Uma voz de luta e esperança: as visitas de Fidel ao Brasil
Aproveitamos o centenário de uma das maiores figuras do século XX para apresentar ao público a relação entre o povo cubano e brasileiro por meio de seu dirigente máximo: Fidel Castro Ruz.
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Introdução
Em 2026, celebra-se o centenário de um dos principais personagens da vida política e social da América Latina e do mundo, o dirigente revolucionário cubano Fidel Castro Ruz.
Desde jovem, Fidel se indignou contra as injustiças em sua região – Santiago de Cuba, no oriente da ilha – e dedicou sua vida a combater as desigualdades sociais frutos da exploração do modo de produção capitalista. Filho de latifundiário, vindo de estratos privilegiados da sociedade cubana, Fidel estuda Direito na universidade onde se inicia na vida política como dirigente estudantil. A partir daí passa a ter um papel ativo nos processos de resistência e de luta social em Cuba e em outros países da região: participa da tentativa de derrubar o ditador Rafael Trujillo, da República Dominicana, em 1946, em Cayo Confites; assiste ao chamado Bogotazo, quando do assassinato de Jorge Eliecer Gaitán, em 1948, em Bogotá; em 1953 idealiza e comanda – ao lado de Abel Santamaría – o assalto ao quartel Moncada, no dia 26 de julho, que seria as origens do movimento revolucionário que finalmente triunfa em 1959 em Cuba.
Podemos destacar o internacionalismo como um de seus principais legados como dirigente revolucionário. Esse valor fundamental para a construção de uma nova sociedade se materializou nas políticas do governo revolucionário cubano com o restante do mundo em luta contra o imperialismo. Cuba é conhecida em sua história pela solidariedade entre os povos. É importante recordar, nesse sentido, o envio de milhares de missões de brigadas de médicos em países esmagados pelo imperialismo e pelo envio de tropas e de apoio logístico para as lutas de libertação nacional do continente africano nos anos 1960 e 1970, entre outros.
O Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, cujo nome se inspira em uma das principais articulações internacionalistas promovidas por Cuba – a conferência Tricontinental de 1966 -, tem entre suas linhas de atuação recuperar a memória das lutas e dos grandes revolucionários para manter viva a chama pela transformação social.
Desde o Brasil, temos realizado um trabalho para fortalecer esses laços de solidariedade e as lutas sociais, e a colaboração em conservar o legado de Fidel Castro é parte disso. Entre os anos de 2020 e 2022, em que vivíamos a pandemia da Covid-19, o Instituto trabalhou em uma pesquisa – a pedido do Centro Fidel Castro em Cuba – sobre a presença do comandante-em-chefe em nosso país. Foram recolhidas muitas reportagens, alguns vídeos e muitos relatos em torno das diversas passagens de Fidel pelo Brasil; esse material, hoje, compõe o acervo do Centro Fidel Castro e está disponível para pesquisa.
Foram muitas as pessoas que participaram desse processo. Gostaríamos aqui de fazer um agradecimento especial ao companheiro Vladimir Sacchetta (in memoriam), que dedicou sua vida à recuperar a memória da classe trabalhadora brasileira e que participou ativamente dessa pesquisa entregue ao Centro Fidel.
Essa publicação tem o objetivo de dar continuidade a esse trabalho e procura demonstrar a relação entre os povos cubanos e brasileiro desde o triunfo da revolução até a morte de Fidel Castro em 2016. É comum entre os cubanos o pensamento de que falar de Fidel é falar da Revolução Cubana, celebrar Fidel é celebrar a Revolução Cubana. Nesse sentido, trazemos aqui algumas das tantas influências que a pequena ilha revolucionária, por meio de seu dirigente máximo e de seu povo, teve no Brasil como contribuição à luta pela transformação da sociedade em nosso país.
Seis ruas no Brasil levam o nome de Fidel Castro. Quase todas no Nordeste – Feira de Santana/BA, Fortaleza/CE, São José do Ribamar/MA e Caruaru/PE – e uma no Pará, em Parauapebas. Pouco diante do impacto que o revolucionário cubano teve sobre a América Latina e também sobre o Brasil. Mas, justo, considerando que o próprio Fidel exigiu que, depois de sua morte, sua imagem não estivesse em estátuas, nem nomeasse ruas em Cuba. O certo é que, cem anos depois de seu nascimento e dez anos após a sua morte, seu legado permanecerá no país, resultado de longos anos de amizade e de nove visitas ao Brasil.
Em abril de 1959, quando a Revolução Cubana ainda não completara quatro meses, o primeiro-ministro Fidel Castro desembarcava no Brasil pela primeira vez. Quarenta e quatro anos depois, em 1º de janeiro de 2003, o mesmo Fidel assistia, em Brasília, à posse de um operário metalúrgico como presidente da República. Entre esses dois marcos, estende-se uma longa e calorosa relação política.
A Revolução Cubana de 1959 foi, para a esquerda latino-americana, um divisor de águas. Como sintetiza Löwy (2006), ela deslocou o eixo do marxismo continental do reformismo dos partidos comunistas tradicionais para o horizonte da revolução, irrigando guerrilhas, a teologia da libertação e uma nova esquerda que não cabia mais nos marcos tradicionais. O Brasil não foi exceção. O exemplo cubano atravessou as Ligas Camponesas, o movimento estudantil e, mais tarde, a esquerda, que se reorganizaria sob a ditadura e refundaria suas forças na redemocratização.
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1. Da Revolução Cubana (1959) ao golpe militar no Brasil (1964)
Quando Fidel desembarcou em Congonhas, na noite de 29 de abril de 1959, quinhentas pessoas o aguardavam com faixas vermelhas e a palavra “libertad” pintada em branco. O revolucionário vinha dos Estados Unidos, onde levara 35 mil pessoas ao Central Park. Parava no Brasil a caminho de Buenos Aires, onde participaria da reunião do Comitê dos 21 da Operação Pan-Americana, iniciativa que o presidente brasileiro Juscelino Kubitschek havia lançado em 1958, tentando convencer os Estados Unidos a investirem em cooperação econômica no continente.
A primeira passagem de Fidel pelo Brasil é curiosa. Foi a mais longa e, em certo sentido, a mais livre. Fidel permaneceu cerca de uma semana no país, cumprindo um programa intenso entre São Paulo, Brasília e o Rio de Janeiro. O governo Kubitschek manteve com Cuba uma cordialidade pragmática. Reconheceu o governo revolucionário sem alarde, manteve as relações diplomáticas e tratou Castro como hóspede ilustre. Fidel foi recebido por políticos de todos os partidos, pelo presidente Juscelino e por seu vice João Goulart, mas também encontrou-se com o deputado e jornalista Carlos Lacerda, principal líder de direita, e foi discretamente advertido pelo Ministro da Guerra, marechal Teixeira Lott, sobre os fuzilamentos, alegando que “o povo brasileiro não admitia violências”.
O traço decisivo dessa primeira viagem, contudo, não está na agenda oficial, mas na recepção popular. Fidel tornou-se rapidamente uma figura de grande apelo. O momento mais inusitado desta primeira viagem certamente foi a participação de Fidel no programa de televisão Esta é a sua vida, exibido no horário nobre e o campeão de audiência da TV Tupi, onde o convidado era homenageado com a alternância entre cenas de sua vida e perguntas feitas de improviso, ao vivo. Na Esplanada do Castelo, discursou por duas horas e vinte minutos em comício organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE).
Fidel não se encontrou com os comunistas, que viam o líder cubano com desconfiança. Pouco depois da vitória em Havana, o secretário-geral do PCB, Luiz Carlos Prestes, havia qualificado Fidel como um “aventureiro pequeno-burguês”.
Naquele momento, a Revolução ainda não se declarara socialista — o que ocorreria apenas em 1961, às vésperas da invasão da Baía dos Porcos —, e Cuba não se encontrava alinhada à União Soviética. A cordialidade entre Havana e o Brasil de JK exprimia, antes, uma confluência efêmera: de um lado, a política externa de matiz independente que ganharia corpo com Jânio Quadros e João Goulart; de outro, a aposta cubana na unidade latino-americana, tema que Fidel já enunciava em 1959 e que percorreria, como um fio vermelho, todas as suas viagens posteriores ao país.
A formalidade e as pompas com que Fidel foi recebido em sua primeira viagem seriam menores do que o impacto de outro gesto diplomático brasileiro, dois anos depois, em 22 de agosto de 1961, quando o novo presidente brasileiro, Jânio Quadros, condecorou Ernesto Che Guevara, no Palácio do Planalto, com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a mais importante comenda nacional. A homenagem brasileira, promovida por um presidente de centro-direita, era ainda mais impactante se considerarmos que, meses antes, os cubanos repeliram a tentativa de invasão dos mercenários dos Estados Unidos em Playa Giron e, na sequência, Fidel Castro declarava publicamente o caráter socialista da Revolução.
Três dias depois da homenagem, Jânio Quadros renunciou à Presidência, alegando a ação de “forças ocultas”. Imaginava que o gesto desencadearia uma reação popular que o devolveria ao cargo, mas foi apenas o último episódio folclórico de um governo breve, frágil e oscilante. Entretanto, o ato de Jânio resultaria indiretamente em outro episódio que chamaria a atenção dos cubanos.
Os militares e os partidos conservadores tentaram impedir a posse do vice-presidente João Goulart, o Jango, um trabalhista, mas frequentemente acusado de comunista por sua passagem pelo Ministério do Trabalho do presidente Getúlio Vargas e pela relação com o movimento sindical. Além de tudo, Jango estava justamente na China quando Jânio renunciou. Contra o golpe, levantou-se o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, iniciando uma mobilização popular no seu Estado e articulando uma cadeia de emissoras de rádios para organizar a resistẽncia e deter o golpe. A rede da Legalidade de Brizola venceu, o golpe foi inviabilizado e João Goulart tomou posse. O gesto de resistência do governador gaúcho seria mencionado pelo próprio Fidel em seu discurso sobre as conclusões da Primeira Reunião Nacional de Produção, no teatro Chaplin, em Havana, e seria determinante no futuro.
O governo João Goulart deu continuidade à Política Externa Independente iniciada no breve mandato de Jânio Quadros. Em pleno contexto da Guerra Fria, onde o mundo dividia-se entre os blocos capitalistas e soviéticos, o Brasil ensaiou brevemente um caminho alternativo, se descolando do alinhamento unilateral e subordinado aos Estados Unidos que sempre marcaram sua diplomacia. Mais do que uma opção ideológica, a política externa independente se apoiava na ideia de um pragmatismo econômico e comercial: se não estivesse alinhado a nenhum bloco, o Brasil teria mais oportunidades e vantagens. Mas a nova orientação diplomática também aproveitava-se dos ventos do Movimento dos Países Não-Alinhados, surgida a partir da Conferência de Bandung, na Indonésia, em 1955, e da ideia de Terceiro Mundo. De maneira que o Brasil apoiava a soberania e a autodeterminação dos povos, especialmente a libertação dos países africanos de língua portuguesa.
Em janeiro de 1962, em Punta del Este, Uruguai, realizou-se a VIII Reunião de Consulta dos Chanceleres Americanos convocada pelos Estados Unidos, com o nítido objetivo de expulsarem Cuba da Organização dos Estados Americanos. A humilhante derrota imposta pelos cubanos na Baía dos Porcos ainda ardia em Washington. A delegação brasileira chefiada pelo chanceler San Tiago Dantas teve um papel fundamental e liderou o grupo formado por Argentina, Bolívia, Chile, Equador e México, que se abstiveram de votar pela exclusão de Cuba. Quatorze países, a maioria pequenos Estados centro-americanos e caribenhos pressionados financeiramente, votaram a favor. Ainda que a vontade estadunidense tenha se consumado, politicamente Punta del Este foi uma derrota para Washington, pois seis dos países mais importantes do continente recusaram-se a chancelar a operação.
Um segundo episódio, mais dramático, marcaria definitivamente a relação entre Brasil, Cuba e os Estados Unidos. Em Outubro de 1962, em resposta à instalação de mísseis estadunidenses numa base na Turquia e direcionados à Moscou, a União Soviética pretendia instalar seus mísseis em Cuba, direcionados aos Estados Unidos. No dia 22 de Outubro, o presidente João Goulart recebia das mãos do embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, uma carta assinada pelo presidente estadunidense John Kennedy, dirigida a todos os presidentes latino-americanos, onde anunciavam a existência dos mísseis, as medidas que pretendiam tomar, incluindo o uso de forças militares contra Cuba, e exigiam o apoio irrestrito de todos os países.
Com cautela, para não confrontar diretamente o governo dos Estados Unidos, a posição brasileira defendia que uma comissão da Organização das Nações Unidas (ONU) primeiro constatasse realmente a presença das armas em território cubano antes de qualquer medida. O Brasil tentava ganhar tempo para as negociações, ao mesmo tempo que recusava qualquer intervenção armada contra o povo cubano, como consta na resposta enviada por João Goulart para Kennedy:
A defesa do princípio de autodeterminação dos povos, em sua máxima amplitude, tornou-se o ponto crucial da política externa do Brasil, não apenas por motivos de ordem jurídica, mas por nele vermos o requisito indispensável à preservação da independência e das condições próprias sob as quais se processa a evolução de cada povo (…) E é na atuação de V. Ex., no seu espírito declaradamente pacifista, que depositamos a esperança de que não sejam usadas contra Cuba medidas militares capazes de agravar o risco já desmedido da presente situação. Para tudo que possa significar esforço de preservação da paz, sem quebra do respeito à soberania dos povos, pode V. Ex. contar com a colaboração sincera do governo e do povo do Brasil. (Carta enviada para o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy. Brasília, 24 de outubro de 1962, p. 2-3. Arquivo San Tiago Dantas (AP47), Caixa 36, pacotilha 3. Arquivo Nacional. Rio de Janeiro/ RJ.182 apud Domingos, 2014, p.178)
Porém, nos debates na Organização dos Estados Americanos (OEA), a posição brasileira seria menos contundente, favorável à inspeção dos navios e ao bloqueio estadunidense à Cuba, mas se abstendo do uso de força militar contra o país. A posição publicamente confusa do governo não impediu que houvesse manifestações de solidariedade à Cuba e contra os Estados Unidos:
Brizola, Governador do Rio Grande do Sul, Sérgio Magalhães, Presidente da Frente Parlamentar Nacionalista (FPN), Almino Afonso, líder da bancada do PTB na Câmara Federal, o CGT, a União Nacional dos Estudantes (UNE), intelectuais, enfim, diversos setores da opinião pública se manifestaram contra a arbitrariedade de Washington. Houve comícios em todo o País, realizados pelos sindicatos e associações estudantis. As manifestações, pelo seu vigor, evidenciaram o acirramento do antiamericanismo. Alguns dirigentes comunistas, que tentavam conter a exaltação dos ânimos, nem sempre alcançaram êxito. E, no Rio de Janeiro, os líderes do CGT, moderados, não conseguiram evitar que uma concentração de massas, em frente da antiga Câmara dos Deputados, se convertesse em passeata de protesto e marchasse contra a Embaixada dos Estados Unidos, tendo que enfrentar bombas de gás lacrimogêneo, jatos d’água e outras violências da Polícia de Lacerda (Moniz Bandeira, 1978, p. 81).
Dois anos mais tarde, Fidel reconheceria que os “dois países que defenderam firmemente a política de não intervenção e o direito de autodeterminação foram o Brasil e o México” (CASTRO, 1964).
A crise dos mísseis foi solucionada longe da América Latina, nas negociações entre os Estados Unidos e a União Soviética. Mas a posição brasileira foi mais um dos muitos pontos de desconfiança do governo estadunidense em relação ao de João Goulart. Publicamente, aumentariam as críticas e pressões de Kennedy sobre o governo brasileiro. Aumentaram também os financiamentos de agências dos Estados Unidos aos movimentos de oposição no Brasil, as articulações do embaixador Lincoln Gordon com os golpistas e se preparou inclusive uma operação, Brother Sam, que apoiaria militarmente os golpistas com porta-aviões, navios de escolta e petroleiros. E, finalmente, entre 31 de março e 1º de abril de 1964, o golpe empresarial-militar derrubou João Goulart, com o novo regime sendo reconhecido imediatamente, em menos de vinte e quatro horas, por Washington.
Em 19 de abril de 1964, justamente no discurso em comemoração do terceiro ano da vitória em Playa Girón, Fidel condenou o golpe no Brasil, declarando que este foi
um golpe contra o continente (…) não só contra o Brasil mas também contra Cuba. (…) Mas não foi um golpe apenas contra Cuba socialista e revolucionária, foi um golpe contra o movimento democrático, não mais o movimento de esquerda, não mais o movimento socialista, não mais o movimento comunista. Não! Foi um golpe, inclusive, contra as forças progressistas, não socialistas e não comunistas! (…) O golpe de Estado, dirigido não apenas contra o Brasil, mas contra o movimento democrático no continente, tinha por objetivo suprimir um dos pilares dessa política, suprimir uma das principais resistências aos planos intervencionistas, não apenas contra Cuba, mas também contra os panamenhos e contra qualquer país da América Latina. E por isso, para os imperialistas, era fundamental derrubar o governo brasileiro — não um governo socialista, nem de longe —, mas um governo que mantinha uma política internacional independente e que resistia firmemente aos planos intervencionistas dos Estados Unidos contra Cuba e contra outros povos da América Latina.
Poucas semanas depois, em maio, o ditador Castelo Branco anunciava o rompimento das relações diplomáticas com Cuba. Seguiria-se um longo silêncio. Com o golpe de 1964, o Brasil alinhou-se ao esforço hemisférico de isolamento da ilha e a ditadura brasileira inscreveu-se sem reservas no campo anticomunista da Guerra Fria. Não por acaso, Fidel só voltaria a pisar em território brasileiro em 1990 — trinta e um anos depois da primeira viagem. Já em outro mundo e diante de outra esquerda.
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Fidel e as forças populares brasileiras
Como em toda América Latina, o impacto da Revolução Cubana sobre as organizações de esquerda e populares foi imensurável. Por um lado, a experiência cubana rompia com os modelos e fórmulas estabelecidos de um processo revolucionário. Em vez de um partido comunista filiado à alguma Internacional, havia o Movimento 26 de Julho que congregava as ações de greves e do trabalho de base nas cidades, o trabalho com os camponeses, a bandeira da reforma agrária e o uso da luta armada. Mas, principalmente, a Revolução Cubana não havia seguido o modelo de etapas elaborado e divulgado no mundo pela URSS, que previa, primeiro, revoluções burguesas nos países da periferia, para que, depois, alcançassem as revoluções socialistas. Por outro lado, a interpretação equivocada do processo cubano por forças de esquerda gerou um desvio chamado “foquismo”, a ideia de que bastava iniciar um pequeno foco guerrilheiro para que a Revolução se espalhasse. Nessa interpretação, não se compreendeu as muitas dimensões do processo cubano e prevaleceu o aventureirismo militarista, desconectado de qualquer trabalho de base.
No Brasil, nos canaviais nordestinos, nas terras cercadas de latifúndios e entre camponeses que não falavam espanhol, a associação entre a Revolução Cubana e a Reforma Agrária encontrou terreno fértil nas Ligas Camponesas. Elas iniciaram modestamente em 1955, no Engenho Galileia, município de Vitória de Santo Antão (PE), como uma sociedade de auxílio mútuo, fundada por foreiros para garantir caixões para seus mortos. Sob o impacto da repressão patronal e com o auxílio da defesa jurídica do advogado e deputado estadual pelo PSB, Francisco Julião, transformaram-se em uma ferramenta de luta política. Porém, até então, a mobilização camponesa era baseada em parâmetros absolutamente legalistas.
Em abril de 1960, Julião e Clodomir Morais, sociólogo e dirigente das Ligas, acompanharam o então candidato Jânio Quadros em sua viagem a Havana para conhecer a reforma agrária cubana. Na avaliação de Jacob Gorender, Julião
abandonou a orientação seguida com êxito há vários anos e começou a pregar uma concepção socialista coletivizante da reforma agrária. Tornou-se talvez o primeiro a defender uma das ideias-chave dos anos 1960: a do papel principal dos camponeses na revolução socialista, com explícita depreciação da função revolucionária hegemônica atribuída pelo marxismo ao proletariado. Como corolário, a utilização dos meios legais e das lutas parciais foi menosprezada e a via da luta de guerrilhas subiu ao primeiro ponto da agenda (Gorender, 2014 p.45).
A palavra de ordem “reforma agrária na lei ou na marra” ganhou força não apenas internamente nas Ligas, como foi o centro das discussões do I Congresso Camponês, que reunia, além das ligas, outras organizações rurais, como a União de Lavradores e Trabalhadores do Brasil (ULTABs), ligadas ao PCB, e o Movimento de Agricultores Sem Terra (Master), vinculado à Leonel Brizola e ao Trabalhismo.
Paralelo à luta por reforma agrária, Francisco Julião fundou o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), lançado em Ouro Preto, no dia 21 de abril de 1962. Inspirado pela teoria do foquismo, o MRT adotou a perspectiva socialista imediata e orientou-se para a preparação da luta armada, comprando fazendas para instalar campos de treinamento de guerrilha. Porém, em dezembro de 1962, os órgãos de segurança descobriram um desses campos em Dianópolis (GO), o que resultou na apreensão de armamentos e na prisão e tortura de diversos militantes.
Enquanto a ditadura rompia relações diplomáticas com Cuba, por sua vez, na esquerda brasileira, talvez nunca a Revolução Cubana tenha estado tão presente no imaginário quanto durante a ditadura.
Após o golpe empresarial militar de 1964, a principal referência brasileira para os cubanos era Leonel Brizola. Os cubanos não esqueceram nem a coragem do governador gaúcho na organização da resistência contra a tentativa de golpe de 1961 ou na estatização de empresas de comunicação, nem as manifestações de solidariedade com Cuba nos episódios de Playa Girón e da crise dos mísseis.
O Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), criado por Brizola após o golpe, recebeu apoio logístico e treinamento guerrilheiro. A principal ação seria a instalação de um foco de guerrilha na Serra do Caparaó, entre Minas Gerais e o Espírito Santo, no final de 1966. O grupo responsável por iniciar o foco, porém, sofreu com o isolamento e com a falta de preparo para a região, sendo facilmente desmantelado pela Polícia Militar mineira em abril de 1967, sem que chegasse a disparar um único tiro. O fracasso tanto decepcionou os dirigentes cubanos, pondo fim a relação, como o próprio Brizola desistiu das iniciativas militares.
Como consequência desse rompimento, a partir de julho de 1967, as esperanças cubanas de êxito da luta armada no Brasil foram inteiramente transferidas para Carlos Marighella, que havia participado da Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (Olas) em Havana, a revelia do PCB, e que consumaria sua expulsão do Partido no retorno ao Brasil. Foi na capital cubana que Marighella redigiu, em 1968, o texto Algumas questões sobre as guerrilhas no Brasil, dedicado à memória de Che Guevara. Impressionados com o dinamismo do dirigente baiano, a atenção dos cubanos se voltou para a recém-fundada Ação Libertadora Nacional (ALN). Cuba passou a funcionar como o principal centro de instrução militar para a organização, enviando a primeira turma de treinamento ainda em 1967, seguida por mais duas turmas em 1968 e 1969. Embora Marighella tenha adaptado o modelo cubano ao valorizar a guerrilha urbana como uma etapa tática preparatória indispensável, o pressuposto estratégico central continuava sendo o lançamento definitivo das colunas guerrilheiras móveis no campo.
Assim como Marighella e a ALN, muitos outros militantes seguiram o caminho de rompimento com o PCB e com a estratégia do “caminho pacífico” e de aliança com a burguesia. A primeira dissidência do PCB, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), preferiu reivindicar a experiência chinesa e não se aproximou de Cuba neste momento. Mas para as novas organizações, Cuba se tornou um destino: militantes da Ação Popular; do Movimento de Libertação Popular (Molipo); do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), cujo próprio nome ao homenagear Che Guevara já reivindica a experiência cubana; da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) foram outras organizações a treinarem seus militantes em Cuba. Segundo um dossiê do Centro de Informações do Exército de 1972, 219 militantes teriam sido treinados em Cuba (Rollemberg, 2001).
Porém, o período de retorno ao Brasil dos militantes que haviam treinado em Cuba também coincide com o ápice da repressão, assassinatos, desaparecimentos e torturas pelo regime militar, esmagando as tentativas de insurreições guerrilheiras no país. A derrota da via armada seria também do foquismo como estratégia. Porém, Cuba permaneceu sendo um destino de solidariedade e acolhida para muitos exilados brasileiros, como muitos dos presos políticos trocados por embaixadores sequestrados.
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2. Fidel reencontra um Brasil neoliberal
Vinte e dois anos. Esse é o tempo que separa a ruptura diplomática imposta pela ditadura militar, em maio de 1964, da decisão do governo José Sarney de restabelecer as relações com Cuba, em junho de 1986. Durante esse tempo, a embaixada brasileira em Havana permaneceu fechada, a bandeira recolhida, e os contatos entre os dois povos só puderam se dar pela via subterrânea do exílio e da solidariedade clandestina. Quando a bandeira brasileira voltou a ser hasteada oficialmente em Havana, terminava um capítulo da Guerra Fria latino-americana, mas começava outro, violento de outras formas, trocando os porões e torturas dos militares pela ditadura dos bancos e do sistema financeiro.
A retomada das relações com Cuba era resultado do pragmatismo do Ministério das Relações Internacionais e ainda havia enfrentado resistência do primeiro chanceler da Nova República, o banqueiro paulista Olavo Setúbal, que defendia um alinhamento prioritário com Washington. Prevaleceu a ideia de superar a bipolaridade da Guerra Fria, não exatamente por motivos ideológicos, mas para demonstrar que a Nova República, o país que emergia do fim da ditadura, era autônomo e poderia se mover sem tutela pelas relações internacionais.
A expectativa era maior da parte cubana. Segundo o embaixador Ítalo Zappa relatou ao Itamaraty no documento intitulado Cuba. Evolução da Situação Interna. A difícil estratégia de Fidel Castro e o Brasil, o próprio Fidel se mostrou “na expectativa e na ansiedade de iniciar o diálogo no mais alto nível com o Brasil”, em “firme disposição de deixar para trás todos os dogmas”. Fidel sabia que o Brasil seria, dali em diante, o sócio possível, o único país do hemisfério com peso econômico suficiente para representar uma alternativa à asfixia que George H. W. Bush, ex-diretor da CIA recém-empossado na Casa Branca, preparava para a ilha. A esperança era nada modesta: o Brasil retomava a democratização, dirigia-se à Constituinte de 1988 e projetava-se como liderança continental do Cone Sul.
Mas o cenário no país não era tão promissor. Em março de 1990, Fidel desembarcou no Brasil depois de trinta e um anos para a posse de Fernando Collor de Mello, o homem que se elegera prometendo desmontar o Estado, reduzir tarifas e abrir o mercado à concorrência internacional. O símbolo da revolução continental encontrava um defensor do Consenso de Washington, o conjunto de políticas que quebraria à força os países da periferia em troca da promessa — não cumprida — de entrarem no “primeiro mundo”.
Porém, foi na estada de março de 1990 que se produziu o reencontro mais denso de Fidel com a esquerda brasileira reorganizada. No Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, ele se reuniu com cerca de cem lideranças de nove partidos e movimentos de esquerda e duas centrais sindicais. Cumprimentou Adão Pretto, então deputado e dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A cena tem o peso de uma passagem de bastão. Era como se Fidel, ao apertar a mão de Pretto, reencontrasse a linhagem das Ligas Camponesas dos anos 1960.
Além disso, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Fidel encontrou-se com mais de mil religiosos e militantes das Comunidades Eclesiais de Base — em reunião presidida, entre outros, por Leonardo Boff e por Frei Betto, frade dominicano que se tornaria um dos principais intérpretes do diálogo entre a Revolução Cubana e a Teologia da Libertação. A teologia da libertação havia construído, ao longo da década de 1980, uma das pontes mais sólidas entre Cuba e o Brasil. Fidel, num gesto que dizia mais que mil discursos, dedicava parte importante de sua agenda a esses interlocutores. Para os religiosos, Fidel era prova viva de que ser cristão era ser revolucionário e que ambas as coisas significavam ser decentemente humano.
Houve ainda um encontro com intelectuais do qual participaram Antonio Callado, Chico Buarque e Fernando Morais. Callado leu uma mensagem de apoio assinada por trezentos artistas e cientistas brasileiros. Foi nessa ocasião que Fidel pronunciou uma fórmula que vale por programa: “Revolução, independência e soberania são inseparáveis em Cuba”. A frase resumia o desafio dos anos 1990: como manter, sob asfixia econômica brutal, o projeto soberano construído desde 1959?
Mais discreto, mas não menos emblemático, foi a ida de Fidel a São Bernardo do Campo para almoçar com a família de Lula. Não houve protocolo, não houve pompa, não houve cobertura ao vivo. “Foi uma tarde muito agradável, muito informal, um almoço de família”, recordaria Fidel décadas depois. Era um dirigente sindical de São Bernardo que recebia um chefe de Estado que conhecera, anos antes, em Manágua, durante o primeiro aniversário da Revolução Sandinista. Uma amizade que se desenrolou por três décadas. Em 1990, ainda era apenas amizade, mas, no futuro, seria determinante para a solidariedade com Cuba e para os projetos de integração do Continente.
Foi também em 1990, em São Paulo, que se realizou o primeiro Foro de São Paulo, sob iniciativa de Lula e do PT, congregando partidos e movimentos de esquerda do continente. O Foro nascia, em parte, como resposta à ofensiva neoliberal e ao desaparecimento do campo socialista. Mas nascia também como espaço em que Cuba podia conversar com a América Latina sem precisar do crivo dos governos. A diplomacia paralela das esquerdas era, naquele momento, mais efetiva.
A ECO-92
Em junho de 1992, o Rio de Janeiro sediava a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92, ou Cúpula da Terra. Era a primeira grande conferência multilateral do pós-Guerra Fria.
Fidel fez um discurso histórico prenunciando a crise ambiental que vivemos hoje: “Uma importante espécie biológica está em perigo de desaparecer devido à rápida e progressiva liquidação de suas condições naturais de vida: o ser humano”. Ele também denunciou o consumismo como “a principal causa histórica da degradação ambiental”. Apontou as sociedades de consumo desperdiçando o que faltaria depois — em alimentos, em água, em energia — a três quartos da humanidade. Recusou a tese, então em moda, da “responsabilidade compartilhada”: era preciso, dizia, falar de responsabilidade diferenciada, porque diferenciados eram os históricos de degradação. E encerrou com a fórmula lapidar que circularia pelas décadas seguintes: “Que desapareça a fome, não o homem” (Brasil de Fato, 2024). Sete palavras. A síntese de um programa. Fidel havia condensado a divergência fundamental entre o ambientalismo do Norte e do Sul. No Riocentro, ele dizia que o problema não era acelerar o crescimento, mas desacelerar o consumo concentrado, assim, ele articulava a crítica anti-imperialista clássica com a crítica ecológica contemporânea.
A Eco-92 marcou também algo que merece destaque: na mesma estada, em encontro com o governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, firmou-se acordo de cooperação que viabilizaria tratamento, em Cuba, a crianças brasileiras atingidas pela contaminação radioativa do Césio-137, tragédia que, em setembro de 1987, expusera 249 pessoas a uma fonte radioativa abandonada em Goiânia (GO). A cooperação Sul-Sul em saúde — que se desdobraria, vinte anos depois, no programa Mais Médicos do governo Dilma Rousseff — começava ali.
No ano seguinte, em julho de 1993, Fidel desembarcou em Salvador para a III Cúpula Ibero-Americana. O tema central de seu discurso foi a crise da dívida latino-americana e o aprofundamento da pobreza. “Nunca houve tantos pobres e marginalizados em nosso continente”, cravou Fidel. As políticas de ajuste impostas pelo FMI, sob o paradigma do Consenso de Washington, tinham produzido abertura comercial sem critério, privatização sem barganha, austeridade fiscal sem proteção social, cujo resultado foram dezenas de milhões de novos pobres. Fidel reuniu-se também com a prefeita de Salvador, Lídice da Mata, e discutiu a contribuição cubana no campo da biotecnologia. A ilha sitiada havia, nas décadas anteriores, investido massivamente em ciência, e era agora pioneira mundial em vacinas (meningite B, hepatite B), em produção de interferon, em medicamentos para doenças tropicais. O contraste com o Brasil neoliberal não podia ser mais didático. A estada em Salvador foi ainda ocasião do reencontro com organizações brasileiras de solidariedade a Cuba, que funcionavam como uma diplomacia popular, organizavam debates, levavam delegações à ilha, traziam estudantes cubanos para o Brasil. Para estas organizações, Fidel disse:
Sei que, para muitas pessoas no mundo, o nosso país se tornou uma esperança, o nosso país se tornou um símbolo, mas isso nos obriga, isso multiplica a nossa responsabilidade, já que temos o dever de trabalhar bem, de otimizar nossos esforços, de trabalhar com inteligência, de trabalhar com heroísmo, para que essa esperança não se perca, para que esse símbolo não se perca, porque o que o imperialismo deseja é fazer desaparecer até a lembrança de Cuba; no entanto, estou convencido de que, mesmo que desapareça até a lembrança de Cuba, o capitalismo mais cedo ou mais tarde será vencido, o neoliberalismo mais cedo ou mais tarde será vencido; porque as lembranças ajudam, os símbolos ajudam, mas ajuda mais a consciência do homem, a mente do homem, as ideias, e se uma ideia justa for destruída, ela renascerá e outras ideias igualmente justas surgirão. Temos a mais firme esperança de que a nossa ideia não será destruída, de que a esperança que Cuba é hoje não será destruída, de que o símbolo que Cuba é hoje não será destruído. Quando conhecemos pessoas como vocês, tão nobres quanto vocês, tão generosas quanto vocês, tão desinteressadas quanto vocês, sentimos que as forças interiores se multiplicam, que o espírito de luta se multiplica, porque já faz tempo que sabemos que não estamos lutando sozinhos, e demonstramos isso no cumprimento das nossas missões internacionalistas: os nossos soldados ajudaram a independência de Angola, os nossos soldados ajudaram a criar as condições para a independência da Namíbia, os nossos soldados com o seu sangue ajudaram a pôr fim, ou a aproximar o fim do apartheid na África do Sul. Os africanos sabem disso e por isso respeitam e querem bem a Cuba, por isso são solidários com Cuba. (…) Vocês representam os povos porque vocês são a expressão nobre do sentimento dos povos, vocês são a expressão dos anseios dos povos por um mundo melhor. Vocês expressam o que há de nobre e de bom no ser humano, e é por esse nobre, bom e generoso que há no ser humano que nós lutamos e lutaremos até a vitória ou a morte!
Na sequência, Fidel discursou no encerramento do IV Encontro do Foro de São Paulo. Elogiando a unidade que se criava ali, Fidel reconhecia as dificuldades enfrentadas por aqueles que lutavam pelo socialismo, mas apresentava as tarefas imediatas e sua convicção na luta:
Creio que hoje, na América Latina, a batalha prioritária é — ao meu juízo — derrotar o neoliberalismo, porque, se não derrotarmos o neoliberalismo, desapareceremos como nações, desapareceremos como Estados independentes e seremos mais colônias do que jamais o foram os países do Terceiro Mundo. Derrotar o neoliberalismo seria criar uma esperança para o futuro, preservar condições para seguir avançando, porque o limite do nosso progresso estará no capitalismo, e não haverá progresso humano se este não se propuser a ultrapassar as fronteiras do capitalismo, mas isso será tarefa de outros momentos, não diria que tarefa de outras gerações. (…) Acredito na luta e, sobretudo, acredito na luta dos povos, acredito na luta das massas, e recentemente tivemos na América Latina importantes exemplos do que o povo pode sem armas — reparem, até mesmo, do que o povo pode sem armas —, do que as massas podem, do que a consciência pode, do que a ética pode, porque, ao mesmo tempo em que estão se produzindo esses fenômenos negativos, há uma inevitável participação maior dos povos nos acontecimentos.
Em janeiro de 1995, Fidel voltou a Brasília para a posse de Fernando Henrique Cardoso. Novamente, havia uma expectativa cubana de que o presidente, intelectual cassado que se exilara no Chile de Allende e na França de Mitterrand, poderia elevar o nível das relações entre os países. Mas, ao longo dos oito anos seguintes, Fernando Henrique privatizou massivamente e subordinou a economia brasileira ao dólar e a diplomacia à Washington. Em 1996, quando os Estados Unidos sancionaram a Lei Helms-Burton, que endurece as condições do bloqueio a Cuba com seu caráter extraterritorial agressivo, o Brasil de FHC nem chegou a articular uma resposta latino-americana à altura. O presidente brasileiro não rompeu as relações, manteve-as em pé, mas tampouco articulou solidariedade ativa ou se opôs com firmeza ao bloqueio que asfixiava a ilha.
A solidariedade fazia falta justamente no momento em que Cuba mais precisava, com os ajustes impostos pela grave crise econômica na ilha com o fim da URSS, o chamado Período Especial (1991-2000), com o socialismo cubano sobrevivendo à custa de um esforço heróico. E foi nesse momento, em meio à escassez aguda, que Cuba começou a desenvolver o que se tornaria um dos seus maiores símbolos, a cooperação médica. A Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), perto de Havana, abriria suas portas em 1999 a milhares de jovens pobres da América Latina, da África e até dos Estados Unidos.
Em 1998, Fidel ainda faria duas visitas ao Brasil. A primeira, não programada, em 31 de agosto de 1998, a caminho da Cúpula do Movimento dos Países Não-Alinhados em Durban, na África do Sul, Fidel fez uma escala técnica de vinte e quatro horas no Brasil. Na ocasião, se encontrou com Antônio Carlos Magalhães, então presidente do Senado. Poucos dias depois, em 6 de setembro de 1998, Fidel retornou ao Brasil, encontrando-se com FHC para falar sobre a economia mundial e a crise russa. As promessas neoliberais já davam sinais de colapso, como o próprio Brasil vivenciaria em breve.
Muito mais simbólica foi a visita seguinte, retornando ao Rio de Janeiro entre 27 de junho e 2 de julho de 1999, para a I Cúpula de Chefes de Estado da América Latina, Caribe e União Europeia. Em discursos curtos, Fidel questionou frontalmente as intenções da Otan de intervir militarmente fora de seu espaço fundador e sem mandato do Conselho de Segurança da ONU. Enquanto o presidente argentino Carlos Menem, naquela mesma cúpula, defendia as “relações carnais com os Estados Unidos” e a privatização total como horizonte regional, Fidel articulava a tese contrária: “Mais do que uma ‘nova arquitetura’ para um sistema velho e caduco, o que urge é demolir até os alicerces o sistema financeiro estabelecido e criar outro verdadeiramente honesto, democrático, equitativo e humano, que ajude a erradicar a pobreza e a salvar o mundo”.
Seguindo viagem, recebeu, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a medalha “José Bonifácio”. Ali, levou a discussão sobre o imperialismo no nível cultural, por meio dos monopólios dos meios de comunicação e da batalha de ideias:
Acho que, mais do que armas, o que os povos precisam são de ideias. A mudança de um tipo de mundo global, desumano, insustentável, que ameaça a vida do planeta, por uma ordem social justa e humanitária que ofereça à humanidade uma oportunidade de sobreviver; um mundo que possa ter um pouco de água potável; um mundo que disponha de ar que se possa respirar; um mundo que possa adquirir os alimentos necessários; um mundo que, com sua rica tecnologia, seja capaz de produzir os tetos de que as pessoas precisam para viver, as escolas de que as crianças precisam para se educar, os medicamentos para preservar a saúde de seus habitantes, a assistência médica indispensável a todos, crianças, jovens e idosos. Por que vão nos falar do século XXI e encher nossa cabeça de ilusões que durem menos que a espuma do champanhe com que muitos da minoria privilegiada do mundo celebram a chegada do novo século?
Ao denunciar novamente a projeção imperial da Otan, naquele momento avançando sobre a antiga Iugoslávia, Fidel também reivindicava uma integração latino-americana:
Nós, latino-americanos, falamos o mesmo idioma, temos a mesma cultura, viemos mais ou menos das mesmas etnias; aqui não existem bases para as chamadas limpezas étnicas. Somos um conjunto de povos pacíficos que soubemos viver em paz durante muito tempo, com suas exceções. Temos muito mais fatores que nos unem, e vejam como os do Norte querem, inclusive, destruir elementos integrantes da nossa cultura; o idioma é um deles, muito importante; a mistura que somos de europeus, índios e africanos e, segundo as leis da biologia, os híbridos costumam ser mais vigorosos, mais fortes, e até mais inteligentes.
E, por fim, Fidel estendeu sua agenda para falar a jovens no 46º Congresso da UNE, em Belo Horizonte. Quarenta anos depois daquele comício na Esplanada do Castelo, voltava a falar para os estudantes brasileiros. Estava mais velho, mas não menos consciente e ousado. Em seu discurso, Fidel enfatizava novamente a integração, não apenas regional, mas propondo uma outra forma de globalização:
Estão chegando os tempos de pensar na pátria mundial; estão chegando os tempos de pensar no mundo, porque este mundo inexoravelmente se globalizou sob a filosofia do mais triste e cruel dos conceitos ou das concepções, que é um mundo globalizado sob a égide de uma superpotência única e em prol de um mundo unipolar, não para salvá-lo, mas para destruí-lo; não para trazer a justiça de que todos precisamos, mas para nos escravizar ainda mais, se possível, para nos saquear ainda mais, se provável, para nos humilhar ainda mais, para destruir nossos sonhos, que são indestrutíveis, para destruir nossas culturas, que devemos preservar e multiplicar, porque união não significa o fim das culturas. União, integração e justiça significam a possibilidade de preservar tudo o que amamos. Cultura, pátria que nunca deixaria de existir, ainda que cheguemos ao máximo da união e desintegração. Sonhamos com um mundo que não seja regido por uma falsa monocultura universal, mas com um mundo onde subsistam e se desenvolvam todas as culturas; um mundo onde subsistam e se desenvolvam todos os idiomas, ainda que inventemos alguns, ou utilizemos alguns, ou confiscamos alguns se for necessário, porque um idioma pode estar a serviço de uma boa ou de uma má causa.
Fidel denunciava ainda os riscos da proposta da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e exortava a integração entre os países latino-americanos. Ele ainda precisaria esperar quatro anos e uma mudança política significativa no continente para que tanto a Alca fosse derrotada, quanto a integração pudesse ser impulsionada.
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3. Lula, Fidel e a retomada da aproximação Brasil-Cuba
Durante a primeira década do século XXI, a América Latina viu a ascensão de governos progressistas em diversos países da região, iniciada ainda com Chávez em 1999. No Brasil, Lula venceu as eleições presidenciais em 2002, na Argentina, Kirchner em 2003, Tabaré Vasquez, no Uruguai, em 2004, Evo Morales na Bolívia em 2006 e Rafael Correa no Equador em 2007. Estes governos significaram um rompimento com a política econômica neoliberal implementada desde os anos de 1970 na América Latina.
Cuba, por sua vez, desde o início dos anos 1990, passava por um dos momentos mais difíceis da Revolução, a perda de suporte econômico a partir da dissolução da União Soviética, o chamado período especial. Na ilha, este período foi atenuado com a chegada das forças bolivarianas ao poder na Venezuela, e com o consequente Acordo Energético de Caracas (2000), que colocou na ordem do dia a integração de Cuba com os demais países da América Latina.
Neste contexto, as conquistas dos movimentos sociais e dos governos progressistas em relação à proposta dos Estados Unidos de recolonização da América Latina pela criação da Alca (2005) inauguram um novo momento político na região, com o olhar voltado para a integração regional. Em seu discurso de posse, Luís Inácio Lula da Silva afirmou: “hoje é o dia do reencontro do Brasil consigo mesmo”. E, àquela época, poderíamos, mesmo, pensar tratar-se de um reencontro da América Latina consigo mesma.
Corrobora essa ideia a fala de Lula em seu discurso, proferido durante o Fórum Social Mundial de 2003, em Porto Alegre:
O nosso país, durante 500 anos, ficou olhando para a Europa. Está na hora de olhar para a África e para a América do Sul. Está na hora de se estabelecer novas parcerias, para que a gente possa ser mais independente, fortalecer o Mercosul e estabelecer uma força política para negociar. Não podemos aceitar o que está acontecendo durante 40 anos, o bloqueio a Cuba.
São sintomáticas, nesse sentido, a criação de organizações internacionais como a UNASUL (2008) e a CELAC (2010-2011), e, do ponto de vista dos movimentos sociais, da ALBA Movimentos.
Não é dado menor, aliás, o de que, à época, saíram rumores na mídia nacional de que pretendia-se adiar a posse de Lula só para possibilitar a presença de Fidel – que deveria estar, na mesma data, em Cuba para as comemorações do quadragésimo quarto aniversário da Revolução. Tampouco pode-se ignorar que, ao mesmo tempo, José Dirceu, um dos líderes do governo eleito no Senado, via-se obrigado a discutir com seus pares acerca da legitimidade do convite ao líder revolucionário.
Apesar das polêmicas, efetivou-se a presença na posse de Lula como a última visita do líder cubano ao Brasil. Meses depois, em setembro do mesmo ano, Lula e representantes do governo visitaram a ilha, sinalizando novos contornos para a relação entre Cuba e Brasil. Este encontro resultou na assinatura de 12 acordos de cooperação em diferentes áreas estratégicas, como, por exemplo, na saúde, na produção de etanol e na pesquisa petrolífera. O objetivo do governo brasileiro era ampliar os investimentos no desenvolvimento econômico.
As trocas comerciais entre Brasil e Cuba alcançaram 530 milhões de dólares em 2008. Símbolo dos investimentos brasileiros em Cuba foi a revitalização do Porto de Mariel, que somou, ao longo dos anos, 682 milhões de dólares provenientes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A esta iniciativa, soma-se a criação da Zona Econômica Especial de Mariel, que teve por objetivo dirimir os efeitos do cerco econômico imposto pelo bloqueio criminoso dos EUA, haja vista a importância estratégica daquele espaço para a circulação de mercadorias pelo Caribe.
Programa Mais Médicos e a cooperação internacional em saúde
“Nosso país não lança bombas contra outros povos, nem manda milhares de aviões para bombardear cidades. Mandamos médicos, não bombas. Médicos, e não armas inteligentes de pontaria certeira. Nosso país será capaz de enviar médicos que se necessitam aos lugares mais distantes do mundo.”
Fidel Castro.
Em 1999, Fidel inaugurou a Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), em Havana. Ao explicar as razões de sua criação, afirmou: “A ideia de um programa integral de saúde e de uma Escola Latino-Americana de Ciências Médicas nasceu de dois terríveis furacões que açoitaram o Caribe e a América Central, causando um impressionante número de vítimas mortais e incalculável prejuízo material. Entre as nações afetadas estão as duas mais pobres do hemisfério.”
Os furacões Georges e Mitch, ambos ocorridos em 1998, devastaram diversos países do Caribe e da América Central, entre eles Honduras, Nicarágua, Haiti, República Dominicana e Cuba. A resposta do governo cubano combinou, por um lado, o envio imediato de brigadas médicas às regiões afetadas e, por outro, a criação da ELAM, destinada a formar gratuitamente profissionais de saúde oriundos de países em desenvolvimento. Tratava-se de transformar uma ação emergencial em uma política permanente de cooperação internacional.
Em 2005, durante a formatura da primeira turma da ELAM, Fidel informou que, dentre os estudantes que cursaram medicina em Cuba, 629 eram brasileiros. Ele sintetiza a concepção cubana acerca das práticas médicas da seguinte maneira: “O capital humano pode mais que o capital financeiro. Capital humano significa não só conhecimentos, mas também consciência, ética, solidariedade, sentimentos verdadeiramente humanos, espírito de sacrifício, heroísmo e capacidade de fazer muito com muito pouco.”
Ao deixar a presidência de Cuba, em 2008, Fidel legava ao país uma política externa marcada por uma diplomacia da solidariedade. O envio de profissionais da saúde, a formação gratuita de estudantes estrangeiros e a cooperação entre países do Sul Global não foram senão algumas de suas manifestações.
Esse projeto encontrou terreno fértil na nova conjuntura política latino-americana. Ao mesmo tempo em que Fidel denunciava a morte anual de centenas de milhares de crianças de nossa américa por “doenças evitáveis” e pela escassez de médicos nas regiões mais pobres do continente, governos progressistas buscavam ampliar o acesso à saúde. Nesse cenário, Brasil e Cuba assinaram, entre 2011 e 2012, uma série de acordos de cooperação que prepararam o caminho para a participação cubana no Programa Mais Médicos, lançado pela presidente Dilma Rousseff em 2013.
O programa tinha como objetivo enfrentar um problema histórico da saúde pública brasileira: não apenas a insuficiência de profissionais, mas sua extrema concentração nas grandes cidades. Estruturado em três eixos — provimento emergencial de médicos, ampliação da formação médica e investimentos em infraestrutura — o Mais Médicos levou atendimento básico a cerca de 63 milhões de brasileiros entre sua criação e o ano de 2016. Segundo o então ministro da Saúde, Alexandre Padilha, mais de onze mil médicos cubanos participaram da iniciativa. Para milhões de moradores de áreas rurais e periferias urbanas, o primeiro médico com o qual se teve contato foi cubano.
O sucesso do programa não impediu que ele se transformasse em um dos principais alvos da direita brasileira. Desde sua criação, a presença dos médicos cubanos foi objeto de campanhas de desinformação e ataques políticos, apesar da mensurabilidade de seus efeitos. Em 2019, já sob o governo Bolsonaro, Cuba retirou seus profissionais do programa após mudanças nas condições estabelecidas para a cooperação, encerrando uma das mais importantes experiências de integração regional na área da saúde realizadas na América Latina.
Integração regional e a reinserção internacional de Cuba
A ascensão dos governos progressistas na América Latina tornou possível para Cuba um processo de reinserção regional, que rompeu, em grande medida, com o isolamento diplomático imposto pelos Estados Unidos desde a década de 1960.
A fim não só de superar os diversos efeitos da intervenção imperialista na ilha, mas de também avançar na construção do socialismo na América Latina, Fidel Castro passou a desempenhar, nos primeiros anos do século XXI, um novo papel: o de articulador de um projeto de integração latino-americana baseado na cooperação entre os povos e na defesa da soberania regional.
A rejeição da proposta da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), durante a IV Cúpula das Américas, realizada em Mar del Plata, em 2005, marcou simbolicamente o início desse novo ciclo. A convergência entre governos como os de Hugo Chávez, Néstor Kirchner e Luiz Inácio Lula da Silva inviabilizou o principal projeto hemisférico defendido por Washington e abriu espaço para o fortalecimento de mecanismos próprios de integração, como a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba), criada em 2004, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), em 2008, e, posteriormente, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), fundada em 2011. Cuba aqui participou da construção da Celac, organismo que, pela primeira vez, reuniu todos os países latino-americanos e caribenhos sem a presença dos Estados Unidos e do Canadá.
Nesse contexto, o Brasil desempenhou papel importante na reinserção diplomática da ilha. Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em junho de 2009, quando a Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), reunida em Honduras, revogou a suspensão de Cuba da organização. A decisão foi resultado de um amplo consenso entre os países latino-americanos, construído com a participação ativa da diplomacia brasileira. Embora Cuba tenha optado por não retornar à OEA, por considerar que a organização permanecia subordinada aos interesses estadunidenses, a revogação da suspensão representou o reconhecimento do fracasso de quase cinco décadas de isolamento diplomático.
Outro episódio que mobilizou amplamente a solidariedade latino-americana foi a campanha internacional pela libertação dos Cinco Heróis Cubanos — Gerardo Hernández, Ramón Labañino, Antonio Guerrero, Fernando González e René González — presos nos Estados Unidos entre 1998 e 2014 sob acusação de espionagem. No Brasil, partidos políticos, sindicatos e movimentos populares organizaram atos públicos, abaixo-assinados e campanhas pela libertação dos prisioneiros. Em 2012, centenas de entidades brasileiras encaminharam uma carta ao presidente Barack Obama solicitando a libertação dos cinco cubanos, evidenciando que a solidariedade à Revolução Cubana extrapola as relações diplomáticas entre governos e alcança amplos setores da sociedade civil organizada.
Fidel, Cuba e os movimentos populares: a experiência do MST
Se a integração regional aproximou governos, ela também fortaleceu os vínculos entre Cuba e os movimentos populares latino-americanos. Entre as organizações brasileiras, destaca-se a relação com o MST, cuja trajetória de intercâmbio político, formação de militantes e cooperação internacional atravessou mais de três décadas.
Essa aproximação possui raízes profundas. Desde os primeiros meses da Revolução, Fidel Castro compreendia que a transformação do campo seria decisiva para consolidar o novo projeto revolucionário. A Primeira Lei de Reforma Agrária, promulgada em maio de 1959, rompeu com a histórica concentração fundiária da ilha e tornou-se um dos principais símbolos da Revolução Cubana. Pouco depois, em 1961, foi criada a Associação Nacional de Pequenos Agricultores (Anap), responsável por organizar os camponeses. Décadas depois, essas experiências se transformariam em importantes referências para o MST, que via na reforma agrária cubana não apenas uma política de redistribuição de terras, mas um projeto de transformação social articulado com a construção de um projeto popular de país.
Os intercâmbios entre Cuba e o MST intensificaram-se a partir da década de 1990 e ganharam novo impulso durante os governos progressistas. Brasileiros vinculados ao Movimento ingressaram na ELAM, retornando posteriormente ao Brasil para atuar em assentamentos e outras áreas. Ao mesmo tempo, dirigentes e militantes participaram de cursos de formação política, visitas técnicas e intercâmbios promovidos por organizações cubanas, consolidando uma rede permanente de cooperação entre os dois países, especialmente nos temas de cooperação e agroecologia.
O desenvolvimento da agricultura constitui um importante eixo dessa aproximação. Durante o Período Especial, a escassez de combustíveis e fertilizantes levou Cuba a desenvolver uma experiência de transição agroecológica. Organizado pela Anap, o Movimento Agroecológico Camponês a Camponês difundiu um método baseado na troca e na valorização de conhecimentos entre agricultores. Transformado em movimento de massas a partir de 2001, o Movimento Agroecológico Camponês a Camponês alcançou mais de cem mil famílias agricultoras e tornou-se referência para organizações da América Latina, entre elas o MST.
Os vínculos entre Cuba e o MST fortaleceram-se também por meio da educação. Além da já mencionada ELAM, outras iniciativas cubanas também inspiraram os movimentos brasileiros. A campanha nacional de alfabetização de 1961 transformou Cuba no primeiro país latino-americano a erradicar o analfabetismo. No Brasil, o MST incorporou a metodologia cubana de alfabetização, Sim, eu posso!, em assentamentos e territórios de atuação do Movimento, contribuindo para alfabetizar mais de cem mil pessoas.
Ao longo dos anos, militantes do MST participaram de brigadas de trabalho voluntário em Cuba, enquanto campanhas de solidariedade organizaram o envio de sementes, alimentos e medicamentos buscando enfrentar os impactos do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos.
No V Congresso do MST, em 2007, uma carta enviada por Fidel reconhecia a longa amizade mútua entre o movimento e o povo cubano:
Companheiros e companheiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra,
Com sinceros sentimentos de solidariedade, lhes envio uma fraternal saudação na ocasião em que ocorre o seu 5º Congresso. É uma satisfação enviar esta mensagem a vocês, que são a genuína expressão da justa luta por um mundo melhor, sem exclusão nem exploração.
O Movimento Sem Terra é um dos mais destacados e combativos movimentos sociais que lutam por este mundo melhor. É também um dos mais organizados em suas ações e profundos em suas concepções, como partes integrantes de um estilo de trabalho, no qual se destaca a discussão coletiva e a austeridade como características relevantes.
Do Movimento Sem Terra, temos recebido a solidariedade e o alento, em nossa longa e dura luta frente ao império mais poderoso que jamais existiu e para construir uma sociedade de justiça e equidade social.
Observo com interesse o projeto de estabelecer, em conjunto com a Via Campesina, uma escola latino-americana de agroecologia para formar 250 jovens camponeses, a cada semestre, como agrônomos ecologistas. É um excelente projeto, do qual se beneficiará a agricultura latino-americana e caribenha.
Para mim, também é motivo de alegria saber que vocês já contam com 20 jovens médicos brasileiros surgidos das filas do Movimento Sem Terra e egressos da Escola Latino-Americana de Medicina, que outros 80 estão estudando ali e mais 40 iniciarão seus estudos este ano, enquanto avança entre vocês o programa de alfabetização de adultos no campo, mediante o método desenvolvido em Cuba e prazeirosamente cedido ao Movimento Sem Terra, “Yo sí puedo”, em português, “Sim, eu posso”.
A solidariedade de Cuba com os projetos sociais de alto conteúdo humano como esses não faltará. Desejo-lhes êxitos em seu 5º Congresso.
Fidel Castro Ruz”
Sem nunca abandonar a defesa do anti-imperialismo e da soberania nacional, a Revolução Cubana passou a inspirar a esquerda brasileira pela sua influência, sobretudo por meio da cooperação em saúde, da educação, da agroecologia e da solidariedade entre os povos. Nesse processo, a relação construída com o MST tornou-se uma das expressões mais duradouras do legado de Fidel Castro no Brasil.
No dia 19 de Fevereiro de 2008, Fidel surpreendeu o povo cubano e latino-americano ao anunciar sua renúncia aos cargos de Presidente do Conselho de Estado e Comandante-em-Chefe por motivos de saúde. Na sua carta, citava um amigo brasileiro, o arquiteto Oscar Niemeyer:
“Meu dever elementar não é me perpetuar em cargos, ou impedir a passagem de pessoas mais jovens, mas fornecer experiências e idéias cujo modesto valor provém da época excepcional que pude viver. Penso como (Oscar) Niemeyer que é preciso ser conseqüente até o final”.
O legado de Fidel para a América Latina
A morte de Fidel Castro em 25 de novembro de 2016 provocou manifestações em praticamente toda a América Latina. Entre elas, destacam-se as homenagens prestadas por Lula. Em nota oficial, Lula afirmou receber a notícia “como a perda de um irmão mais velho, de um companheiro insubstituível”, definindo Fidel como “o maior de todos os latino-americanos” e lembrando que “seu espírito combativo e solidário animou sonhos de liberdade, soberania e igualdade”. Dias depois, ao participar das cerimônias fúnebres em Santiago de Cuba, ao lado de diversos chefes de Estado e lideranças políticas, voltou a afirmar que Fidel havia sido “o maior homem do século XX”.
Diria Lula:
“Para os povos de nosso continente e os trabalhadores dos países mais pobres, especialmente para os homens e mulheres de minha geração, Fidel foi sempre uma voz de luta e esperança. Seu espírito combativo e solidário animou sonhos de liberdade, soberania e igualdade. Nos piores momentos, quando ditaduras dominavam as principais nações de nossa região, a bravura de Fidel Castro e o exemplo da revolução cubana inspiravam os que resistiam à tirania.”
Juntamente com Lula, Dilma Rousseff e diversos chefes de Estado, o Movimento Sem Terra também esteve presente nos funerais de Fidel. Na época, a nota oficial do MST dizia:
“A história se encarregará de fazer com que a lacuna que se abre nessa data se torne sempre mais larga e profunda. Fidel fará sempre, e cada vez mais, falta junto a todas e a todos que ousam sonhar e lutar por uma humanidade que se encontre, plenamente, com os ideais do humanismo, da democracia, da justiça social e da fraternidade, os ideais de uma humanidade socialista.
O papel do indivíduo na história Fidel o preencheu com a de um Comandante Revolucionário: sábio, incansável, forte e humano. Com a maestria que caracteriza os que entram para a história por seus ideais altruístas, Fidel soube conduzir o Povo Cubano a andar de cabeça erguida, digno, altivo, ciente que é portador da esperança de uma nova sociedade para a humanidade. Juntos, Comandante e Povo, descobriram que a Revolução é cotidiana”.
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Referências Bibliográficas
Aqui está a lista organizada em ordem alfabética, seguindo o padrão ABNT (NBR 6023). Fiz alguns ajustes de formatação (datas de acesso padronizadas, correção de URLs que estavam coladas às datas, e uniformização de itálico/aspas):
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS DE QUÍMICA FINA, BIOTECNOLOGIA E SUAS ESPECIALIDADES (ABIFINA). Governos do Brasil e de Cuba assinam acordos de cooperação em saúde. 2 fev. 2012. Disponível em: https://abifina.org.br/acontece-na-abifina/governos-do-brasil-e-de-cuba-assinam-acordos-de-cooperacao-em-saude/. Acesso em: 20 jun. 2026.
BEZERRA, Gustavo Henrique Marques. Da revolução ao reatamento: a política externa brasileira e a questão cubana (1959-1986). Brasília: FUNAG, 2012.
CASTRO RUZ, Fidel. Discurso proferido pelo Dr. Fidel Castro Ruz, Presidente da República de Cuba, na inauguração da Escola Latino-Americana de Ciências Médicas. Cubadebate, 15 nov. 2019. Disponível em: http://pt.cubadebate.cu/noticias/2019/11/15/discurso-proferido-pelo-dr-fidel-castro-ruz-presidente-da-republica-de-cuba-na-inauguracao-da-escola-latino-americana-de-ciencias-medicas/. Acesso em: 22 jun. 2026.
______. Discurso pronunciado por el Comandante en Jefe al clausurar la “Conferencia Mundial Diálogo de Civilizaciones. América Latina en el siglo XXI: Universalidad y Originalidad”. Havana, 30 mar. 2005. Disponível em: http://www.cuba.cu/gobierno/discursos/2005/por/f200805p.html. Acesso em: 22 jun. 2026.
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