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O intelectual que não luta pela revolução em todos os momentos é um falso intelectual

Boletim de arte n. 21 (Novembro 2025)

Ao longo do extenso período de limpeza étnica promovida pelo sionismo, da apropriação de terras e da migração forçada, os palestinos não deixaram de usar a produção cultural como ferramenta de resistência.

Ouça “Ya Habib”, da banda palestina Darbet Shams, que inclui a letra: “Voltem, vocês estarão seguros. Não acreditem neles e não tenham medo. Nós construiremos nossa pátria”.

Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Resolução 181, que preparou o terreno para a Nakba, um ato de limpeza étnica que confiscou 78% das terras palestinas, destruiu mais de 500 cidades e vilarejos, deslocou mais da metade da população e levou à criação do Estado de Israel. Setenta e oito anos depois, a luta pela libertação persiste, enquanto o genocídio israelense continua devastando a vida palestina. Ao longo desse extenso período de desapropriação e luta, o trabalho cultural tem sido fundamental para a resistência palestina. Um exemplo é a tradição de literatura de resistência, ou adab al-muqawama (أدب المقاومة), que surgiu das cinzas da Nakba e sustentou a identidade palestina, documentou a violência colonial e mobilizou a solidariedade internacional. Wisam Rafeedie é um dos muitos escritores que contribuíram para essa tradição. Seu romance, A trindade dos fundamentos, publicado originalmente em árabe em 1998, oferece reflexões profundas sobre a subjetividade revolucionária, o engajamento político e o papel da cultura na libertação nacional.

Publicado próximo ao Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino, em 29 de novembro, mesmo dia em que a Resolução 181 foi adotada, este boletim de arte examina a tradição da literatura militante palestina por meio da obra de Rafeedie e da recente tradução para o inglês de A trindade dos fundamentos (2024), feita pelo Movimento da Juventude Palestina (MJP). Com base em uma entrevista com Kaleem Hawa, pesquisador e militante palestino do MJP, exploramos como a literatura de resistência tem funcionado como uma arma na luta pela libertação palestina.

O papel da literatura de resistência palestina

Cartão de identificação de Wisam Rafeedie na prisão israelense.

A literatura de resistência palestina emergiu das condições impostas pelo colonialismo de povoamento sionista, apoiado pelo imperialismo ocidental. Hawa explica que os palestinos teorizam essas condições como tendo “pelo menos três características específicas: alienação de terras para acumulação primitiva; substituição populacional, ou limpeza étnica; e um regime racial que produz segregação e uma sociedade organizada com base na supremacia judaica”. Como o sionismo deseja instilar a derrota ideológica, a cultura desempenha um papel importante na resistência. Os palestinos reagem por meio de uma literatura que transmite seu compromisso político, ou iltizam (الْتِزام), e que pode incluir o compartilhamento de estratégias para defender a terra. “Nossa produção cultural também tem uma função ‘ofensiva’”, observa Hawa, “a de combater a propaganda sionista, expandir a base da luta popular e construir uma solidariedade internacional duradoura”.

Contra a dispersão e a desarticulação, a cultura une os palestinos em torno de tradições e histórias compartilhadas. Ghassan Kanafani, escritor palestino e membro da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), popularizou teorias sobre a literatura de resistência. Assassinado pelas forças israelenses em Beirute, em 8 de julho de 1972, Kanafani entendia a literatura de resistência como uma forma de produção cultural emergente de formações sociais periféricas engajadas na luta pela libertação nacional. Essa literatura abordava as realidades do sujeito palestino em condições de desapropriação e reconstituição. Para Kanafani, a literatura de resistência era uma literatura de compromisso político na tradição do iltizam árabe. Seu caráter revolucionário estava ligado tanto à produção quanto à circulação: ideias eram articuladas e compartilhadas coletiva e criativamente para combater a dessubjetivação e a desumanização sionistas. A literatura tornou-se uma arma, ou o que Kanafani chamou de “a queixa da perna amputada”.

O mundo árabe em geral tem sido essencial para a produção e disseminação de textos culturais palestinos, tanto literários quanto cinematográficos. Diante da limpeza étnica sionista e dos ataques a instituições produtoras de conhecimento, os palestinos recorreram à região em geral em busca de apoio estratégico. Hawa destaca a importância das editoras árabes, que apoiaram a produção de literatura de resistência palestina, incluindo Dar al-Adab e Dar al-Farabi em Beirute, Ittihad al-Kuttab al-’Arab em Damasco, Dar al-Ahliyyah em Amã e a Organização Geral Egípcia do Livro no Cairo. Além disso, o cinema revolucionário árabe das décadas de 1970 e 1980, produzido pela Organização Nacional de Cinema da Síria, gerou declarações políticas duradouras, como Kafr Kassem (1975), filmado na aldeia síria de al-Shaykh Saad, sobre o massacre de palestinos pelos sionistas em 1956, e Al-Manam (O Sonho, 1987), sobre as memórias coletivas de palestinos no exílio, filmado nos campos de refugiados do Líbano.

O regime sionista não só atacou implacavelmente locais de produção cultural palestina e árabe, como também destruiu espaços de convocação pública e memória coletiva, como demonstrado pelo saque dos arquivos da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em Beirute, em 1982. No atual bombardeio indiscriminado no sul do Líbano, as forças armadas israelenses têm tido como alvo estratégico praças, mercados, mesquitas e bibliotecas, além de bases da resistência, com o objetivo de dispersar e isolar os palestinos dos espaços comunitários onde a cultura é trocada e desenvolvida. Esse ataque se dá tanto por meio da violência física quanto pela destruição institucional.

Amor, revolução e vida

Wisam Rafeedie personifica a tradição do escritor militante, ou artista que integra uma organização política que luta pela libertação nacional. Ele ingressou na Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) aos 16 anos. Após viver escondido por nove anos durante a Primeira Intifada, Rafeedie foi capturado pelas forças de ocupação israelenses em 1991. Recebeu uma sentença de 34 meses e foi mantido na prisão no deserto de al-Naqab, localizado ao sul do território da Palestina histórica.

Ali, Rafeedie escreveu A trindade dos fundamentos, em 1993, um romance narrado da perspectiva do protagonista Kan’an Subhi, um revolucionário palestino e membro do partido que se esconde durante um período de reconstituição da resistência na Cisjordânia. Além de “retratar suas lutas contra o tédio, o desespero e a frustração do isolamento, e sua maturação na luta, na disciplina e no compromisso político”, diz Hawa, “o romance também explora vários cenários de tarakum (acumulação política, تَرَاكُم) nesse período e trata principalmente da subjetividade revolucionária palestina, como co-constitutiva da construção de instituições populares e da libertação da mente”. A trindade de fundamentos que estrutura a vida de Kan’an no esconderijo é composta de amor, revolução e a própria vida.

A circulação do romance personifica a prática coletiva da resistência palestina. A trindade dos fundamentos espalhou-se pela prisão de al-Naqab, contrabandeada em cápsulas de comprimidos e dobrada em bolas atiradas pelas celas. Quando um guarda interceptou o manuscrito, Rafeedie acreditou que o havia perdido. Sem que ele soubesse, um companheiro de prisão de Gaza havia escrito à mão outra versão e a contrabandeado de al-Naqab para a prisão de Nafha, engolindo folhas dobradas em cápsulas de comprimidos. De lá, uma segunda cópia do manuscrito circulou pela maioria das prisões da Palestina, tornando-se um elemento básico do currículo do Movimento dos Prisioneiros Palestinos. O romance documenta momentos importantes da luta palestina, como a Primeira Intifada e a Guerra do Golfo, oferecendo aos leitores uma visão dos debates internos entre os partidos políticos palestinos durante esse período.

A trajetória de Rafeedie espelha a de outros trabalhadores culturais revolucionários: Kanafani, que escreveu romances enquanto editava a revista da FPLP, al-Hadaf [O alvo], e elaborava programas políticos; Mahmoud Darwish, que em 1988 escreveu a Declaração de Independência da Palestina enquanto atuava no comitê executivo da OLP (ele se demitiu em 1993 em protesto contra os Acordos de Oslo); e Kamal Nasser, poeta e chefe do departamento de mídia da OLP, martirizado pelas forças israelenses em Beirute em 10 de abril de 1973. Hawa observa que esses trabalhadores culturais e suas lutas mostram como o intelectual “que não luta pela revolução em todos os momentos é um falso intelectual, e seu intelecto é enganoso e superficial”, citando o teórico marxista libanês Mahdi Amel.

Nosso povo não se quebra tão fácil

Ilga (Palestina y Chile), Palestina resiste, 2016. [Cortesía de Utopix.]

Em 2023, vários membros do MJP formaram um comitê para editar coletivamente A trindade dos fundamentos em inglês. Publicada em janeiro de 2024 pela 1804 Books e traduzida por Muhammad Tutunji, a nova edição leva a obra de Rafeedie a públicos além do mundo árabe. “Nossa ideia era que esse romance continha diversas formas de conhecimento que seriam valiosas para aqueles que estão despertando para a consciência política e iniciando suas atividades nos movimentos estudantis e trabalhistas, ou em suas comunidades locais”, explica Hawa. “Relendo-o agora, em um momento de sadismo e destruição brutais e intermináveis ​​em Gaza, fico impressionada com o quão verdadeiro ele é como uma representação do revés e como pode nos ajudar a continuar a luta, a nos comprometermos novamente”.

O projeto de tradução exemplifica como a cultura revolucionária funciona hoje. Hawa descreve a característica mais importante como “a conexão entre a cultura jovem e a experiência coletiva dos idosos palestinos”. Depois que os Acordos de Oslo prejudicaram muitas instituições sociais e culturais palestinas por meio da cooptação da burguesia palestina, a juventude recorreu à produção de vídeos e a edição de diários em redes sociais para narrar sua experiência coletiva, incluindo seu sentimento de alienação e sua firmeza. Os idosos palestinos têm lutado contra as tentativas coordenadas dos governos árabes de fazê-los esquecer sua história. “Vemos essa conexão entre gerações e geografias como os ramos do nosso espírito de luta como palestinos, um espírito que precisa ser nutrido por novas instituições conectadas a uma base popular, à luta de massas, e que permaneçam, principalmente, firmes no direito inalienável dos palestinos de resistir ao sionismo”, afirma Hawa.

Um dos maiores desafios tem sido o escolasticídio e o epistemicídio em Gaza — a destruição total de repositórios culturais e intelectuais, como pessoas, instituições e arquivos. “O coração da Palestina e sua cultura revolucionária residem em Gaza, e a perda inimaginável desse conhecimento e prática acumulados representa um retrocesso de magnitude histórica”, afirma Hawa. Mesmo assim, os palestinos permanecem e resistem, escrevendo poesia, canções e testemunhos a partir da zona zero da eliminação sionista. O Centro Popular para a Palestina, a editora 1804 Books e a Liberated Texts concluíram recentemente a tradução de Witness to the Hellfire of Genocide: A Testimony from Gaza [Testemunha do inferno do genocídio: um testemunho de Gaza], de Wasim Said, publicado pela 1804 Books em outubro de 2025. O livro entrelaça relatos das atrocidades perpetradas em Gaza, narrados em parte da casa do autor em Beit Hanoun, agora arrasada. “O programa de contrainsurgência do sionismo busca destruir o espírito palestino — sua vontade de resistir e permanecer, sua promessa de retornar — e, no entanto, nosso povo não se quebra tão fácil”, afirma Hawa.

Cultura é vida

Para Hawa, a libertação palestina significa reconhecer que, “no mundo ocidental, a cultura é mercadoria, e a produção e circulação atuais são uma cultura de morte. De certa forma, isso é inevitável e estamos implicados nisso, mas acredito que há valor em uma prática coletiva, ainda que seja apenas para criar novos espaços para a expressão da cultura palestina, que em sua essência é sobre a vida”. Para os palestinos, a escrita é um canal para universos de pensamento e experiência separados das compreensões populares no Ocidente, uma conexão frágil e ameaçada.

O legado da literatura de resistência palestina — de Kanafani a Darwish e Rafeedie — nos convida a reconhecer a cultura como inseparável da luta política. A trindade dos fundamentos, escrito em cativeiro e contrabandeado por meio de ação coletiva, alcança agora novos públicos pelo trabalho dedicado da juventude palestina. Quase oito décadas após a Nakba, enquanto o genocídio continua em Gaza, a tradição da literatura militante nos lembra que o trabalho cultural permanece essencial para a libertação palestina. Como afirma Hawa, o papel do escritor militante hoje é permanecer engajado na luta; fortalecer o sumud (صُمُود) — o conceito palestino de firmeza e determinação em permanecer na terra; e resistir à colaboração com os regimes sionistas ocidentais e à normalização da violência e do genocídio. A solidariedade internacional construída por meio da literatura de resistência amplia a base da luta popular e mantém viva a promessa de retorno.

Em outras notícias…

Kael Abello (Venezuela), Símbolos de resistencia, 2024. [Cortesía de Utopix.]

No início deste mês, publicamos nosso mais recente dossiê, Apesar de Tudo: Resistência cultural por uma Palestina livre, que examina como artistas palestinos responderam à conjuntura em transformação desde a Nakba por meio de seu trabalho cultural e político.

Em 30 de novembro de 2025, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, juntamente com a Assembleia Internacional dos Povos e a Utopix, organizarão um webinar para o lançamento do dossiê. O evento reunirá o romancista palestino Bassem Khandaqji, que foi preso pelo regime israelense por dezenove anos e foi recentemente libertado na troca de prisioneiros, o ator e cineasta palestino Mohammad Bakri e o artista visual chileno-palestino Rasan Abu Apara. Terei a honra de moderar o evento, que busca inspirar nosso trabalho contínuo de solidariedade, tanto cultural quanto político, até que a Palestina seja livre.

Cordialmente,

Tings Chak
Diretora de Arte, Instituto Tricontinental de Pesquisa Social