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Arte e CulturaBoletim de Arte

Contando nossas histórias: quadrinhos argentinos e feminismo para desmistificar crenças populares

Boletim de Arte n. 25 (março 2026)

O coletivo cultural Feminismo Gráfico honra o 8M e desmistifica ideias preconcebidas sobre a história de mulheres, pessoas trans e não-binárias que trabalham com quadrinhos na Argentina.

Escute “Vivas y Furiosas”, uma cumbia de Sudor Marika com Tita Print. Com um ritmo que poderia ser escutado em qualquer rua dos bairros populares na Argentina, surgem nesta canção versos de resistência feminista.

Na Argentina, por exemplo, o dia 8 de março — Dia Internacional da Mulher — coloca os pés em marcha, tingindo as ruas de violeta feminista e internacionalista. Mais adiante, no dia 24 — Dia da Memória por Verdade e Justiça — o mês é encerrado com uma mobilização massiva de organizações, partidos políticos, estudantes e famílias com crianças, dando continuidade à construção do “Nunca Mais”, expressão que une a luta constante para esclarecer os inúmeros crimes da ditadura cívico-militar apoiada pelos EUA (1976-1983). Um Nunca Mais passou a ser mais necessário do que nunca, especialmente sob o governo de extrema direita e negacionista de Javier Milei. Março mobiliza todas as frentes neste país sul-americano e, no campo cultural, renova a força de coletivos como o Feminismo Gráfico, um projeto cultural nascido na Argentina que busca difundir as histórias em quadrinhos a partir de uma perspectiva transfeminista.

A circulação da cultura e da arte é repleta de mitos, obstáculos e maravilhas ocultas e ocultadas. O 8 de março oferece uma oportunidade para dar visibilidade a discussões e práticas realizadas por diversos espaços culturais militantes. A partir da perspectiva específica dos quadrinhos, o arquivo digital “Nosotras Contamos” (Nós Contamos) busca contribuir para isso. Trata-se de um arquivo vivo, onde o Feminismo Gráfico visa compilar, divulgar e recuperar os nomes de autoras, pessoas trans e não binárias da Argentina, do início do século XX até os dias atuais. Em homenagem ao dia 8 de março, iniciamos uma nova atualização neste mês, adicionando autoras contemporâneas e dando continuidade à busca por colegas do passado. Estamos resgatando uma genealogia feminista dos quadrinhos argentinos, uma história brilhante de luta e criação que muitas vezes permanece invisível.

Jules Mamone (Argentina). Capa do catálogo original de Nosotras contamos, 2019.

Um mar de ilustrações e papel barato

Vamos situar esse campo da produção cultural: quadrinhos, humor gráfico, comics. Certamente você já leu algumas. Os quadrinhos são uma linguagem artística apreciada pelo povo e historicamente vista com desdém pelas formas de arte “eruditas”. Podemos supor que esse caráter popular dos quadrinhos e do humor gráfico vem de suas origens nos periódicos baratos e de grande circulação. Desde o início, se preocuparam com o humor, a sátira, narrar futuros possíveis por meio de imagens ou a representação de monstros em uma variedade de metáforas. Também possuem o enorme poder de contar histórias para aqueles que estão aprendendo a ler. Mais de uma vez na história das lutas populares, os quadrinhos disseminaram declarações de resistência em painéis, na forma de ficção, crônicas jornalísticas ou experimentações poéticas.

Na Argentina, um grande número de histórias em quadrinhos tem sido produzida desde o seu início, sem interrupção, embora com algumas mudanças. Conseguimos manter revistas populares que competiam destemidamente com as que vinham do norte. Algumas delas foram alvo de perseguição e censura, especialmente durante a última ditadura cívil-militar. Héctor G. Oesterheld, roteirista de El Eternauta, entre outros, pertence a esse período. Ele foi escritor, editor e militante de Montoneros — uma organização guerrilheira peronista de esquerda ativa principalmente na década de 1970 — que desapareceu durante essa mesma ditadura, no âmbito da Operação Condor.

Este mês se comemora o 50º aniversário, na Argentina, do golpe que buscou eliminar muito mais do que nossas narrativas. As mudanças provocadas pela violenta imposição do neoliberalismo neste país impactaram a dinâmica da produção nacional de quadrinhos. Mesmo assim, nunca paramos de desenhar. Se não em revistas, então em fanzines, ou livros de cooperativas editoriais, ou webcomics… E em todos esses momentos, as autoras estavam lá.

Assinando como “Cerebella” ou “Cotta”, a popular cozinheira argentina Blanca Cotta assinava seu humor gráfico na revista satírica Tía Vicenta. Essas duas tirinhas foram publicadas em 1957.

O mito da ausência

Uma das ferramentas do poder é a invisibilidade. Se algo não é nomeado, eventualmente deixa de existir; não conseguimos construir porque estamos sempre começando do zero. Um brilho eterno de lutas sem memória, narrativas suprimidas de modo que construir resistência parece erguer muros na areia.

Em relação ao “lugar das mulheres e pessoas não binárias nos quadrinhos”, surgem questões batidas e mitos persistentes. O mito da ausência é o primeiro a ser desfeito: porque sempre existiram mulheres artistas de quadrinhos. Na Argentina, quando se discute artistas mulheres de quadrinhos e humor gráfico, geralmente se mencionam duas ou três, quando existem mais de cem, e o Arquivo Digital de Artistas Mulheres de Quadrinhos e Humor Gráfico “Nosotras Contamos” [Nós contamos] abrange quase cem anos.

Este arquivo foi criado por Mariela Acevedo, militante feminista, pesquisadora, editora e roteirista de histórias em quadrinhos. Baseando-se em sua experiência como ativista, ela coletivizou uma furiosa curiosidade para encontrar aquelas que não eram mencionadas. Buscou contribuir para a mística do “somos muitas”, empregando a genealogia feminista como metodologia de pesquisa, com a convicção contagiante da importância de responder com informação, sagacidade e militância às afirmações banais que constroem o senso comum do machismo. O grupo que se constituiu a partir desse espírito contagiante continua o projeto até hoje.

Ao consultar colecionadores, entrevistar autoras e pesquisar em bibliotecas, descobrimos que devemos considerar uma certa margem de dúvida quando alguém afirma categoricamente: “Ela foi a primeira a…”. Constatamos que, sob pseudônimos ambíguos, havia mulheres que eram confundidas com homens. Ao observarmos assinaturas em algumas histórias em quadrinhos e vermos um “G.” antes de “Dester”, talvez imaginemos um “Gonzalo” ou um “Gilberto”, nunca uma “Gisela”. Mas Gisela, entre outras coisas, desenhava e assinava páginas para Ticonderoga, com roteiro daquele colega desaparecido que mencionamos anteriormente. Descobrimos também que, por trás do trabalho dos criadores homens, estavam as mulheres de suas famílias, que cuidavam de tudo, da manutenção da casa e dos cuidados, ou até mesmo os possíveis vestígios anônimos de irmãs ou esposas que ajudavam a finalizar as páginas para cumprir os prazos.

Parece básico encontrá-las e nomeá-las, mas nesses encontros emerge uma genealogia, revelando a certeza de que o sistema patriarcal permeia todos os aspectos da vida. Para aqueles que estão trilhando seu caminho na área hoje, é importante saber que Martha Barnes trabalhou ao lado de homens na Editora Columba na década de 1970 (uma das editoras de quadrinhos mais importantes da Argentina), mas sempre recebeu menos e foi relegada a escrever histórias em quadrinhos românticas quando o que queria era trabalhar com terror. Conhecer nossa história e construir uma memória coletiva é fundamental.

Para o feminismo popular, isso não é novidade: o trabalho de cuidado não é visto como trabalho, os trabalhos feminizados são invisibilizados e os papéis ativos na história de campos dominados por homens são ocultados. Mas, ao sairmos dos espaços feministas, descobrimos que as percepções podem permanecer distorcidas. Essa distorção se aprofunda quando está ligada à esfera cultural, na qual é necessário continuar afirmando que aqueles que produzem arte são, de fato, parte da classe trabalhadora.

Também não é segredo que, ao longo dos anos, mulheres e pessoas não binárias têm conquistado seu espaço na mídia, figurativa ou literalmente. Seja criando novos espaços ou ocupando e transformando os já existentes, a presença de autoras nos quadrinhos é inegável hoje em dia. “Okupas”, costumamos dizer entre nós, em parte com humor, em parte de forma provocativa. E quando essa okupación se torna visível, somos “muitas”.

Mostra de Feminismo Gráfico na Feira de Editores, Buenos Aires, 2025. Foto: Cé, Archivo Intangible.

O mito do estilo e temática

Ao mito da ausência ou exceção soma-se outro: a ideia de um estilo ou estética homogênea. Presume-se que as artistas mulheres abordem apenas certos temas, que desenhem de maneiras específicas (ou simplesmente que “desenhem mal”). Torna-se brutal quando isso é apresentado como um elogio: “Que estranho, você desenha como um homem”. Como se a relação entre mão e mente estivesse misteriosamente ligada ao gênero no momento em que se pega um lápis e um papel.

Quando o arquivo começou sua compilação, encontrou estilos clássicos, linhas experimentais, explorações plásticas, vislumbres das belas artes e tramas típicas de fanzines. Em resumo: encontramos de tudo, sem restrições.

Narrativamente, universos de todas as dimensões também se revelam: terror, ficção científica, crônicas políticas, autobiografias, experimentos narrativos, humor… Talvez uma observação transversal possível é que identificamos uma busca por representar algo diferente do que a indústria mainstream costuma exibir. Vemos corpos diversos, tons de pele geralmente invisibilizados, identidades e demandas que se manifestam de maneiras mais ou menos explícitas. Partindo disso, o arquivo propôs eixos temáticos, uma forma de construir conexões que transcendem a cronologia e ligam as preocupações de um autor de meados do século XX às de uma jovem que está apenas começando sua carreira. É outra forma de coletivização, de nos vermos como parte de algo maior que nos une àqueles que vieram antes, àqueles que compartilham este espaço hoje e àqueles que virão no futuro.

Diana Raznovich (desenhos) e Lucrecia Oller (textos). Manual de instrucciones para mujeres golpeadas, Argentina, 1989. Material feito para Lugar de mulher, coletivo chave para o feminismo organizado na década de 1980. Donado a Feminismo Gráfico para sua leitura gratuita.

Para fazer cair mitos, nos organizamos e nos (re)presentamos

O projeto Nosotras contamos está vivo e em constante expansão. Sabemos que jamais poderá estar completo. Sabemos também que esses esforços devem fazer parte de uma rede cultural internacionalista. Existem projetos irmãos na região, como no Chile, ou na Europa, como o projeto espanhol Presentes. Buscamos pistas sobre outros, prestando muita atenção às cenas de quadrinhos e narrativa gráfica, especialmente no Sul Global.

O arquivo do Graphic Feminism representa uma genealogia com lacunas, peças faltantes que (ainda) não conseguimos encontrar. Percebemos obras invisíveis, colaborações mal documentadas e assinaturas ausentes. Percebemos também um potencial imensurável de autoras emergentes nas novas mídias. Por isso, adotamos as palavras de nossa colega Mariela como um estandarte para nós, cartunistas: “Contamos esta história: ela é incompleta e inacabada, mas é coletiva e busca tornar visível que o que está faltando pode ser reconstruído de alguma forma, imaginado, escrito e tornado presente”.

O dossiê deste mês, A agenda antifeminista da extrema direita latino-americana, inclui obras de arte selecionadas em colaboração com o arquivo digital. Para explorar a coleção em constante expansão, visite feminismografico.com. Esperamos que, talvez, na próxima vez que alguém ler uma história em quadrinhos, imagine nomes diversos por trás de cada inicial assinada.

Cordialmente,

Dani Ruggeri

Designer do departamento de Cultura do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social
Co-coordenadora de Feminismo Gráfico

Valeria Reynoso (Argentina), fragmento do fanzine Se vos, Editora In Bocca al Lupo, 2017. A frase é uma citação literal de Lohana Berkins, líder travesti trans argentina, fundadora de ATTTA (Asociación de Travestis, Transexuales y Transgéneros de Argentina) que impulsionou a Lei de Identidade de Gênero (Lei 26.743).