O futuro já nasceu e é uma menina | A posição estrutural na reprodução da força de trabalho
É fundamental entendermos a relação entre produção e reprodução para a manutenção do capitalismo, compreendendo a invisibilidade histórica dos trabalhos voltados à reprodução social, e também quais são os possíveis novos espaços de pertencimento e de identidade coletiva a partir da realidade concreta dos trabalhadores e trabalhadoras do Sul Global.
Outro desafio que temos é manter a vigência dos nossos posicionamentos, sendo coerentes com as lutas e demandas das comunidades, coerentes com a força histórica que demonstra nosso povo, com suas capacidades e talentos. Temos o desafio de continuar concretizando essa rebeldia.
Berta Cáceres
A conjuntura aponta dois grandes desafios para a organização da classe trabalhadora: primeiro, compreender quem são os sujeitos históricos da transformação em um mundo do trabalho absolutamente fragmentado, o que exige uma análise da totalidade que considere as relações de produção e reprodução social, e, o outro, reconstruir a esperança coletiva de que essa transformação é possível. São tarefas extremamente complexas e, ao que parece, não será possível avançarmos sem compreendermos o protagonismo das mulheres, cis ou trans, e sua posição estrutural na reprodução da Força de Trabalho.
O avanço do neoliberalismo trouxe consequências devastadoras não só para as condições materiais da classe trabalhadora e sua capacidade de sobrevivência, mas também em relação às suas formas de organização e resistência. As novas formas de acumulação flexível do capital reconfiguram o trabalho assalariado baseado na retirada de direitos, flexibilidade, informalidade, competição e precarização. Este trabalhador precarizado, informal, que fica pouco tempo no mesmo trabalho, encontra dificuldades de criar coletivos de solidariedade e luta a partir de sua identidade enquanto trabalhador.
É necessário compreender essa realidade a partir das últimas décadas. No Brasil, diferente de outros países de economias centrais e alguns da América Latina – como em alguns momentos do peronismo argentino -, o fordismo não garantiu um Estado de Bem-Estar Social e nem pleno emprego e altos salários. O fordismo periférico (1950-1980), caracterizado pelo sociólogo Ruy Braga (2012), é fundamentado na superexploração do trabalho e na combinação do trabalho formal e informal. Dialogando com o sociólogo Francisco de Oliveira (2003), Braga reflete que o desenvolvimento do fordismo no Brasil foi baseado em uma modernização conservadora que manteve parte significativa da classe trabalhadora em situações de precariedade, uma industrialização sem inclusão e com salários insuficientes, sem consolidar um pacto social robusto.
A transnacionalização da economia e a imposição dos padrões produtivos vinculados ao Toyotismo abriram espaços para que o neoliberalismo chegasse sem grandes comoções. Ainda que pudéssemos ver o ascenso das lutas populares das décadas de 1970 e 1980, a classe trabalhadora tradicional (operária) não teve força suficiente para barrar o avanço neoliberal, dadas as condições apresentadas e pela forma que estava organizada naquele período, visto que a ideologia operária não abarcou a grande massa de trabalhadores no Brasil, que já nasce precarizada e informal e encontra ecos no discurso de Estado ineficiente.
O “país do futuro” não se concretizou para a massa trabalhadora, a promessa de dignidade pelo emprego, antes um sonho, se tornou um pesadelo: o fantasma iminente do desemprego, humilhações no trabalho, longas horas no transporte público, jornadas extenuantes, salários insuficientes, assédio sexual e competitividade entre trabalhadores. Mesmo em momentos de avanço do número de postos no emprego formal, a maioria das vagas criadas no último período foram de baixos salários e baixa especialidade.
Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), em fevereiro de 2025 – mês com recorde de criação de novos empregos formais -, mais de 70% desses empregos com carteira assinada eram de 1,5 salário mínimo, sendo a maioria deles na área de serviços e ocupados por mulheres.
Esse não é um fenômeno circunscrito ao Brasil, e pode ser visto em todo o Sul Global. Estar trabalhando não garante uma vida digna. Segundo análise realizada na página da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 2025, quase 8% da população que trabalha no mundo vive na extrema pobreza (menos de 3 dólares/dia), sendo que na África subsaariana 40% dos trabalhadores em atividade vivem na pobreza ou extrema pobreza, e em todos os continentes do Sul Global os jovens são os mais suscetíveis a serem trabalhadores pobres. Neste contexto, como resgatar a esperança frente à vulnerabilidade da juventude? Além disso, mais da metade da população mundial está na informalidade, algo que aparece como estrutural ao olharmos para os países do Sul Global.
Nesse cenário, não é demais lembrar que as mulheres são as mais afetadas. No Brasil, são elas que ocupam a maioria dos empregos de baixa remuneração. Ao olharmos para os dados do mundo inteiro, as mulheres ganham apenas um pouco mais da metade da renda dos homens, seja no trabalho formal ou informal. Essa proporção é pior para mulheres dos países árabes e do continente africano. Além disso, as mulheres estão em menor número no mundo do trabalho. Em 2023, menos da metade das mulheres do mundo (48,7%) estavam no mercado de trabalho, enquanto a maioria dos homens (73%) estava trabalhando. Um dos principais motivos que explicam estes dados está relacionado ao trabalho doméstico e de cuidado.
Quem são os responsáveis por este trabalho no mundo? Na verdade, são as responsáveis. Tanto no Norte quanto no Sul Global, quem cuida e quem limpa segue sendo as mulheres, principalmente as mais vulneráveis. No Brasil, as mulheres dedicam o dobro de horas semanais nas tarefas reprodutivas não remuneradas; as mulheres negras dedicam mais tempo do que as brancas; e as com menos renda mais do que as de maior renda, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nesse contexto, a informalidade para as mulheres é muitas vezes a única opção possível de conciliar trabalho e cuidado, principalmente para as mais pobres que não podem, por questões econômicas, terceirizar esse serviço.
Vale também questionar como, o por quê e as consequências do trabalho de reprodução e de manutenção da força de trabalho seguir sistematicamente sendo atribuído às mulheres. Dentre as várias dimensões que esta afirmação nos coloca, a influência sobre a inserção no mundo do trabalho é inquestionável.
Segundo a OIT, em 2023, 708 milhões de mulheres justificaram sua não participação no mercado de trabalho por conta da responsabilidade do cuidado, enquanto apenas 40 milhões de homens usaram a mesma justificativa. Esses dados pioram significativamente para mulheres com filhos pequenos (menores de 6 anos), mulheres de baixa escolaridade e mulheres que vivem em áreas rurais. As consequências também são radicalmente diferentes entre o Sul e o Norte Global. Alguns dados são importantes para a nossa reflexão: 63% das mulheres no norte da África não estão trabalhando, enquanto esse percentual cai para 28% na África subsaariana. Isso se dá por conta da altíssima informalidade da região, em que 90% das trabalhadoras são informais. Assim, ainda que estejam no mercado de trabalho, estão em condições de extrema precarização, mas que possibilita conciliar trabalho e cuidados, aprofundando ainda mais sua sobrecarga.
Trabalho reprodutivo
Ao nos debruçarmos sobre o mundo do trabalho e os dados referentes à questão de gênero da classe trabalhadora, principalmente a partir do Sul Global, percebemos que os ataques aos trabalhadores nunca estiveram restritos apenas ao trabalho produtivo. Os trabalhadores não atuam apenas em seu local de trabalho. Eles necessitam voltar para casa, lavar os unifomes, levar os filhos à escola ou ao parque, cuidar da alimentação da família, entre tantas outras tarefas. Mas a forma que esse trabalho é realizado e por quem ele é realizado afeta todo o mundo do trabalho.
Este trabalho não remunerado, que acontece no âmbito privado, pode ser dividido em três blocos. O primeiro bloco as tarefas que envolvem garantir que as pessoas estejam preparadas para voltar ao trabalho no dia seguinte: assegurar a alimentação, a limpeza do espaço, as roupas lavadas e o cuidado com a questão física e psíquica. Um segundo bloco que se refere à maternidade, envolvendo a gestação e a criação de novos sujeitos que vão compor a força de trabalho futura. Por fim, um bloco relacionado ao cuidado com as pessoas que estão fora da esfera reprodutiva, permanentemente ou temporariamente, como pessoas com deficiência incapacitante, idosos e crianças (Arruzza, Bhattacharya, 2023). É possível imaginar todo esse trabalho não sendo realizado? O capitalismo compreende isso perfeitamente e não ataca a classe trabalhadora apenas em seu local de trabalho, mas também nos espaços privados da classe. Sua vertente neoliberal, ao atacar os serviços públicos com o fechamento de creches e privatização de serviços essenciais, como a água, por exemplo, deixa a classe ainda mais vulnerável e com maior dificuldade de resistência aos retrocessos no local de trabalho (Bhattacharya, 2019).
São jornadas infinitas que não raramente impedem as mulheres de continuarem seus estudos ou terem espaços de cultura, lazer e militância, além do descanso. Sua responsabilidade com o trabalho reprodutivo não remunerado afeta também sua inserção no trabalho formal, impactando os salários.
Enquanto isso, os homens seguem trabalhando (no mercado formal) mais horas que as mulheres, dado que as mulheres são sistematicamente impossibilitadas de se dedicarem a este tipo de trabalho em tempo integral. Segundo análise do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), no Brasil, 39% das mulheres ocupadas recebiam até um salário mínimo, sendo que esse percentual sobe para 49% quando falamos de mulheres negras. Portanto, nunca é demais reforçar que não é possível pensar em transformação radical da sociedade sem considerarmos a cor e o gênero da nossa classe.
Não há legislação ou políticas públicas que ao menos remediem essa condição para o número global de trabalhadoras no Brasil, dado que as proteções trabalhistas para as mulheres estão limitadas às trabalhadoras formais. Além disso, essa proteção é de médio prazo. Não são raros os casos de mulheres demitidas após voltarem da licença maternidade. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, metade das mulheres perdem seus empregos até dois anos depois de voltarem ao trabalho. As saídas ocorrem no âmbito privado de acordo com as possibilidades concretas de cada indivíduo – principalmente com a rede de apoio envolvida, quase sempre, de outras mulheres ou meninas.
O capitalismo, ao separar as esferas produtivas e reprodutivas, transferindo predominantemente às mulheres a responsabilidade sobre o cuidado, reforça assim a base material da opressão sobre as mulheres. Essa opressão não está vinculada apenas às horas que elas dedicam ao trabalho doméstico e de cuidados, mas na importância deste trabalho para manutenção e sustentação do sistema capitalista (Ferguson; McNally, 2017). Apesar deste trabalho ser imprescindível para a manutenção da vida, segue invisibilizado e socialmente menosprezado. Nos parece necessário, portanto, entender a relação entre produção e reprodução para manutenção do capitalismo, compreendendo a invisibilidade histórica dos trabalhos voltados à reprodução social, e também quais são os possíveis novos espaços de pertencimento e de identidade coletiva a partir da realidade concreta dos trabalhadores e trabalhadoras do Sul Global. Seriam as lutas em relação à reprodução social uma possibilidade estratégica de mobilização da sociedade em torno de um projeto de futuro? Como isso pode se vincular às lutas pelo alimento, pela moradia, pela educação? É possível que a tarefa do cuidado não remunerado, compreendida no senso comum como relacionada ao âmbito privado, se transforme em luta popular e coletiva? Temos nossa própria história para nos inspirar.
Lição histórica
O ascenso das lutas de massa no Brasil nas décadas de 1970 e 1980 não pode ser compreendido sem a luta das mulheres nos territórios pauperizados da classe trabalhadora. A partir delas e da realidade concreta, como a organização da reprodução da vida no capitalismo e a luta por creche, postos de saúde e transporte, as mulheres puderam protagonizar grandes vitórias por melhorias nas condições de vida de toda a classe trabalhadora. Essas lutas são expressões da organização das mulheres pela manutenção da sobrevivência, em um contexto em que Estado e o capital jogam para as famílias o ônus da reprodução da vida. Temos diversas experiências na nossa história que confirmam o papel das mulheres como protagonistas das lutas nos territórios da classe trabalhadora, como, por exemplo, o Movimento Contra Carestia. Na década de 1970, durante a ditadura empresarial-civil-militar no Brasil, mulheres das periferias de São Paulo iniciaram um grande movimento popular que dialogava com as necessidades concretas das mulheres trabalhadoras: o aumento do preço dos alimentos, assim como das contas de água e luz e dos transportes, impactavam diretamente a vida cotidiana das cuidadoras (Vigliar, Silva, 2021). A ação dessas mulheres – pobres e moradoras das periferias – ganhou força, se massificou, tornando-se um marco na luta popular para além do custo de vida. O Movimento Contra a Carestia foi reconhecido naquele momento como o maior movimento de mulheres de resistência à ditadura e foi fundamental para o processo de redemocratização.
Isso nos mostra que as mulheres, histórica e culturalmente responsabilizadas pelo trabalho reprodutivo e sobrecarregadas pelas múltiplas jornadas de trabalho, ainda assim conseguiram, de forma dialética, se organizar politicamente a partir das opressões vivenciadas em seus cotidianos. Os territórios da classe trabalhadora não são neutros ou frutos apenas de dinâmicas exteriores aos seus espaços, são sim a dialética das relações de exploração, opressão e luta vivida entre as classes (Souza, 2026, prelo). Esses territórios que foram palco de lutas populares puderam vivenciar ao longo das décadas novas formas de sociabilidade forjadas pela necessidade de resistências, resultado de uma sociedade que aprofundou a miséria de seu povo.
São territórios em disputa, mas que contém ainda o germen da transformação impulsionados pela sobrevivência das mulheres que puderam experienciar a solidariedade em sua forma concreta e cotidiana: a vizinha que leva o filho na escola, a avó que cuida das crianças enquanto a mãe trabalha, a farinha do bolo que acabou e foi completada por outra vizinha ou, ainda, a união e articulação advinda da dor e do medo compartilhados pela violência contra elas e os filhos nos territórios periféricos. Há indícios no posicionamento político dessas mulheres que nos coloca o questionamento: é possível que essa solidariedade vivida e praticada historicamente pelas mulheres seja uma potencial blindagem contra as falácias neoliberais da supremacia do indivíduo frente à sociedade?
A força, criatividade e resistência do povo trabalhador não pode ser vista apenas como uma romantização da miséria. Diferentemente disso, é tarefa fundamental compreender que as lutas e as transformações não partem de vazios, e que a classe trabalhadora não está apenas apática frente à sua realidade, mas que vive na prática processos de resistências que devem ser catalisados para as lutas coletivas e transformações radicais.
Voltando aos desafios iniciais colocados nesse texto, não é possível encontrarmos na América Latina um único modelo de sujeito revolucionário (Linera, 2026), ou seja, o trabalhador produtivo. Em uma sociedade marcada estruturalmente pela precarização e informalidade, o “trabalhador produtivo” não será sozinho o protagonista dos processos de transformação radical que almejamos. Mas junto aos sujeitos e, em especial, às sujeitas que estão nos territórios fomentando lutas, poderão coletivamente traçar o horizonte – e a esperança – de um futuro livre de opressões. Será a partir da diversidade histórica, cultural, racial e étnica de nosso povo que podemos pensar em sujeitos que dialeticamente se tornarão classe organizada rumo às transformações necessárias contra a barbárie e o fim da humanidade que nos aterroriza. Ao percorrermos os territórios periféricos, não é difícil percebermos a cor e o gênero de quem está à frente das resistências cotidianas individuais e também coletivas. A realidade concreta aponta que contra as formas mais profundas de opressão, a solidariedade não é só uma vontade individual, ou um “chamado” místico e religioso, mas uma necessidade que não coloca outra alternativa às mulheres se não vivenciá-la em sua radicalidade, no sentido literal da palavra. Os territórios da classe trabalhadora estão em luta e são as mulheres, sobretudo as racializadas, que seguem à frente dessa tarefa, construindo cozinhas solidárias, economia popular, hortas, sendo agentes de saúde, produzindo alimentos saudáveis, lutando por moradia digna, buscando vagas na creche, fazendo ocupações. Que possamos perceber que esse novo mundo, solidário, popular e liderado pelas mulheres, já está em construção.
Referências Bibliográficas
ARRUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; Teoria da Reprodução Social: elementos fundamentais para um feminismo marxista In: Contemporânea v. 13, n. 2 p. 619-651. Maio–Ago. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.14244/contemp.v13i2.1258 Acesso em: 23 abr. 2026.
BHATTACHARYA, Tithi. O que é a Teoria da Reprodução Social? Revista Outubro, ed. 32, p. 99-113, 2019.
BRAGA, Ruy. A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. São Paulo: Boitempo, 2012.
FERGUSON, Susan; MCNALLY, David. Capital, força de trabalho e relações de gênero. Revista Outubro, n. 29, p. 23-59, 2017.
LINERA, Álvaro Garcia. Reconstruir a Esperança. São Paulo: Expressão Popular, 2026.
OLIVEIRA, Francisco de.Crítica à razão dualista / O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003.
SOUZA, José Gilberto. Por uma concepção classista de território: ontogênese, poder e crítica. Rio Claro: IGCE/UNESP. 2026. 19p. (prelo)
VIGLIAR, Carolina; SILVA, Carolina de M. R.. A luta das mulheres contra a carestia. A Verdade, São Paulo, 9 set. 2021.
¹Delana Corazza é pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
²Carolina de Mendonça Rodrigues Silva é mestranda no Programa de Pós-Graduação Integração da América Latina (PROLAM-USP).
³Teresa Maia integra o Projeto Brasil e é pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.