parte da floresta amazônica. Esta floresta, que tem a maior biodiversidade do mundo, é fruto do trabalho acumulado de gerações e gerações de povos originários que por meio de seu intercâmbio com a natureza deram vida a ela.</p>
<p>A floresta amazônica é hoje o cenário de uma das principais contradições do capitalismo, pois ao mesmo tempo sofre com a ação do agronegócio, que causa desmatamento sobretudo por meio de queimadas para a expansão da fronteira agrícola, e é objeto da financeirização da natureza, uma vez que seus territórios são negociados nas Bolsas de Valores como estoque de carbono pelas transnacionais.</p>
<p>É evidente o esgotamento e o desastre que o modo de produção capitalista causa à vida humana e ao planeta. As mudanças climáticas que se acentuaram e se aceleraram nas últimas décadas é resultado da lógica desenfreada de acumulação, como já denunciava Fidel Castro em seu discurso na Conferência pelo Clima no Rio de Janeiro de 1992, que ficou conhecida como ECO-92: “Uma importante espécie biológica está em perigo de desaparecer devido à rápida e progressiva liquidação de suas condições naturais de vida: o ser humano” (Brasil de Fato, 2024).</p>
<p>Ao mesmo tempo, as classes dominantes em todo o mundo pretendem tornar o problema da crise ambiental um problema da humanidade, sem distinção de classe. No entanto, é importante destacar que a contradição de classes própria do capitalismo também se expressa na questão ambiental, já que os principais atingidos pelos desastres climáticos são as populações empobrecidas que, nas cidades e no campo, vivem em condições precárias e em áreas de risco.</p>
<p>Uma das principais tarefas na batalha das ideias em torno da crise ambiental, portanto, é politizar este debate demonstrando seu caráter de classe. Uma pesquisa recente no Brasil demonstrou que mais de 30% da população desconhecem as mudanças climáticas, sendo que este número sobe para mais de 50% entre as camadas de renda mais baixa (Tereos, 2024).</p>
<p>Este dossiê tem como objetivo contribuir na popularização deste debate a partir do Brasil, inserido no Sul Global, junto às organizações da classe trabalhadora. Após uma análise das causas da crise ambiental que vivemos, denunciamos as propostas de transição para uma economia de baixo carbono, que ao buscar alternativas dentro do capitalismo, criam novas formas de acumulação sem resolver o problema. Por fim, apresentamos as alternativas populares para a crise, bem como elencamos uma lista de reivindicações fruto do acúmulo dos movimentos populares brasileiros para a crise ambiental.</p>
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<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129265" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129265" class="size-full wp-image-129265 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_3_Sebastia%CC%83o-Salgado.jpg" alt="" width="950" height="635" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_3_Sebastião-Salgado.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_3_Sebastião-Salgado-300x201.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_3_Sebastião-Salgado-768x513.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-129265" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Mina de Ouro da Serra Pelada, Pará, Brasil, 1986. <strong>© Sebastião Salgado</strong></small></p></div>
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<h2 style="margin:3em 0;">A destruição da vida e a lógica do capital</h2>
<p>Para início do debate, é importante ressaltar que as mudanças climáticas constituem a parte mais visível e urgente da crise ambiental. A poluição química, a perda de cobertura dos solos, acidificação dos oceanos, a destruição de biomas e a perda da biodiversidade também são aspectos fundamentais desta crise. Como bem destacou Vijay Prashad:</p>
<blockquote><p>Um milhão das estimadas oito milhões de espécies de plantas e animais no planeta estão ameaçadas de extinção. A principal ameaça à maioria das espécies em risco de extinção é a perda de biodiversidade causada pelo agronegócio, sistema de produção de alimentos do capitalismo. A produção agrícola — atualmente responsável por mais de 30% da superfície terrestre habitável do mundo — é responsável por 86% das perdas projetadas de biodiversidade terrestre devido à conversão de terras, poluição e degradação do solo (FAO, 2019; UNEP, 2021a; UNEP, 2021b; IUCN, 2024 in Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2025).</p></blockquote>
<p>A crise ambiental se manifesta de diversas formas, evidenciando sua inseparabilidade da luta de classes. Isso pode ser observado nas enchentes que devastaram o sul do Brasil em 2024; nas inundações que atingiram o Paquistão em 2022 após uma onda de calor, onde milhões ficaram desabrigados, enquanto elites permaneceram protegidas; nas enchentes em Kerala, na Índia, em 2018, que afetaram principalmente as camadas populares; nas inundações e apagões em Cuba em 2022, causados pelo Furacão Ian — fenômeno agravado pelas temperaturas oceânicas elevadas; ou ainda nos ciclos cada vez mais extremos de inundações e secas no Chifre Oriental da África. Na Etiópia, Quênia e Somália, a região enfrentou chuvas severas em 2019-2020, seguidas por inundações devastadoras e, logo depois, uma das secas mais prolongadas em 70 anos entre 2020 e 2023, além de novas enchentes em 2023-2024, evidenciando o agravamento desta crise (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2018, 2022, 2024a; BBC News, 2022; UNDRR, 2023).</p>
<p>O principal elemento de alteração do clima são os altos índices de emissão de gases de efeito estufa provenientes dos combustíveis fósseis. O consumo de energia produzida a partir destes combustíveis continua aumentando ano após ano. Se pegarmos uma lupa e analisarmos a quantidade de emissão entre as populações mundiais, mais uma vez os dados se demonstram reveladores: os 10% mais ricos são responsáveis por cerca de 20 vezes mais emissões em comparação com os 50% mais pobres em escala global, de acordo com o estudo <i>Climate Change And The Global Inequality Of Carbon Emissions</i> (Chancel, 2022).</p>
<p>Além do mais, a quantidade histórica e atual de emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) está diretamente ligada à desigualdade entre países do Norte e Sul Global, assim como entre as camadas mais ricas e pobres da população mundial. Os 23 países mais desenvolvidos do planeta, que correspondem a 12% da população global, por exemplo, são responsáveis por metade de todas as emissões de CO₂ desde 1850, como demonstram os dados do Global Carbon Project. Só os EUA emitiram 24,6% de todo o carbono que chegou à atmosfera, seguido da Alemanha (5,5%), Reino Unido (4,4%) e Japão (3,9%). A outra metade é dividida entre mais de 150 países (WRI Brasil, 2024).</p>
<p>Se pegarmos dados mais atuais, é possível constatar que essa realidade basicamente não se alterou, uma vez que os 10 maiores emissores ainda são responsáveis por 76% das emissões globais de CO₂. Em 2022, segundo o Climate Watch, plataforma de dados do World Resources Institute (WRI Brasil, 2024), a China aparecia como a maior emissora de CO₂, seguida por Estados Unidos, Índia, Rússia e Japão, tornando a Ásia o maior emissor do planeta.</p>
<p>No entanto, é fundamental levarmos em conta o nível de emissão <i>per capita</i>, uma vez que as populações chinesas e indianas, por exemplo, são muito maiores que a dos EUA, dos países europeus, do Japão ou da Austrália. Nesse sentido, entre os 10 maiores emissores de CO₂ do mundo, os Estados Unidos são o país com os níveis mais altos de emissões por habitante. A taxa de emissões <i>per capita</i> dos EUA é o dobro da chinesa e oito vezes maior que a da Índia (WRI Brasil, 2024).</p>
<p>Globalmente, a indústria do combustível fóssil é a que mais emite CO₂, e apenas cerca de 100 companhias respondem por 71% das emissões históricas globais de dióxido de carbono, de acordo com o relatório Carbon Majors, publicado em 2017 (CDP, 2017). Entre as companhias estão as gigantes Exxon Mobil Shell, BHP Billiton e Gazprom. Outro estudo, publicado em 2019 pelo Instituto de pesquisas Climate Accountability Institute (2019), revelou que apenas 20 empresas foram responsáveis por um terço de toda a emissão de CO₂ do mundo desde 1965.</p>
<p>Outra causa estrutural das emissões de gases de efeito estufa é o agronegócio. Somente em 2023 foram desmatados no mundo 3,7 milhões de hectares de florestas, em grande parte para conversão destas áreas em pecuária e lavouras do agronegócio. A sua própria cadeia produtiva, desde fertilizantes até o processamento e transporte, aumentou suas emissões em 130% nos últimos 20 anos (Weisse, Goldman e Carter, 2024). Se mundialmente cerca de ¾ das emissões vem do sistema elétrico, é preciso analisar os países que têm como principal pauta de exportação produtos primários.</p>
<p>O caso brasileiro, por exemplo, é emblemático: segundo o relatório Plano para a Transformação Ecológica, do Ministério da Fazenda, o agronegócio é o maior responsável pelas emissões de GEE no país, representando 29% das emissões de GEE. O problema se agrava ainda mais quando analisamos o nível de emissão de GEE relacionado ao desmatamento, na casa dos 38%. Ao considerarmos que a agropecuária responde por cerca de 96% da área desmatada no Brasil, segundo o Relatório Anual do Desmatamento 2022, podemos afirmar que o agronegócio é responsável por aproximadamente 65% das emissões de GEE no Brasil, contra 23% da geração de energia (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2024b).</p>
<p>Além disso, é preciso chamar atenção também para as práticas extrativas predatórias que acontecem sobretudo em países do Sul Global, como a mineração e a compra de terras de reservas naturais e indígenas por estrangeiros para o mercado de carbono.</p>
<p>Apesar das especificidades de regiões e países, o que fica patente é o fato de as mudanças climáticas e a morte da natureza serem frutos diretos da lógica da acumulação capitalista levada à frente pelas classes dominantes.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129245" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129245" class="size-full wp-image-129245 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_4_Sebastia%CC%83o-Salgado.jpg" alt="" width="950" height="634" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_4_Sebastião-Salgado.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_4_Sebastião-Salgado-300x200.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_4_Sebastião-Salgado-768x513.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-129245" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Bairro de Kuningan, Jacarta, Indonésia, 1996. <strong>© Sebastião Salgado</strong></small></p></div>
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<h2 style="margin:3em 0;">Capitalismo verde: supostas alternativas à crise ambiental</h2>
<p>Apesar da preocupação ecológica existir desde o surgimento do capitalismo por parte de diferentes correntes socialistas – lembremos, por exemplo, a contribuição do artista plástico e escritor inglês William Morris –, e por movimentos ambientalistas e de contracultura em meados do século XX, será apenas na década de 1970, mais de 100 após o surgimento das primeiras indústrias, que a questão ambiental se tornará um tema de preocupação por parte dos Estados nacionais, ganhando relevância na agenda política internacional. A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente de 1972, em Estocolmo, na Suécia, foi um marco para este debate, segundo Andrei Cornetta (2025, p. 109):</p>
<blockquote><p>Além de debater o crescimento demográfico diante da escassez dos recursos, discutiu, também, o controle sobre diversas formas de poluição (da água, do ar e do solo), em um momento em que a crise energética global entra em pauta, especialmente após o impacto do choque do petróleo de 1973.</p></blockquote>
<p>Apesar da importância desse tema figurar na agenda de debate de órgãos internacionais, não se discutia ou se propunha uma nova forma de organização social da produção e da relação com a natureza; as alternativas eram todas pensadas dentro dos marcos do capitalismo.</p>
<p>No entanto, a crescente desigualdade social e econômica entre os países do centro imperialista e os de capitalismo dependente agravou as discussões, sobretudo com relação ao contínuo desenvolvimento das forças produtivas ou uma reestruturação do modelo industrial que defendia o crescimento zero (Cornetta, 2025).</p>
<p>Em 1979 ocorre a Primeira Conferência Mundial sobre o Clima, em Genebra, na qual se reconhece a gravidade das mudanças climáticas em curso. Contudo, somente em 1992 aconteceria a II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro. Este encontro propôs uma agenda de cooperação entre os países para tratar da questão climática que entrou em vigor em 1994, sendo este encontro o precursor da Conferências das Partes (COPs) dos países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).</p>
<p>Entre os vários desdobramentos desse processo das COPs, dois encontros ganham destaque: a COP-3, de 1997, na qual se adotou o chamado Protocolo de Kyoto, que estabelecia metas quantitativas obrigatórias de redução de emissões de gases de efeito estufa para os países do Anexo I, que englobam as nações industrializadas há mais tempo; e a COP-21, em 2015, na qual se estabeleceu o chamado Acordo de Paris, em que “cada país estabelece suas próprias metas de redução de emissões, as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas” (Cornetta, 2025, p. 121). Apesar dos acordos e resoluções, as metas traçadas não foram cumpridas, e tanto o Protocolo de Kyoto quanto o Acordo de Paris acabaram como um fracasso.</p>
<p>A proposta que se desenhava no âmbito dos Estados diante da urgência das alterações climáticas era a de uma transição a uma economia de baixo carbono, em que se buscasse diminuir a quantidade de emissões de gases de efeito estufa danosos ao ambiente, sem, é claro, afetar os lucros das grandes empresas e países do centro do capital. É a partir disso que são construídas as alternativas do chamado capitalismo verde, como o mercado de carbono e as políticas de transição energética.</p>
<p>As metas de emissão de gases de efeito estufa estabelecidas pelo Protocolo de Kyoto, que a princípio seriam um limitador da poluição do ar, tornaram-se o parâmetro para a criação de uma nova forma de acumulação de capital relacionada com atividades compensatórias da emissão de GEE, os chamados créditos de carbono negociados nas Bolsas de Valores, e que funcionam como uma espécie de “licença para poluir” (Brasil de Fato, 2024).<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>1</sup></a></p>
<p>Isso envolve não apenas o mecanismo do capital financeiro, mas também um grande desenvolvimento tecnológico e científico que permite metrificar e calcular as taxas de emissão de carbono, bem como as possibilidades de redução e compensação a partir da projeção de um cenário provável caso as atividades compensatórias não existissem.</p>
<p>Esses projetos de compensação de GEE englobam, entre outros, a redução de emissões por desmatamento e degradação florestal (REDD+), conservação das florestas, manejo sustentável e aumento dos estoques de carbono florestal. Em termos práticos, uma vez que as empresas ultrapassem o limite de emissão de GEE, elas podem comprar na Bolsa de Valores créditos de carbono que compensam sua emissão. Assim, o processo biofísico das plantas de captar o carbono do ar e transformá-lo em oxigênio, por meio da fotossíntese, algo próprio da vida vegetal e parte dos bens comuns da natureza, passa a ser mercantilizado.</p>
<p>Outro aspecto que chama a atenção nessa dinâmica do capitalismo verde é o fato de que os mesmos grupos empresariais transnacionais com influência sobre a agenda ambiental nos organismos internacionais e nos Estados são também os que mais intensificam as formas clássicas de exploração dos bens comuns, como o agronegócio e a mineração. O agronegócio que promove desmatamento e queimadas nos biomas Cerrado e na Amazônia<!-- Inserir nota para outras línguas caracterizando os biomas brasileiros. --> para ampliar a fronteira agrícola é o mesmo que fala de<b> </b>digitalização das cadeias produtivas e rastreabilidade para comprovar que os produtos são livres de desmatamento e descarbonizados; as corporações petrolíferas estão envolvidas em políticas de transição energética; as mineradoras defendem a pauta dos mercados de carbono.</p>
<p>O agronegócio no Brasil, principal responsável pelas emissões de GEE no país (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2024b), tomou como uma das suas principais bandeiras o tema da sustentabilidade, sendo este parte importante de sua campanha ideológica. No entanto, mais que a economia sustentável em si, eles veem nisso uma maneira de expandir os negócios para outras áreas e, com isso, ampliar influências políticas e obter mais lucros. É sabido que o modelo do agronegócio baseado em grandes monoculturas com larga utilização de venenos é um dos mais danosos ao ambiente. Contudo, apesar de buscarem novas formas de ganho com a financeirização da natureza e o discurso da sustentabilidade, não há nenhuma mudança em seu modelo de produção que, ao contrário, é responsável por desmatamentos, queimadas, envenenamento do solo, de águas e do ar.</p>
<p>Com um papel ativo na proposição de falsas soluções para a questão ambiental, os setores e grupos que mais agridem o ambiente encontraram uma nova forma de obter lucros com a financeirização da natureza. Eles estão presentes nos ministérios de diversos países, mas sobretudo nos organismos e conferências internacionais sobre o clima, como a COP, por exemplo. A pauta ambiental destes organismos foi capturada, há muito tempo, pelas grandes corporações transnacionais, e as alternativas ali propostas jamais colocam em questão a taxa de lucro dos grandes capitais. Os setores do agronegócio brasileiro, com seu discurso de sustentabilidade, são os principais representantes e influenciadores nestes organismos internacionais.</p>
<p>Empresas como a Suzano Papel e Celulose, produtora de papel no país e responsável pelo desequilíbrio ambiental pela criação dos chamados “desertos verdes” – grandes plantações de eucalipto -, que são a matéria-prima para a celulose; a JBS, transnacional brasileira do ramo da alimentação, a mineradora Vale, entre outras, têm uma grande participação em projetos de “sustentabilidade” e no mercado de carbono. Os projetos de compensação se tornaram, para eles, uma nova forma de acumulação de capital.</p>
<p>O projeto Maísa, por exemplo, no estado do Pará, da empresa Verra, principal certificadora do mercado de carbono, seria responsável por preservar um território da floresta amazônica. A falácia e a falência de projetos deste tipo é evidente, pois conta com o envolvimento de gigantes transnacionais como iFood, Uber, Spotify, Audi e Google, que desembolsaram milhões de dólares com este projeto para compensação de emissão de GEE por suas atividades.</p>
<p>A área a ser protegida englobava um total 26 mil hectares, incluindo a Fazenda Sipasa. Apesar de se constituir como um projeto de preservação ambiental, no início de 2024, nesta fazenda foram resgatados 16 trabalhadores em condições análogas à escravidão, em pleno século XXI. Além disso, o território a ser protegido se tornou posteriormente área de mineração, algo que vai em direção oposta à proposta de conservação ambiental (Repórter Brasil, 2024; Brasil de Fato, 2025).</p>
<p>Além de negociar um bem comum da natureza, é importante ressaltar que isso afeta a biodiversidade e o modo de vida de diversas comunidades de povos originários que vivem nestes locais e que foram responsáveis, por meio do trabalho de gerações e gerações, pela constituição das florestas e da biodiversidade ali presente. Ou seja, ao buscar saídas sem questionar a lógica destrutiva de acumulação capitalista, destrói-se modos de vida que conviveram em harmonia com a natureza por milênios.</p>
<p>O relatório da Plataforma de Política Científica Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos de 2019 fornece dados alarmantes sobre o nível de destruição dos ecossistemas:</p>
<blockquote><p>um milhão das cerca de oito milhões de espécies de plantas e animais estão ameaçadas de extinção; as ações humanas levaram pelo menos 680 espécies de vertebrados à extinção desde 1500, com as populações globais de espécies de vertebrados caindo 68% nos últimos 50 anos; a abundância de insetos selvagens caiu 50%; mais de 9% de todas as raças de mamíferos domesticados usados para alimentação e agricultura foram extintas em 2016, com outras mil raças em extinção. (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2021)</p></blockquote>
<p>Todos esses dados mostram claramente que não existem soluções capitalistas para um problema capitalista. As soluções devem ser encontradas fora do capitalismo se quisermos salvar a Terra e a Humanidade.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129275" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129275" class="size-full wp-image-129275 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_5_Sebastia%CC%83o-Salgado.jpg" alt="" width="950" height="634" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_5_Sebastião-Salgado.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_5_Sebastião-Salgado-300x200.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_5_Sebastião-Salgado-768x513.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-129275" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Fazenda Cuiabá, sertão de Xingó, Sergipe, Brasil, 1996. <strong>© Sebastião Salgado</strong></small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Perspectivas populares sobre a Questão Ambiental</h2>
<p>Em 1992, na Conferência pelo Clima no Rio de Janeiro, Fidel Castro chamava a atenção para a urgência da questão ambiental a partir de uma perspectiva emancipatória, denunciando a ordem econômica e social injusta entre os países dependentes e os do centro do capital:</p>
<blockquote><p>É preciso salientar que as sociedades de consumo são as principais responsáveis pela atroz destruição do meio ambiente. […] Com apenas 20% da população mundial, elas consomem dois terços dos metais e três quartos da energia produzida no mundo. Envenenaram mares e rios, contaminaram o ar, enfraqueceram e perfuraram a camada de ozônio, saturaram a atmosfera de gases que alteram as condições climáticas com efeitos catastróficos que já começamos a padecer. […] É impossível culpar disto os países do Terceiro Mundo, colônias ontem, nações exploradas e saqueadas hoje, por uma ordem econômica injusta. […] Se quisermos salvar a humanidade dessa autodestruição, teremos que fazer uma melhor distribuição das riquezas e das tecnologias disponíveis no planeta. Menos luxo e menos esbanjamento nuns poucos países para que haja menos pobreza e menos fome em grande parte da terra. (Blog da Boitempo, 2019)</p></blockquote>
<p>O que está em jogo é a própria existência da vida humana no planeta Terra. Assim, podemos afirmar que a crise ambiental é fruto, na verdade, da crise do capital, que além de não resolver os problemas sociais como a fome e a desigualdade, segue buscando sempre novas formas de gerar lucros para as classes dominantes.</p>
<p>Neste sentido, é preciso construir a luta ambiental como enfrentamento e superação do modo de produção capitalista. Sem questionar a lógica do capital baseada na manutenção das taxas de lucro das classes dominantes a partir da exploração do trabalho e dos territórios dos países do Sul Global, não é possível enfrentar a questão ambiental do modo como ela está colocada para nós hoje.</p>
<p>Defender a justiça climática é um aspecto central a partir da desigualdade estabelecida entre o Norte e o Sul Global, mas não é suficiente. Outro ponto a ser combatido é o do racismo ambiental, situação na qual as populações mais empobrecidas estão mais sujeitas aos efeitos da crise ambiental.</p>
<p>No Brasil, por exemplo, uma pesquisa científica encontrou traços do veneno Glifosato, um dos mais utilizados pelo agronegócio, no leite materno de mulheres de distintas regiões do país; os crimes ambientais cometidos pela transnacional da mineração Samarco, Vale, BHP Billiton nas cidades de Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019, no estado de Minas Gerais, além de terem matado quase 300 pessoas, ainda destruiu a biodiversidade do Rio Doce, que corta os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, afetando o modo de vida de diversas comunidades ribeirinhas (Brasil de Fato, 2019, 2023).</p>
<p>Nas cidades brasileiras, as populações negras e as mulheres sofrem ainda mais com os impactos ambientais, pois a maior parte dos que vivem nas periferias das cidades em locais que sofrem enchentes e desmoronamento são negros; no caso das mulheres, muitas vezes no campo, são elas que precisam aplicar os venenos que a lógica de produção do agronegócio impõe às famílias camponesas.</p>
<p>Assim, é necessário estabelecer relações estreitas entre os movimentos por justiça ambiental e justiça climática com as lutas antirracistas e feministas. Não é possível resolver a crise ambiental sem enfrentarmos a desigualdade social, o racismo e o patriarcado.</p>
<p>Entre as várias frentes de luta, é importante ressaltar a atuação dos movimentos camponeses ligados à Via Campesina, cuja agenda propõe:</p>
<ol style="list-style-type: lower-alpha;">
<li>Reforma Agrária Popular e defesa dos territórios camponeses e indígenas: a Reforma Agrária Popular representa uma luta pela democratização do acesso à terra, enfrentando diretamente o latifúndio e a concentração fundiária. Essa proposta vai além da redistribuição de terras, pois questiona o modelo do agronegócio, que transforma a natureza em mercadoria e agrava a crise ambiental. Ao defender territórios camponeses e indígenas, busca-se garantir que a terra cumpra sua função social, sendo um espaço de vida, trabalho e reprodução cultural, e não apenas um ativo financeiro. Essa luta se alia às demarcações de terras indígenas e quilombolas, reconhecendo que a concentração fundiária é um legado colonial que precisa ser superado.</li>
<li>Soberania Alimentar: a soberania alimentar é o direito dos povos de decidir o que, como e para quem produzir, garantindo acesso a alimentos saudáveis e culturalmente adequados. Ela se opõe à lógica do agronegócio, que prioriza <i>commodities </i>para exportação em detrimento da alimentação popular. Para isso, é essencial valorizar culturas alimentares regionais, fortalecer circuitos curtos de comercialização e garantir que a produção de alimentos não seja controlada por grandes corporações. A soberania alimentar exige políticas públicas que fortaleçam a agricultura camponesa, como compras institucionais e o apoio a feiras agroecológicas, assegurando que a comida seja um direito, e não um negócio.</li>
<li>Agroecologia: a agroecologia propõe uma mudança radical na matriz tecnológica, substituindo o modelo predatório por sistemas produtivos diversificados que veem a natureza como aliada. Isso inclui o uso de bioinsumos, agroflorestas e manejo sustentável do solo, criando ambientes mais biodiversos e resilientes às mudanças climáticas. Além da dimensão técnica, a agroecologia é uma prática política que constrói novas relações entre seres humanos e a natureza, baseadas na cooperação, na autonomia camponesa e no resgate de saberes tradicionais.</li>
<li>Cuidado com os bens comuns: água, minérios, sementes, terra, biodiversidade não são meros “recursos naturais” ou “matérias-primas” a serem explorados, mas bens comuns essenciais à vida. Sua gestão deve ser coletiva, garantindo que sejam cuidados para as gerações presentes e futuras. O cuidado e o zelo dos bens comuns é um eixo central na construção de um projeto popular para o campo, em que a natureza não seja mercantilizada, mas cuidada como patrimônio coletivo.</li>
</ol>
<p>No Brasil, a linha política de atuação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é: <b>plantar árvores, produzir alimentos saudáveis. </b>Isso<b> </b>é<b> </b>parte inerente à construção da Reforma Agrária Popular, pois a superação da crise ambiental só será possível com uma nova forma de produção no campo, por meio da agroecologia, pela construção de novas relações sociais que superem o machismo, o patriarcado, o racismo, a lgbtfobia e que incentive a cooperação e a solidariedade.</p>
<p>Como bem sintetiza João Pedro Stedile, da coordenação nacional do MST, com relação aos desafios brasileiros, mas que podem ser estendidos para os outros países do Sul Global:</p>
<blockquote><p>Precisamos de desmatamento zero. Não é necessário derrubar nenhuma árvore para atender às necessidades do povo. É preciso proibir a exportação de madeira e ouro. É urgente realizar um controle rigoroso das atividades de mineração e seus impactos ambientais. O país precisa instituir um plano nacional de reflorestamento, com recursos públicos, para recuperar milhões de hectares em todo o território. Também é fundamental reflorestar as grandes cidades, a fim de enfrentar a poluição e amenizar o aumento das temperaturas. É necessário encarar o problema do transporte individual movido a combustíveis fósseis, com um plano de transporte público de massa, gratuito e de qualidade. Além disso, devemos ampliar o uso da energia solar no maior número possível de atividades produtivas. No campo, é preciso avançar com a reforma agrária e criar um programa nacional de agroecologia para produzir alimentos saudáveis para todo o povo, sem o uso de agrotóxicos. (MST, 2025)</p></blockquote>
<p>Outra perspectiva popular que surge a partir das lutas sociais na América Latina, principalmente no Equador e na Bolívia, é o <i>buen vivir</i>, cujas ideias estavam presentes nas novas Constituições destes dois países. Recuperando a tradição dos povos originários, o <i>buen vivir </i>questiona as noções de progresso e desenvolvimento tal qual compreendidas pelo capitalismo e parte dos seguintes princípios: 1) visão do todo ou a Pacha; 2) viver com multipolaridade; 3) a busca pelo equilíbrio; 4) a complementaridade do diverso; e 5) descolonização (Marques e Depieri, 2023, p. <!-- Esta citação está em falta na bibliografia. -->115).</p>
<p>O ecossocialismo é uma corrente política e teórica que combina socialismo e ecologia radical, criticando tanto o capitalismo quanto o socialismo tradicional por ignorarem os limites ecológicos do planeta. Seu objetivo é construir uma sociedade igualitária e sustentável, onde a economia seja reorganizada para atender às necessidades humanas sem destruir o meio ambiente. Para Michael Löwy, um dos principais teóricos desta corrente, o dilema central das classes trabalhadoras no século XXI é a questão ambiental, que deve ser enfrentada a partir de uma perspectiva socialista e que conceba um novo modo de produção levando em conta os desafios ecológicos.</p>
<p>A questão ambiental não será enfrentada de fato pelas classes dominantes; a sua solução é uma tarefa das classes trabalhadoras do campo e da cidade, que necessitam construir outra forma de produção e reprodução da vida com relações saudáveis entre os seres humanos e com o meio ambiente por meio da organização popular, da denúncia dos verdadeiros responsáveis pela crise e pelo anúncio de propostas que privilegiam todas as formas de vidas em detrimento do lucro.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129225" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129225" class="size-full wp-image-129225 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_6_Sebastia%CC%83o-Salgado.jpg" alt="" width="950" height="695" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_6_Sebastião-Salgado.jpg 950w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_6_Sebastião-Salgado-300x219.jpg 300w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_6_Sebastião-Salgado-768x562.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-129225" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Pico da Neblina, Terra Indígena Yanomami, Amazonas, Brasil, 2014. <strong>© Sebastião Salgado</strong></small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Uma agenda mínima para enfrentar a crise ambiental</h2>
<p>Os movimentos populares do Brasil compreendem a necessidade de se travar a luta em várias frentes de batalha. Apesar de reconhecer os limites da COP e das negociações ali feitas, é de fundamental importância uma pressão popular para garantir uma agenda mínima que responsabilize as classes sociais e os países mais poluidores pela crise ambiental e que permita evitar a catástrofe climática a que o capitalismo está levando a humanidade. Neste sentido, exigimos:</p>
<h3 style="margin:2em 0;">I – Cumprimento e avanços nos Acordos Internacionais</h3>
<p>Com base na formulação da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992, de “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”, obrigar os países desenvolvidos que carregam a responsabilidade histórica de ter causado a catástrofe climática a reduzir rapidamente suas emissões de carbono para impedir que as temperaturas globais aumentem acima do limite crítico de 1,5 °C.</p>
<ul>
<li>Garantir que os países desenvolvidos do Norte Global forneçam compensação climática pelas perdas e danos causados por suas emissões de carbono e financiem fortemente a infraestrutura pública para substituir a dependência de energia baseada em carbono.</li>
<li>Cumprir as promessas do Acordo de Paris sobre Mudança Climática de que os países desenvolvidos forneçam 100 bilhões de dólares por ano para atender às necessidades dos países em desenvolvimento. Essas necessidades incluem adaptação e resiliência ao impacto real e desastroso da mudança climática, que já está sendo suportado por países em desenvolvimento (particularmente países de baixa altitude e pequenos Estados insulares). Esses recursos devem provir na forma de doações, isto é, de transferências diretas a projetos, em nível subnacional, de proteção e restauração da floresta. Empréstimos não são transferências de recursos e não devem ser, portanto, contabilizados como parte do Acordo de Paris, tal como tem ocorrido. Essas transferências de recursos aos países e povos mais vulneráveis devem ser um instrumento de justiça climática, em vez de subterfúgios para promover negócios no setor financeiro, como bancos privados ou bancos multilaterais de desenvolvimento.</li>
<li>Transferir tecnologia e financiamento a países em desenvolvimento para mitigação e adaptação de sistemas de energia baseados em carbono, a partir de estratégias nacionais.</li>
<li>Exigir que os países desenvolvidos responsáveis por poluir as águas, o solo e o ar com resíduos tóxicos e perigosos – incluindo resíduos nucleares – arquem com os custos de despoluição e parem de produzir e usar resíduos tóxicos.</li>
</ul>
<h3 style="margin:2em 0;">II – Uma transição energética planejada, justa e com participação social</h3>
<p>É necessário um Programa de Transição para um modelo que mitigue e adapte os sistemas de energia baseados no carbono, com planejamento, participação social, canais de financiamento para os países do Sul Global de acordo com a necessidade, que promovam a diversificação da matriz energética e promoção de eficiência energética e garantia de fornecimento da matéria-prima para qualquer transição energética no futuro próximo.</p>
<p>Deve incluir ainda:</p>
<ul>
<li>O fim dos subsídios governamentais, diretos e indiretos, à indústria de combustíveis fósseis.</li>
<li>Aumentar agressivamente os impostos sobre as emissões de gases e produtos poluentes.</li>
<li>Proibição da participação do setor financeiro na indústria de combustíveis fósseis, impedindo que este processo seja gerenciado pela especulação financeira.</li>
<li>Investimentos dos Estados em impedir a catástrofe climática, proteger ou atender às populações e em recuperação do meio ambiente não podem ser limitados ou incluídos por legislações locais ou internacionais de austeridade fiscal. É obrigação do Estado salvaguardar os direitos das populações localizadas na implementação destes projetos.</li>
</ul>
<h3 style="margin:2em 0;">III – Proteção e estímulo à agricultura camponesa e a soberania alimentar</h3>
<ul>
<li>Ampliar o número de camponeses por meio de reformas agrárias massivas que desconcentrem e democratizem o acesso à terra, substituindo as práticas danosas do agronegócio pela produção agroecológica.</li>
<li>Construir mecanismos de difusão e implementação massiva da agroecologia, pelo apoio, assistência técnica e financiamento dos camponeses.</li>
<li>Eliminar os agrotóxicos sintéticos até 2035 e reduzir os fertilizantes sintéticos pela metade no mesmo período.</li>
<li>Apoiar a difusão dos bioinsumos para a produção agroecológica, garantindo a estruturação de Biofábricas, a base genética e reprodutiva dos bioinsumos, disponibilizando equipamentos adequados à sua aplicação e viabilizar assistência técnica gratuita específica para a produção e uso dos bioinsumos.</li>
<li>Proteger os direitos dos camponeses sobre as sementes e a biodiversidade. Garantir os direitos de propriedade intelectual dos povos indígenas e tradicionais pela luta contra a biopirataria e a apropriação dos nossos saberes e práticas.</li>
<li>Reestruturar a pecuária para que os rebanhos coincidam com a capacidade de terra e a demanda alimentar e não do mercado.</li>
<li>Proibir todas as tecnologias não comprovadas e eliminar todas as subvenções públicas a práticas e produtos nocivos.</li>
<li>Adotar políticas públicas para regular e proteger os mercados agrícolas e o direito à alimentação.</li>
<li>Ampliar e garantir a prioridade dos alimentos agroecológicos nos programas de compras públicas de alimentos dos governos.</li>
<li>Construir uma legislação que proteja os perímetros/polos de produção agroecológica, criando áreas livres de venenos, transgênicos e pulverização aérea.</li>
<li>Os governos devem desenvolver estudos que dimensionem a necessidade de reposicionamento das atividades agropecuárias em função do aquecimento global. Trata-se de estabelecer novos mapeamentos agroclimáticos e de desenvolver políticas para sua consolidação em bases biodiversas, protetivas aos serviços ecossistêmicos naturais, assegurando mobilização do tecido social, aproveitando a cultura e expertise das comunidades/povos estabelecidos nos diferentes territórios.</li>
<li>Assegurar obrigatoriedade de processos de reavaliação periódica, a cada 5 anos, de produtos e processos da tecnociência aplicada aos territórios rurais, garantindo a participação de representantes da sociedade civil.</li>
</ul>
<h3 style="margin:2em 0;">IV – Políticas efetivas de reflorestamento e combate ao desmatamento</h3>
<ul>
<li>Devem ser tomadas todas as medidas necessárias para evitar o ponto de não retorno da Amazônia, protegendo 80% do seu território até 2025.</li>
<li>Garantir o fim de toda a desflorestação ilegal até 2025.</li>
<li>Frear a expansão da fronteira agrícola, com sanções às empresas e responsáveis pela apropriação das terras e expulsão dos povos das florestas e para os produtos que contribuem para desmatamento, degradação e poluição.</li>
<li>Proibir que os recursos destinados pelo Acordo de Paris sejam destinados ao agronegócio, mineração e falsas soluções de replantio de áreas de proteção permanente.</li>
<li>Atingir a desflorestação legal zero até 2027.</li>
<li>Revogar as leis e disposições que promovem a destruição da Amazônia.</li>
<li>Reabilitar, recuperar e restaurar as áreas desflorestadas e degradadas.</li>
<li>Titular 100% das reivindicações territoriais dos povos indígenas, dos afrodescendentes, quilombolas e das comunidades tradicionais na Amazônia, assegurando a segurança global (jurídica e física) da propriedade coletiva dos territórios indígenas, o respeito e a proteção territorial dos povos indígenas isolados e a garantia de uma perspectiva de gênero na distribuição e titulação das terras.</li>
<li>Fortalecer alternativas para uma transição agroecológica, de produção agroflorestal e ecoturística comunitárias.</li>
<li>Garantir a participação efetiva dos povos das florestas em toda a cadeia produtiva da energia, como parte dos processos de planejamento, gestão e governança, para a construção de uma transição energética justa, popular e inclusiva.</li>
<li>Proibir os subsídios, investimentos e créditos financeiros em empreendimentos que destroem as florestas.</li>
<li>Classificar e incorporar o crime de ecocídio na legislação dos países e punir efetivamente todos os crimes ambientais.</li>
<li>Exigimos que as corporações e empresas responsáveis por desastres ambientais sejam processadas em seus países de origem e obrigadas a reparar os danos à natureza e aos povos.</li>
<li>Promover um financiamento para a Amazônia e florestas do Sul Global que garantam que todas as conversões de dívida para a ação climática e/ou conservação da natureza sejam: integrais, transparentes, diretas e com a participação dos povos amazônicos, autodeterminados, auto-organizados e autogeridos; que nos mecanismos atuais de financiamento sejam garantidos participação, controle e fiscalização social, para evitar abusos, desperdícios e corrupção; e que a natureza não seja mercantilizada.</li>
<li>Estabelecer um imposto sobre o carbono emitido pelas grandes indústrias e agroindústrias poluentes, a fim de destinar esses recursos para salvar a Amazônia e as florestas do Sul Global.</li>
<li>Proibir os <i>offsets </i>florestais (compensação florestal) e outros mecanismos de especulação financeira e falsas soluções do mercado nos territórios.</li>
<li>Que os governos iniciem projetos de reflorestamento massivo nas florestas, nos campos e nas cidades, fomentando a produção e distribuição de mudas e estimulando o plantio e a recuperação de áreas degradadas.</li>
</ul>
<h3 style="margin:2em 0;">V – Gestão planejada e adequada dos recursos hídricos</h3>
<ul>
<li>A água deve ser utilizada de forma eficiente, assegurando a prioridade para o consumo humano e animal e para a produção agroecológica.</li>
<li>Promover uma gestão dos sistemas aquáticos que inclua a criação de áreas aquáticas protegidas para conservar a saúde das bacias hidrográficas.</li>
<li>Assegurar a previsão/disponibilidade de recursos para financiamento subsidiado à implantação de agroflorestas, com ênfase a produtos alimentares em unidades familiares de produção, articuladas a sistemas de abastecimento alimentar.</li>
</ul>
<h3 style="margin:2em 0;">VI – Restrições à mineração</h3>
<ul>
<li>Interromper imediatamente e combater a mineração ilegal.</li>
<li>Reduzir anualmente o uso do mercúrio na mineração até sua total eliminação.</li>
<li>Proibir a mineração em territórios indígenas, ancestrais e comunitários.</li>
<li>Instituir planos de recuperação e mitigação das áreas degradadas pela mineração.</li>
<li>Implementar planos para a remediação da saúde das pessoas e a restauração dos ecossistemas afetados pelo mercúrio e pela mineração.</li>
<li>Estabelecer sistemas de monitoramento e penalização de atividades que comprometam a qualidade das reservas de água superficiais e subterrâneas.</li>
</ul>
<h3 style="margin:2em 0;">VII – Participação Popular</h3>
<ul>
<li>A população – especialmente os povos da floresta e os atingidos climáticos – devem ter assento, voz, voto e poder de veto nas instâncias de formulação, decisão e auditoria no emprego dos recursos e nos projetos e cadeias produtivas com impacto significativo nos territórios.</li>
<li>As instâncias/conselhos/comissões institucionais responsáveis pela avaliação/validação de produtos da tecnociência aplicada aos territórios rurais devem prever espaços para intervenção de representação das populações afetadas por seu emprego, previamente e durante sua autorização de uso em escala comercial.</li>
</ul>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129285" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129285" class="size-full wp-image-129285 img-responsive" src="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_7_Sebastia%CC%83o-Salgado.jpg" alt="" width="570" height="780" srcset="https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_7_Sebastião-Salgado.jpg 570w, https://thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Web_7_Sebastião-Salgado-219x300.jpg 219w" sizes="auto, (max-width: 570px) 100vw, 570px"><p id="caption-attachment-129285" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Cadeia de montanhas Brooks, Alasca, EUA, 2009. <strong>© Sebastião Salgado</strong></small></p></div>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p>BBC NEWS.<i> Furacão Ian: a destruição causada pela tempestade, em imagens</i>, set. 2022. Disponível em: <a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-63086712">https://www.bbc.com/portuguese/internacional-63086712</a>.</p>
<p>BLOG DA BOITEMPO.<i> Fidel Castro e a questão ambiental,</i> 5 dez. 2019. Disponível em: <a href="https://blogdaboitempo.com.br/2019/12/05/fidel-castro-e-a-questao-ambiental/">https://blogdaboitempo.com.br/2019/12/05/fidel-castro-e-a-questao-ambiental/</a>.</p>
<p>BRASIL DE FATO. <i>A história esquecida do acidente de Goiânia, ‘a pequena Chernobyl’, </i>17 jul. 2024. Disponível em: <a href="https://www.brasildefato.com.br/colunista/raul-capote/2024/07/17/a-historia-esquecida-do-acidente-de-goiania-a-pequena-chernobyl/">https://www.brasildefato.com.br/colunista/raul-capote/2024/07/17/a-historia-esquecida-do-acidente-de-goiania-a-pequena-chernobyl/</a>.</p>
<p>BRASIL DE FATO. <i>Raio-X dos crimes: um comparativo entre os impactos de Brumadinho e Mariana</i>, 31 jan. 2019. Disponível em: <a href="https://www.brasildefato.com.br/2019/01/31/raio-x-dos-crimes-um-comparativo-entre-os-impactos-de-brumadinho-e-mariana/">https://www.brasildefato.com.br/2019/01/31/raio-x-dos-crimes-um-comparativo-entre-os-impactos-de-brumadinho-e-mariana/</a>.</p>
<p>BRASIL DE FATO. <i>Evidências apontam associação de agrotóxico a ultraprocessados no leite materno,</i> 6 dez. 2023. Disponível em: <a href="https://www.brasildefato.com.br/2023/12/06/evidencias-apontam-associacao-de-agrotoxico-a-ultraprocessados-no-leite-materno/">https://www.brasildefato.com.br/2023/12/06/evidencias-apontam-associacao-de-agrotoxico-a-ultraprocessados-no-leite-materno/</a>.</p>
<p>BRASIL DE FATO. <i>Mercado de carbono: saída para a crise climática ou licença para poluir?,</i> 16 jan. 2024. Disponível em: <a href="https://www.brasildefato.com.br/2024/01/16/mercado-de-carbono-saida-para-a-crise-climatica-ou-licenca-para-poluir/">https://www.brasildefato.com.br/2024/01/16/mercado-de-carbono-saida-para-a-crise-climatica-ou-licenca-para-poluir/</a>.</p>
<p>BRASIL DE FATO. <i>Mais da metade dos créditos de carbono da Amazônia está contaminada pela mineração</i>, 27 jun. 2025. Disponível em: <a href="https://www.brasildefato.com.br/2025/06/27/mais-da-metade-dos-creditos-de-carbono-da-amazonia-esta-contaminada-pela-mineracao/">https://www.brasildefato.com.br/2025/06/27/mais-da-metade-dos-creditos-de-carbono-da-amazonia-esta-contaminada-pela-mineracao/</a>.</p>
<p>CDP Carbon Majors Report. <i>The Carbon Majors Database</i>, 2017. Disponível em: <a href="https://climateaccountability.org/pdf/CarbonMajorsRpt2017%20Jul17.pdf">https://climateaccountability.org/pdf/CarbonMajorsRpt2017%20Jul17.pdf</a>.</p>
<p>CHANCEL, L. (2022). <i>Global Carbon Inequality over 1990-2019</i>, Nature Sustainability [DOI: 10.1038/s41893-022-00955-z].</p>
<p>CLIMATE ACCOUNTABILITY. <i>Carbon Majors: Update of Top Twenty companies 1965-2017</i>. Disponível em : <a href="https://climateaccountability.org/wp-content/uploads/2020/12/CAI-PressRelease-Top20-Oct19.pdf">https://climateaccountability.org/wp-content/uploads/2020/12/CAI-PressRelease-Top20-Oct19.pdf</a>.</p>
<p>CORNETTA, Andrei. <i>Crise ambiental e os negócios do clima: uma perspectiva crítico-popular</i>. São Paulo: Expressão Popular, 2025.</p>
<p>FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. <i>The State of the World’s Biodiversity for Food and Agriculture</i>, 2019. Disponível em: <a href="https://openknowledge.fao.org/items/6c17080e-6c5d-47ae-a982-609c882bd4e7">https://openknowledge.fao.org/items/6c17080e-6c5d-47ae-a982-609c882bd4e7</a>.</p>
<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. <i>Um Mundo Profundamente Transformado</i>. Carta Semanal 26 (2018), ago. 2018. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/carta-semanal-26-2018-um-mundo-profundamente-transformado/">https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/carta-semanal-26-2018-um-mundo-profundamente-transformado/</a>.</p>
<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. <i>Apenas uma Terra</i>. Alerta Vermelho n.11, jun. 2021. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/alerta-vermelho-11-meio-ambiente/">https://thetricontinental.org/pt-pt/alerta-vermelho-11-meio-ambiente/</a>.</p>
<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. <i>Paquistão sob água</i>. Alerta Vermelho n.15, set. 2022. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/alerta-vermelho-15-paquistao-inundacoes/">https://thetricontinental.org/pt-pt/alerta-vermelho-15-paquistao-inundacoes/</a>.</p>
<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. <i>O dilúvio de austeridade e a catástrofe climática no Brasil</i>. Carta Semanal 22 (2024), mai. 2024a. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/inundacoes-brasil-mst/">https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/inundacoes-brasil-mst/</a>.</p>
<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. <i>A Transição Energética para além do debate combustíveis fósseis e fontes renováveis</i>, jun. 2024b. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/brasil/a-transicao-energetica-para-alem-do-debate-combustiveis-fosseis-e-fontes-renovaveis/">https://thetricontinental.org/pt-pt/brasil/a-transicao-energetica-para-alem-do-debate-combustiveis-fosseis-e-fontes-renovaveis/</a>.</p>
<p>INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. <em>A menos que encontremos outro planeta habitável, não há aritmética que resolva o problema ambiental</em>. Carta Semanal 23 (2025), jun. 2025. Disponível em: <a href="https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/cartasemanal-antropoceno-capitalismo-crise-climatica/">https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/cartasemanal-antropoceno-capitalismo-crise-climatica/</a>.</p>
<p>IUCN – International Union for Conservation of Nature. <i>The IUCN Red List of Threatened Species</i>, 2024. Disponível em: <a href="https://www.iucnredlist.org/">https://www.iucnredlist.org/</a>.</p>
<p>MARQUES, Rosa Maria e DEPIERI, Marcelo Álvares de Lima. <i>Análisis crítico de las propuestas para combatir la crisis climática</i>. In ESTAY, Jaime; ROFINELLI, Gabriela; e MORALES, Josefina (Coords.). <i>Los rumbos de la economía mundial en época de pandemia y guerra – Una mirada desde la América Latina y El Caribe</i>. 1a ed. – Ciudad Autónoma de Buenos Aires : CLACSO, 2023. Disponível em: <a href="https://www.clacso.org/los-rumbos-de-la-economia-mundial-en-epoca-de-pandemia-y-guerra-2/">https://www.clacso.org/los-rumbos-de-la-economia-mundial-en-epoca-de-pandemia-y-guerra-2/</a>. Acesso: 10/07/2025.</p>
<p>MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. <i>Propostas para enfrentar a crise ambiental</i>. 17 jun. 2025. Disponível em: <a href="https://mst.org.br/2025/06/17/propostas-para-enfrentar-a-crise-ambiental/">https://mst.org.br/2025/06/17/propostas-para-enfrentar-a-crise-ambiental/</a>.</p>
<p>REPÓRTER BRASIL. <i>Uber, Audi, créditos de carbono e trabalho escravo</i>. 14 fev. 2024. Disponível em: <a href="https://reporterbrasil.org.br/2024/02/uber-audi-creditos-de-carbono-trabalho-escravo/">https://reporterbrasil.org.br/2024/02/uber-audi-creditos-de-carbono-trabalho-escravo/</a>.</p>
<p>TEREOS. <i>Mudanças climáticas ainda são desconhecidas por 34% dos brasileiros, aponta pesquisa promovida pela Tereos</i>, mai. 2024. Disponível em: <a href="https://br.tereos.com/pt-pt/press-releases/mudancas-climaticas-ainda-sao-desconhecidas-por-34-dos-brasileiros-aponta-pesquisa-promovida-pela-tereos/">https://br.tereos.com/pt-pt/press-releases/mudancas-climaticas-ainda-sao-desconhecidas-por-34-dos-brasileiros-aponta-pesquisa-promovida-pela-tereos/</a>.</p>
<p>UNDRR – United Nations Office for Disaster Risk Reduction. <i>Horn of Africa Floods and Drought 2020-2023: A Forensic Analysis</i>, set. 2024. Disponível em: <a href="https://www.undrr.org/resource/horn-africa-floods-and-drought-2020-2023-forensic-analysis">https://www.undrr.org/resource/horn-africa-floods-and-drought-2020-2023-forensic-analysis</a>.</p>
<p>UNEP – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. <i>Our global food system is the primary driver of biodiversity loss</i>, 2021a. Disponível em: <a href="https://www.unep.org/news-and-stories/press-release/our-global-food-system-primary-driver-biodiversity-loss">https://www.unep.org/news-and-stories/press-release/our-global-food-system-primary-driver-biodiversity-loss</a>.</p>
<p>UNEP – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. <i>Agriculture, forests and other land use</i>, 2021b. Disponível em: <a href="https://www.unep.org/topics/climate-action/mitigation/agriculture-forests-and-other-land-use">https://www.unep.org/topics/climate-action/mitigation/agriculture-forests-and-other-land-use</a>.</p>
<p>WEISSE, Mikaela; GOLDMAN, Elizabeth; CARTER<b>, </b>Sarah<b>. </b><i>Quanta floresta foi perdida em 2023?</i>. Disponível em: <a href="https://gfr.wri.org/pt-pt/node/229#:~:text=A%20perda%20total%20de%20florestas%20tropicais%20prim%C3%A1rias,%C3%A0s%20dos%20anos%20de%202019%20e%202021">https://gfr.wri.org/pt-pt/node/229#:~:text=A%20perda%20total%20de%20florestas%20tropicais%20prim%C3%A1rias,%C3%A0s%20dos%20anos%20de%202019%20e%202021</a>.</p>
<p>WRI BRASIL. <i>Os países que mais emitiram gases de efeito estufa</i>, 2024. Disponível em: <a href="https://www.wribrasil.org.br/noticias/os-paises-que-mais-emitiram-gases-de-efeito-estufa">https://www.wribrasil.org.br/noticias/os-paises-que-mais-emitiram-gases-de-efeito-estufa</a>.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Nota</h3>
<div id="sdfootnote1" class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup></a>“Os créditos de carbono são certificados que representam a redução ou remoção do equivalente a uma tonelada de dióxido de carbono (CO₂) ou outros <a href="https://reporterbrasil.org.br/2024/11/o-que-sao-gases-de-efeito-estufa-gee/">gases de efeito estufa (GEE)</a> da atmosfera. Esses créditos podem ser gerados por projetos que evitam emissões, como reflorestamento e energia limpa, ou tecnologias de captura e armazenamento de carbono”. (<a href="https://reporterbrasil.org.br/2024/12/o-que-sao-creditos-de-carbono/">https://reporterbrasil.org.br/2024/12/o-que-sao-creditos-de-carbono/</a>)</p>
</div>
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