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Wenhua ZonghengVol. 3, No. 2

A fratura do Espectro Ideológico Global e a Reglobalização do Século XXI

Desde o século XX, as ideologias políticas modernas ao redor do mundo têm sido mapeadas em um espectro binário esquerda-direita. Esta é uma abstração altamente simplificada, mas que efetivamente encapsulou a estrutura das orientações e lutas políticas tanto no interior de quase todos os países e regiões quanto entre eles por mais de um século. Um estudante de graduação em ciência política poderia enquadrar as ideologias políticas e os valores de todos os partidos e regimes neste espectro, determinando assim identidade, estabelecendo alinhamentos políticos e elaborando estratégias de luta. Contudo, nas últimas duas décadas, à medida que a globalização pós-Guerra Fria entrou em declínio depois de seu auge, este espectro ideológico se fraturou. A estrutura antes clara tornou-se difusa, e as forças políticas – tanto entre nações quanto no interior delas – se desvincularam do quadro tradicional esquerda-direita.

Este artigo, após delinear brevemente a estrutura do espectro ideológico tradicional esquerda-direita, busca analisar e interpretar os processos e as forças motrizes por trás desta fragmentação, assim como a emergente ecologia ideológica pós-fratura. O objetivo é observar e explorar um novo espectro ideológico emergente e propor algumas ideias relacionadas à ordem mundial do século XXI, que a China está ajudando a remodelar.

Da Revolução de Outubro à Guerra Antifascista Mundial: a grande narrativa da esquerda e da direita

A Revolução de Outubro inaugurou a grande narrativa do espectro ideológico do século XX. A “esquerda” incorporava o ideal comunista, as instituições socialistas e a visão de mundo internacionalista defendida pela União Soviética. Embora tivesse sido fundamentada em mais de meio século de pensamento marxista, esta “esquerda” surgiu abruptamente como uma força política e produto da grande Revolução de Outubro. A “direita”, como força antagônica, evoluiu ao longo de trinta anos, começando com o confronto do capitalismo e do feudalismo contra a União Soviética e culminando, em última instância, no fascismo, que, com o capitalismo de Estado como sua fundação econômica, passou a ocupar a extremidade do espectro da direita.

Dentro desta grande narrativa global, os Estados Unidos e certos países da Europa Ocidental ocupavam uma posição intermediária: eles se opunham ao comunismo da esquerda ao mesmo tempo que resistiam ao fascismo da direita. Sua política doméstica se desdobrava dentro de uma pequena narrativa “esquerda-direita” – ou seja, a luta entre o campo de esquerda influenciado pela União Soviética e representando os interesses do trabalho, e o campo da direita sustentando o capitalismo e representando os interesses do capital. Nesta narrativa menor, a política estadunidense do pós-guerra se deslocou para a esquerda; a política doméstica, por fim, se consolidou no New Deal de Roosevelt, que protegeu o trabalho, enquanto os EUA se aliaram à União Soviética para travar uma guerra decisiva contra o fascismo.1

Durante o mesmo período, a política da China estava posicionada em uma zona intermediária, mas com uma tendência de inclinação à direita. Após o fracasso da aliança entre o Kuomintang e os comunistas, aquele emergiu como uma força política que defendia firmemente os interesses das classes feudais e capitalistas dominantes. Domesticamente, o governo do Kuomintang empregou métodos fascistas para reprimir o Partido Comunista da China (PCCh). Contudo, por ter que confrontar a agressão japonesa e por depender do apoio estadunidense, ele foi incapaz de seguir um caminho fascista internacionalmente.

Naquela época, a vasta maioria das nações colonizadas e submetidas ao imperialismo na África, América Latina e Ásia em geral tendiam para a esquerda. Sua postura de esquerda refletia-se primariamente em suas posições anticoloniais e anti-imperialistas, assim como em sua luta pela independência nacional, com o marxismo-leninismo servindo como uma arma ideológica crítica contra o colonialismo e o imperialismo.2 Desde então, a noção de soberania transcendeu a divisão esquerda-direita. As forças políticas em países e regiões anticoloniais engajadas em lutas de esquerda se uniram contra o imperialismo ao lutar pela soberania em escala global. No Ocidente, em oposição ao internacionalismo predominantemente de esquerda, emergiram o nacionalismo de extrema-direita (incluindo o fascismo) e facções soberanistas de direita. Nos Estados Unidos, as forças políticas que se opunham à participação na Grande Guerra e na Guerra Mundial Antifascista e resistiam à adesão à Liga das Nações pertenciam a esta última categoria.3

De modo geral, as lutas esquerda-direita dessa época estavam centradas nas convulsões sociais colocadas em movimento pela Revolução Industrial e seu impacto disruptivo em múltiplas dimensões. Dentro dos países industrializados, o domínio do capital levou a uma severa desigualdade, deixando grandes segmentos da população sem meios de subsistência seguros. Internacionalmente, as potências ocidentais que se industrializaram se engajaram em uma pilhagem global sem precedentes por meio da força. Em termos simples, a direita buscava proteger os interesses estabelecidos do capital e do Estado, enquanto a esquerda lutava pelos direitos dos trabalhadores e pela independência e libertação dos povos que haviam sido saqueados e colonizados.4

A política esquerda-direita da China naquele período espelhava este padrão global, caracterizada pela fusão da revolução comunista com a luta pela independência nacional – uma combinação que se tornou um elemento fundacional da construção do Estado da China moderna e influenciou profundamente sua trajetória futura.

A Guerra Fria: socialismo ou capitalismo?

Após a Guerra Mundial Antifascista, o mundo rapidamente entrou em uma Guerra Fria marcada pelo confronto entre os dois grandes blocos liderados pelos Estados Unidos e pela União Soviética. O espectro ideológico entre esquerda e direita tornou-se particularmente claro neste período. Durante o meio século de Guerra Fria, o bloco do Pacto de Varsóvia, liderado pela União Soviética, e o bloco ocidental baseado na OTAN, liderado pelos Estados Unidos, moldaram uma distinta paisagem global esquerda-direita. Muitos países em desenvolvimento do Terceiro Mundo escolheram lados, enquanto alguns permaneceram neutros. Por exemplo, as Filipinas e a Argentina se alinharam com a direita, enquanto a maioria das nações africanas tendia para a esquerda. Nesta paisagem global, a esquerda era representada pelo socialismo e pelo internacionalismo liderado pela União Soviética, enquanto a direita era representada pelo capitalismo e pelo “soberanismo” liderado pelos Estados Unidos.5

Dentro destes dois blocos, as dinâmicas políticas oscilavam em um espectro esquerda-direita menor. No Ocidente, a “esquerda” englobava a política do Estado de bem-estar social dentro de um arcabouço capitalista, apresentando alta tributação, sistemas robustos de bem-estar e proteções trabalhistas, enquanto a direita representava uma política de proteção dos interesses capitalistas por meio de baixa tributação e governo limitado. No bloco soviético, a esquerda significava estrita adesão ao socialismo e à economia planificada, enquanto a direita era representada por defensores da introdução de elementos de economia de mercado dentro do arcabouço socialista.

Durante a Guerra Fria, a posição internacional da China atravessava o espectro ideológico, englobando tanto esquerda quanto direita. Desde a fundação da República Popular da China até a Revolução Cultural, a China era claramente inclinada à esquerda, abraçando uma economia planificada, o internacionalismo e a oposição ao revisionismo. Após a década de 1970, contudo, a China se afastou cada vez mais da União Soviética, estabeleceu relações diplomáticas com os Estados Unidos e começou a adotar o quadro da economia de mercado liderado pelo Ocidente. Isto foi visto como um deslocamento à direita em muitas análises. Alguns acadêmicos chegaram a classificar as políticas econômicas de Deng Xiaoping como uma forma de neoliberalismo.6

A Era Pós-Guerra Fria e a Globalização

Após o colapso da União Soviética, a paisagem global esquerda-direita passou por mudanças profundas. A grande divisão esquerda-direita em âmbito internacional essencialmente desapareceu, e a direita ocidental dominante da era da Guerra Fria estabeleceu uma hegemonia ideológica unipolar em escala global. Todo o arcabouço ideológico do liberalismo e do neoliberalismo transcendeu a divisão tradicional esquerda-direita, evoluindo para os chamados “valores universais” e a tese do “fim da história”. Muitos acadêmicos se referem a este período como o “momento unipolar”.7 Este quadro ideológico repaginou os conceitos filosóficos do Iluminismo europeu em um complexo ideológico contemporâneo de ideologias políticas, econômicas e geopolíticas que foram agressivamente promovidas mundialmente. Este complexo inclui vários elementos centrais: o indivíduo é a unidade atômica fundamental da sociedade humana, dotado de direitos inalienáveis; eleições multipartidárias e a separação de poderes com freios e contrapesos são os únicos sistemas políticos legítimos; um judiciário independente, desvinculado da política, é o único arcabouço legal legítimo; e a economia de mercado capitalista é considerada o único sistema econômico eficaz para o mundo. Dentro deste quadro, direitos como liberdade de expressão e de imprensa, assim como identidades raciais, de gênero e de orientação sexual – e até mesmo a escolha da identidade de gênero – são vistos como ferramentas e expressões da expansão contínua da soberania individual. A essência da ideologia liberal reside em sua reivindicação de universalidade: os liberais acreditam que seus valores transcendem todas as culturas, religiões, nações e até mesmo a história, e que estes valores devem, em última instância, ser aceitos por toda a humanidade e incorporados no sistema político, nas estruturas econômicas e nas instituições sociais de cada país.

A universalização de uma ideologia enraizada no liberalismo fundamentalista, combinada com políticas econômicas neoliberais, tornou-se a narrativa abrangente dominando o mundo durante este momento unipolar. O espectro ideológico efetivamente se desvinculou da divisão tradicional esquerda-direita e a orientação política de partidos e Estados passou a depender do grau de seu alinhamento com esta grande narrativa liberal. Internacionalmente, os Estados Unidos situavam-se no ponto mais extremo do liberalismo, enquanto o extremo oposto consistia em Estados como a República Popular Democrática da Coreia e a República Islâmica do Irã, que rejeitavam o liberalismo inteiramente. Havia também casos como a Rússia, que oscilou entre uma incorporação total ao liberalismo durante a era de Boris Yeltsin e a resistência durante a era de Vladimir Putin. No front doméstico, partidos políticos em distintos países selecionavam elementos do “cardápio” do liberalismo e neoliberalismo de acordo com seus interesses e posições. Por exemplo, o Partido Democrata nos Estados Unidos inclinava-se culturalmente para a política identitária e defendia a expansão contínua de direitos relacionados a raça, gênero e orientação sexual, avançando assim os direitos individuais. Por esta razão, foram rotulados como liberais de esquerda; contudo, esta “esquerda” divergia fundamentalmente da definição de “esquerda” no espectro ideológico do século XX. Economicamente, o Partido Democrata aproximou-se cada vez mais da agenda neoliberal do Partido Republicano, enquanto ambos os partidos tendiam, cada vez mais, aos interesses do capital. Esta orientação foi denominada conservadorismo de direita, mas também havia se afastado da “direita” do espectro ideológico do século XX. Na política internacional, tanto os intervencionistas liberais do Partido Democrata quanto os neoconservadores do Partido Republicano defendiam o uso de meios políticos, econômicos e até militares para universalizar o liberalismo.

Nesta época, a China mais uma vez ocupou uma posição intermediária. Economicamente, incorporou e desenvolveu uma economia de mercado; política, cultural e geopoliticamente, rejeitou o liberalismo e resistiu ao neoliberalismo no domínio econômico. Como resultado, a economia de mercado da China é definida como uma economia de mercado socialista, seu sistema político como uma democracia popular liderada pelo PCCh, seu Estado de direito como integrado à política, e sua cultura como uma que prioriza a soberania nacional e os interesses coletivos em detrimento do individualismo. No pós-Guerra Fria, a China rejeitou a adesão ao liberalismo e ao neoliberalismo ao mesmo tempo que absorvia aspectos da economia de mercado ocidental, tornando-se assim profundamente integrada à globalização e emergindo como uma de suas forças motrizes mais significativas. Nos assuntos internacionais, a China sustentou os Cinco Princípios da Coexistência Pacífica e resistiu firmemente à universalização do liberalismo ocidental.

A fratura ideológica causada pela transição para um mundo multipolar

A partir da crise financeira de 2008 que eclodiu nos Estados Unidos e reverberou mundialmente até o primeiro mandato de Donald Trump como presidente, a globalização no Ocidente experimentou uma transformação profunda, levando a uma fratura ideológica em escala global. A onda de globalização, que começou no início da década de 1990 após a Guerra Fria, atingiu seu auge com a entrada da China à Organização Mundial do Comércio em 2001 e começou a recuar com a eleição de Trump em 2016. Embora esta onda de globalização tenha sido liderada sobretudo pelos Estados Unidos, que formularam as regras, ela se manifestou pela integração comercial e financeira global. A força motriz subjacente da globalização carregava uma dimensão distintamente ideológica. Em seu núcleo estavam a visão política liberal e seu desdobramento econômico, o neoliberalismo.8 A China rejeitou completamente este núcleo ideológico; contudo, integrou-se plenamente à globalização no nível econômico-estrutural e, ao aderir ao quadro da globalização, tornou-se um participante e líder importante no processo.

A globalização gerou imenso valor econômico: a China ascendeu para se tornar a maior economia do mundo em termos de paridade de poder de compra, enquanto a riqueza geral dos Estados Unidos e do Ocidente também cresceu substancialmente. Contudo, a maioria dos países e regiões no mundo em desenvolvimento viu benefícios limitados. Em uma perspectiva mais crítica, os ganhos da globalização foram distribuídos de maneira extremamente desigual dentro dos EUA e pelo Ocidente. Grupos de interesse da elite capturaram a maior parte da riqueza recém-criada, enquanto as classes médias e baixas arcaram com os pesados custos econômicos e sociais da desindustrialização. Ao mesmo tempo, as perturbações culturais decorrentes da globalização e da ideologia liberal infligiram danos severos ao tecido social das sociedades ocidentais, minando a estabilidade política e o consenso social estabelecidos no Ocidente após a Guerra Mundial Antifascista.9

Entretanto, as alianças militares lideradas pelos EUA e pela OTAN intervieram de forma contundente nos assuntos políticos e econômicos de numerosos países e regiões. Estas intervenções variaram de medidas econômicas via instituições internacionais controladas pelo Ocidente (como o Fundo Monetário Internacional) até a orquestração de revoluções coloridas e até mesmo guerras. Tais intervenções coercitivas em larga escala foram impulsionadas tanto por interesses estratégicos quanto por imperativos ideológicos, culminando no que o historiador britânico Paul Kennedy denominou “hiperextensão imperial”.10 Esta hiperextensão impôs enormes custos estruturais aos EUA e ao Ocidente como um todo, aprofundando suas fraturas sociais e políticas internas.

Neste contexto, o espectro ideológico esquerda-direita relativamente estável do século XX passou por uma fratura significativa.

Estados Unidos

Após o colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria, o grande espectro esquerda-direita essencialmente desapareceu dentro dos Estados Unidos e no Ocidente. A antiga direita tornou-se a totalidade do espectro político, dentro do qual uma divisão ideológica esquerda-direita menor englobava todos os debates políticos. Neste espectro mais limitado, as diferenças em política econômica e externa diminuíram consideravelmente. Economicamente, a esquerda, representada pelo Partido Democrata, havia, desde o Presidente Bill Clinton, abandonado, em boa medida, os interesses dos trabalhadores e se inclinado para o neoliberalismo – defendendo governo reduzido, bem-estar diminuído, proteção do capital e livre comércio. Em âmbito socioeconômico, ambos os partidos ficaram do lado dos interesses capitalistas e promoveram a desindustrialização dos EUA. Em relação à política de imigração, ambos os partidos geralmente apoiavam os direitos dos imigrantes e adotavam posturas relativamente brandas sobre imigração ilegal, diferindo apenas em grau. Nos assuntos externos, o Partido Democrata praticamente abandonou o caminho pacifista antes associado à esquerda ao desenvolver políticas intervencionistas liberais, incluindo o uso de força militar. Clinton e o Primeiro-Ministro britânico Tony Blair foram políticos representativos desta chamada “Terceira Via” ou “Caminho do Meio”, com o primeiro realizando intervenções militares na Iugoslávia e o último apoiando fortemente a Guerra do Iraque.11

A direita era representada pelo Partido Republicano, que deu origem às políticas econômicas neoliberais. Eles apoiavam governo reduzido, impostos baixos, bem-estar limitado, a proteção do capital e o livre comércio de maneira ainda mais incisiva que os Democratas. Nos assuntos internacionais, sua orientação política é guiada pelo neoconservadorismo, que está essencialmente na mesma linha das políticas intervencionistas liberais do Partido Democrata.12 Sob esta direção política compartilhada, durante os 24 anos das presidências de Clinton, George W. Bush e Barack Obama, revoluções coloridas e conflitos militares persistiram sem pausa, e os gastos com defesa aumentaram constantemente.

Dentro deste espectro esquerda-direita reduzido, as diferenças entre os Democratas, com tendência à esquerda, e os Republicanos, com tendência à direita, concentravam-se mais em valores culturais, política racial e políticas ambientais ou climáticas. Os dois lados entravam em choque direto na questão de valores: os Democratas insistiam na legalização do aborto, enquanto os Republicanos buscavam restringi-lo; os Democratas visavam regular a posse privada de armas, enquanto os Republicanos viam o direito às armas como constitucionalmente garantido. Os Democratas defendiam o chamado multiculturalismo, promovendo uma política identitária para minorias étnicas e sexuais. Na política, implementaram o que é conhecido como ação afirmativa proativa, continuamente demandando tratamento preferencial para minorias étnicas e grupos de minoria sexual no acesso à escola e no mercado de trabalho. Ao longo de anos de evolução, estas proposições políticas desenvolveram-se no que é conhecido como “wokeísmo”. A maioria dos Republicanos se opõe a estas políticas identitárias e defende a preservação de uma forma mais clássica de individualismo. Vale notar que a política identitária defendida pelos Democratas não é algo coletivo, mas sim uma manifestação de individualismo amplificado – visando ajudar indivíduos dentro de certos grupos identitários a superar valores sociais tradicionais vistos como barreiras ao desenvolvimento pessoal. A linhagem ideológica do wokeísmo deriva de uma forma extrema do liberalismo moderno.13 Nas questões ambientais e climáticas, os Democratas normalmente defendem regulação mais rigorosa das empresas e leis ambientais mais estritas, enquanto os Republicanos tendem a favorecer mercados livres e menos restrições empresariais.

Este pequeno quadro esquerda-direita foi completamente despedaçado em 2016. De um lado do novo espectro está a ideologia inteiramente nova representada pelo movimento “Make America Great Again” (MAGA), e do outro está a ideologia liberal que abrangeu o centro-esquerda e o centro-direita ao longo do pós-Guerra Fria. Muitos veículos de mídia categorizam o movimento MAGA liderado por Trump como de direita ou até de extrema-direita. Embora algumas das posturas políticas do MAGA – como a oposição à legalização do aborto – alinhem-se com a direita no antigo espectro esquerda-direita reduzido, esta classificação é equivocada. Muitas das posições políticas centrais do MAGA, como o protecionismo comercial e a reindustrialização, estão de fato mais próximas da esquerda no espectro esquerda-direita da Guerra Fria.

A turbulência ideológica causada pelo MAGA foi revelada de forma contundente nos alinhamentos políticos durante a eleição presidencial de 2024. A candidata presidencial democrata Kamala Harris recebeu e acolheu o endosso do ex-vice-presidente republicano Dick Cheney, enquanto a filha de Cheney, Liz Cheney, uma congressista republicana, participou ativamente da campanha para Harris. Há muito tempo Cheney é um político de direita profundamente desprezado pelo Partido Democrata. Muitas figuras do establishment enraizadas no Partido Republicano, incluindo George H. W. Bush e George W. Bush, opuseram-se de forma ferrenha a Trump e ao movimento MAGA desde 2016. A academia ocidental contemporânea, as elites políticas e a mídia mainstream frequentemente rotulam o MAGA e suas contrapartes europeias como “populismo”. Contudo, a definição de populismo aqui permanece vaga. Este é basicamente um rótulo negativo aplicado pelo establishment ocidental para marcar um movimento que está desafiando de maneira essencial as fundações da ideologia liberal como mera ignorância e anti-intelectualismo.

O verdadeiro significado do MAGA vai muito além do que é denominado populismo; ele desmonta o antigo quadro esquerda-direita reduzido e pode criar um novo grande espectro político nos EUA – e potencialmente em todo o mundo ocidental. No discurso político e na terminologia teórica, forças revolucionárias são frequentemente colocadas na esquerda, enquanto forças conservadoras são postas na direita. Visto que o MAGA é claramente um movimento antissistêmico, com sua força opositora sendo as forças relativamente conservadora que buscam preservar a ordem liberal, ele poderia ser provisoriamente colocado na esquerda deste espectro político emergente. Enquanto isso, o establishment liberal tanto do Partido Republicano quanto do Democrata poderia ser posto na direita.

A facção MAGA agora entrou na Casa Branca, conquistou maiorias em ambas as câmaras do Congresso e conta com uma maioria de juízes da Suprema Corte com tendências favoráveis à sua política. Sua orientação de política doméstica vai contra o consenso bipartidário que se formou ao longo de décadas no espectro esquerda-direita reduzido. Em termos de valores culturais, a facção MAGA reverteu a política mainstream das décadas recentes, desmontando rápida e assertivamente numerosas políticas woke no governo e na sociedade e tentando reinstaurar culturalmente valores cristãos tradicionais. Também está aplicando medidas anti-imigração mais rigorosas. Na governança social e econômica, a facção MAGA incorpora uma forma pronunciada de libertarianismo, sendo Elon Musk uma das uma figura mais representativas. É crucial notar que libertarianismo e liberalismo são fundamentalmente diferentes – e em muitos aspectos até opostos. A liberdade libertária é desprovida de valores liberais; é amoral.14 Na política externa, a facção MAGA descartou rápida e abrangentemente todo arcabouço político do establishment liberal. Talvez a mudança de curto prazo mais significativa seja a mudança de posição de um apoio consistente à Ucrânia contra a Rússia para uma grande aceitação da narrativa russa do conflito, contornando a Europa e a Ucrânia para buscar negociações para um cessar-fogo e movendo-se em direção à reaproximação com a Rússia. A visão de política externa do MAGA parece combinar isolacionismo com expansionismo. Embora isto possa parecer contraditório, não precisa ser. A trajetória política da facção MAGA provavelmente se assemelhará ao expansionismo linha-dura ao estilo Theodore Roosevelt, mas desta vez focado no Hemisfério Ocidental, impulsionado sobretudo por interesses realistas com pouco conteúdo ideológico. Há uma probabilidade substantiva de presença militar reduzida dos EUA no Pacífico Ocidental e até na Europa. Além disso, as tendências libertárias do MAGA estão reduzindo fortemente o componente ideológico da política externa dos EUA; intervenções nos assuntos internos de outros países sob o pretexto de “valores universais” provavelmente diminuirão de forma significativa. Nos primeiros cem dias de sua gestão, Trump desmontou várias instituições importantes que haviam impulsionado propaganda ideológica para “revoluções coloridas” no exterior por décadas.15

Os desenvolvimentos mais significativos situam-se no domínio ideológico. A formação do movimento MAGA está enraizada em condições sociais, econômicas e históricas profundas. Durante o pós-Guerra Fria, as forças políticas liberais ganharam comando tanto no Partido Republicano quanto no Democrata, tomando controle dos mecanismos de poder do sistema político dos EUA e do discurso social. Sua divulgação da globalização capitalista, da política woke individualista extrema e da propagação global de valores universais corroeu a coesão interna da sociedade estadunidense, resultando em uma divisão interna sem precedentes em quase um século. Olhando retrospectivamente para as tendências ideológicas dentro dos EUA nas últimas duas décadas, a real linha de fratura não está entre a política tradicional democrata e republicana, mas entre as forças defendendo a ordem liberal pós-Guerra Fria e o contragolpe coletivo de grupos desfavorecidos por aquela ordem. Este último agora parece ter tomado controle do Partido Republicano, enquanto o Partido Democrata permanece firmemente nas mãos do establishment liberal. Agora, os liberais dentro do Partido Republicano, ou estão em silêncio ou abertamente alinhados com os Democratas.

Isso também se aplica em âmbito internacional. O discurso do vice-presidente J. D. Vance na Conferência de Segurança de Munique16 e o confronto no final de fevereiro entre Trump, Vance e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky na Casa Branca esclareceram que a posição dos EUA no espectro ideológico global passou por uma ruptura qualitativa, colocando-o em oposição direta às forças que apoiam a ordem ideológica liberal. As forças políticas iliberais que haviam sido marginalizadas na Europa durante o pós-Guerra Fria – como o Presidente Viktor Orbán na Hungria e a Alternativa para a Alemanha (AfD) – subitamente encontraram um novo e poderoso porta-estandarte. Os EUA agora estão abandonando o consenso bipartidário do intervencionismo liberal e do neoconservadorismo que definiu o espectro esquerda-direita reduzido pós-Guerra Fria, reposicionando-se como um proponente do realismo iliberal. Esta mudança é exemplificada pelas guerras comerciais tarifárias da administração Trump. No passado, as ofensivas econômicas impulsionadas pelo establishment contra a China tinham um enquadramento ideológico. Por exemplo, a administração Biden colocou grande ênfase em unir países liberais que compartilham valores dos EUA para conjuntamente conter a ascensão econômica da China. Em contraste, as guerras tarifárias de Trump têm como alvo todos os países, incluindo aliados ocidentais liberais, com um pragmatismo em que os interesses superam a ideologia. No espectro ideológico da política externa dos EUA, a nova divisão pode ser descrita da seguinte forma: na esquerda, a facção “revolucionária” realista iliberal, e na direita, a facção do establishment conservador liberal.

O impacto do movimento MAGA sobre a China é indubitavelmente profundo. Dado o papel central das relações EUA-China na ordem global do século XXI, suas implicações para o mundo são enormes. No momento, a política dos EUA em relação à China está passando por uma mudança rápida – da estratégia abrangente da administração Biden de alinhamento ideológico, político, econômico e militar voltado para a contenção para um confronto econômico mais unilateral impulsionado pelos interesses dos EUA. Se esta mudança persistirá, resta ver. A abordagem atual da China parece ser uma reação moderada enquanto observa de perto a evolução da situação.

Europa

Uma fratura ideológica semelhante à que ocorreu nos EUA está se desdobrando na Europa, por razões sobrepostas e distintas, embora com intensidade variável. Intelectualmente, muitas nações europeias têm refletido sobre o liberalismo há anos. O modelo de Estado de bem-estar social da Europa tem servido como um contrapeso parcial à desigualdade e fragmentação causadas pelo capitalismo ao estilo estadunidense. Contudo, em muitos domínios sociais e culturais, a política transnacional da UE e o grande influxo de imigrantes – especialmente de países de maioria muçulmana – também estão remodelando as linhas de fratura políticas originais dentro das nações europeias.17 Alguns países ultrapassaram o movimento MAGA dos EUA ao tomar o poder e remodelar suas estruturas socio-ideológicas, sendo Hungria e Polônia exemplos proeminentes e a Itália potencialmente seguindo o mesmo caminho. Nas principais nações europeias, as forças políticas antiliberais e iliberais estão constantemente ganhando terreno. O Reagrupamento Nacional da França, a AfD da Alemanha e as forças políticas que emergiram do Brexit no Reino Unido contam com um apoio popular significativo e têm o potencial de conquistar a liderança nacional. Tendências similares são visíveis em diversos Estados de médio porte, como o Partido pela Liberdade dos Países Baixos, o Direção–Social Democracia da Eslováquia, o Partido da Liberdade da Áustria, assim como na Romênia, onde Călin Georgescu (que foi impedido de concorrer às eleições de maio de 2025) e George Simion (que venceu o primeiro turno da eleição) conquistaram influência notável. Vale destacar que o caminho para o poder das forças antiliberais e iliberais da Europa difere daquele nos EUA, onde o movimento MAGA ascendeu ao poder ao assumir o controle do Partido Republicano. Em contraste, na Europa, estas forças estão frequentemente construindo novos partidos de baixo para cima – um fator que pode resultar em uma maior resistência a ser enfrentada pelas forças iliberais e antiliberais na Europa.

Devido à diversidade e ao número de países da Europa, ainda não emergiu um movimento ou organização política comparável ao MAGA que abarque todo o continente. Por enquanto, podemos tomar emprestado o termo do Primeiro-Ministro húngaro Viktor Orbán, “iliberalismo”, para descrever esta força política que pode estar em processo de subversão da ideologia liberal e do arcabouço institucional da Europa.18 Apesar de operar dentro de ambientes políticos domésticos muito diferentes, estes partidos compartilham posturas muito similares em diversas questões políticas e de políticas públicas. Estão unidos ao clamar por políticas de imigração mais rigorosas; para eles, a imigração não é meramente uma questão econômica mas, mais importante ainda, uma questão de cultura e identidade. A percepção de diluição e erosão da cultura e sociedade europeias causadas pela imigração muçulmana em larga escala tem sido uma fonte crítica do pensamento iliberal na Europa por décadas. Ao mesmo tempo, estes partidos rejeitam o wokeísmo, que se origina, em boa medida, nos EUA, insistindo que a Europa deve sustentar suas fundações culturais cristãs. Este senso de crise decorrente da percepção da erosão da cultura ocidental levou a um fenômeno interessante: algumas forças políticas liberais em países europeus divergiram, pelo menos formalmente, da marca estadunidense de liberalismo identitário quando se trata do chamado multiculturalismo. Alguns até defendem a imposição do secularismo social através de medidas legais, como a legislação francesa que proíbe mulheres muçulmanas de usar véus faciais em público.

Enquanto isso, a determinação dos iliberais europeus de preservar a autenticidade cultural fez com que a maioria dos partidos e organizações iliberais em vários países se opusesse à expansão do poder político da UE e à ideologia liberal por trás dela, defendendo, em vez disso, a preservação da soberania nacional, da integridade cultural e das estruturas sociais. Nos assuntos externos fora da UE, o terreno comum mais significativo entre as forças iliberais da Europa é sua postura pró-Rússia. Com exceção da Itália e da Polônia, quase todos os partidos iliberais defendem a reaproximação com a Rússia e, em graus variados, opõem-se ao apoio contínuo à Ucrânia.

A reeleição de Trump em 2024 forneceu um forte impulso ao pensamento e à política iliberais na Europa. Se estas forças serão capazes de capitalizar este momento para expandir sua influência e capturar mais governos nos próximos anos – ou se, em vez disso, serão constrangidas pelo impacto negativo das políticas “America First” impulsionadas pelos interesses da administração Trump – ainda deve ser analisado.

Para a China, a ideologia e a política iliberais da Europa têm uma história mais longa do que nos EUA, oferecendo pontos de referência valiosos. Um padrão claro é que vários partidos e Estados iliberais importantes são particularmente amigáveis em relação à China. A Hungria destaca-se como o governo mais pró-China na Europa, e a Sérvia compartilha uma orientação similar. A AfD da Alemanha também manteve uma postura consistentemente positiva em relação à China ao longo dos anos. Naturalmente, há partidos iliberais que são mais belicosos em relação à China, como aqueles na Polônia e na Itália, mas mesmo estes não têm sido mais linha-dura do que os regimes liberais – incluindo a própria UE – em relação à China. Da mesma forma, alguns governos liberais tradicionais têm sido relativamente moderados, como a Espanha, que mantém um relacionamento forte com a China.

Rússia e outras forças iliberais ocidentais

Na fratura e evolução em curso do espectro ideológico global, a Rússia é inquestionavelmente um ator central. Se fôssemos posicionar países no grande espectro emergente esquerda-direita, a Rússia indubitavelmente cairia na extrema-esquerda entre as forças revolucionárias antiliberais. Na transformação global do espectro ideológico, a Rússia destaca-se como um dos principais temas de estudo e análise. Na era pós-Guerra Fria, a Rússia experimentou um dos ciclos mais completos de transformação nacional. Com o colapso da União Soviética, a ideologia da Rússia inclinou-se totalmente para o liberalismo ocidental: seu sistema político, estrutura econômica e valores socioculturais foram abrangentemente modelados de acordo com os do Ocidente. Economicamente, o neoliberalismo da Rússia foi ainda mais longe do que o dos EUA. Contudo, durante a década de Yeltsin no poder, o Estado russo sofreu um declínio dramático, passando de uma superpotência global para algo próximo de um Estado falido. Mesmo assim, quando Vladimir Putin assumiu a presidência em 2000, ele inicialmente seguiu o caminho da ocidentalização, até expressando a disposição da Rússia de ingressar na OTAN.19

Contudo, a Rússia contrasta fortemente com os outros ex-Estados soviéticos. Enquanto alguns países menores do Leste Europeu abraçaram o liberalismo por completo e foram absorvidos econômica, cultural e estruturalmente na ordem ocidental, o tamanho e a trajetória histórica da Rússia tornaram tal integração rápida inviável. O que não pode ser integrado deve ser vigiado. Nas mais de duas décadas seguintes à Guerra Fria, o Ocidente abandonou a postura e as promessas feitas de não expandir a OTAN após o fim da Guerra Fria.20 Em vez disso, a OTAN expandiu-se para o leste para incluir a maioria dos países que fizeram parte do Pacto de Varsóvia e muitas ex-repúblicas soviéticas, pressionando assim as fronteiras da Rússia.

Ao mesmo tempo, a própria situação da Rússia passou por mudanças significativas. Putin liderou a Rússia a uma ampla recuperação econômica e social por meio da centralização do poder e ao efetivamente aproveitar a elevação nos preços da energia trazida pelo crescimento econômico global. O status internacional da Rússia melhorou de forma correspondente. Durante este processo de colapso e recuperação, as elites da Rússia e vários estratos sociais começaram a refletir sobre a ocidentalização abrangente que seguiu a Guerra Fria.21 Politicamente, a Rússia não pôde romper de imediato a constituição liberal estabelecida após o fim da Guerra Fria. Contudo, a administração de Putin usou vários mecanismos legais para contornar a intenção liberal da constituição e alcançar os resultados políticos iliberais que a Rússia necessitava. O exemplo mais marcante é a manutenção contínua de Putin no poder por meio da troca estratégica de papéis presidenciais e de primeiro-ministro com Medvedev. Socialmente, Putin consolidou a sociedade civil liberal outrora altamente fragmentada que havia estado em oposição ao governo e a remodelou em uma estrutura social relativamente unificada. A mídia também mudou gradualmente de sua orientação liberal anterior para um ecossistema largamente alinhado com os interesses gerais do Estado. A dimensão econômica é relativamente complexa. Na década seguinte à Guerra Fria, a privatização tornou a economia da Rússia controlada pelo capital ocidental e pelos oligarcas, efetivamente transformando-a em uma economia neoliberal extrema. Após chegar ao poder, Putin eliminou oligarcas com ambições políticas, consolidou aqueles dispostos a se desenvolver sob a autoridade do Estado e reconstruiu diversas empresas estatais, sobretudo no setor energético.22 A economia da Rússia recuperou-se de forma relativamente rápida durante os dois primeiros mandatos de Putin.

Em termos de valores culturais, a era Putin testemunhou o restabelecimento da cultura tradicional central da Rússia. O cristianismo ortodoxo russo passou a moldar um senso abrangente de identidade em todos os aspectos das estruturas políticas e sociais do país. Do colapso da ideologia soviética, passando por uma ampla fase de transformação liberal, até um retorno às suas tradições religiosas e culturais milenares – e construindo coesão social sustentável sobre esta fundação – a Rússia alcançou uma transformação notável. Em termos de valores culturais, a Rússia tornou-se um Estado ideologicamente emblemático para forças não liberais e antiliberais no mundo. Muitas das políticas “anti-woke” da Rússia tem forte ressonância entre os não liberais no Ocidente.23 Movimentos políticos não liberais em vários países europeus geralmente consideram a Rússia como um aliado ideológico, um sentimento compartilhado por numerosas instituições antiliberais e figuras anti-woke nos EUA também.24

Do plano da OTAN para expansão contínua para o leste em 2008 ao conflito da Crimeia em 2014, as tensões entre a Rússia e a aliança militar ocidental liderada pelos EUA atingiram um ponto de ebulição durante o conflito na Ucrânia em 2022, culminando em uma ruptura completa. Com base em seus fundamentos políticos, econômicos e culturais, esta ruptura com o Ocidente fez da Rússia a mais proeminente potência não liberal ou antiliberal do mundo, ocupando uma posição distinta e crucial no novo e emergente espectro ideológico esquerda-direita e continuando a moldar sua evolução em todo o mundo.

Ideologicamente, a Hungria é agora o país mais estreitamente alinhado com a Rússia. Sob a liderança de Viktor Orbán, a Hungria passou por uma transformação política, cultural e social abrangente, reivindicando um modelo de governança e uma identidade ideológica caracterizada como democracia iliberal.25 Com a ascensão contínua do movimento MAGA, forças não liberais nas sociedades ocidentais provavelmente emergirão em maior número, e algumas podem ganhar poder político. Isto promoverá e solidificará ainda mais a formação do novo grande espectro ideológico esquerda-direita em um nível prático.

A trajetória da evolução e desenvolvimento ideológico da Rússia tem implicações profundas para a China, e vice-versa. O colapso da União Soviética e as consequências de sua liberalização generalizada influenciaram profundamente os círculos políticos e intelectuais da China. O engajamento da China com a globalização após a década de 1990 – enquanto mantinha a liderança do Partido Comunista e a ideologia do socialismo com características chinesas – foi, em grande medida, moldado pelas lições extraídas das experiências soviética e russa. Na última década, China e Rússia mantiveram-se unidas ao resistir à dominância unipolar da ideologia liberal ocidental apesar de suas próprias diferenças em ideologia e sistemas políticos. A estreita parceria forjada entre China e Rússia na era pós-Guerra Fria, juntamente com o notável sucesso de desenvolvimento da China, forneceu à Rússia um poderoso exemplo para sua própria reflexão sobre a liberalização.26

O Sul Global

O Sul Global engloba a vasta maioria dos países e regiões fora das nações ocidentais e do Japão. Inclui os Estados africanos mais pobres, as mais ricas potências petrolíferas da Ásia ocidental, potências militares como a Rússia e, naturalmente, os dois principais países em desenvolvimento, China e Índia. O Sul Global é altamente diverso, com vastas diferenças em cultura, religião, história, etnia, fundações econômicas e estruturas sociais. Ideologicamente, muitos países do Sul Global estiveram outrora presos dentro do espectro político esquerda-direita do século XX por várias razões. Alguns eram ex-colônias ocidentais, bastante influenciadas pelos sistemas políticos ocidentais. Outros tomaram lados durante a Guerra Fria, adotando ou a ideologia de esquerda da União Soviética ou os sistemas capitalistas e valores dos EUA e do Ocidente. Mais importante ainda, após a Guerra Fria, a maioria dos países em desenvolvimento abraçou a tese do “fim da história”, transplantando sistemas políticos liberais ocidentais, em geral, para seus próprios países – muitos até copiando constituições literalmente.27 Isto levou à replicação artificial do “espectro esquerda-direita reduzido” ocidental em muitas nações do Sul Global.

À medida que este “espectro esquerda-direita reduzido” pós-Guerra Fria colapsa rapidamente, a trajetória do Sul Global merece um olhar mais atento. A maioria dos países do Sul Global gradualmente se desvinculará da ideologia liberal e avançará em direção ao lado não liberal e antiliberal do novo amplo espectro esquerda-direita. Há duas razões principais para isto. Primeiro, a maioria dos países do Sul Global carece, inerentemente, dos “genes” ideológicos do liberalismo; seus valores e sistemas liberais foram transplantados em vez de cultivados internamente. As culturas e valores de muitos destes países são fundamentalmente antiliberais. O mundo islâmico é um exemplo marcante: países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, apesar de manter laços econômicos e de segurança próximos com os Estados Unidos, resistiram com sucesso à política e aos valores liberais no nível ideológico. A maioria dos países islâmicos – como Indonésia, Malásia e Turquia – provavelmente está avançando em uma direção não liberal ou até antiliberal. A segunda razão é que a incorporação da ideologia e instituições liberais pós-Guerra Fria produziu resultados decepcionantes e desenvolvimento econômico insatisfatório. Em forte contraste, a China, que rejeitou o liberalismo, emergiu como a vencedora da globalização – um fato cuja significância tornou-se cada vez mais clara.28

A relação ideológica entre a China e o Sul Global evoluiu ao longo de três eras. Após a fundação da República Popular, a China participou ativamente e ajudou a liderar o pensamento político do Terceiro Mundo. Começando com a Conferência de Bandung, a China foi um membro central do Movimento dos Não Alinhados. Embora sua postura diferisse daquela da União Soviética nos marcos da Guerra Fria, a orientação da China era claramente de esquerda e socialista. Na era pós-Guerra Fria, a China tornou-se ideologicamente distante dos antigos países de esquerda do Terceiro Mundo enquanto se integrava economicamente à economia globalizada liderada pelo Ocidente. Politicamente, contudo, a China rejeitou a ideologia liberal que o Ocidente buscava universalizar, enquanto a vasta maioria dos países em desenvolvimento adotou o liberalismo e implementou sistemas políticos baseados nele. Desde o 18º Congresso Nacional do PCCh, a relação da China com o Sul Global entrou em um terceiro estágio. Por meio iniciativas como a do Cinturão e Rota, as Três Iniciativas Globais e a visão de uma Comunidade com um Futuro Compartilhado para a Humanidade, a China e o Sul Global mais amplo estão moldando uma era inteiramente nova de pensamento político – uma que será inerentemente não liberal e transcenderá o espectro esquerda-direita do século XX.

O novo grande espectro ideológico: liberalismo versus iliberalismo

Um novo grande espectro ideológico esquerda-direita parece estar emergindo na mídia global, na academia, em círculos políticos e até em setores corporativos e financeiros. A direita consiste no campo unipolar liberal universalista, enquanto a esquerda é composta de forças multipolares não liberais e antiliberais. Na frente ideológica, representantes de direita continuam a sustentar a estrutura unipolar liberal da era pós-Guerra Fria e persistem em promover a universalização da ideologia liberal e sistemas políticos em todo mundo. As forças políticas mais influentes dentro deste campo são o ainda poderoso establishment dos EUA, seguido pelos outros países dos Cinco Olhos, aliados dos EUA no Pacífico e forças políticas mainstream dentro da União Europeia. A esquerda, em contraste, consiste em um amplo bloco de diversos governos e forças políticas iliberais e antiliberais. Enquanto as diferenças internas dentro da direita situam-se principalmente em graus, a esquerda exibe uma diversidade muito maior. O que une a direita é um interesse compartilhado em manter o domínio ideológico do liberalismo no mundo, embora em graus variados. O que une a esquerda, por outro lado, é um interesse compartilhado em rejeitar a hegemonia unipolar liberal – embora suas visões para o futuro difiram.

As diferenças dentro da direita podem ser amplamente categorizadas em dois blocos: os linha-dura universalistas e os defensores da coexistência multipolar. A gestão Biden e as forças políticas mainstream da UE estão alinhadas com os linha-dura universalistas, como evidenciado por sua postura em relação à China. Nos últimos anos, os EUA, a aliança dos Cinco Olhos, a OTAN, a Austrália, o establishment da UE e certos Estados-membros da UE têm cada vez mais posicionado a China como um concorrente estratégico ou adversário. Em seus documentos oficiais, além de destacar conflitos de interesse com a China, consistentemente citam a ideologia como um dos principais critérios para designá-la como adversário.29 Ao convocar aliados a se unirem para conter a China – seja por interesses relacionados ao comércio ou militares – rotineiramente invocam valores compartilhados como um ponto chave de mobilização. Os defensores da coexistência multipolar são os moderados dentro da Direita. Embora acreditem em valores liberais e apoiem políticas e leis baseadas na ideologia liberal domesticamente, adotam uma abordagem mais moderada em relação à universalização do liberalismo. Opõem-se à imposição agressiva da ideologia liberal sobre outras nações por meios econômicos ou militares e, em vez disso, favorecem a coexistência pacífica com países e sociedades não liberais. O governo Sánchez da Espanha, o partido de esquerda da França liderado por Jean-Luc Mélenchon, a Nova Zelândia dentro do grupo dos Cinco Olhos e aliados dos EUA na Ásia-Pacífico como Coreia do Sul e Japão podem, em graus variados, ser classificados como defensores da coexistência multipolar. A administração de direita Milei da Argentina está ideologicamente alinhada com o liberalismo extremo – particularmente em sua incorporação de políticas econômicas neoliberais radicais. Embora a princípio bastante antagônica em relação à China, ele adotou uma postura relativamente mais moderada após assumir o cargo e provavelmente pode ser classificado como parte do campo da coexistência multipolar.

A ala esquerda do novo amplo espectro esquerda-direita também está fragmentada e basicamente pode ser categorizada em três grupos principais: forças políticas antiliberais emergindo dentro do Ocidente, grandes potências que passaram por suas próprias transformações e exploradores buscando novos caminhos de progresso. O primeiro grupo consiste no movimento MAGA dos EUA e vários governos e partidos não liberais e antiliberais na Europa. O segundo grupo compreende China e Rússia. O terceiro grupo inclui a maioria dos países em desenvolvimento no Sul Global. As diferenças entre estes três grupos situam-se nas distintas forças motrizes por trás de suas orientações não liberais ou antiliberais.

O primeiro grupo inclui as forças políticas antiliberais que continuam a surgir dentro dos EUA e em vários países europeus. Sua luta ideológica tem como alvo as suas próprias elites liberais dominantes, e acreditam que a ordem global liberal estabelecida por estas elites traiu os interesses de seu próprio povo e vendeu a soberania nacional para benefício de sua própria classe. Economicamente, em geral eles se opõem ao neoliberalismo, argumentando que o fundamentalismo de mercado esvaziou as indústrias nacionais, concentrou riqueza nas mãos de uma elite minúscula e corroeu estruturas sociais. Ao mesmo tempo, sentem que os valores liberais da elite evoluíram para o wokeísmo extremo e para políticas de imigração que promovem abertura a culturas estrangeiras, levando à erosão das culturas nacionais tradicionais.

No segundo grupo, China e Rússia tiveram experiências fundamentalmente diferentes sob a ordem liberal. A China alcançou desenvolvimento rápido no âmbito da globalização liderada pelo Ocidente enquanto preservava seu sistema político. A Rússia, por outro lado, adotou sistemas políticos ocidentais mas sofreu golpes severos e quase fatais à sua economia e segurança. A China procura aproveitar seu sucesso e continuar se desenvolvendo, mas enfrenta obstáculos duplos por parte dos EUA e do Ocidente. As forças políticas liberais veem a China como um adversário ideológico e estratégico, enquanto as forças políticas antiliberais veem a China como um rival, sobretudo devido a interesses econômicos. A guerra comercial de Trump foi impulsionada principalmente por esse último. A Rússia, tendo aprendido com sua experiência, separou-se ideologicamente do liberalismo, tornando-se o epicentro da ideologia antiliberal global e o alvo principal do establishment ocidental. Este conflito é irreconciliável e não deixa espaço para concessões. Contudo, as forças antiliberais ocidentais do primeiro grupo não têm disputas ideológicas fundamentais com a Rússia; em muitas áreas, até compartilham pontos em comum. Embora seus interesses não estejam totalmente alinhados com os da Rússia, também não são inteiramente opostos. Esta compreensão ideológica tácita e o espaço para concessões em relação aos interesses estão claramente refletidos nas posições atuais dos EUA e da Rússia sobre o conflito na Ucrânia. No entanto, ainda não se sabe se a relação entre eles avançará para um acordo ou a um conflito ainda maior.30

O terceiro grupo, composto de países em desenvolvimento no Sul Global, é ao mesmo tempo amplo e altamente diverso. A maioria destes países viu resultados de desenvolvimento decepcionantes com a adoção de sistemas políticos liberais após a Guerra Fria. Muitas nações no Sudeste Asiático, África e América Latina abrangem o espectro político tradicional esquerda-direita, contudo seu desenvolvimento tem sido constrangido pelo arcabouço político liberal. Como resultado, todos estão explorando novas ideias e modelos alternativos. Exemplos incluem o governo da Argentina, que emergiu da direita tradicional; o governo da África do Sul, enraizado na esquerda tradicional; e países asiáticos como Malásia, Indonésia, Tailândia e Índia, cada um com tradições culturais e religiosas únicas. Todos estão experimentando abordagens de governança não liberais dentro das estruturas de seus sistemas políticos liberais pós-Guerra Fria. Além disso, alguns países que rejeitaram completamente a ideologia liberal e sistemas políticos – como grandes Estados islâmicos como Arábia Saudita e Irã, assim como países tradicionalmente de esquerda como a Venezuela – também estão explorando e experimentando ativamente ideologias e instituições adequadas à sua sobrevivência e desenvolvimento na era pós-amplo espectro esquerda-direita.

Apesar de sua vasta diversidade interna, os países dentro deste grupo compartilham uma característica comum: uma recusa em aceitar uma ideologia e sistema político universais ou uma ordem global unipolar imposta sobre eles ou transplantada de fora. Esta rejeição da universalidade e da unipolaridade define um novo bloco iliberal dentro do Sul Global – que pode ser colocado à esquerda no novo espectro ideológico.

Multipolarismo e a reglobalização do século XXI

O mundo está passando por uma transformação profunda marcada pela fragmentação em todas as frentes. Observar o presente e prever o futuro é tão difícil quanto ver a constelação Ursa Maior a partir do sul. Proponho uma hipótese: o espectro ideológico global está em transição. A esquerda e a direita do novo espectro são divididas por suas visões divergentes do futuro da ordem mundial. A esquerda busca uma ordem mundial multipolar (multipolarismo), enquanto a direita visa preservar uma ordem mundial unipolar (unipolarismo). O núcleo ideológico do unipolarismo é o liberalismo, que engloba o conjunto completo de valores liberais juntamente com suas reivindicações de universalidade e singularidade. A esquerda, em contraste, é extremamente diversa, englobando todas as ideologias e valores além do liberalismo, assim como certas forças políticas que sustentam valores liberais, mas rejeitam sua universalização. A esquerda inclui tanto elementos antiliberais quanto não liberais; estes últimos apenas se opõem à natureza universal e monolítica do liberalismo. As ideologias da esquerda são muito variadas, enraizadas em diferentes tradições religiosas, culturais e políticas. Seus interesses também diferem bastante e às vezes até se chocam. No entanto, seu maior denominador comum é a oposição à unipolaridade liberal. Podemos tentar localizar todas as nações, partidos políticos ou outras formas de poder político neste novo espectro esquerda-direita.

Dentro deste quadro, a tensão entre multipolarismo e unipolarismo constituirá a contradição principal na primeira metade do século XXI. Histórica e praticamente, a China está destinada a ser uma força importante em favor do multipolarismo. Em termos práticos, as últimas décadas de globalização foram construídas sobre uma base ideológica de liberalismo. Entretanto, o atual modelo unipolar de globalização tornou-se insustentável. Curiosamente, é a administração MAGA liderada por Trump nos Estados Unidos que agora trabalha arduamente para desmantelar a ordem mundial unipolar, acreditando que a unipolaridade não serve aos interesses da população que representa. Embora o MAGA considere a China um rival, o mundo que vislumbra também é multipolar, muito parecido com a visão da China. O MAGA promove um mundo multipolar através da desglobalização, que, contudo, entra em conflito com os objetivos da China.

A China e a esmagadora maioria dos países no Sul Global devem continuar a se desenvolver, o que requer aprimoramento adicional da conectividade. Enquanto isso, a humanidade enfrenta desafios globais existenciais – incluindo mudança climática, proliferação nuclear, inteligência artificial e outros – que necessitam cooperação entre as nações. Sob a atual onda de desglobalização promovida pelos EUA e pelo Ocidente, a China e o Sul Global devem defender uma reglobalização fundamentada em uma narrativa ideológica multipolar, buscando tanto desenvolvimento sustentado quanto soluções para as crises existenciais da humanidade. Historicamente, a China foi a origem e a defensora de uma ordem mundial multipolar. Em março de 1990, Deng Xiaoping tornou-se o primeiro líder político no mundo a introduzir formalmente o conceito de “multipolaridade”.31 Em uma época em que a ordem global estava transitando da bipolaridade para a unipolaridade, a visão de Deng de um mundo multipolar foi notavelmente visionária. Desde então, a busca pela multipolaridade tornou-se uma pedra angular da teoria e estratégia política internacional da China.32 Em 1997, uma nova ordem global baseada na multipolaridade foi formalmente introduzida no cenário mundial por meio de uma declaração conjunta sino-russa.33

Trinta anos depois, a China propôs iniciativas globais importantes que concretizam e traçam estratégias sobre a visão de um mundo multipolar em três dimensões chave: desenvolvimento, segurança e civilização.34 Estas iniciativas articulam a visão da China de um multipolarismo inclusivo e pluralista, que está em forte contraste e oposição ao mundo unipolar liberal. Representam o único caminho viável para a humanidade sustentar o desenvolvimento e superar crises existenciais. A China também é a nação mais capaz hoje de liderar ativamente a construção de uma ordem multipolar. Sua experiência de engajamento bem-sucedido na globalização enquanto mantinha seu próprio sistema político e caminho oferece lições valiosas para muitas nações no Sul Global. Nos tempos modernos, a China combinou a ideologia comunista com a luta pela libertação nacional para alcançar a fundação do Estado moderno. Nos tempos contemporâneos, integrou ainda mais o marxismo e a economia de mercado com a cultura tradicional chinesa.35 Isto representa uma incorporação chave e exemplo dos fundamentos pluralistas necessários para a reglobalização. Para alcançar a visão de uma ordem mundial multipolar, o interesse estratégico da China reside em unir todas as forças que podem ser unidas ideologicamente. Contradições são inevitáveis entre Estados multipolares e forças políticas, e passarão por fases de tensão, conflito e concessões. Contudo, a contradição principal no mundo de hoje é entre multipolarismo e unipolarismo. Apenas a vitória do multipolarismo pode alcançar uma reglobalização do século XXI – alinhada com os interesses de longo prazo tanto da China, quanto do mundo – e pavimentar o caminho para construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade.

Notas

1 Richard Polenberg, The Era of Franklin D. Roosevelt [A era de Franklin D. Roosevelt]. London: Palgrave Macmillan, 2000.

2 Sanjay Seth, ‘Lenin’s Formulation of Marxism: The Colonial Question as a National Question’ [A formulação de Lenin sobre o marxismo: a questão colonial como questão nacional], History of Political Thought 13, n. 1 (Primavera de 1992): 99–128.

3 Jennifer Mittelstadt, historiadora da Universidade de Rutgers nos Estados Unidos, conduziu o projeto de pesquisa intitulado ‘Sovereignty and Subversion: The Global Agenda of the Grassroots Right’, que apresenta um estudo aprofundado dos movimentos ocidentais de direita por soberania. Seu artigo de opinião no The New York Times apresenta uma visão sistemática do movimento de direita por soberania nos EUA. Ver: ‘Why Does Trump Threaten America’s Allies? Hint: It Starts in 1919’ [Por que Trump ameaça os aliados dos EUA? Dica: começa em 1919], The New York Times, 2 de fevereiro de 2025.

4 Jake Altman, Socialism before Sanders: The 1930s Moment from Romance to Revisionism [Socialismo antes de Sanders: o memento de 1930 do romance ao revisionismo]. London: Palgrave Macmillan, 2019.

5 Esta noção de soberanismo difere da “facção da soberania” discutida anteriormente. Refere-se a uma doutrina de soberania nacional promovida pelos Estados Unidos após à Guerra Mundial Antifascista em oposição ao internacionalismo soviético. Um estrategista representativo deste pensamento foi Hans Morgenthau. Ver: Hans Morgenthau, ‘The Problem of Sovereignty Reconsidered’ [O problema da soberania revisitado], Columbia Law Review 48, n. 3 (Abril de 1948): 341–365.

6 David Harvey, A Brief History of Neoliberalism [Breve história do neoliberalismo]. Oxford: Oxford University Press, 2007.

7 Hal Brands, Making the Unipolar Moment: U.S. Foreign Policy and the Rise of the Post–Cold War Order [Criando o momento unipolar: a política externa dos EUA e a ascensão da ordem pós Guerra Fria]. Cornell University Press, 2016.

8 Em setembro de 1993, Anthony Lake, então Assistente do Presidente para Assuntos de Segurança Nacional, proferiu um discurso intitulado ‘From Containment to Enlargement’, que marcou uma mudança estratégica na política externa dos EUA da doutrina de contenção da era da Guerra Fria para uma estratégia mais proativa de ampliação. Esta nova abordagem enfatizava o apoio à democracia liberal e às economias de mercado e visava moldar uma ordem mundial alinhada com os valores e interesses dos EUA por meio do poder econômico e da cooperação multilateral. Ver: ‘Remarks of Anthony Lake: Assistant to the President for National Security Affairs: From Containment to Enlargement’ [Observações de Anthony Lake: assessor do presidente para assuntos de segurança nacioanl: da contenção à expansão], Johns Hopkins University, 26 de setembro de 1993.

9 Os seguintes trabalhos analisam as perturbações internas que a globalização causou dentro das sociedades ocidentais: Thomas Piketty, Capital in the Twenty-First Century [O capital no século XXI]. Harvard: Harvard University Press, 2014; Charles Murray, Coming Apart: The State of White America, 1960–2010 [Desmoronando: o Estado da América Branca, 1960-2010]. London: Forum Books, 2013; Robert D. Putnam, Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community [Jogando boliche sozinho: o colapso e o ressurgimento da comunidade americana]. New York: Simon and Schuster, 2000; J. D. Vance, Hillbilly Elegy: A Memoir of a Family and Culture in Crisis [Elegia caipira: uma memória de família e cultura em crise]. London: HarperCollins, 2016.

10 O historiador britânico Paul Kennedy propôs a teoria da “hiperextensão imperial”, argumentando que Estados hegemônicos na história frequentemente entraram em declínio devido a um desequilíbrio entre compromissos externos e recursos internos. Ele alertou que os Estados Unidos poderiam seguir uma trajetória similar. Esta perspectiva despertou intenso debate entre estrategistas e políticos nos Estados Unidos durante os anos finais da Guerra Fria. Ver: Paul Kennedy, The Rise and Fall of the Great Powers: Economic Change and Military Conflict from 1500 to 2000 [A ascensão e queda das grandes potências: mudança econômica e conflito militar de 1500 a 2000]. Vintage, 1988.

11 Flavio Romano, Clinton and Blair: The Political Economy of the Third Way [Clinton e Blair: a economia política da terceira via]. London: Routledge, 2005; Hubert Zimmermann, The End of the Age of Military Intervention: Liberal Interventionism and Global Order Since the End of the Cold War [O fim da era da intervenção militar: intervencionismo liberal e ordem global a partir do fim da Guerra Fria]. London: Routledge, 2023.

12 Justin Vaïsse, ‘Neoconservatism and American Foreign Policy’ [Neoconservadorismo e política externa estadunidense], Brookings Institution, 3 de agosto de 2010.

13 Eric Kaufmann, ‘Left-Modernist Extremism’ [Extremismo modernista de esquerda], IN: The Palgrave Handbook of Left-Wing Extremism, vol. 2, ed. Jens Rydgren (Springer Nature Switzerland, 2023), 295–311.

14 Samuel Freeman, ‘Illiberal Libertarians: Why Libertarianism Is Not a Liberal View’ [Libertários iliberais: por que o libertarianismo não é uma visão liberal], Philosophy & Public Affairs 30, no. 2, April 2001: 105–151.

15 Tyler Pager, ‘Trump Orders Gutting of 7 Agencies, Including Voice of America’s Parent’ [Trump ordena o desmantelamento de sete agências, incluindo a controladora da Voz da América], The New York Times, 15 March 2025.

16 J. D. Vance, ‘Remarks by the Vice President at the Munich Security Conference’ [Observações do vice-presidente na conferência de Segurança de Munique], Office of the Vice President of the United States, 14 de fevereiro de 2025.

17 Desde a crise financeira global de 2008, a Europa tem assistido a um aumento de obras políticas e intelectuais que refletem sobre o liberalismo, expressando preocupação com o multiculturalismo, a globalização e a erosão da identidade nacional. Por exemplo, o comentarista francês de direita Éric Zemmour criticou duramente o liberalismo e a política de imigração em La France n’a pas dit son dernier mot (2021). O ex-membro do conselho do Bundesbank alemão, Thilo Sarrazin, argumentou em Deutschland schafft sich ab (2010) que a imigração muçulmana em grande escala prejudicaria a cultura, a educação e a coesão social da Alemanha.

18 Em 26 de julho de 2014, na 25ª edição da Universidade Livre de Verão e Acampamento Estudantil de Bálványos, Viktor Orbán introduziu o conceito de “iliberalismo”, afirmando que a Hungria estava construindo um Estado iliberal. Ele citou países como Cingapura e China como modelos de sucesso que alcançaram desenvolvimento econômico sem serem Estados liberais.

19 Após os ataques de 11 de setembro, Vladimir Putin declarou rapidamente, em um discurso televisionado, seu apoio à coalizão antiterrorista liderada pelos EUA. Ele expressou a disposição da Rússia em ajudar a Aliança do Norte, permitir o acesso militar dos EUA à Ásia Central e sinalizou interesse em garantir concessões americanas em matéria de comércio e segurança em troca de cooperação no combate ao terrorismo. Estas incluíam o levantamento das restrições comerciais da era da Guerra Fria, a reestruturação da dívida, a adesão à Organização Mundial do Comércio e, mais importante ainda, o adiamento ou cancelamento da expansão da OTAN para leste. Putin chegou mesmo a deixar em aberto a possibilidade de a Rússia vir a aderir à OTAN. Ver: Peter Baker e Susan Glasser, Kremlin Rising: Vladimir Putin’s Russia and the End of Revolution [A ascensão do Kremlim: a Rússia de Vladimir Putin e o fim da revolução]. Scribner, 2005, p. 83–84.

20 Em 1990, o então Secretário de Estado dos EUA, Baker, garantiu informalmente a Mikhail Gorbachev que a OTAN não se expandiria “nem um centímetro para o leste”. Nas décadas seguintes, porém, a OTAN expandiu-se de forma constante e iniciou “diálogos intensivos” com a Ucrânia e a Geórgia, aproximando as fronteiras militares da Rússia. Para muitas elites russas, isso foi uma violação fundamental do consenso de segurança europeu do pós-guerra. A pressão estratégica resultante intensificou a sensação de insegurança da Rússia. Ver: Timothy J. Colton, Russia: What Everyone Needs to Know [O que todo mundo precisa saber]. Oxford: Oxford University Press, 2016, p. 121–125.

21 Por exemplo, Alexander Dugin, uma figura proeminente do “neo-eurasianismo”, argumentou que a civilização russa é distinta tanto do Oriente quanto do Ocidente e deve ser fundamentada nos valores do Estado, da nação e da religião para resistir à invasão cultural e política ocidental. Yevgeny Primakov promoveu a ideia de um “mundo multipolar”, enfatizando que a Rússia deveria agir como uma grande potência independente nas relações internacionais, em vez de seguir uma ordem unipolar liderada pelos Estados Unidos. Ver: Alexander Dugin, The Fourth Political Theory [A quarta teoria política], vol. 1, Arktos, 2012; Yevgeny Primakov, Russian Crossroads: Toward the New Millennium. Yale: Yale University Press, 2008.

22 David M. Kotz and Fred Weir, Russia’s Path from Gorbachev to Putin: The Demise of the Soviet System and the New Russia [O caminho da Rússia de Gorbachev a Putin: a morte do sistema soviético e a nova Rússia] [《从戈尔巴乔夫到普京的俄罗斯道路:苏联体制的终结和新俄罗斯》], trans. Li Xiuhui [李秀慧译], (China Renmin University Press [中国人民大学出版社], 2015).

23 Em seu discurso de 2013 no Clube de Discussão Valdai, Putin criticou explicitamente os países europeus por “rejeitarem suas raízes, incluindo valores cristãos” e enfatizou que a Rússia deve defender valores que se desenvolveram ao longo de milênios. No mesmo ano, a Rússia aprovou uma lei anti-LGBTQ, que proibiu “promover relações sexuais não tradicionais” a menores. Em 2023, a Rússia implementou uma proibição total à mudança legal de gênero para pessoas transgênero e impôs restrições a intervenções médicas relacionadas.

24 Por exemplo, a Representante Marjorie Taylor Greene do campo MAGA publicamente elogiou a Rússia como “uma defensora ferrenha do cristianismo”. O ex-Conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn também repetidamente elogiou Putin em discursos públicos por “defender Deus e a família”. Em 2024, a proeminente personalidade da mídia dos EUA Tucker Carlson viajou a Moscou para entrevistar Putin pessoalmente, amplificando ainda mais o papel simbólico da Rússia como um “aliado da cultura anti-woke”. Ver: ‘Marjorie Taylor Greene Applauds Russia for “Protecting Christianity”‘ [Marjorie Taylor Greene aplaude a Rússia por “proteger o cristianismo], Newsweek, 8 de abril de 2024; ‘Mike Flynn Lauds President Putin’s Words on “Family & God as Strong Values West is Destroying”‘, Sputnik, 23 de fevereiro de 2023; ‘Interview to Tucker Carlson – President of Russia’ [Entrevista a Tucker Carlson – presidente da Rússia], Kremlin.ru, 8 de fevereiro de 2024.

25 Zsuzsanna Szelényi, Tainted Democracy: Viktor Orbán and the Subversion of Hungary [Democracia manchada: Viktor Orbán e a subversão da Hungria]. Hurst Publishers, 2022.

26 Sergei Glazyev, então conselheiro econômico do presidente russo, argumentou que o sucesso da China – caracterizado pelo desenvolvimento liderado pelo Estado, política industrial de longo prazo e uma estratégia global centrada na Iniciativa do Cinturão e Rota – oferecia um modelo institucional viável para a Rússia. Em um discurso no Fórum Econômico de Moscou, ele enfatizou que a experiência da China em canalizar crédito para a economia real e conter bolhas financeiras vale a pena emular enquanto a Rússia persegue sua própria modernização. Ver: Sergei Glazyev, Leaping into the Future: China and Russia in the New World Tech-Economic Paradigm [Caminhando para o futuro: China e Rússia no paradigma tecnológico-econômico no novo mundo] (Royal Collins Publishing Company, 2023); ‘МЭФ-2023: № 2. «Китай. Опыт модернизации для России»’, Moscow Economic Forum, 2023.

27 Eric Li, Party Life: Chinese Governance and the World Beyond Liberalism [Vida do partido: governança chinesa e o mundo além do liberalismo]. Springer Nature, 2023, 18–21.

28 Li, Party Life: Chinese Governance and the World Beyond Liberalism, 37–45.

29 Por exemplo, a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (2022) declarou que a China é “o único concorrente com tanto a intenção de remodelar a ordem internacional quanto, cada vez mais, o poder econômico, diplomático, militar e tecnológico para avançar este objetivo”. Em 2019, a Comissão Europeia publicou EU–China: A Strategic Outlook [EUA-China: uma perspectiva estratégica], que pela primeira vez rotulou a China como um rival sistêmico e concorrente tentando promover modelos alternativos de governança.

30 De uma perspectiva ideológica, a administração Trump deixou sua narrativa mais alinhada à Rússia e, em busca de interesses estratégicos, estava disposta a sacrificar a Ucrânia em troca de uma distensão com Moscou. No entanto, as forças liberais dominantes nos Estados Unidos e na União Europeia se opuseram fortemente a essa posição.

31 Deng Xiaoping, Selected Works of Deng Xiaoping [Obras escolhidas de Deng Xiaoping], vol. 3 [《邓小平文选》第三卷] (People’s Publishing House [人民出版社], 1993), 353.

32 Yu Sui, ‘We Must Uphold the Central Committee’s Theory of World Multipolarisation’ [Devemos defender a teoria do Comitê Central da multipolarização mundial] [‘必须维护党中央的世界多极化理论’], China Strategic Review [《中国战略观察》], no. 3–4 (2022).

33 Joint Statement of the People’s Republic of China and the Russian Federation on World Multipolarisation and the Establishment of a New International Order [Declaração conjunta da República Popular da China e da Federação Russa sobre multipolarização do mundo e o estabelecimento de uma Nova Ordem Internacional]《中华人民共和国和俄罗斯联邦关于世界多极化和建立国际新秩序的联合声明》], 23 April 1997.

34 Na Iniciativa de Desenvolvimento Global, a China enfatiza princípios como “desenvolvimento em primeiro lugar” e “tecnologia para todos”, com o objetivo de reestruturar o modelo global centro-periferia e reduzir a dependência dos países em desenvolvimento de um único sistema financeiro e tecnológico. A Iniciativa de Segurança Global promove conceitos como “segurança comum”, “segurança indivisível” e “liderança regional”, com o objetivo de promover uma governança global multicêntrica e coordenada. Enquanto isso, a Iniciativa de Civilização Global defende a diversidade e a igualdade civilizacionais, critica a exportação de valores, a hegemonia cultural e a demarcação ideológica; e busca quebrar o monopólio do paradigma liberal sobre o discurso global. Juntas, as três iniciativas constituem uma visão trinitária da governança global com características chinesas, refletindo uma visão de ordem internacional centrada na descentralização, multipolaridade e desideologização.

35 Em seu discurso marcando o centenário da fundação do PCCh, o presidente Xi Jinping fez uma importante proposição teórica: integrar os princípios básicos do marxismo com as realidades concretas da China e com a refinada cultura tradicional chinesa – uma formulação conhecida como as Duas Integrações.