Três lições do efeito Trump, 2 tarefas para o futuro e 1 mensagem de Bolívar
No dia 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos executaram uma operação militar de grande escala contra a Venezuela, denominada por Washington de “Operação Determinação Absoluta”. Essa ação de guerra da maior potência militar do mundo contra a Revolução Bolivariana deixou ao menos 100 mortos — entre eles 32 internacionalistas cubanos —, mais de uma centena de feridos, danos à infraestrutura militar e civil do país (como depósitos de medicamentos para pacientes renais) e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama e deputada Cilia Flores, que hoje permanecem detidos como prisioneiros de guerra na cidade de Nova York.
Elías Taño (Tenerife), Aquí hay un pueblo digno, 2026.
Saudações do Escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social,
No dia 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos executaram uma operação militar de grande escala contra a Venezuela, denominada por Washington de “Operação Determinação Absoluta”. Essa ação de guerra da maior potência militar do mundo contra a Revolução Bolivariana deixou ao menos 100 mortos — entre eles 32 internacionalistas cubanos —, mais de uma centena de feridos, danos à infraestrutura militar e civil do país (como depósitos de medicamentos para pacientes renais) e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama e deputada Cilia Flores, que hoje permanecem detidos como prisioneiros de guerra na cidade de Nova York.
No entanto, ao contrário do que imaginaria qualquer analista político ou historiador, o governo revolucionário não foi derrubado. Ele segue de pé e lidera uma resistência organizada para preservar a paz, a estabilidade e a soberania do país. Esse fato, aparentemente paradoxal, revela as contradições internas do projeto imperial e a força dos processos enraizados na organização popular.
A brutalidade do ataque poderia ter nos surpreendido, mas os sinais já o anunciavam com clareza. O Projeto 2025, elaborado pela Heritage Foundation e seus aliados para preparar um exército de burocratas ideologicamente comprometidos com o segundo governo Trump, recomendava uma “re-hemisferização” do continente. A Estratégia de Segurança Nacional, publicada semanas antes, reavivava a doutrina Monroe e lhe acrescentava um corolário Trump: os Estados Unidos tomarão todas as medidas necessárias — incluindo o uso unilateral da força militar — para garantir que nenhuma potência estrangeira possa se apropriar dos recursos do continente americano que consideram de seu interesse. Na prática, isso significa que condicionarão a soberania das nações do continente à sua disposição de atender às necessidades da superpotência.
Iván Lira (Venezuela), Dtrump, 2025.
Do novo corolário Trump à doutrina Monroe, podemos extrair três lições:
1. A ofensiva do hiperimperialismo é brutal e busca impor uma nova ordem mundial por meio da força. Começou em setembro de 2025 com execuções extrajudiciais de supostos narcotraficantes em alto-mar — alguns deles pescadores colombianos e trinitensis, como denunciou o presidente da Colômbia, Gustavo Petro — e iniciou o ano com um ataque militar que, em menos de duas horas, violou a Carta das Nações Unidas, o Estatuto de Roma e a própria Constituição dos Estados Unidos, que reserva ao Congresso a prerrogativa exclusiva de declarar guerra.
A política de “paz através da força” é o novo método para avançar a agenda estadunidense. Ficaram no passado as tentativas de cooptar organismos multilaterais e instrumentalizá-los, assim como o chamado “ordenamento baseado em regras”, que Washington invocava de forma seletiva. Já não é necessário manter aparências. O imperialismo conta com sua força bruta para criar uma nova ordem internacional, e quem quiser disputá-la terá de demonstrar a sua. Enquanto isso, os Estados Unidos reconfiguram seu domínio sobre o continente: intervieram nas eleições da Argentina e de Honduras, ameaçam a Colômbia e o México com operações antinarcóticos em seus territórios, exigem de Cuba um acordo “antes que seja tarde demais”, expandem sua presença militar no Equador, no Panamá (buscando exercer controle sobre o Canal) e no Haiti (impulsionando na ONU uma “força de supressão de gangues”) e, mais recentemente, lançam um ultimato à Dinamarca e a outros aliados da OTAN para que cedam o controle da Groenlândia ou o tomarão “pela força”.
2. O novo estado de ânimo do Sul Global se fortalece a partir de conquistas concretas dos povos, não do idealismo nem da timidez: apesar do avassalador poderio militar, os Estados Unidos não ocuparam militarmente a Venezuela nem derrubaram o governo. A estabilidade do país tem sido garantida pela Revolução Bolivariana, um projeto alternativo à lógica imperialista que conseguiu se consolidar por meio da organização territorial (comunas), da criatividade produtiva, da participação política e da consciência social.
Existe um novo estado de ânimo no Sul Global, contrário à ação unilateral e favorável à cooperação por meio do multilateralismo e da unidade regional para enfrentá-la. A solidariedade desempenha um papel fundamental, e a defesa da soberania da Venezuela fez-se sentir em espaços tão distantes quanto Kerala, Roma, Pretória ou Havana, para citar apenas alguns dos centenas de lugares que manifestaram sua rejeição ao ataque estadunidense. O que esses povos defendem é o direito de existirem alternativas políticas reais e transformadoras. São esses projetos que podem liderar um novo futuro para o Sul Global. Em dezembro, foi realizada no Rio de Janeiro uma Cúpula Popular do BRICS, na qual o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e outros movimentos defenderam a formulação de propostas concretas para tornar realidade projetos de cooperativas e empresas sociais. São as transformações verdadeiras — e não propostas inalcançáveis por seu idealismo ou tímidas ao confrontar os esquemas de dominação — que geram estabilidade e unidade.
3. A nova direita ocupa cada vez mais espaços, mas é facilmente descartável na ofensiva hiperimperialista. Os Estados Unidos surpreenderam ao impor um aumento de tarifas contra o Brasil e medidas coercitivas unilaterais contra o ministro da Suprema Corte Alexandre de Moraes, responsável pela condenação de Jair Bolsonaro. Por meio de ameaças nas redes sociais e na imprensa, o governo Trump acusou as instituições brasileiras e o próprio governo de perseguição ao seu principal aliado no país.
No entanto, com Bolsonaro condenado, o hiperimperialismo rapidamente mudou sua estratégia, promovendo um diálogo com Lula. Em uma operação semelhante, María Corina Machado, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz após indicação do próprio secretário de Estado, foi descartada como opção política na Venezuela por não contar com apoio ou legitimidade suficientes. Embora as direitas estejam ocupando os espaços deixados abertos pelas fragilidades do campo popular, o hiperimperialismo não hesitará em descartá-las diante de qualquer conjuntura estratégica. Isso revela que devemos trabalhar urgentemente por um projeto mínimo comum que permita avançar as causas populares sem depender das contradições internas do campo inimigo.
Olfer Leonardo (Perú), Abyayala contra Trump, 2026.
Em O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, Marx nos lembra que “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem de livre arbítrio, sob circunstâncias escolhidas por eles mesmos, e sim sob aquelas circunstâncias com que se deparam diretamente”. Depois deste início abrupto de 2026, assumamos as tarefas históricas diante das circunstâncias que nos coube viver:
1. Não basta a multipolaridade, devemos buscar o “equilíbrio do universo”: Há duzentos anos foi realizado o Congresso Anfictiônico do Panamá, que tentou criar a unidade do continente americano para salvaguardar sua independência e soberania. Diferente do pan-americanismo impulsionado a partir de Washington, esse congresso não pretendia impor uma tutela, mas apostava em alcançar aquilo que Bolívar concebia como o equilíbrio do universo: “(…) todas estas partes [do mundo] devem buscar estabelecer uma balança entre elas e a Europa, para destruir a preponderância desta última”. A ordem mundial construída após a Guerra Mundial Antifascista dividiu o mundo em zonas de influência a serem repartidas na Guerra Fria. O que precisamos construir hoje, mais do que uma simples multipolaridade, é um equilíbrio entre todos os atores internacionais que garanta a cooperação, o desenvolvimento justo e compartilhado e a resolução das grandes ameaças, como a guerra e a mudança climática.
2. Nossa luta deve ser comum e simultânea: Há 60 anos realizou-se a Conferência Tricontinental de Havana, onde pela primeira vez se uniram as lutas do que hoje chamamos de Sul Global. Ali, o comandante Fidel Castro apresentou, em seu discurso de encerramento, uma fórmula que segue mais atual do que nunca:
“Na América Latina não deve restar um, nem dois, nem três povos lutando sozinhos contra o imperialismo. A correlação de forças dos imperialistas neste continente, a proximidade de seu território metropolitano, o zelo com que tratarão de defender seus domínios nesta parte do mundo, exige neste continente, mais do que em qualquer outra parte, uma estratégia comum, uma luta comum e simultânea”.
Durante o mês de maio de 2026, e no marco do centenário de Fidel, será realizada em Cuba a IV Assembleia Continental da ALBA Movimentos. Será o cenário propício para que os movimentos e as organizações populares do continente, com uma visão realista dos desafios, tracem uma nova estratégia de luta comum e simultânea para preservar a soberania e a dignidade frente ao avanço hiperimperialista.
Kael Abello (Venezuela), Venceremos: Bolívar vs Donroe, 2026.
Uma mensagem de Bolívar: Em 1825, poucos meses após a Batalha de Ayacucho, que selou definitivamente a independência sul-americana do império espanhol, a França cogitava uma invasão à Colômbia. Bolívar, à frente do Peru, enviou a Santander, na Colômbia, uma carta dura, carregada de realismo, pragmatismo e, sobretudo, visão estratégica.
Diante da superioridade militar francesa, recomendava não resistir frontalmente para evitar maior destruição ao país. Preferia recuar para o sul e iniciar uma guerra de guerrilhas; e, em torno de um ou dois anos, começar a guerra ativa que traria a vitória. Bolívar defendia a unidade do Congresso Anfictiônico e o fortalecimento de alianças com potências estrangeiras, enquanto considerava medidas mais sagazes. “Ainda que sacrifique minha popularidade e minha glória, quero salvar a Colômbia de seu extermínio nesta nova guerra. Se me sair bem, ficarei satisfeito, e se me sair mal, também, porque terei dado o último passo de salvação”.
O cenário hoje, francamente, não é alentador. A incursão militar na Venezuela e o sequestro de seu presidente foram um golpe duro; também o são as ameaças a outros países ao longo da região, as derrotas eleitorais, os desafios econômicos e sociais e a ausência de um projeto mínimo comum para os novos tempos.
Mas, ao mesmo tempo, Nuestra América não é uma região subjugada. A paciência deve ser estratégica e a determinação inquebrantável, mesmo diante da adversidade. É tempo de construir um novo momento mais favorável a partir das conquistas alcançadas. Como escreveu o Libertador em sua carta: “devemos saber perder no início, para saber ganhar depois”.
Saudações a todos e todas,
Carlos Ron
Carlos Ron é co-coordenador do Escritório de Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. |